| 30.5.08 |
| Pequenos Terremotos |
![]() Escrita em um dia de sexta feira. Meu lema nestes últimos anos é simples: "a última coisa que você deve fazer em uma situação ruim é torná-la pior". Por isso minha televisão está desligada esse fim de semana e, com exceção de um vídeo de 22 minutos que estou baixando pelo youtube neste exato momento, não pretendo assistir nada, a não ser, talvez, algum velho filme de 1923, como a primeira parte de "Os Nibelungos"! dirigido por Fritz Lang. Se esse fim de semana, o mundo for invadido por extra terrestres, se o Bush entrar em uma mesquita para rezar, o Papa Bento XVI defender a eutanásia no seu sermão de Domingo, o ABC ganhar do Corinthians na partida pela série B do campeonato brasileiro, ou alguém falar mal do José Serra no Jornal Nacional, ou seja, se qualquer evento extraordinário, qualquer ruptura na ordem natural das coisas acontecer, eu não saberei. Permanecerei sozinho com Tori Amos, com meu documentário do youtube sobre o fim do mundo e meu filme alemão, porque nesta vida, precisamos de uma ou outra dose de autenticidade para levantar nosso olhar e encontrar uma migalha qualquer de transcendência que nos envolva e nos salve dessa rede de vazio que nos cerca. Um Domingo desses liguei a TV em um canal de notícias e vi a imagem de um prédio. Fiquei espantado porque a câmara estava aberta, estática, diante daquele prédio. Pensei ter ligado por engano no canal da portaria do meu condomínio, mas não, na verdade eu estava diante de uma "notícia". Aquela imagem estática, daquele prédio anônimo que poderia ser qualquer prédio em qualquer cidade brasileira, em tese deveria me passar alguma informação relevante. De vez em quando, muito esporadicamente, alguém aparecia na janela, um ou outro policial encostado no muro movia o braço, e algum jornalista atravessava com sua câmera na telinha, depois nada. O mais vazio e absoluto nada. Só aquela imagem parada, vazia e monocromática, de um imenso prédio branco e silencioso, junto com o eco de fundo de uma voz que repetia ininterruptamente: "estamos ao vivo, direto do edifício London, na Zona Norte de São Paulo. Começou ainda a pouco a reconstituição da morte da menina Isabela. Você está acompanhando ao vivo, direto do edifício London na Zona Norte de São Paulo, a reconstituição do crime que vitimou a menina Isabela. Estamos agora, ao vivo, diante do edifício London, acompanhando a reconstituição, que neste momento está ocorrendo dentro do edifício, da morte da menina Isabela, Agora, na Zona Norte de São Paulo...." Depois de alguns minutos observando aquilo eu desliguei a TV e em minha sincera ignorância perguntei-me como é possível que uma quantidade tão substancial de seres humanos, eu inclusive, pudesse permanecer diante da tela de uma TV, assistindo o mais puro e absoluto nada. Semanas depois ligo novamente a TV em um canal de notícias e vejo o depoimento de dois sujeitos (não consegui ainda decorar os nomes deles) em mais uma CPI no congresso, sobre um "suposto" Dossiê, ou Banco de Dados, ou Banco de Dados Seletivo, ou relatório, ou planilha do Excel ou qualquer outra coisa que você queira chamar. A teletransmissão daquela sessão me pareceu ter relações estreitas com a cobertura da reconstituição do crime que vitimou a menina Isabela. Ambas são produto de uma mesma ansiedade. Vivemos no mundo da notícia. Precisamos de uma notícia qualquer que possa dar a nossa vida cotidiana algum significado, algum sentido que transcenda o banal. Quando a notícia não vem é preciso criá-la. Ao contrário das grandes catástrofes mundiais, dos tsunamis e dos grandes tremores de terra (noticiados pela DW-TV, BBC, RAI ou CNN) no Brasil precisamos de outros cataclismos, pequenos terremotos como os cantados por Tori Amos, na parte ao vivo do disco "To Venus and Back". Esse fim de semana eu prefiro ficar com a Tori Amos, com o Fritz Lang e com o youtube, porque a arte pode ser melhor do que a vida que passa ao vivo no telejornal, e porque, como Tori mesmo canta na faixa dez do CD: "E eu odeio, e odeio, e odeio, e odeio música de elevador". Eu sei, sim eu sei, a nossa vida é bem maior do que isso tudo e um dia, ela ainda vai ser mais sedutora do que o telejornal diário. |
| por pablocapistrano [15:55] |
| 22.5.08 |
| O Ano que engoliu o mundo. |
| 16 de Maio de 2008. Estamos chegando à primeira década do século XXI e eu ainda estou tentando entender o que aconteceu. Talvez seja um defeito do meu tipo cerebral, algum certo hábito pouco saudável de querer saber o que é que eu estou fazendo aqui, nesse mundo. Esse cacoete leva sempre meu olhar para trás, na busca de encontrar algum nexo no que passou. Porque como sempre grita Zack, o vocalista do Rage Against The Machine, no som do meu carro: "quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente agora, controla o passado". A bola da vez das recapitulações, revisões e releituras é, nesse mês de Maio, o ano de 1968. Eu passei longe de ter vivido aquela época. Nasci em 1974, bem no meio do pesadelo. Para o bem ou para o mal escapei do sonho dos sessenta e cresci embalado pelo horror liquidificado que tomou conta do mundo na época punk. Mas, apesar disso, há algo de 68 em mim. Por influência do meu pai e da minha mãe e de todos os malucos que freqüentavam nossa casa na minha infância, 68 andou ao meu lado por boa parte da minha adolescência e juventude e, apesar de eu não ter a mínima idéia do que significava ser um produto daquela geração, eu podia sentir que algo estranho havia ocorrido pelo planeta poucos anos antes do meu nascimento, uma onde que alterou de modo muito significativo o senso de direção dos meus pais e os fez um pouco, digamos, "exóticos". Há luz e sombra no ano de 68. Existem os Beatles, mas também há o Velvet Underground. Tem o Maharish, a meditação transcendental, as flores, a macrobiótica, as sementes de girassol e a busca de uma vida mais saudável. Mas tem também a heroína, o ácido lisérgico, e a bosta da cocaína que deixou muita gente doida no rastro dos anos. Há o verão do amor (que foi um ano antes, mas está no mesmo pacote), há a Primavera de Praga e Woodstock (que foi um ano depois, mas está também no pacote). Assim como há o DOE-CODI, o Vietnã. Tem o Che, mas tem também o Pinochet. Tem o Bob Dylan e o Leonard Cohen, Roberto Carlos e Arnaldo Baptista, Iggy Pop e os Byrds. Há leveza e esperança, mas também solidão e desespero. Essa mistura explosiva das forças que compuseram a experiência do século XX é que tornaram a geração daquele ano tão marcada pela dor e a delícia de suas experiências políticas e existenciais. O êxtase da liberdade dos desejos, e o muro duro de um mundo que se transformava em uma gigantesca engrenagem de moer carne humana levaram a geração de meus pais a vivenciar, em uma única vida, os prazeres da esperança e dos sonhos de transformação e a dureza miserável do horror político de uma ditadura. Se o século XX tem um ano que o sintetize, esse ano é 68 e seus arredores trazem à tona os principais dilemas do século. Hoje, o discurso politicamente correto é derivado diretamente do ideário da nova esquerda heideggeriana, que constituiu-se a partir de Sartre, e que ditou uma fusão conceitual larga, envolvendo Nietzsche, Freud e Marx em um imenso balaio de gato teórico, com pitadas psicodélicas de arte de vanguarda e do fusion de Miles Davis. Emancipação feminina, luta pela diversidade sexual, defesa do meio ambiente, libertação dos desejos, direitos humanos, esses são ideários libertários que emergem do ano de 68, mas que já estavam latentes desde o final da primeira guerra e moveram os loucos anos vinte com sua vanguarda modernista (esses foram realmente os anos revolucionários do século, mas o retrocesso que se seguiu com a explosão do totalitarismo nos anos 30 gerou uma rebordosa que levou muita gente boa para o caixão antes do tempo). Essa força revolucionaria que ameaçou varias vezes eclodir e engolir o mundo, parecia que finalmente iria triunfar em 68. De certa forma, ela triunfou, e definiu os rumos do discurso oficial dos anos que se seguiram, mas, como depois de todo carnaval, vem uma grande e desconcertante ressaca, o tempo cuidou de mostrar que há uma linha muito tênue separando o sonho do pesadelo. |
| por pablocapistrano [11:23] |
| 9.5.08 |
| Doutor Fausto 2008 |
![]() Olhando as gravuras que o pintor francês Eugène Delacroix fez para ilustrar a peça ?Fausto? de Goethe, eu penso comigo mesmo: "bem que as pessoas que trabalham com a política partidária no Brasil podiam prestar mais atenção na literatura". Na verdade, o Fausto de Goethe é baseado em um personagem real que virou lenda e alimentou a literatura popular de fins do renascimento. O mundo do doutor Johannes Georg Faust, nascido por volta de 1497 na cidade de Knittinglen, era uma zona de fronteira entre as antigas artes esotéricas medievais e o universo da ciência moderna. Nas universidades, se estudava lado a lado, em um contínuo desconcertante, astronomia e astrologia, química e alquimia, biologia e magia natural. Talvez por isso, naquela época, pairava sobre os médicos e os sábios uma estranha áurea sobrenatural. O fato é que depois da morte do Fausto histórico, toda uma mitologia sobre sua figura caiu no gosto popular e serviu para fomentar diversas croniquetas fabulosas sobre um suposto pacto que o dito médico teria feito com o diabo. Durante todo o século XVI e XVII correram lendas sobre Fausto. Dizia o povo que ele teria virado teólogo na universidade de Heidelberg, que teria abusado de crianças em uma cidade chamada Kreuznach, que teria sido banido de Ingolstadt como charlatão após ter lido o horóscopo para um Bispo. Mil e uma histórias que misturam faustos reais e mitológicos em uma grande salada de prosa germânica e que acabaram por influenciar um livreiro de Fraknfurt, chamado Johann Spiess, que compôs em 1587 a primeira obra literária de uma série de autores que inclui nomes como Christofer Marlowe (1563 ? 1593), um jovem escritor inglês que, segundo Harold Bloom, teria sido tão bom quanto Shakespeare, se não tivesse morrido com trinta anos, assassinado em meio a uma briga de bar (viu? Cachaça é uma merda, mesmo...). Desses, Lessing e Goethe, são os escritores mais famosos a tratar do pacto do Doutor Fausto com Mefistófeles, um diabo curiosíssimo, bem diferente do Satã heróico composto pelo poeta inglês John Milton no seu "O Paraíso Perdido". O esperto Mefistófeles oferece ao seu contratante mais vida, mais poder e rejuvenescimento; em troca da sua alma. Em 1947, seguindo a tradição dos faustos alemães, Thomas Mann publica Doutor Fausto, uma novela de 709 páginas (na edição brasileira) que eu ando lendo por esses dias. Ela me parece definitiva no campo da tradição faustica alemã. Mann, que é filho de uma brasileira, conta a história de Adrian Leverkühn, um músico talentoso, da mesma geração de Adolf Hitler, Heidegger e Wittgenstein, que após um diálogo com o diabo em um sonho, troca sua alma pelo poder de realizar uma grande obra artística. Na verdade essa parece ser uma imagem literária para o grande pacto que a nação alemã fez com Hitler e que a levou, fausticamente, à grande devastação da segunda guerra e a quase total destruição da alma e da cultura de seu povo. Quer seja o poder, a juventude devolvida, o prazer ou o orgulho de produzir uma obra artística definitiva a figura do diabo, com sua mitologia ligada profundamente ao inconsciente coletivo da humanidade, sempre aparece propondo um pacto, um acordo, uma composição, um contrato, que parece ser vantajoso em um primeiro momento, mas que sempre tem no seu contraponto a dureza do preço a ser pago em contrapartida pela prestação do serviço. Coletivamente Mefistófeles é identificado com a força descomunal do capital que arrasa a terra e trucida o mundo natural para oferecer poder ao homem, mas pode aparecer na mente de qualquer um (inclusive daqueles que, por falta de tempo, interesse ou capacidade nunca leram um livro) como um propositor de pactos sedutores de poder. Entendeu porque seria interessante que políticos conhecessem de literatura? Talvez eles prestassem mais atenção a seus acordos. Mas, nem sempre a leitura de um livro de 709 páginas é suficiente porque, como diz Thomas Mann pela boca do narrador do seu romance "quem crê no diabo, já lhe pertence". Isso também vale para o universo da política, principalmente em época de eleição. |
| por pablocapistrano [18:04] |
| 2.5.08 |
| A Ferida da Raça |
![]() Assistindo na DW-TV as repercussões Européias da vitória da tia Hillary sobre o Barak Obama nas prévias da Pensilvanya, sou subitamente possuído por uma dúvida: "por que todo mundo diz que o Barak Obama é negro?". Vou à Internet e vejo uma foto do cara nos braços da mãe quando tinha dois anos. A mocinha branca do Kansas que casou com um queniano e depois foi morar na Indonésia, não parece, de modo algum, com os estereótipos culturais de uma moradora do Harlem. Tecnicamente, se tivesse nascido no Brasil, Obama seria um "moreno claro". Mais um dos mestiços que enchem nossas ruas e fazem o estranho mosaico de rostos das metrópoles brasileiras. Para entender, porque, o candidato aspirante à vaga democrata na próxima eleição para presidente dos EUA precisa virar "negro" eu tive que voltar para 1915. Em oito de Fevereiro daquele ano longínquo, aparecia nas manchetes dos jornais dos EUA a mais nova superprodução de Hollywood. Com direção de D. W. Griffith "O Nascimento de uma Nação" era um épico histórico no melhor estilo do cinemão norte americano que venceu após a guerra a escola alemã de Murnau, e Fritz Lang e dominou o mercado da cinematografia internacional do pós-guerra. O filme se divide em duas partes. Em uma primeira, conta-se a história da guerra da secessão na perspectiva das relações entre duas famílias, os Cameron (do Sul) e os Stonemann (do Norte). Na segunda parte do filme... bem a segunda parte do filme é tenebrosa... o diretor retrata o ambiente do sul dos EUA da época posterior a guerra (após o assassinato de Abrahan Lincoln) do modo mais afro-fóbico possível. Os escravos libertos são retratados como selvagens idiotas e sem modos, primitivos e intelectualmente inferiores, que, submetem a antiga elite branca a uma insuportável opressão. O pior é a figura de Silas Linch (personagem do filme). Um mestiço, mulato, retratado como alguém ardiloso e maquiavélico, que busca o poder a todo custo e almeja, casar com a filha branca e lourinha do seu protetor, o senador nortista Stoneman. No filme os mulatos são retratados de forma mais grotesca. Eles são lascivos, sem caráter, devassos, e, o pior: são inteligentes (ao contrario dos negros, todos broncos e abobalhados). Grifith deixa à mostra a idéia de que os mulatos combinam a flacidez moral dos negros, a lascívia sexual dos africanos, com a inteligência e a meticulosidade dos brancos (Essa é a idéia do filme). Por isso mesmo, os mestiços são muito mais perigosos. O filme acaba com os Cameron (a família do sul), destruídos pela opressão dos novos senhores negros, encontrando uma única e inexorável saída política: fundar a Ku Kux Klan! Sim, a Ku Kux Klan (a entidade nazista, e racista que enforcava negros, judeus e homossexuais, e queimava cruzes imensas no sul dos EUA). No filme ela é vista como a última esperança branca para manter a honra e a dignidade da nação. Sentiu o drama? Mas não é só no cinema. Lendo alguns contos do H. P. Lovecraft um dos mestres da ficção e do suspense, vejo coisas como: "mas o espírito diabólico da escuridão e da esqualidez segue incubando em meio aos mestiços nas casas velhas de tijolos..."; "um bote foi colocado na água e uma horda de facínoras morenos e insolentes subiu a bordo do Curander..."; "e Marlone não pôde deixar de lembrar que o Curdistão é a terra dos yezidis, os últimos sobreviventes persas dos adoradores do diabo". Em Lovecraft, como em Grifith o mal é sempre fruto da exótica mistura das raças. O mal tem a cara morena de religiões distantes e de cruzamentos inter-raciais. Esse parece ser o maior de todos os tabus dos norte americanos. Cruzar a barreira racial, partir a fronteira catalogada e definida daquelas convenções ideológicas que separam seres-humanos. Por isso, Barak Obama, teve que rejeitar a herança da mãe e assumir a raça do pai. Percebeu, como há um cheirinho de 1915 nessa campanha eleitoral norte americana? |
| por pablocapistrano [17:53] |