| 24.10.08 |
| Corduras Damascenicas |
![]() Dizem que um dia o brasileiro foi um homem cordial. Eu acredito nisso porque, de certa forma, em minha memória ainda existe espaço para as imagens de um mundo marcado por cadeiras na calçada no fim da tarde e por uma dimensão afetiva no olhar e nas palavras dos meus conterrâneos. Mas o tempo, e sua mais cruel esposa, a história, trataram de, ao menos em minha cidade, sepultar, em meio a toneladas de concreto e a uma avalanche de consumo, os restos dessa cordialidade utópica que parece ter um dia marcado as tardes do Brasil. Hoje, a minha sensação, é que alguma coisa sem forma definida andou levando meus conterrâneos para o lado sombrio dessa imensa fantasia nietzscheana chamada Brasil. Às vezes eu consigo encontrar a palavra exata para descrever o sentimento que eu tenho quando penso sobre essa perda tão significativa da cordialidade essencial que um dia parece ter agregado as partes fraturadas de meu povo, em um sonho dialético, onde os contrários podiam conviver. Mas, nessas horas, ainda bem que existe a arte para substituir minha voz e mostrar aquilo que eu não consigo expressar em palavras. Essa semana entrei na galeria do NAC (na UFRN) e me deparei com a exposição de gravuras do artista plástico Cláudio Damasceno. A exposição intitulada "Cordura" faz alusão a uma bela e antiga palavra da língua portuguesa, que parece ter sido abandonada pelos brasileiros nos últimos anos. Cordura é a qualidade de quem é cordato, cordo (que vem tanto do português antigo quanto do espanhol cuerdo). A cordura, palavra usada por Machado de Assis e que nos leva a um tempo de comunhão em um Brasil utópico e original, subitamente se transforma, na obra de Damasceno em uma "cor dura", uma irredutibilidade inexpugnável, representada nas três cores básicas (azul, amarelo e vermelho) usadas em cada uma das gravuras da exposição em seus três planos. Não há gradação nas cores de Cláudio Damasceno e se os personagens, insinuados pelas formas geométricas das gravuras, se confraternizam em uma deliciosa cordialidade, o cenário, o ambiente, o mundo que os circunda, com sua dureza e urbanidade não permite a comunhão, impedindo que as cores se unam e formem novas matizes. Há uma ameaça subentendida que paira na pintura de artistas como Hopper (pintor norte americano que retratou, hiper realisticamente o mesmo tipo de conflito que emerge da obra geométrica de Damasceno). O cenário, com seu peso absoluto e objetivo, parece sempre tramar contra as figuras humanas, que buscam umas as outras em um carnaval de desencontro, e solidão. É como se o cenário de nosso mundo, tão cru e objetivo, com sua lógica de produção, com seu rigor que mata os sonhos de amor e de fraternidade dos homens, pudesse a qualquer momento engolir seus personagens. A dureza primitiva das coisas pode aparecer de modos diferentes. Em Hopper, por exemplo, ela aparece na solidão das casas vazias em cima das colinas no fim de tarde, no silêncio que salta de uma bomba de gasolina abandonada em um posto de beira de estrada, na figura da lanterninha de cinema solitária, que não pode ou não quer assistir ao filme que se projeta na tela. Com suas cores básicas e suas linhas demarcadas, impedindo a gradação e construindo as formas geométricas que insinuam as figuras de suas gravuras, Damasceno consegue como Hopper, nos transportar a situações de nossa própria vida, como se em um flagrante fotográfico do cotidiano, pudéssemos visualizar nosso desejo de amor, nossa ansiedade de amizade, nossa busca de cordura, em meio a dureza das cores do mundo. Em uma Natal em transformação constante, em um mundo que se acelera e se concretiza velozmente, substituindo a paisagem natural pelo cimento e o concreto dos arranha-céus a pintura de Damasceno nos alerta, para o inquietante estado de nossa própria cordialidade, de nossa própria condição de sujeitos, humanos em meio a frieza das coisas. Para quem acredita que arte é decoração e que o papel do artista é enfeitar parede de clínica odontológica eu sugiro um passeio pelo universo pictográfico de Damasceno. Porque a arte também pode nos ensinar, ela joga na nossa alma a palavra que falta na nossa boca e dá forma a nosso estranho sentimento de orfandade, para que a vida e a dureza das coisas não possa, um dia, definitivamente nos apartar e nos destruir. |
| por pablocapistrano [18:58] |
| 13.10.08 |
| O Claro e o Explicito |
![]() "Sou mãe, sou mulher". Ouvi essa frase diversas vezes pronunciada por Micarla de Sousa, candidata do PV à prefeitura de Natal. O que ela significa? Aparentemente seu sentido está claro, evidente. Ela diz o que Micarla é. Uma mulher, casada, mãe de dois filhos. Mas, enunciada no contexto de uma eleição de forma tão insistente, essa frase não pode ser entendida na simplicidade semântica de seus termos. O estranho é que ela não era a única candidata a prefeito. Sua concorrente direta, a deputada Fátima Bezerra, apesar de não ser mãe, é mulher. O que significava então a frase recorrente da candidata? Qual o sentido de insinuar essas duas condições como "diferenciais" de sua campanha? Ao afirmar constantemente que é "mãe" e que é "mulher" a candidata Micarla estava conectando o conceito da maternidade ao conceito de gênero e marcando um ponto de diferença, uma particularidade de sua condição que destoava daqueles que concorriam contra ela à prefeitura de Natal. Era como se ela estivesse o tempo todo "provando" (se é que isso é passível de qualquer tipo de prova ou de demonstração) sua condição sexual a partir de sua maternidade. Não é preciso ser nenhum gênio da publicidade para saber que a frase repetida à exaustão pela candidata do PV tinha um endereço certo. Seu objetivo político era muito claro e seus efeitos foram sentidos em diversos bairros da cidade. Essa frase reforçava, na boca do povo de Natal, o preconceito em relação a sexualidade da deputada Fátima Bezerra do PT. Se a maternidade de Micarla fosse a prova da sua condição sexual, a não maternidade de Fátima colocava em questão a sexualidade da candidata do PT. Esse era o discurso subliminar da misteriosa frase repetida nos programas eleitorais de modo aparentemente despretensioso. Eu particularmente, quando voto, não estou nem um pouco interessado em saber como o meu candidato pratica a sua sexualidade. Se ele é hetero, homo, bi, poli ou pan sexual (excluindo a pedofilia ou o estupro, para mim não há delito em fazer ou deixar de fazer sexo com quem ou o quê você quiser. Cada um que cuide da sua vida e faça com ela o que achar melhor). Nunca me interessou saber o que meu candidato fazia na cama até porque eu concordo com Nelson Rodrigues, o mago da crônica jornalista brasileira, produtor de algumas das frases mais geniais que eu já tive oportunidade de ler: "Se nós soubéssemos da intimidade sexual uns dos outros, ninguém se cumprimentaria na rua". No entanto, essa minha despreocupação não pareceu ser a regra entre os meus conterrâneos nessa eleição. Entre o normal e o natural, entre o convencional e o proibido, entre a tolerância e o preconceito, algo deixou de ser dito nessa campanha. Provavelmente na história política do Brasil muitos governadores, prefeitos, deputados e senadores tiveram que esconder suas preferências sexuais para poder passar no teste do preconceito popular. Imagino que muita gente casou, teve filhos, cumpriu todos os ritos matrimoniais e sociais exigidos pela tradicional família potiguar (sertaneja, semita, conservadora) para que, diante do seu eleitor e da sua eleitora, não sobrasse nenhuma dúvida de que suas práticas sexuais corriam em pura conformidade com aquilo que o entendimento padrão considera "normal". Muita gente mutilou o próprio desejo, rasgou a própria vontade e escondeu a própria alma para tolher algum suposto "desvio", alguma pulsão, algum trejeito que pudesse "denunciar" sua condição. Na política brasileira é absolutamente perdoado o dissimulado. Aquele que se esconde é aceito. Mas, entre o dissimulado e o assumido há o explícito. Nem tudo que é explicito, ou aparentemente evidente é claro. Provavelmente provocação que a campanha de Micarla lançou contra a de Fátima poderia ter gerado um fato histórico na política do Rio Grande do Norte. No silêncio de uma e na insinuação da outra se perdeu a opção pela clareza. Entre aquilo que é explícito e aquilo que é insinuado, perdeu-se a chance de pôr as cartas na mesa e discutir, sem rodeios nem dissimulações uma questão central de nosso tempo e de nossa cultura: o que significa ser mulher? Qual o peso da opção sexual de um candidato em uma eleição? Até quando as pessoas serão divididas, menosprezadas, ridicularizadas e classificadas em função da sua religião, da sua raça, da sua cor, condição social ou do tipo de afeto que elas cultivam? Faltou o entendimento central presente no brasão nacional indiano, e que eu gosto de repetir para mim mesmo a exaustão: só a verdade vence. |
| por pablocapistrano [12:51] |
| 7.10.08 |
| Mudando para ficar igual |
![]() Alguém me disse uma vez que a pior coisa que pode ocorrer com um sonho é virar realidade. Isso é claro, porque a realidade na maioria absoluta das vezes é bem pior do que o sonho. Aprendi a cultivar meu sonho de conhecer a Grécia quando ainda era criança, por culpa do Monteiro Lobato e do Roberto Marinho. Foi a Globo que criou em mim esse desejo, através da velha adaptação do "Sítio do Pica Pau Amarelo". Foi absolutamente espantoso para minha mente de criança o contato com as histórias do Minotauro, de Ícaro, Teseu, Ariadne, e com a presença de Péricles, em uma miscelânea clássica que misturava em um mesmo plano, diversas idades gregas. Depois de adulto, quando surgiu a primeira oportunidade para atravessar o Atlântico e ver o mundo velho, não titubeei e tive que dar um pulo em Atenas. Lá, além de ter conseguido um busto de Sócrates em cerâmica, de ter batido perna o dia todo no bairro turístico de Placa e ter comido um mussaki (não me pergunte o que é isso que até hoje eu não sei) acompanhado com uma aguardente de uva, eu fui à Acrópole, ver o que havia sobrado do templo da deusa Palas Atena. Quando estávamos voltando, o motorista do ônibus que fez o percurso do hotel até o centro velho me perguntou (em um Inglês com sotaque) o que eu tinha achado. "Impressionante isso ter durando tanto tempo" ? eu disse pensando nos séculos VI e V antes de cristo. O motorista riu e respondeu ? "Não durou. Os turcos explodiram tudo em 1820. O que havia sobrado da acrópole caiu e só ficaram pedras e uma parte do templo. É por isso que estamos reconstruindo". Não sabia desse detalhe. Imaginei os turcos dinamitando a acrópole enquanto se afastavam para os barcos que os levariam de volta à Anatólia, e arrastando consigo parte do ?Sítio do Pica Pau Amarelo? da minha própria infância. ? "Quer dizer que essas pedras são outras? Quer dizer que vocês estão refazendo os prédios?". "Exato" ? ele respondeu ? "a gente tem que mudar para ficar igual". Essa foi uma das grandes lições metafísicas que eu aprendi em Atenas. Talvez seja algo da atmosfera grega, cercada pelos apelos turísticos à mitologia dos antigos e a filosofia de Sócrates e Platão (Aristóteles era macedônio). O fato é que essa é uma percepção importante. As coisas só se conservam quando mudam. Não dá para manter uma casa em pé por toda eternidade com as mesmas ripas de madeira. É preciso uma reforma aqui e outra acolá para reforçar a estrutura e evitar que o teto desabe. Foi desse modo que a religião Hindu sobreviveu tantos séculos e chegou aos nossos dias. Quem vê as imagens da Índia de hoje na TV, com todas aquelas pessoas tomando banho no Ganges, aqueles ascetas pendurados em árvores e aqueles deuses coloridos, não imagina que no século XVIII quase nada que fazia referencia a antiga religião dos vedas estava presente naquelas ruas. O Bramanismo sobrevivia nessa época como uma sombra, uma mancha do que havia sido, restrito a algumas seitas populares de caráter devocional. O estudo das escrituras sagradas (os vedas) havia perdido espaço para o Islamismo e para a influência ocidental, marcada pela presença inglesa na região. Depois de 800 anos de descaracterização e abandono das antigas práticas e tradições, a religião dos 3000 deuses, estava em vias de desaparecer, até que, algo aconteceu e a maré virou para o lado do Hinduísmo. No século XIX surgiram tendências sincréticas como a de um sujeito chamado Ram Mohun Roy que havia fundado uma espécie de Igreja Hindu Unitária (que defendia a tese de ser Brahma, a versão indiana de do Deus de Israel, que por sua vez seria também o Pai de Jesus, e o Alá que mandou o anjo Gabriel inspirar Maomé a cantar o Corão dentro de uma caverna no meio do deserto). Misturar nunca foi difícil para os Hindus, porque o politeísmo tem dessas coisas, sempre há espaço para mais um deus, sempre a um lugarzinho para mais uma prática ritual e ocidentalizar-se não parecia tão ruim, ainda mais quando um inglês chamado Willian Jones começou a se divertir traduzindo textos das escrituras sagradas Hindus do sânscrito para o Inglês e percebeu que aqueles dois idiomas eram muito parecidos. Daí surgiu a hipótese de que Hindus e europeus faziam parte de um mesmo povo (Indo-europeu) que teria seguido caminhos diferentes a partir de um cisma ocorrido bem no meio da Rússia, nove mil anos atrás. A ocidentalização acabou revigorando as práticas védicas e reinjetando vigor na velha religião. Surgiu então um homem, chamado de Ramakrishna, que teria devolvido às práticas populares um caráter fortemente místico, implantando naquele conjunto de rituais diários e mecanizados das seitas devocionais, novos significados. Os indianos aprenderam, no século XIX e XX, que a melhor maneira de resistir a uma dominação cultural é revigorar sua própria tradição a partir de novos modelos, criando novos significados para velhas formas. Homens como Vivekananda (1862-1902); Ramana Maharishi (1879-1950) e Sri Aurobindo Ghose (1872 ? 1950) aprenderam a lição do deus Vishnu (o preservador), que era representado flutuando sobre as ondas. Mantendo-se o mesmo, enquanto tudo passava sobre seus pés. A lição de Vishnu e a lição do motorista metafísico na minha viagem à Grécia são idênticas: é preciso mudar para permanecer o mesmo. |
| por pablocapistrano [17:20] |