18.4.08
Nosso Circo




As imagens de Gustav Klimt sempre me fizeram ter sonhos agradaveis, mesmo que, algumas vezes, eles parecessem terriveis a princípio.
Como caí na tentação de voltar a assistir telejornais, ando precisando de uma dose extra de Klimt para dormir.

mas vamos ao tema da semana....






Ocorre um crime brutal em um bairro de São Paulo. Imediatamente a polícia isola o local e começa o recolhimento das pistas. No rastro da polícia aparece a impressa e a notícia surge meio que capenga, isolada, perdia no vai e vem de um telejornal.

Logo, logo, uma autoridade constituída, responsável pelo inquérito, começa a vazar aqui e acolá para um repórter amigo, uma ou outra informação sobre as investigações. Subitamente o espaço no noticiário aumenta e iniciam-se as especulações sobre o crime. À medida que as primeiras hipóteses vão surgindo, novas teses são levantadas, contradições, dados novos, outras hipóteses, mais discussão. Rapidamente na fila de banco, na padaria, no cinema, no elevador, as pessoas começam a especular sobre o assunto.

Nesse momento o telejornal começa a ceder mais e mais do seu tempo para os arredores do crime, as autoridades do inquérito agora dão entrevista coletiva. Especialistas são chamados, e, nos programas de fofoca da tarde, os cronistas do vazio se ocupam e em repetir neuroticamente a mesma coisa por duas ou três horas seguidas, sob o pano de fundo de uma seqüência tocante de fotos da vítima com seus familiares.

Repentinamente a opinião pública entra em comoção. Pessoas com problemas emocionais e psiquiátricos se dirigem ao local do crime para chorar. Gente solitária reza em memória da vítima, criam-se vigílias, redes de discussão, associações e, de súbito, enquanto centenas de jornalistas se acotovelam para conseguir mais uma imagem dos suspeitos saindo da delegacia, entrando em casa, ou voltando para a mesma delegacia de onde saíram, um tema emerge.

Surge um problema, uma questão, um assunto de importância fundamental para a sociedade brasileira. Os partidos se movimentam, professores universitários são chamados para dar opinião nos programas de TV, nas escolas, as aulas são marcadas por debates calorosos sobre o tema, com grupos de cinco ou seis alunos tomando posições. Por fim, propõe-se um projeto de lei para alterar alguma coisa, e uma delegação de ilustres deputados é nomeada para falar com o presidente.

Um mês depois, tudo volta a mais tediosa e absoluta normalidade. Os acusados continuam sua via crucis processual, a vítima continua morta, enterrada em alguma caixa de concreto; a família da vítima continua em sua solidão a sofrer, em meio ao vazio sem fim daquela ausência; a imprensa vai procurar outro assunto; os delegados, advogados e promotores, perdem seus cinco minutos de fama e voltam à rotina obscura de suas profissões, as associações se desfazem, os professores são confinados novamente no seu porão acadêmico, os partidos políticos voltam a se preocupar com o mais importante (a próxima eleição) e o projeto de lei, criado para resolver qualquer coisa, encalha em alguma comissão do congresso.

Foi assim com Tim Lopes, foi assim com João Hélio, foi assim com Liana Friedenbach, está sendo assim com Isabela Nardoni, e será assim com a próxima vítima. Esse é o circo de nossas ansiedades. O show de nossa vida, tão carente de sentido e emoção. Saber o porquê de tantas pessoas, são possuídas de súbito, em um estado histérico, por um único, irredutível, e instantâneo tema, é um belo enigma humano.

Como diz a história: certo dia dois homens caminhavam apressadamente, por longas horas, até que um perguntou ao outro. _ Fulano, afinal de contas, para onde estamos indo? _ o outro sorriu e respondeu _ Não tenho a mínima idéia, mas sei que a gente está quase chegando.

por pablocapistrano [23:19]
10.4.08
Persepólis






28 de Março de 2008.


A primeira guerra que eu acompanhei ao vivo foi a do Iraque contra o Irã na década de oitenta. Lembro vagamente (eu tinha sete anos naquela época) de um tanque de guerra na TV, subindo um morro de areia com alguns soldados vestindo uniforme marrom.

Não pense que eu sou alguma espécie de doente mental (como uma criança de sete anos pode prestar atenção em um noticiário de guerra?), mas é que naquela época não havia Discovery Kids nem Cartoon Network, então era inevitável, para um garoto viciado em TV como eu, assistir, além da "Sessão da Tarde" e do "Vale a Pena Ver de Novo" (em1980 só havia a Globo e a TVU na minha cidade) o Jornal Hoje.

Minha compulsão por mapas também acabou me levando a imaginar, em um velho Atlas branco que minha mãe havia ganhado junto com a Enciclopédia Barsa, as montanhas do Irã e os confrontos envolvendo os exércitos do regime do Khomeini e do (então "guerreiro da liberdade" e defensor dos direitos humanos da era Reagan) Sadam Hussein, pelos desertos orientais.

Mas tudo aquilo era apenas uma estranha abstração, como se eu estivesse observando um filme fantástico que falasse sobre um confronto intangível em um mundo alienígena.
Era difícil de imaginar que por trás daquela guerra, daquela estranha e ainda incompreensível revolução, daquele exótico nome ("Irã") e daquela bandeira esquisita (Verde, vermelha e branca ? cores odiosas para um rubro negro como eu, diga-se de passagem), haviam seres humanos.

28 anos depois, chega na minhas mãos a HQ Persepólis da Marjanne Satrapi que é bisneta do antigo imperador da Pérsia, deposto com apoio dos governos ocidentais pelo pai do antigo Xá Reza Parlevi (que por sua vez foi deposto pela revolução de 1979).

Marjanne era uma das garotas que viviam do outro lado da tela da TV, naquele mundo distante e abstrato para onde aquela guerra me levava depois que eu chegava da escola.

Sou particularmente fascinado por essa simultaneidade. Quando li a série Persepólis (Nela Marjanne conta sua própria história sobre o pano de fundo da revolução e da guerra que assolou o Irã na década de oitenta) parei varias vezes para pensar: "o que eu estaria fazendo no dia em que o tio daquela garota iraniana, Anuch, foi preso e executado pelo regime fundamentalista? Ou quando os aviões iraquianos começaram a fazer manobras nos céus de Teerã para iniciar a seqüência de bombardeios? Ou quando ela teve que se exilar na Áustria com quatorze anos por causa da pressão do regime e ferocidade da guerra?".

Persepólis tem esse grande mérito, é uma obra que consegue pôr o pessoal ao lado do coletivo e estabelecer um tecido de individualidade em um movimento social e político que geralmente é retratado bem de longe. Através da frieza jornalística das câmeras de TV.

Ao contar a própria história Marjanne nos apresenta, em formato de quadrinhos, um painel muito interessante para se compreender o que ocorreu no Irã. Ela humaniza os rostos sem forma dos mortos na guerra, torna vivo o pensamento e os sentimentos das mulheres com a cabeça coberta sobre o Chador e nos convida a entender o que acontece no oriente mulçumano a partir de uma visão que abandona todos os estereótipos ideológicos que a CNN e os fundamentalismos cristãos de Bush Júnior, tentam empurrar consciência à dentro do ocidente.

Eu costumo a pensar que o mundo é grande e que a minha vida é só um minúsculo fragmento de quartzo perdido no meio de uma duna imensa. Tem vezes que isso me assusta, outras vezes me conforta. Mas é a arte, como a dos quadrinhos de Marjanne, que de vez em quando me liberta para a estranha impressão de que os sentimentos que nos vinculam podem ser mais fortes do que a distância cultural que nos separa.

por pablocapistrano [11:34]
3.4.08
Sacanagem.




Nem Depois de Morto deixam o pobre descansar!!!


Túmulo de Nietzsche ameaçado por projeto de mineração na ex-Alemanha Oriental

ROECKEN, Alemanha, 2 Abr 2008 (AFP) - O túmulo do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) é há 108 anos o orgulho dos habitantes de Roecken, mas agora se encontra ameaçado por um projeto de mineração que pode tirar do mapa esta localidade nos confins da Saxônia, na antiga República Democrática da Alemanha (RDA, Alemanha Oriental).

O autor de "Assim falou Zaratustra" descansa perto de seus entes queridos sob uma lápide de granito e mármore rosa, aos pés de uma igreja da Idade Média.

Só que a região agora é objeto de um grande projeto de minas a céu aberto destinado a alimentar as centrais na Alemanha, um país que deu as costas à energia nuclear.

Os resultados do estudo que se realiza atualmente sobre o subsolo determinarão a viabilidade das intenções da mineradora Mibrag e, portanto, o futuro dos habitantes da localidade.

Entretanto, Roecken se apóia em seu filho predileto. "Nietzsche é nosso único trunfo", afirma Dorothee Berthold, diretora da associação criada para tentar vencer a Mibrag, uma empresa controlada por investidores americanos.

A mineradora pede calma, alegando que ainda não existe nada decidido e que "o horizonte eventual" de seu projeto é 2025.

"Ainda podem acontecer muitas coisas até lá", garante.

O túmulo do filósofo, no entanto, atrai a cada ano apenas 1.500 visitantes, que aproveitam a viagem para visitar um pequeno museu ao lado da igreja e observar a casa na qual viveu até os cinco anos.

O antigo regime comunista da RDA tentou relegar ao esquecimento Nietzsche, de cujas idéias os nazistas se apropriaram ao considerar que seus conceitos de "superhomem" e "vontade de poder" justificavam a ideologia sobre a superioridade da raça ariana.

Apesar do projeto de mineração ter despertado a oposição da maioria dos habitantes, algumas pessoas também consideram este uma oportunidade de gerar empregos, como afirmam os partidos locais, com exceção dos Verdes.

por pablocapistrano [10:14]
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