26.3.08
Final de semana em Amsterdã






Domingo passado a TV noticiou que a Holanda havia aprovado uma lei, que entrará em vigor a partir do mês de Julho, permitindo que as pessoas possam fazer sexo ao ar livre. Importante frisar que a lei permite que "as pessoas" façam sexo ao ar livre, porque as outras criaturas sexuadas da natureza já o fazem sem problema a milhares de anos. O requisito da lei é que o sexo seja à noite, sem barulho que possa incomodar os visinhos e que os restos de camisinhas, cuecas e calcinhas sujas não sejam deixados na grama para poluir o ambiente.

Curiosamente a divulgação da lei por essas praias tropicais ampliou a imagem que o brasileiro tem da Holanda como um ambiente de perdição e sacanagem. O fato é que essa é uma lei curiosa.

Imagine você, meu amigo, minha amiga, resolvendo fazer sexo à noite, no mês de Janeiro, em um parque holandês. Em uma temperatura de quinze à baixo de zero, você terá que usar (se for homem) alguns apetrechos especiais. Uma pinça, para encontrar o próprio pênis encolhido e congelado em meio a seus pelos pubianos, uma bomba de sucção para tentar estimular a irrigação sanguínea, elemento fundamental para qualquer boa ereção, e mais algum tipo de cobertor térmico para parar a tremedeira.
Fazer sexo em um parque europeu no inverno, outono ou primavera deve ser mesmo uma experiência radical. Um tipo de imolação física só comparável aos sacrifícios corporais auto impostos pelos monges medievais na sua busca frenética pela ascese mística. Essa, com certeza, será uma típica lei de estação.

Na semana que faz sol na Holanda, lá por volta do mês de Julho, a turma correrá para os parques no meio da noite, lá pelas dez, quando o sol começa a se pôr no verão do velho continente e poderão experimentar aquilo que os brasileiros já fazem a muito tempo: sexo ao ar livre.

Bem, antes dos motéis virarem moda por essas bandas, carros, moitas, pés de oiticica, lagoas paradisíacas em meio a dunas perdidas em praias desertas e até mesmo uma ou outra praia urbana embalada pela maré alta, sempre foram espaços chamativos para o sexo.

O fato é que existem muitas distinções culturais entre brasileiros e europeus. Penso inclusive algum dia, organizar uma expedição antropológica à Amsterdã para observar o comportamento dos nativos europeus in loco e tentar compreender mais sobre sua peculiar cultura e sua estranha civilização, com hábitos tão exóticos, e uma forma de pensamento particular. Sim, a vida nos trópicos é muito diferente. Aqui temos todos os requisitos para fazer aquilo que os Holandeses sempre sonharam: amar durante o ano todo ao ar livre. Mas somos extremamente conservadores quando a questão é sexo (especialmente no nordeste eu acho...).

Com essa influência cristã nova de judeus-árabes e de mouros mestiços portugueses não estamos acostumados a essas novidades germânicas. Maconha, aborto, eutanásia, sexo no parque, tudo isso nos choca, nos faz imaginar que tipo de sociedade maluca poderia ter gerado tantas aberrações. Melhor é viver no Brasil, lugar aonde os problemas são apenas a corrupção sem bandeiras partidarias, a violência urbana desenfreada, a concentração de renda imoral, o caos no sistema de saúde, a falência do transporte público e os engarrafamentos recordes nas grandes cidades.

Afinal de contas quem precisa de uma lei que libere o sexo ao ar livre no Brasil? Já estamos todos... coitados. Ou você nunca percebeu o sentido etmologico dessa palavra?

por pablocapistrano [17:40]
13.3.08
O Paradox EUA





Agora danei-me a escrever sobre política.


06 de Março de 2008.


No dia 08 de Junho de 1976, o então secretário de estado norte americano, Henry Kissinger, chegou na cidade de Santiago, Capital do Chile. Lá ele se encontrou com o general Augusto Pinochet e garantiu que os EUA não iriam interferir nos assuntos domésticos do país andino. A declaração de Kissinger repercutiu de forma ambígua, ele disse: "Nos Estados Unidos, como você sabe, temos simpatia pelo que o senhor está fazendo aqui. Desejamos o melhor para o seu governo".

O que Pinochet estava fazendo no Chile, que tanto agradava ao governo norte americano? O Chile de Pinochet foi palco de uma experiência de desregulamentação da economia que havia sido preparada pelos chamados "Chicago Boys", estudantes da pós-graduação em economia da Universidade de Chicago, que resolveram testar os pressupostos teóricos do senhor Milton Friedman.

Posteriormente essa doutrina econômica foi em parte implantada na Inglaterra de Margaret Tatcher e na Argentina de Carlos Menen, ajudando a manter a estabilidade financeira e enchendo os bolsos de alguns banqueiros e arrasando algumas nações latino americanas (como a própria Argentina e o Brasil em 1998).

Mas não era só isso o que Pinochet estava fazendo no Chile. O seu regime se baseava na defesa de alguns pilares básicos: (1) Defender o capitalismo; (2) proteger a herança da civilização ibero-católica; (3) fornecer apoio para que na América Latina, o exemplo cubano não pusesse em risco o domino geopolítico norte americano, fornecendo de modo danoso, novas pontas de lança para a URSS em uma eventual guerra; (4) manter a ordem interna através de uma doutrina de segurança nacional.

Para implantar esses pilares Pinochet exterminou fisicamente quase toda a antiga classe política chilena (não importando se ela fosse de direita ou de esquerda). Em Outubro de 1973 ele incumbiu o coronel Arellando Stark de preparar aquilo que se chamou de Caravana da Morte; uma procissão sinistra que atravessou o país fuzilando sumariamente lideres políticos de diversos partidos. Pinochet criou a DINA, uma policia secreta que transformaram escolas, quartéis, hospitais em centros de detenção e tortura. Havia aproximadamente 1132 lugares desse tipo.

No Estádio Nacional, local da final da copa do mundo de 1962 um contingente de 7000 presos foram submetidos aos mais diversos tipos de torturas, humilhações e fuzilamentos sumários, cerca de 3399 mulheres (segundo o Informe da Comissão Nacional sobre a Prisão Política e Tortura do Chile) foram vitimas de abuso sexual. Durante o governo de Pinochet aproximadamente 35 868 foram objeto das ações da DINA. Dessas 94% afirmaram terem sido torturadas, 2095 pessoas foram reconhecidamente mortas pelo governo e 1102 ainda estão desaparecidas.

Por isso as palavras de Henry Kissinger são embaraçosas para aqueles que defendem a velha idéia de que os EUA são o grande paladino da defesa da democracia no ocidente. Muitas vezes se compara os EUA com a velha Roma, mas essa não é uma boa comparação. Os EUA não são um império no modelo do antigo regime romano. O modelo norte americano se assemelha bem mais ao da cidade de Atenas, na antiga Grécia.

Os atenienses, como os norte-americanos, conseguiram, dentro dos contextos de cada época, produzir um regime democrático no interior do seu território. A Polis de Péricles e os EUA de Kennedy produziram cada um de seu modo, experiências políticas importantes no que diz respeito ao desenvolvimento de um modelo calcado em certas liberdades básicas e em uma pluralização do poder que poderia servir de exemplo a qualquer país descente. Mas os EUA, assim com Antenas, falham quando o objetivo é expandir esse modelo. Os Atenienses produziram uma democracia interna e um regime imperial e tirânico para as cidades que estavam ao seu redor.

Os EUA, sob o pretexto de defender a democracia, apoiaram no final do século XX, um cinturão de regimes totalitários e de ditaduras sanguinárias em toda a América Latina. Esse é o grande paradoxo político dos EUA, para manter as liberdades democráticas que eles conseguiram estabelecer para seu público interno, financiam e suportam ditaduras, regimes de exceção e estados fundamentalistas mundo afora. Esse paradoxo, a direita brasileira, possuída pelo encosto do finado Carlos Lacerda (que deus o tenha em sua infinita luz) faz questão de esquecer.

por pablocapistrano [10:40]
1.3.08
Fidel, Flamengo e Vasco.




Semana que passou escrevi um artigo meio sem gosto sobre Fidel Castro, porque, afinal, tinha que falar alguma coisa sobre um tema do momento, e como ninguém parava de falar sobre Fidel e sobre Cuba então lá se foram meus dedos no teclado para encontrar as palavras e as frases e emitir algum juízo sobre o tema. Confesso que achei o texto meio devagar, por isso nem li uma segunda vez, depois de publicado (geralmente faço isso quando penso que escrevi algo ruim).

Não é que eu me surpreendo quando vejo que o Gustavo Bezerra no seu Blog http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/ resolveu tecer longos comentários analisando parte a parte meu artigo e entrando em todas as minúcias possíveis sobre meus entendimentos ou meus desentendimentos acerca do tema "Fidel Castro".

Bem, o fato é que isso me animou a escrever mais sobre o assunto, porque afinal, é bom encontrar alguém que tenha a capacidade de discordar de você sem te xingar nem exalar baixarias a torto e a direito (coisa que de vez em quando acontece por essas praias nordestinas, quando a turma costumeiramente confunde uma opinião divergente com um problema pessoal).

Gustavo estranhou que eu buscasse uma atitude "equilibrada" em relação a Fidel. Segundo o que deixou explicito no Blog, isso significa que a única atitude possível em relação a figura de Fidel é a do desequilíbrio?

Não sei, acho que os desequilíbrios tanto para a direita quanto para a esquerda, são particularmente os mesmos. Na verdade eu confesso, raramente eu consigo ter uma atitude desequilibrada em relação a alguma coisa (apesar de as vezes, por um descuido ou outro da linguagem, meus textos deixarem isso transparecer).

Meu maior desequilíbrio está em dia de jogo do Flamengo contra o Vasco, como na semi final da Taça Guanabara. Ai sim, eu não consigo pensar, eu não consigo ponderar, eu não consigo emitir nenhum juízo racional e nenhuma posição equilibrada sobre o que eu estou vendo.

Minha impressão, no que diz respeito a Fidel, é que exigem que você participe de uma das torcidas organizadas (os pró ou os contra) como se toda a discussão política da contemporaneidade fosse em se posicionar a favor do capitalismo liberal de mercado ou a favor do comunismo radical de estado. Parece que há uma síndrome da guerra fria, certo espectro de 1964 pairando pelo ar. Quando vejo gente discutindo com tanto fervor sobre comunismo, capitalismo, esquerda, direita, URSS e EUA, chego a pensar:

Será o Benidito, ou o "Reis do Yê Yê Yê" vai voltar ao cartaz no moviecom?.

Para mim uma discussão polarizada e radical desse tipo, que separa os absolutamente destros com os absolutamente canhotos é redutora, anacrônica, típica do século XX. Esconde o fato de que o mundo não se divide mais em duas opções políticas dicotomizadas como na época da guerra fria e que a complexidade das relações internacionais exigem análises mais sutis e equilibradas porque as coisas não são mais simples como na série Guerra nas Estrelas.

Hoje é difícil saber aonde está o lado negro da força e quando a gente não encontra com exatidão o lado negro, também não tem muita certeza aonde é que fica o lado branco.

Há uma lógica clássica no discurso de "sim" e "não" sobre Fidel. Um resquício de um modelo de pensamento redutor, dicotomizado, longe, muito longe das complexidades do pensamento e dos fenômenos humanos. Esse tipo de postura traz algumas armadilhas: primeiro enxergar só duas possibilidades contraditórias (URSS ? EUA / Stalin ? Kennedy) exclui das possibilidades do pensamento qualquer outro modelo que não se alinhe diretamente com as duas correntes iluministas que nascem do século XVIII (liberalismo ? socialismo).

È como se só isso existisse e se as experiências chinesas (mercado capitalista de Estado e política comunista) ou suecas (proteção social e política liberal) não fossem possíveis. Segundo: satanizar Fidel é uma forma tão eficaz de manter vivo o mito da revolução cubana, quando exaltá-lo.

Achar que Cuba é um inferno na terra é tão mitológico quando pensar que lá é o paraíso perdido. Neste sentido a única forma de desconstruir o mito de Fidel é se afastando da visão exaltada do militante político, do romantismo do poeta, da obrigatoriedade profissional do jornalista e tentar flertar um pouco mais com essa frieza sem sal do filósofo.

Porque a razão quando aparece de vez em quando nos prega peças, mas quando ela some, com certeza só cria monstros.

por pablocapistrano [02:17]
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