| 24.7.08 |
| Os poemas voltaram, e agora? |
![]() Alguma coisa aconteceu. voltei a fazer poesia. Primeiro Cordel da Zeitlichkeit tempo de ficar quieto e de fazer passar o tempo sem deixar no rastro nenhum pedaço de mim ou de você tempo de saber que a lua está cheia e que toda garrafa que se preze está pela metade tempo de reter o canto na garganta pra não acordar a rua e faze-la sofrer tempo de sentir sem medo e sem pesar o vento carinhoso do mundo nos levar tempo de reter o firmamento sem que a gente saiba que ele está ali com toda delicadeza esperando o tempo certo pra nos destruir. ![]() Ps.: Postei também dois livros em formato PDF no site do amigo Tácito Costa. www.substantivoplural.com.br uma segunda edição com novos poemas do meu livro de estréia Domingos do Mundo (que está fazendo 10 anos, esse ano) e uma coletânea de aforismos esquisitos sobre filosofia e coisa e tal - 103 Totalidades. basta entrar no site e procurar na Estante, na sua esquerda, você vai notar que o Tácito é um cara gente boa e me pôs junto de uma turma de primiera, Carlos de Souza, Lívio Oliveira, Rodrigo Levino, meu primo Napoleão Paiva e mais um time de primeira. |
| por pablocapistrano [10:06] |
| 17.7.08 |
| Sozinha, a verdade vence. |
![]() Prometi que não ia postar nada desse tipo mais nesse mural, mas, as circunstâncias e os acontecimentos dos últimos dias me empurraram para escrever esse texto. fazer o quê? E agora, comadre? No brasão nacional da Índia está escrito em sânscrito "Satyameva jayate". Em português isso quer dizer mais ou menos (sim, porque toda tradução é uma traição) "Sozinha, a verdade vence" ou "só a verdade vence". Me sinto humilhado sempre que comparo o lema do Brasão Nacional indiano com o nosso insípido "Ordem e Progresso". A sensação é de uma falta profunda de poesia nos "pais fundadores" da república brasileira. Nosso lema é uma edição das três leis cunhadas pelo pensador francês Auguste Comte, que deveriam nortear a nova ética de um mundo liberto pela ciência. Ordem, progresso e amor. Sim, havia o "amor" nos três fundamentos morais de Comte. Pena que os fundadores da República esqueceram esse detalhe, porque, afinal de contas, amor é um "negócio de boiola" e o que vale realmente é o cacete (fálico, não?) da ordem e o cartão de crédito do progresso. O resto é frescura. Achei curioso o fato da Polícia Federal ter apelidado a operação que colocou Daniel Dantas na cadeia por 48 horas de Satyagraha (código moral de Gamdhi). Sim, eu sei. Você nunca ouviu falar de Daniel Dantas, também, quem manda ficar assistindo Jornal Nacional e lendo a Veja. Dantas é o espectro que ronda a política brasileira desde a época do governo FHC e que passou pela trupe do Lula e contaminou metade do PT e quase toda a tucanagem nacional. Mas tudo bem, a gente sabe que no mundo da política tem dessas coisas. Quem paga a conta sempre tem certo privilégio na hora do "pega pra capar". Por isso eu arregalei os olhos quando vi, no Jornal Nacional, a notícia de que o Daniel Dantas havia sido preso. Pensei comigo mesmo: "o que aconteceu com o mundo enquanto eu me isolava para ler os seminários que o filósofo alemão Martin Heidegger escreveu sobre Hölderlin?" (as vezes a gente tem que fazer umas loucuras desse tipo). Um terremoto, um tsunami, uma bolha atômica, uma imensa diarréia moral que acordou de repente o mostro sagrado da justiça de seu sono dogmático? Vou confessar, eu que já sabia quem era o Daniel Dantas de muitos outros carnavais, jamais imaginaria que um dia, essa ilustre sombra do capital financeiro brasileiro, o grande mecenas dos projetos políticos tucanos e petistas, pudesse, um dia, aparecer no Jornal Nacional, algemado. Calma, calma, O presidente do STF já falou na TV criticando a operação da PF e o senador Arthur Virgilio, o grande ícone da ordem terceira da santíssima neo direita brasileira, defendeu com todo vigor os direitos fundamentais dos cidadãos que ganham mais de um 500 000 reais por mês. Afinal Ordem e progresso, ordem e progresso... ordem para os 3Ps (Preto, Pobre e Prostituta) e progresso para... para... bem você sabe para quem. Agora, eu fiquei realmente chocado com as declarações de um suposto preposto de Dantas, que estava tentando viabilizar um suposto suborno para um suposto delegado da polícia federal, que foi supostamente ao ar em uma suposta matéria de um suposto jornal nacional. A suposta repórter anunciou que um suposto Dantas estaria supostamente preocupado em bloquear a suposta investigação da suposta polícia na suposta primeira instância da justiça Federal, porque, SUPOSTAMENTE ele teria "facilidades" no STF. E agora comadre? E agora? O que fazer? A justiça é cega, mas às vezes, também é surda e muda. Ponto para a primeira instância da Justiça Federal (parece que o que se comenta nos corredores do poder judiciário sobre as primeiras instâncias, está se confirmando em rede nacional de TV). Ponto para o Ministério Público Federal de São Paulo, que a despeito das negativas do STF em permitir que a CPI do mensalão tivesse acesso ao conteúdo de um HD apreendido no Banco Oportunity bancou a investigação. Ponto para o delegado Protógones (é assim o nome do camarada?) que´já foi devidamente "premiado" com um curso de capacitação em alguma coisa e se afastou (ou foi afastado?) das investigações e talvez consiga, como prêmio pela sua investigação uma transferência para o distrito de "Nossa Senhora do Ai Meu Deus", comarca de "Santo Antônio do Fim do Mundo", e algum extremo do Brasil. Pois é meu filho. Talvez na Índia, ao invés de ordem sem justiça e progresso sem amor; vença mesmo a verdade. Quem sabe um dia, quem sabe um dia... |
| por pablocapistrano [10:37] |
| 11.7.08 |
| O Remédio e o Veneno |
![]() Gente boa, voltei a escrever no Diário de Natal aos Domingos. a tal da pop filosofia. textos sobre filosofia, religiosidade, xamanismo e outras ilegalidades. quem se interessar pode ler alguns textos aqui também no seu, no meu, no nosso mural, semi-semanal ou no portal www.portalespiritualista.org segue ai o texto do Domingo, keep on the beat! O Remédio e o Veneno "O antibiótico salva o homem, mas só o vinho o faz feliz". Essa frase (atribuída a Alexander Fleming, inventor da penicilina) eu ouvi pela primeira vez da boca do meu amigo Edílson Pinto, escritor, cirurgião e professor da disciplina de oncologia na UFRN. Certamente há nela um traço fino de humor inglês, e a despeito de ser verdadeira ou não (a depender do tipo de vinho que você bebe ou do antibiótico que te prescrevem) ela ensina algo interessante acerca da natureza do mundo. Algo que os gregos já sabiam. Em um livro bem conhecido no circuito acadêmico, chamado "A Farmácia de Platão" o pensador franco-judeu Jaques Derrida, faz um mergulho no significado profundo das palavras do antigo idioma grego para mostrar que a diferença entre o remédio e o veneno é a dosagem. "Pharmakon" é um termo grego que servia para designar tanto uma droga que alucina (como o vinho), um remédio que cura (penicilina), um perfume que seduz afrodisiacamente um parceiro (Chanel Número 05), ou um veneno que mata (Cianureto). A sabedoria dos antigos nos faz lembrar que em uma farmácia a mesma coisa que cura, pode matar, e aquilo que encanta, também, de certo modo, enlouquece e escraviza. A natureza dispõe de uma quantidade fantástica de substâncias que alteram a consciência, produzindo as delícias do encantamento e o desespero sem fim da loucura. Essas forças quádruplas (cura, prazer, loucura e morte) andam juntas e nos circundam, contaminando o ambiente e produzindo um casulo químico que interfere em nosso corpo e em nosso entendimento. O mundo moderno não inventou "as drogas". Elas estão dadas no meio natural, apenas esperando que alguém venha, as colha e descubra o modo certo de refiná-las, fermenta-las, cozinha-las em efusão, sintetiza-las, embalar em saquinhos e vender na farmácia, no bar ou na porta do clube descolado. Na aurora do homem a farmácia era logo ali, no meio da floresta, da savana ou da estepe. Terence Mckenna, um dos antropólogos mais freaks que eu já ouvi falar, chegou a defender a curiosa idéia de que a consciência humana havia se desenvolvido a partir do momento em que nossos ancestrais, perseguindo as manadas de búfalos, no esforço de domesticação que deu origem a nossa moderna agropecuária, começou a consumir psilocybe, uma substância que aparece junto com cogumelos nas fezes dos bois brancos. Mckenna chegou a essa conclusão "bicho-grilo" após alguns anos de estudos das práticas xamánicas espalhadas por diversas culturas e grupos étnicos mundo afora. Na Sibéria a ingestão da Amanita muscaria, um cogumelo colorido rico em psilocybina (a mesma substância que isolada e sintetizada em laboratório ajudou o doutor Albert Hoffman a criar o LSD) é parte do contexto ritual da religião xamânica. O transe obtido através da ingestão dessas substâncias, em um contexto ritual e através da direção de um xamã, faz com que uma realidade "verdadeira", oculta à consciência ordinária dos homens se mostre em todo seu vigor. A idéia básica das práticas religiosas que utilizam substâncias como a psilocybe, é de que as plantas são espíritos professores e que a natureza é uma imensa "farmácia", na qual os praticantes do transe xamânico podem adquirir para si, algo do ensinamento contido em cada cacto, cipó, fungo ou folha de árvore dessa terra estranha e cheia de variações bioquímicas exóticas. Entre os Ianomanis na fronteira do Brasil com a Venezuela, por exemplo, é comum o consumo de um rapé de ebene por quase todos os homens que ultrapassam a puberdade. Nesses contextos o xamã preside o ritual no qual os participantes se iniciam e constroem um acesso privilegiado a outros estados de consciência. Nos Andes há o cacto de San Pedro (peyote) também famoso no México, na selva peruana o aiuasca (uma planta cujo nome significa "vinho dos mortos" no dialeto quíchua e que teria poderes de abrir os portais do mundo dos defuntos, estreitando o contanto entre os vivos e os espíritos dos que já se foram), no Gabão a Ibogaina (que segundo alguns além de produzir alucinações, regressões e ataraxia serve para curar viciados em heroína) é largamente utilizada há milênios pelos membros da religião Fang como planta mágica que serviria para estreitar contatos com os espíritos desencarnados. Mas não é preciso ir longe para perceber como o uso da "farmácia de Deus" por parte das culturas tradicionais pode ser amplo. Entre nós, quando os portugueses adentraram os sertões brasileiros, travaram contato com inúmeras "santidades", seitas e conjuntos de rituais que usavam largamente plantas como a nossa Jurema, símbolo maior do xamanismo potiguar, tão esquecida entre os que buscam religiões exóticas, e plantas mágicas em outras selvas. Pois é, veja só que coisa. A mesma porta que pode levar o homem ao contato com o sagrado e o divino nas sociedades tradicionais, hoje, sintetizado, refinado, processado industrialmente, se torna nesse lixo químico que arrasta milhares de pessoas em todo mundo para um estágio de prostração mental e degradação biológica. A diferença entre o remédio e o veneno é muito tênue. Assim como o espaço do divino e do mundano, muitas vezes se cruzam em um mundo cheios de portas e janelas da percepção, que as vezes se expandem e as vezes estreitam levando o homem do céu ao inferno na mesma viagem. Esquecemos certamente os ensinamentos das plantas e, ao transformá-las industrialmente em produtos de mercado, acabamos por desmontar a ordem sagrada que envolvia suas práticas de consumo. Sem os rituais da antiga religião, essas flores, fungos e folhas, acabam por serem transformadas em uma porcaria bioquímica, que leva para nossa mente aquilo que o nosso mundo industrializado mais sabe construir: poluição. |
| por pablocapistrano [11:44] |