30.6.08
A mesma velha porcaria




No começo dos anos noventa o Nirvana veio ao Brasil para participar de um Holywood Rock. Não lembro bem qual o ano, mas acho que foi 1993. A apresentação da banda foi bisonha. Kurt Cobain arrastou-se pelo palco gemendo com a guitarra. Depois cuspiu na câmera da Globo e ficou gritando coisas incompreensíveis.

Algum tempo depois Renato Russo, em entrevista a uma revista de circulação nacional (Seria a General? Também não lembro), disse sobre Kurt Cobain e a apresentação do Nirvana, algo do tipo: "Será que ninguém vê que esse rapaz está doente? Que ele precisa de ajuda?".

O público é assim. Cruel e egoísta. Não importa o quão desgraçado está o seu ídolo, o que importa é que o show continue, mesmo que seja para ver a agonia do coitado no palco. E isso não é algo novo não. Sêneca, filósofo espanhol de cidadania romana, escreveu sobre a reação do público diante das festas dos gladiadores realizadas no circo romano: "O único espetáculo que esperam de uma criatura humana, é sua agonia".


A notícia de que a cantora inglesa de Soul, Amy Winehouse havia "passado mal" e desmaiado em casa, e que seu pai a havia levado à uma clínica onde ficaria internada para ?fazer exames?, mostra duas coisas: (1) os assessores de imprensa dos grandes astros não estão muito imaginativos no que diz respeito a produzir eufemismos para descrever uma overdose; (2) a mesma velha porcaria continua tediosamente se repetindo na vida dos astros da música.

Isso não é novidade. Édit Piaf e Judy Garland (a adorável menina que fazia o papel Dorothy na versão de 1939 do mágico de Oz) foram tragadas pela morfina (e sua versão turbinada ? a heroína), assim como quase toda a constelação de gênios do Jazz nos anos cinqüenta. Thelonius Monk, Miles Daves, John Coltrane, Chet Baker e Charlie Parker agonizaram, cada um a seu modo, nos bastidores dos shows, chapados de heroína.
O próprio Charlie Parker, quando morreu com 34 anos, após duas tentativas de suicídio e uma longa internação em sanatórios para tratamento de dependentes, teve sua idade registrada em 53 anos pelo médico que fez a autopsia, tamanho era o estrago que a heroína preta chinesa havia feito no seu organismo.

A geração grunge nos anos noventa foi assolada também pela peste da agulha. Kobain é o mais famoso, mas muita gente dançou quando o cartel colombiano dos Uchoa (patrões do pai do presidente Uribe, e financiadores dos grupos paramilitares de direita que combatem as FARC) começaram a plantar papoula no final dos anos noventa e baixaram o preço do papelote de heroína nas ruas de Nova York para dez dólares.

A irmã gêmea de Kim Deal (do Pixies) e companheira dela na banda Breeders teve problemas com heroína, assim como o baterista do Smashing Pumpkins (Jimmy Chamberlin). O vocalista do Blind Melon (Shanoon Hoon ? morto por overdose de cocaína em 1995) e metade da banda Hole (da viúva do Kobain), para não falar do Anthony Kieds, do RHCP, também protagonizaram liturgias de agonia e miséria com o cachimbo de Crack (o mesmo que está comendo o cérebro da Amy Winehouse).

Amy Winehouse poderia marcar a música desse início de século, fazendo com o Soul o que Noah Jones está fazendo como Jazz (dando plenitude a herança de Billie Holiday) e o que Janis Joplin fez (nos sessenta) com Bessie Smith (injetando uma dramaticidade quase operistica ao Blues). Mas após uma pesquisa rápida no Youtube, não é de espantar se logo logo ela abandonar o mundo da música para estagiar no cemitério. A mesma velha porcaria, que atrai o público, sempre sedento por consumir algo a mais do que simplesmente arte.

por pablocapistrano [16:24]
22.6.08
Recuperação!!!!!!!





Apesar do grande esforço docente impetrado por esse humilde professor de província durante o semestre que passou, alguns alunos cometeram a descortesia de ficar em recuperação e adiar de forma injustificada e desumana, as férias do professor Pablo.
Para aqueles que incorreram nesse pequeno deslize acadêmico seguem os assuntos da recuperação.


Introdução ao Estudo do Direito

Pluralismo Jurídico: Teoria da Coação. Sistema Vindicativo (Norbert Rouland).
Fontes do Direito: Reale ou Norberto Bobbio.
Consenso Original na Teoria da Justiça (John Rawls).


Hermenêutica Jurídica

Intencionalismo e Heidegger (Jean Gondrin).
Dogmatismo Jurídico. Segurança Jurídica. pós-dogmatismo. interpretação Kelseniana.
Escola da Exegese.

História do Direito

Direito romano antigo (formação do direito romano clássico e pós-clássico)
Recepção do código de justiniano.
Processo de codificação na Europa.

Física Quântica.

princípio da incerteza.
colapso do campo de possibilidades.
teoria das cordas.

Mecatrônica.

como fazer um robo levantar a mão e dar adeus.
sistemas integrados com base em interações sistemicas envolvendo massas biológicas e circuitos eletrônicos a base de silicio e cálcio.
teoria do ciborgue.

Música Barroca III

Influência das cantigas de Monteverdi na composição da Paixão Segundo São Mateus.
Variações de frequencia e modulação sonoras nas harmonias derivadas do uso de instrumentos do século XVII na execução de peças de Bach.

Polifonia italiana e a emergência do melôdico vocal nas liedes de Schumman.

Sexologia

como evitar o desvio de função eretil em atos sexuais com mais de um parceiro.

Teologia da Reforma.

Porque os metodistas não usam vinho em suas cerimônias religiosas?
Era Kant um "crente"?


Boa Sorte.
e Boas Férias!
Viva São João.
Viva São Pedro.
Viva Santo Antônio.
Shalom Alecheim e saravá, para quem é da nação kêto.

por pablocapistrano [21:16]
19.6.08
Esse doutorado é foda.

Esse negócio de doutorado é foda, deixa a gente perturbado.


10 Teses sobre Heidegger


Tese 1

Heidegger se torna um realista lingüístico em suas conferências sobre linguagem, no final de sua vida.
Ele utiliza essa virada para o poético como uma forma de recuperar uma função instauradora da linguagem, perdida com o surgimento da metafísica platônica, consolidada a partir do advento da era da técnica e com a consciência do signo que surge a partir do advento da escritura como suporte do poema.
Sua tarefa é a de recolocar Homero como o centro do Cânone ocidental e deslocar Platão desse lugar.
Para isso ele usa Hölderlin como o eixo moderno de uma genealogia de poetas que remota a um Homero ancestral. Poeta da apresentação do ser e da nomeação do sagrado.

Tese 2

Heidegger procura compor uma nova Geistgesichte para o ocidente.
Ele tenta deslocar a Geistgesichte de Hegel.
Como ele não consegue derrotar Hegel a partir do jogo da filosofia, ele se desloca para fora da filosofia em direção ao espaço da poesia para desconstruir seu inimigo.
Ele busca então uma nova genealogia, alternativa a tríplice linha evolutiva de Hegel (Sófocles ? Platão ? Shakespeare) e propõe um retorno. Uma virada no fluxo.
A linha de Hegel não é, para Heidegger, sinal de uma evolução do espírito do ocidente, mas sim, de decadência.
A linha de Heidegger seria distinta (Homero ? Heráclito ? Hölderlin)

Tese 3

A Hermenêutica de Heidegger procura subverter a ordem fundamental da hermenêutica de Schleiermacher. Ao invés de entender a interpretação como um momento que precede a compreensão, Heidegger vai estabelecer que a interpretação, nada mais é, do que o esclarecimento de uma pré-compreensão.
Nesse sentido o movimento da interpretação não se dá no sentido de uma aproximação do interprete em relação àquilo que o autor de um texto ?tem em mente?.
Não há como tornar o interprete um saco vazio para que a intenção do autor de um texto possa depositar o sêmen de suas idéias. Não há como se esvaziar de si para recompor as etapas mentais do autor do texto. Para experimentar sua experiência.
Toda interpretação é antes de qualquer coisa auto interpretação.
Um texto é um espelho, no qual eu me enxergo e me compreendo. A partir do qual minhas próprias pré-concepções são desveladas e esclarecidas.

Tese 4

Heidegger é um nazista filho da puta.

Tese 5

Heidegger é um Nietzsche frustrado.

Tese 6

Lendo os seminários de Heidegger sobre Heráclito, especialmente o que diz respeito a relação entre logos e ethos chego a pensar uma nova tese: Contra Platão, Heidegger propõe uma saída epicurista. Metafísica e Lógica são canais para à ética. O sentido da filosofia é a ética.

Tese 7

(Artigo do Professor Glenn W. Erickson ? Livro After Thoughs)
O nazismo se manifesta em Heidegger não com a defesa de uma superioridade meramente racial ou biológica do povo alemão. A idéia está na Sprache (Língua); Geist (Cultura, espírito) e Land (Terra). Mas fundamentalmente na língua que tem sua proximidade com uma matriz Indo-Européia (o proto-germânico é uma língua original como o Grego) que aponta para a presença do verbo Ser (Sein) e uma estrutura de Sujeito e Predicado que construía uma projeção metafísica Sujeito-objeto. Nesse sentido os alemães como os gregos teriam um privilegio sobre dizer "o Ser". Temos então uma variação da tríade nazista: Blud, Volks, Land. Ou algo do tipo. Povos da floresta. Povos da floresta. Povos da floresta.

O Racismo de Heidegger é cultural e não biológico.
(Isso não muda a tese ? 04: "Heidegger era um nazista filho da puta")

Tese 8

Heidegger queria que Hitler fosse o Moisés do povo alemão e que o nazismo fosse o mecanismo que oferecesse aos alemães a mesma identidade cultural que Moisés deu ao povo Judeu (outra do professor Glenn W. Erickson).
O problema é que (essa agora é minha) Hitler não tinha uma Torah para entregar ao povo alemão, nem a Alemanha tinha um Abraão para justificar qualquer Moisés.
O Ser e Tempo de Heidegger não poderia ter a mesma função de uma Torah. Ele poderia mais ser entendido como um livro profético, que chama o povo alemão à cumprir uma lei que não existe.
Então: Hitler e Heidegger eram profetas sem lei de um povo sem patriarca.

Tese 9

O critério de temporalidade de "Ser e Tempo" é um critério quântico ? a temporalidade não é uma seqüência de "agoras", mas um plano de possibilidades.
Isso implica em perceber o tempo de modo autêntico, não como uma seqüência, uma linha ou um fluxo de um ontem, um hoje e um amanhã (essa linha causal aparece na Metafísica de Aristóteles) e sim como um campo aberto de possibilidades nos moldes de um tabuleiro de um jogo de Xadrez.


Tese 10

O uso que Heidegger faz de Hölderlin em suas conferencias é dissimulado. Não é Hölderlin o poeta dos poetas como Heidegger quer fazer a gente pensar. Em "A Origem da Obra de Arte" Heidegger reescreve Hesíodo, seu verdadeiro poeta dos poetas. Hesíodo é o nome do rapaz (essa última tese me obriga a reformular as primeiras e começar tudo de novo).

por pablocapistrano [10:18]
9.6.08
Dica da Semana

Oi pessoal.,
uma dica da semana para quem estiver tomando chuva em Natal
(caralho, que chuva!)
é passar pela UFRN e conferir o I Simpósio Idéia & Mímeses, com a abertura do Roberto Machado.
vale a pena,/

segue a programação:

I Simpósio idéia&mímeses: entre o poético e o filosófico
De 11 a 13 de junho
Local: Auditório da Biblioteca Central/ Auditório do DFIL (CCHLA/3º andar)
Informações: defil@cchla.ufrn.br



Dia 11, quarta-feira

8:00 às 12:00 - Minicurso
Automímeses e autopoiesis
Prof. Dr. José Ramos Coelho (DFIL)
Intervalo
14:00 às 18:00 ? Minicurso
Mímeses:entre cultura e literatura
Prof. Dr. Abrahão Costa Andrade
Intervalo
19:00- Conferência de Abertura:
Deleuze e a literatura
Prof. Dr. Roberto Machado (UFRJ) ? Local: Auditório da Biblioteca Central

Dia 12, quinta-feira

9:30 - Mesa-redonda: Arte e filosofia
Arte e sofrimento em Goethe e Schopenhauer
Ms. Liliane Marinho
Heidegger e a linguagem
Prof. Dr. Ivanaldo Santos (UERN)
Heidegger e a angústia da influência
Prof. Ms. Pablo Capistrano (FARN)
Intervalo
15:30 ? Conferência:
Os elementos estéticos da antifilosofia
Prof. Dr. Tassos Lycurgo (DEART)

16:30 às 18:30 - Mesa-redonda: Poesia e filosofia
Mediador: Prof. Dr. Anastácio B. Araújo Júnior
Nietzsche e Fernando Pessoa
Prof. Ms. Edrisi de Araújo Fernandes
Poesia e filosofia
Prof. Dr. Jesus Vazquez Torres
Intervalo
19:00 ? Conferências:
Poesia: discurso e linguagem
Prof. Dr. Francisco Ivan da Silva(DLET)
Criação poética
Prof. Dr. Ruben Guedes Nunes (DFIL)

Dia 13, sexta-feira

Intervalo
14:00 às 18:30 ? Sessão de Comunicações
Intervalo
19:00 - Mesa-redonda: Arte e vida
Filosofia, poesia e vida em Nietzsche
Profa. Dra. Fernanda Machado de Bulhões (DFIL)
Manuel Bandeira ? o platônico materialista
Prof. Dr. Marcos Falleiros (DLET)
A filosofia do samba
Prof. Dr. Markus Figueira da Silva

por pablocapistrano [16:54]
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