| 19.11.08 |
| Dialetica da Cegueira |
![]() 15 de novembro de 2008. Uma vez, falando sobre a tragédia grega, Nietzsche escreveu: "é uma magia desses combates que aquele que os contempla também os tenha de combater!". Foi justamente essa frase que sintetizou minha percepção ao deixar o cinema após assistir o filme: "Ensaio sobre a cegueira". Para quem ainda não sabe o filme é baseado na obra de José Saramago, e traz um misto de Kafka com Albert Camus, pintando com algum tipo de efeito luminoso desses que deixa as cores meio foscas. A idéia é simples: uma doença misteriosa, contagiosa, deixa as pessoas cegas. Ela se espalha rapidamente e toda a frágil organização social humana, que a primeira vista parece tão forte, se decompõe à medida que as pessoas vão cegando. A curiosidade é que as pessoas não cegam pela escuridão. A vista dos personagens não fica turva e escurece como a gente poderia imaginar em um primeiro momento. A cegueira do ensaio de Saramago é uma cegueira de luz. Uma ampla e intensa luz branca cega os homens, como se uma gigantesca unção cristã, do tipo da de Paulo de Tarso, amaldiçoasse a humanidade. Não sei se muita gente que estava na sessão, essa última sexta feira, notou, mas aquela cegueira que nós contemplávamos era uma cegueira do esclarecimento. Iluminar é diferente de esclarecer. Quando algo se ilumina, a luz atinge essa coisa de fora para dentro. A luz se projeta na iluminação. Ela penetra, fura a retina, abre o cristalino, violenta o globo ocular. A luz da iluminação não vem do homem, ela atravessa o mundo e atinge a gente bem em cheio. Esclarecer é desempacotar a luz. Essa é uma idéia que aparece bem no termo em alemão, que o filósofo Imannuel Kant utilizou para dar título ao seu texto: "O que é o esclarecimento?". Aufklãrung passa essa idéia. "Auf" cria a sensação de algo que está sendo retirado, desarrumado, desempacotado, como se a claridade ("klärung") surgisse de dentro de uma caixa fechada. Sabe o que é sinistro? È que o livro de Kant fala justamente sobre o movimento intelectual que tomou conta da Europa n século XVIII e que aparece naquele livro de história do ensino médio que você estudou para fazer vestibular com o nome de "iluminismo" (mas que na Alemanha se chamou justamente de Esclarecimento ? Aufklãrung). Foi esse movimento que gerou os dois modelos de utopia do século XX. O comunismo franco-alemão de Karl Marx e o liberalismo anglo-americano de Adam Smith. Irmãos gêmeos, esses dois modelos de mundo, essas duas experiências sociais, são filhos do esclarecimento. Dessa luz que a mente humana desempacota e que surge de dentro da gente quando menos se espera. O filme de Meireles fez brotar, do texto de Saramago, um aspecto desconcertante de misticismo cristão, que parece estar recalcado no pensamento do velho comunista português. A luz que verdadeiramente nos aliena é a que nos ilumina. Nosso cotidiano brilhante queima a nossa retina, e arregaça a fronteira de nossos olhos, fazendo com que o brilho das coisas nos encante. No Ensaio de Saramago a cegueira nos liberta das coisas, fazendo com que a luz do esclarecimento brote, de dentro para fora. Ela é uma luz mental, que nada tem a ver com o olho (que capta o mundo) e que parece surgir de algum lugar bem no centro do nosso cérebro. Esse algum lugar qualquer de nosso entendimento nos faz ver, e a intensidade dessa visão suspende o mundo. Na tragédia grega, aquele que vê a verdade (como Tirésias ou Édipo, que fura os próprios olhos depois de saber da natureza de seu próprio destino) é cego. A dialética da cegueira é a história desse combate, entre a luz que vem do mundo para nos alienar no meio das coisas, e a cegueira luminosa de nosso entendimento, que nos liberta e nos emancipa das redes sociais que nós construímos e que parecem tão inexpugnáveis. Estamos cegos porque a luz do mundo não deixa que a luz do nosso entendimento brote. Esclarecer é desempacotar essa luz, fazer com que ela nasça; combater o combate incessante de sua gênese e pagar o preço que ele cobra. |
| por pablocapistrano [09:57] |
| 10.11.08 |
| Barak Obama Jazz Band |
![]() Essa semana amanheci com a estranha sensação de que o mundo mudou a trilha sonora. Saiu o Country do Bush Junior e entrou em pauta o swing da Tradicional Barak Obama Jazz Band. Por isso eu rodei no meu carro esses dias com três coletâneas do Ken Burns. County Basie, Miles Davis e Benny Godman foram meus companheiros, de manhã, de tarde e à noite. Na minha humilde opinião, a vitória de Barak Obama foi a cristalização política do impulso estético que a experiência do Jazz causou na alma norte americana. Ao contrário do Blues (profundamente marcado pela experiência de sofrimento dos escravos negros), do RAP (marcado pelo sectarismo racial dos anos sessenta e setenta) ou do Hip Hop (consumido por alucinações de poder sexo e dinheiro de uma classe emergente que foi contaminada pelo fantasma da mesma sociedade de consumo da qual era apartada) o Jazz é uma forma essencialmente mestiça. De Sidney Bechet à John Coltrane, o jazz radicalizou a experiência estética da liberdade e materializou em forma de música uma ordem democrática e inclusiva que a américa não conhecia. Enquanto nas orquestras européias cada instrumento tem seu lugar rigidamente controlado a partir de uma hierarquia melódica fixa e de uma harmonia preestabelecida pela mente do compositor, no jazz os instrumentos se congregam a partir de uma harmonia que cada vez mais (em sua evolução) tende para o caos e para o respeito absoluto pela diferença. Do tradicional, passando pelo swing e pelo be bop, até chegar no Free Jazz, gente como Charlie Parker, Louis Armstrong, Dave Bruback e Chet Baker, ensinaram a América o modo certo de conviver em um mundo multicultural e multitonal. Barak Obama não é 100% negro (apesar de sua campanha ter explorado brilhantemente sua banda africana), assim como não é 100% norte americano ou cristão. Seu discurso reflete essa impermanência, esse não pertencimento que é a marca do humano. Dois grupos políticos odeiam Obama e tudo que ele representa: a extrema direita norte americana (que odeia o mundo) e a extrema esquerda planetária (que odeia os Estados Unidos) essas duas facetas de nosso tempo amam Bush porque ele ajudava o mundo a odiar os EUA e ajudava os EUA a odiar o mundo. Como o cantor folk, que busca uma "raiz", uma "cultura pura", uma "identidade" que o separe e o divida do resto da humanidade, Bush construiu sua política na estética monocromática da cisão. Sua aposta era naquilo que nos divide e que nos separa, seu mundo era o mundo particular do interior do Texas, longe do horizonte do mar, afastado dos portos e do barulho cosmopolita de Nova York. A casa de Bush era sua fazenda, com seu gado, seus cavalos e sua roupa de Cowboy. Obama nasceu no Hawai, e morou na Indonésia, ilhas do meio do mundo, cercadas de horizonte, que não permitem apequenar a visão em meio ao espaço onde todas as culturas e todas as nações confluem. A vida de uma ilha é seu porto, e o porto é o lugar no qual o mundo entra em nossa vida. Mar e porto nos ensinam a ser do mundo, por isso o discurso de Obama aponta para aquilo que nos une. Aquilo que faz com que negro, branco, amarelo, roxo, gay, bi, hetero, polisexual, cristão, mulçumano, animista ou qualquer outra divisão possa ser amaciada pela redução do humano ao elemento que o igualha: a razão. A congregação do Jazz nos ensinou que, se quisermos sobreviver a nossa própria humanidade e ultrapassar os entraves que nos despedaçam, temos que aprender a ser leves e fluídos, abertos, indefinidos, desmontáveis e fundamentalmente mestiços, como o Obamma. |
| por pablocapistrano [16:45] |
| 4.11.08 |
| Em Nome do Pai |
![]() Com certeza você deve conhecer essa história: Um belo dia, um deus envia um emissário a um homem e avisa que está desiludido com o mundo que criou. Manda que esse homem construa uma arca imensa para pôr um casal de cada espécie de animal da terra. O homem abandona seus afazeres cotidianos e sua vida tranqüila de agricultor, ou pastor, e começa a trabalhar na obra. Depois de pronta o homem entra dentro da arca junto com a bicharada e então uma tempestade, uma chuva torrencial começa. Só a arca permanece emersa, enquanto toda a terra sucumbe em uma imensa tragédia biológica. Lembrou? Claro, que você sabe de quem eu estou falando. Ut-naapishtin é o nome desse curioso personagem que foi interpelado pelo deus Marduk e sua história aparece em uma das peças mais curiosas da literatura antiga do oriente médio. A Epopéia de Gilgamesh, foi desenterrada de antigas colinas assírias aonde ficavam as cidades de Nínive e Nirmund, no ano de 1839; por um jovem inglês a caminho do Ceilão chamado Austen Henry Layard. Na verdade, o mais importante que Layard desenterrou foi uma imensa biblioteca, guardada em tábuas de argila, contendo textos grafados em uma estranha escrita. Em 1872, numa reunião de uma recém fundada associação de Arqueologia Bíblica, um tal de George Smith, que havia trabalhado desde de 1866 com o esforço de decifração dessa escrita em forma de cunha declarou: "pouco tempo atrás descobri entre as tábuas assírias no Museu Britânico um relato do dilúvio". Essa foi uma descoberta extraordinária porque, de certa forma, a Epopéia de Gilgamesh, apesar de estar contida em tábuas datadas do século VIII a. c. fazia referencia a um conjunto de textos mais antigos, que continham também um relato da criação do mundo (O Enuma Elish). Ut-naapishtin pode ser assim, lido como a versão suméria do Noé bíblico. Isso faz muito sentido porque, tanto do ponto de vista da religião judaica, quando do ponto de vista das modernas pesquisas arqueológicas na terra Santa, Israel nasceu de uma disputa geopolítica envolvendo a civilização Egípcia ao sul e a mesopotâmica, ao norte. O judaísmo, como a gente pode observar pela leitura da Torah, sempre puxa a brasa para o lado dos mesopotâmicos, à começar pela origem do seu patriarca, Abraão que vem de Ur, na Caldeia, região sobre influência de mesma civilização que gerou a misteriosa Epopéia de Gilgamesh e a história de Ut-naapishtin (0 Noé iraquiano). O judaísmo é uma religião do Pai. Deve ter sido Freud, o judeu alemão que deu o terceiro e definitivo chute nos testículos da humanidade (o primeiro veio com Copérnico e o segundo com Darwin), que chamou atenção para o fato de que, enquanto na mitologia grega, os deuses castram seus pais (como acontece com Urano e Cronos, e depois com o próprio Cronos castrado por Zeus) no mundo judaico o Pai é sagrado. Antes mesmo de ser o povo do livro ou o povo do sábado, os judeus são filhos de Abraão, e como descendentes desse pai original eles sentem-se como membros de uma mesma família. Abraão, o pai dos judeus e dos árabes (descendentes segundo a tradição de Ismael, filho de Abraão com Hagar), também acabou por se tornar o patriarca simbólico dos cristãos e de todos os mulçumanos (não sei se você sabe, mas nem todo mulçumano é árabe e nem todo árabe é mulçumano). O judaísmo é assim, uma religião que nasce marcada pela presença da autoridade paterna e acaba construindo, ao longo de sua evolução, uma preponderância da imagem masculina, que termina por contaminar certas linhas do islamismo de Maomé e do cristianismo de Jesus. O que há em comum entre Abraão e Ut-naapishtim é que eles são homens. Ao contrário dos heróis gregos, filhos de imortais com humanas, os personagens da religião judaica são seres comuns. Seu grande feito não é o de lutar em guerras épicas, derrotar impérios, ou enfrentar monstros mitológicos. Na maioria das vezes os personagens da religião judaica são pastores, agricultores, vendedores ambulantes, escravos. O mundo do judaísmo, ao contrário do mundo da mitologia helênica não é um mundo de aristocratas e semi-deuses. A grande habilidade dos personagens da religião judaica está justamente na capacidade de ouvir aquilo que a maioria das outras pessoas não escuta e ver o que outros não vêem. O grande acontecimento na vida dessas pessoas é a presença daquele Deus solitário que por um motivo ou outro resolve romper o próprio isolamento e mandar mensagens, instruções, normas de conduta ou mesmo alertas meteorológicos para seus escolhidos. Se há alguma coisa extraordinária em Abraão e Noé é a loucura de interromper o curso ordinário da vida e seguir uma estrela ou começar a construir uma nave espacial no quintal de casa para fugir do aquecimento global. Muito provavelmente, se você encontrasse Abraão ou Noé hoje, chamaria a policia ou a ambulância do manicômio. Nesse sentido, Aquiles é absolutamente distinto de Abraão, porque a imortalidade do herói grego se efetiva na morte prematura e na fama que sucede após essa morte. A permanência de Abraão se dá na sua linhagem, na continuidade de sua herança cultural. Aquiles morreu antes de ser pai e como cantava o Ira, na época em que o mundo parecia mais simples: "se o meu filho não nasceu, eu ainda sou um filho". Abraão é um pai arquetípico, antes mesmo de ser um pai real, é um pai espiritual, que não sobrevive por si mesmo, nem pelos seus feitos extraordinários, mas sim, fundamentalmente pela sua presença oculta na linhagem espiritual de mais de metade da humanidade. Por que o que é um Pai senão essa presença oculta que se mantém no organismo dos homens? O que é um pai senão essa herança, essa permanência silenciosa, esse estranho e desconhecido pertencimento que une os diferentes e separa os iguais? |
| por pablocapistrano [06:33] |