| 15.2.08 |
| Diários Literarios - Ruivas, Mouras e Serpentes. |
![]() 14 de Fevereiro de 2008. Sempre que me sinto seco, sempre que minha mente, esgotada pelo mundo e por suas demandas, fraqueja diante do silêncio de uma folha em branco, eu me dirijo a uma estante. Nelas eu encontros livros, discos ou alguma cópia de um velho filme mudo que possa restaurar minha criatividade. Com os livros a metodologia é a seguinte: (a) passo os dedos a esmo pelas estantes até que alguma cor, alguma textura, ou algum nome me chame atenção; (b) abro aleatoriamente o livro e leio alguma passagem. Hoje, curiosamente me caiu em mãos um dos livros que eu comprei sem saber porquê. Uma edição de Alberto Alvarez Penha, sobre mitologia galega, comprado em 2006 numa banca de revistas em Santiago de Compostela. Quando abri o livro um figura imediatamente me chamou atenção. Uma mulher, ruiva, nua da cintura para cima, carregando algo que parecia um bule. O desenho até que não é lá essas coisas, mas o curioso é o fato de que, ao invés de pernas, aquela mulher tem um longo e sinuoso rabo de serpente.Embaixo se lê: "Algunas 'Mouras' que están encantadas tienen la facultad de transformarse em serpes". Eu não sabia, mas na Galícia "Moura" é a designação de uma mulher ruiva, geralmente uma bruxa celta, que ainda cultua o antigo druidismo pagão. Nada a ver com o significado tradicional da palavra. Para os portugueses, mouro é justamente o descente de misturas étnicas envolvendo os berberes mulçumanos do norte da áfrica e os cristãos galegos do norte de Portugal. A imagem me fez pensar que o medo que os homens têm das mulheres não é uma exclusividade brasileira. Há conjunto de imagens recorrentes na iconografia cultural da humanidade que mostram mulheres fatais, encantadas, vampiras, demônios femininos, serpentes, bruxas e bacantes. Essas imagens parece que compõe o imaginário coletivo de diversos povos e retratam um lado obscuro da feminilidade, oposto a imagem santificada das virgens mãe de deuses diversos como a genitora de Mitra, Réia Silvia, mãe de Rômulo e Remo (que teria gerado os dois depois de uma interferência providencial do deus Marte no santuários das Vestais) e, lógico, Maria, filha de Santana. Na minha curta experiência de 34 anos de convivência com as mulheres (duas avós, uma mãe, uma madrasta, três irmãs, uma sogra, algumas ex-namoradas, uma esposa e duas filhas) já tive oportunidade de visualizar várias facetas do tipo feminino em constante metamorfose, bem diante de mim. O assustador é que, dependendo das circunstancias as mulheres transitam, sem cerimônia, de um mundo de serenidade para um turbilhão de desejos desconexos transfigurados em linguagem. Olhe, vou contar um segredo de gênero, os homens morrem de medo dessa estranha metamorfose. Não um macho velho que eu conheça que se acostume com a transmutação feminina. De santas para súcubos ferozes, de princesas frágeis para vampiras amargas e impiedosas. As variações da imagem da mulher sempre povoaram sonhos, fantasias e desejos dos homens. O brasileiro é, em si, um acossado por essas fantasias. A obsessão do macho brasileiro pela bunda feminina, travestida na famosa frase neo-canalha atribuída ao Arnaldo Jabor ("Uma mulher sem bunda é como um jardim sem flôr") retrata um distúrbio sintomático. Dizem os schollars acadêmicos que o amor começou quando os humanos, assim como os golfinhos, se não me engano, começaram a copular de frente (a velha posição papai-mamãe). Dizem que isso teria feito com que homens e mulheres teriam aprendido a copular olhando nos olhos, o que teria facilitado um reconhecimento do parceiro, e a construçãorceiro, e a construç parceiro.e homens e mulheres teriam aprendido a copular olhando nos olhos, o que teria facilitado um reconhecimento da fisionomia do outro e teria aberto caminho para uma intimidade afetiva desconhecida entre outros espécies. Sintomático que o macho brasileiro tenha uma fixação pela bunda feminina, essa parece ser uma boa forma de não encarar a mulher de frente e ter que visualizar o abismo sem fim dos olhos de uma mulher. Um amigo alemão me chamou atenção para o fato de que as mulheres brasileiras são incomensuravelmente mais interessantes do que os homens. Eu concordo: "Deus é brasileira". Talvez ai a razão desse estranho receio que nos invade quando nos deparamos com as imagens de santidade e loucura que povoam o imaginário masculino quando o assunto é mulher. Isso me faz lembrar uns versos do poeta sufi Rumi: "Sou tão pequeno que mal posso ser visto/ como é possivel um amor tão grande dentro de mim?/ veja seus olhos/ São pequenos/ mas vêem coisas enormes". |
| por pablocapistrano [18:14] |