| 31.12.08 |
| FELIZ 2009 |
| PARA TODOS AQUELES QUE AINDA ACREDITAM UM GRANDE ABRAÇO E UM BOM 2009 SHALOM ALEICHEIM |
| por pablocapistrano [18:32] |
| 24.12.08 |
| Dose Dulpa para a noite dos cristãos |
![]() ![]() O Jesus judeu. Quando minha filha, Sarah, nasceu eu tive que ir a um cartório. Essa não era a minha primeira peregrinação através de cartórios para registrar filhos. Sarah era minha terceira cria e eu já estava acostumado a repetir o procedimento padrão para dar um nome civil a alguém. Mas, naquele dia, eu notei algo que havia me passado despercebido outras vezes. Lá, bem no canto do prédio, havia uma porta e sobre ela os dizeres: "Sala de casamento". Com algum esforço eu pude mesmo do balcão, direcionar meu olhar curioso para vasculhar o que havia dentro daquela sala tão significativa, espremida entre os bancos e os birôs dos atendentes. Lá dentro havia algumas cadeiras, uma mesa de madeira negra e, sobre ela, fixo na parede, dominando com uma estranha luminosidade ocre o ambiente, a imagem de um cristo crucificado. Curioso não é? Em terra de marrano, mesmo em um cartório público, vigora com mais força o princípio geral de presunção de cristandade que afirma: "Todo mundo é católico até que se prove o contrário". Não há como negar. Nosso país é uma invenção da língua portuguesa e da Igreja Católica, por isso, não ser cristão no Brasil é difícil. Mesmo as demoninações evangélicas precisaram de uma longa travessia para serem toleradas e aceitas. O mais curioso é que José e Maria, não teriam condições de casar naquele cartório, nem naquela sala de casamentos porque, curiosamente, nem José, nem Maria, eram cristãos. José, Maria e Jesus (o histórico) nasceram em um ambiente judaico e apesar do Evangelho de João ter disseminado na cristandade a idéia de que Jesus não era Judeu e de que teriam sido esses "judeus" que o mataram de forma cruel, é muito provável que Jesus filho de José tenha sido educado nos princípios fundamentais de um dos inúmeros judaísmos que fervilhavam naquela época na terra de Israel. Saduceus, Fariseus, Zelotas, Essênios; todos grupos judaicos divergentes que interpretavam de modo variado a Lei de Moisés e a praticavam segundo suas leituras particulares. Provavelmente se você voltasse no tempo até aquela época, não conseguisse diferenciar de forma clara os primeiros discípulos de Jesus, de uma dessas facções judaicas. Talvez você não saiba, mesmo sendo um cristão devoto, que Tiago, identificado como irmão de Jesus, defendia a idéia de que todos os cristãos, além de serem circuncidados, deveriam orar no Templo de Salomão. Esse primeiro cristianismo incorporou elementos muito significativos do Judaísmo como o batismo (que até hoje é usado para converter alguém que não é filho de mãe judia ao judaísmo), ou mesmo a incorporação de algumas festas judaicas como a de Pessach (páscoa). Só em 49 da era comum, após o primeiro concílio cristão em Jerusalém é que Paulo de Tarso aparece para opor-se a Igreja de Tiago e levanta a tese da não necessidade de circuncisão para a adoção da fé cristã. O que estava por trás dessa primeira grande peleja entre cristãos, era a oposição que envolvia certo tipo de judeu nacionalista, apegado às idéias de resistência contra a dominação romana, e judeus helenistas (como Paulo) que falavam grego e se adaptavam bem as novidades da cultura que vinha de Roma. Antes de se transformar definitivamente em cristianismo, a partir do concílio de Nicéa (325), a religião de Jesus passou por um lento processo de "desjudaização" que a afastou do oriente e a aproximou no mundo Greco-romano. Nesse processo algo se perdeu. As festas do ano novo judaico (Rosh Rashanah) foram substituídas pelas comemorações pagãs em homenagem ao Sol (25 de Dezembro). Os tabus alimentares foram aos poucos sendo abandonados, e a crença monolítica em um Deus único sofreu alguns ?ajustes? para se encaixar melhor ao gosto Greco-romano. De Tiago a Lutero o cristianismo se formatou construindo uma curiosa mistura que unia Jerusalém e Atenas sob os auspícios de Roma. Essas três cidades são centrais na mistura cristã e não podemos pensar, ainda mais nessa época de Natal, que o serviço de criar essa religião se deva apenas aos esforços do Rabino Jeshuah ben Joseph (Jesus de José). Muitos cristãos não sabem, mas nem todos os judeus na época de dominação do império romano praticavam as atitudes criticadas pelo rabino Jeshuah. Se os Fariseus cumpriam rigorosamente as prescrições da Lei, os adeptos do Rabino Hilel, por exemplo, entendiam que o mais importante era: "Amar a Deus sobre todas as coisas, e os outros como a si mesmo, porque o resto é interpretação". Essa postura livre, calcada na busca de uma ética da interpretação não dogmática da lei mosaica, na oração (no trabalho místico) e na caridade, que salta de boa parte dos quase 33 evangelhos de Jesus que se tem notícia, tem base no judaísmo. Apesar de toda a carne queimada nas fogueiras, todo sangue derramado nos pogrons e na montanha de corpos asfixiados nas câmaras de gás não se pode perder essa dimensão, por pior que seja, para você, amigo devoto, a imagem do judeu. Religiões não caem do céu. Elas são produtos históricos que expressam os esforços do homem em encontrar um modo de se relacionar com o divino que vezes surge e vezes se esconde na vida de cada um. Nesse esforço por construir pontes, caminhos, veredas e passagens para o sagrado, os homens também costumam a cavar seus abismos, e apagar as pistas daquilo que eles mesmos construíram. Nesse tempo de Natal, se você é cristão, não há porque pensar que essa festa seja só sua. Talvez, seu vizinho, judeu ou mulçumano, possa ser mais parecido contigo do que você imagina. Talvez, uma boa parte daquilo que você professa não seja seu. Talvez, boa parte daquilo que você acredita, tenha vindo de um ponto no tempo, de um lugar no espaço que precisa ser recuperado e reconstruído, para que isso que nos divide também não acabe por nos destroçar. O Jesus mulçumano. Não sei se você já pensou nisso, mas toda imagem gravada na memória coletiva, tem uma história. Algumas dessas imagens, no entanto, são tão significativas, que causam a falsa impressão de que são eternas. A imagem de Che Guevara na caixa amplificada da banda Rage Against the Machine, por exemplo, redimensionou a famosa foto de Alberto Korda, e a catapultou no cenário underground norte americano, tornando-a um cult entre os descolados nos anos noventa. A música, aliás, foi no século passado um poderoso veículo de disseminação de imagens, que diga o Bob Marley, que teve seu rosto canonizado em camisetas a partir da foto da capa do seu disco Kaya (1978). No mundo das celebridades a arte se torna parceira na imortalidade da imagem e o artista acaba muitas vezes usurpando a fama do retratado para, ele mesmo se canonizar, como, por exemplo, Andy Warhol, que violentou a foto de Marylin Monroe, produzindo a mais representativa imagem Pop. Muitos podem ser os exemplos, mas, com a devida licença comparativa, nenhuma imagem é mais significativa no ocidente do que a de Jesus. Chê Guevara, Bob Marley e Marylin Monroe que me perdoem, mas a figura mais fashion da iconografia ocidental é mesmo Jesus. Dos famosos afrescos de Giotto na Capela Arena, em Pádua, pintados entre 1303 e 1305 da era comum à herética pintura de James Ensor, intitulada O Ingresso de Cristo em Bruxelas de 1889, Jesus foi amplamente representado na arte ocidental. Talvez por isso, por essa vinculação tão estreita com a iconografia européia, o Jesus preferido da cristandade tenha sido o de um caucasóide de longos cabelos claros e plácidos olhos azuis. Imagine qual não seria o estranhamento se um cristão se deparasse, por exemplo, com a imagem que faz parte das miniaturas do livro Khamesh (1665-1667), do poeta persa Nizami. Na gravura intitulada "Jesus e o cachorro morto" aparece um homem montado em um cavalo, diante de três outras pessoas que estão ao redor de um cachorro preto. Esse homem veste uma túnica amarelo-ocre e usa um longo turbante branco. Ao redor da sua cabeça levanta-se um fogo místico que denota a sua condição especial. Tirando a barba, não há absolutamente nada na imagem desse homem que dê a um cristão ocidental, um sinal, um indício de que ali se trata de Jesus filho de José. O estranhamento causado pelo contato com essa imagem, deve ser o mesmo que toma conta dos cristãos ao conhecerem mais a fundo o Jesus mulçumano. No Corão o profeta Jesus tem um status especial. Ali ele aparece como um dos mais importantes profetas do Islã junto de Adão, Davi, Abraão e Moisés. Todos eles seriam, na leitura islâmica, homens que teriam tido um contato aprofundado com Alá e que estariam preparando terreno para a revelação definitiva de Maomé. Os mulçumanos têm, inclusive, um evangelho todo particular, que contém inúmeros provérbios que vão desde referências ao apocalipse, até histórias ascéticas que versam sobre "pobreza, humildade, silêncio e paciência". Boa parte das parábolas da versão mulçumana do evangelho derivam do Sermão da Montanha, mas existem algumas diferenças significativas entre o profeta Jesus e o "Senhor Jesus" dos cristãos (assim como deve haver muitas em relação ao "Rabino Jesus" dos Judeus). Nos evangelhos mulçumanos Jesus anuncia sem titubear: "Abençoado é aquele que lê o Corão e faz o que nele está" (em outras versões aparece: "Abençoado é aquele a quem Deus ensinou o Seu Livro"). O fato é que o Islã nasceu em um tempo e um espaço no qual a figura de Jesus era muito popular. Não sei se você sabe, mas durante muito tempo, principalmente os primeiros trezentos ou quatrocentos anos da era comum, a grande maioria dos adeptos do cristianismo eram orientais. Na Síria, no Egito, no Iraque, boa parte dos convertidos ao islamismo eram cristãos. Assim, todo um conjunto de crenças e histórias populares derivadas da tradição oral ou da multidão de evangelhos apócrifos que circulavam no oriente acabou fundida na construção da imagem desse profeta, que anda de cavalo e usa turbante. Para os mulçumanos o mais importante da história de Jesus não é sua morte e sua crucificação. Eles não acreditam que ele tenha sido crucificado (essa teria sido uma das distorções que o cristianismo produziu para aproximar o profeta Jesus dos deuses greco-romano que morrem e renascem e na verdade o mulçumano jura de pé junto que alguém foi crucificado no lugar de Jesus para enganar as autoridades romanas). O importante mesmo é o nascimento, dentro de uma caverna (não há manjedoura na versão mulçumana) no meio do deserto, apenas com Maria e um anjo ajudando no parto. Sei que você vai dizer que eu sou um homem sem fé, mas eu acho que, se a imagem de Jesus sobreviver ao próximo milênio, é muito provável que ela seja bem diferente da que temos hoje e, quem sabe, tenha que concorrer com as imagens de alguns desses candidatos a santo pós-modernos como Che Guevara, Bob Marley ou Marilyn. Se o cristianismo quiser durar até o dia do juízo vai ter de se reinventar para acompanhar os movimentos do tempo e a imagem de Jesus com certeza vai mudar junto. Isso porque é bom que a gente nunca se esqueça que, na maioria das vezes, uma imagem diz mais sobre quem a produz do que sobre quem ela retrata. |
| por pablocapistrano [18:36] |
| 15.12.08 |
| Sangue Futebol e lágrimas |
![]() Vou pedir permissão a você, leitor amigo, para confessar uma fraqueza moral. Nessas últimas semanas eu andava com um sorriso sádico no canto da boca sempre que ouvia na TV notícias sobre o possível rebaixamento do Vasco da Gama. Mesmo o Flamengo dando todos os indícios de que iria realmente "pipocar" vergonhosamente no final do campeonato brasileiro, o noticiário sobre o Vasco mantinha minha alma rubro negra efervescente. Sabe como é... Flamengo e Fluminense são opostos. São forças contrárias que habitavam em um momento arcaico da história do futebol brasileiro, o mesmo clube. Hoje há um caso de amor e ódio envolvendo o Flamengo e o Fluminense. Quanto ao Vasco, bem... Vasco e Flamengo são contraditórios. Se auto-excluem porque compartilham de um mesmo imaginário popular, tem uma mesma classe social (apesar do Vasco ser um time de colônia, como o Palmeiras, ou a Portuguesa) como base de seus torcedores. Nesse caso a questão é de ódio e ódio. Mas, desejos soturnos à parte, eu tive uma fraqueza moral. Cedi na última hora. No derradeiro momento, no definitivo segundo em que minha faceta rubro negra iria dançar sobre o cadáver cruz maltino, regozijar-se sobre a desgraça e a tragédia anunciada em São Januário, eu falhei. Me compadeci, me apiedei. Fiquei triste com o rebaixamento do Vasco. Sim, confesso: eu fiquei triste. Quase chorei quando vi a imagem na TV de um torcedor pendurado na marquise do estádio, como se a coroação última de sua vida fosse aquela derrota. O fato é que esse estranho sentimento de solidariedade diante da tragédia do rival não parece ser normal quando o assunto é futebol. Futebol não é esporte, é um traço de identidade. Estar ligado a uma torcida é estar ligado a uma particularização, a uma determinação. É como ser de uma etnia, de uma classe social, de uma religião ou de um gênero sexual. Participar do futebol é de certo modo, diminuir a humanidade, porque tudo que cria identidade, também exclui. Torcer pelo Flamengo, América de Natal, Vitória ou Sport, implica ser diferente de quem torce pelo ABC, Náutico, ou pelo Bahia. A solidariedade entre torcedores de um mesmo time exclui a piedade dirigida aos torcedores do rival, essa é a regra básica do anti-humanismo futebolístico. O problema é quando essa paixão que divide e esquarteja, se torna veículo de outros tipos de distúrbios. Em 2001, os Ultras (torcida organizada da Lazio) famosos pela filiação política aos partidos fascistas na Itália abriu uma faixa, na partida contra a Roma, com os dizeres: "Scuadra di Negri, tifoseria di ebrei" (Time de Negros, torcida de judeus). A Europa é palco fértil para esse tipo de expressão racista no futebol. Se no Brasil, a grande questão que opõem os clubes é a classe (os times de elite, contra os times do "povão") na Europa a cor da pele, etnia, religião, tendências políticas e os mais bizarros regionalismos são os elementos que criam as rivalidades. Curiosamente, no Sul do Brasil, esse tipo de uso racista do futebol começa a preocupar. Esse semestre uma gangue neonazista que não aceita mulheres, homossexuais e negros nos estádios e que se diz parte da torcida do Grêmio de Porto Alegre, chamada de G.A.S (Geral Ataque Surpresa) teria ameaçado membros de uma outra torcida organizada, do próprio clube, chamada de "Máfia Tricolor". A celeuma girava em torno do fato de que uma bandeira, com a imagem de Everaldo (Jogador do Grêmio, e tricampeão mundial com a seleção de 70) havia sido estendida no Olímpico. Qual era o problema com o Everaldo? Simples: ele era negro. Torcer é por si só um ato de embriaguez. Mesmo quem não entende absolutamente nada de futebol, ainda sim, pode ser tragado pelo sentimento irracional e completamente desprovido de propósito de sacrificar a própria sanidade mental, o próprio dinheiro e a própria paz de espírito por um time. Isso eu entendo. Não sei explicar, mas entendo. Agora, quando o futebol deixa de ser ele mesmo e passa a ser um meio para que outros tipos de doença social se manifestem, ai, o negócio complica. Pois é camarada, no futebol o sono da razão também cria seus monstros. |
| por pablocapistrano [12:34] |
| 11.12.08 |
| O som e o sentido |
![]() 27 de Novembro de 2008. A voz do Carito, no belo vídeo dirigido pelo Mário Ivo (palavreando), me desperta com a pergunta definitiva: "o que significa palavra?". Eu não consigo me lembrar do que era o mar, para mim, antes que eu pudesse dizer a palavra "mar"; eu não consigo entender quem eu era antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Quanto mais eu ando, nessa vida que parece larga e rasa, mais eu sinto que todo esse cenário, que toda essa longa sucessão de takes que de vez em quando preenchem meu presente através daquilo que a minha memória cria, é só uma fantasia estranha da linguagem que eu aprendi. Isso a poesia me ensina e a poesia dos Poetas Elétricos um pouco mais do que todas as outras poesias. Ouvindo o CD novo do grupo (Estirado no Estirâncio ? lançado pelo selo dos Jovens Escribas) todas as palavras do meu parco dicionário de pouco mais de trinta anos, parecem ganhar novas dimensões. No fim da audição, eu já não sei mais quais novos sentidos eu posso extrair dos velhos sons que minha boca pronuncia, tão cotidianamente. A experiência dos Poetas Elétricos não é só sonora. Eles não estão apenas em uma banda da canção (na música ou na poesia). Entre o som e o sentido, os Poetas Elétricos atacam a linguagem, fazendo com que aquilo que une o som das palavras ao seu sentido seja desempacotado da nossa ordinária forma de falar. Dizer parece fácil e quando eu digo alguma coisa o mundo vira aquilo que eu disse. O mundo das palavras triviais e de seus sentidos comuns é também um mundo fácil e tedioso da comunicação automática. A linguagem passa por nós sem que a gente possa percebê-la, mas a poesia nos arrasta em direção à palavra para que a gente possa perceber, aquilo que a palavra guarda (seu som, seu sentido, suas imagens e suas possibilidades). Mas os Poetas Elétricos não escrevem sobre o escrever nem tocam sobre o tocar. Há um objeto de desejo fora da linguagem. Há o amor, há o conjunto de referências de Drummond à Arrigo Barnabé, há a paisagem, há a liberdade do homem para sonhar seus próprios sonhos como na faixa de abertura (que às vezes parece exigir um outro vídeo do Mário Ivo, tamanha a sedução que as imagens de uma ponta de terra entrando no mar, cercada de areia monazítica, e untada por um céu doído de tanto azul, contém). Entre o som e o sentido os Poetas Elétricos nos apresentam seu universo particular de referências através do espanto fundamental que toda a arte provoca. Viver é uma experiência radical. No canto da nossa linguagem, aonde ela toca o mundo e a gente aprende a caminhar por essa vida como se o mundo fosse algo mais do que a poesia da natureza, que atravessa com seus pavores e seus mistérios nossa alma, encaixotada em um lúdico pacote de palavras. No canto da sensibilidade de alguém que cresceu criança para brincar o jogo do som e do sentido, como o Carito (letrista do grupo) faz o tempo todo, até nos e-mails que escreve. No canto das impressões e imagens particulares que imprimem-se na memória do fotógrafo ou do cineasta, que se deixam invadir pela força visual dessa natureza que é tão maior do que todos nós. Em qualquer canto, há espaço para a poesia bem construída, para a palavra inusitada, para o som que desconcerta. Aquilo que nos surpreende; que nos encanta (que joga o canto para dentro da gente), que deixa que o seu som, se aquiete no sorriso que fica no canto do lábio, quando a gente percebe o seu jogo. Num tempo de tanta semelhança, onde os pacotes de novidade da indústria do rock parecem tão iguais, estirar-se no estirâncio sonoro dos Poetas Elétricos é a melhor coisa a se fazer, antes que o verão nos arraste para o mar e a gente fique entorpecido de calor e de silêncio. Palavreando. |
| por pablocapistrano [11:53] |
| 2.12.08 |
| Os nomes de D´us |
![]() Não sei qual foi a primeira palavra que eu aprendi, mas acho que foi meu próprio nome. Se essa não foi a primeira palavra pelo menos se tornou, com o passar do tempo, a palavra mais importante e a mais perturbadora. Nos anos setenta era difícil encontrar um outro "pablo". O primeiro xará que eu conheci foi aos quinze anos, em 1989. Durante todo esse tempo, sempre que eu ouvia a palavra "pablo" tinha a nítida sensação que alguém havia me descoberto. A ausência de outros "pablos" na minha infância me fez querer trocar de nome: "Pedro", "Hugo", "João", queria um nome mais comum, um nome usual que pudesse me encobrir, me disfarçar e fazer com que eu pudesse ser qualquer outra pessoa. Talvez eu estivesse, naquele tempo, tomado por um estranho realismo lingüístico que identificava o meu nome com a minha própria natureza, como se o fato de eu me chamar "Pablo" pudesse determinar meu Ser, indicar algo sobre meu destino, ou ser decisivo na minha personalidade. Talvez por essa antiga ansiedade eu tenha entendido o sentido do mandamento judaico que ordena não usar o santo nome de Deus em vão. No Hebraico antigo a mesma palavra usada para designar o substantivo "coisa" é usada para designar o substantivo "palavra". "Palavra" e "coisa" no hebraico Bíblico são iguais. Usar um nome é, nesse sentido, se apropriar da coisa nomeada. Por isso esse receio que muita gente tem, inclusive aqui por essas bandas, de chamar o nome próprio do tinhoso. Precisamos usar outras formas nominais para que a "coisa" não apareça no mesmo pacote da palavra que a denomina. Na tradição judaica, pronunciar o nome de Deus é algo grave, porque (se a palavra é a coisa) dizer o nome do Eterno criador do mundo é trazer à presença a própria base que sustenta o cosmo. Daí a regra fundamental de, sempre que o tetragrama sagrado (composto em hebraico pelas letras Yod, He, Vav e He e transliterado em português da seguinte forma: YHWH) aparece, o judeu observante das regras religiosas precisa substituir o som desse nome por outro. Adonai, El Shadai, Elohim Shabaot, Adonai Shabaot, Elohá, El, Ehieh, Iah: existem, de acordo com as tradições místicas judaicas, diversos nomes para Deus. As combinações de letras, palavras, e sons totalizam 72 nomes que compõe uma curiosíssima estrutura numérica e lingüística que perpassa toda Torah. Esse é um elemento fundamental da doutrina hebraica, como não existem imagens, nem representações gráficas do Eterno deus de Israel, seu nome é sua mais importante representação. O judaísmo é uma religião de símbolos e não de ícones. Sua estrutura mais profunda nos leva a manipular com a linguagem em fórmulas escritas e pronunciadas. Como não existem ícones particulares para números, cada letra tem também um valor numérico que permite uma série de cálculos e de combinações que trazem à tona sentidos completamente inusitados para o texto bíblico. Por exemplo, a primeira letra da Torah é o "beit" equivalente ao nosso "b" (presente na expressão Breshit ? no princípio) seu valor é 2. A última letra na Torah é o "lamed", equivalente ao nosso "l" (presente na palavra "Israel" ? cujo valor numérico é 30). Somando-se o início e o fim da Lei do universo tem-se o número 32, que faz referência, às 22 letras do alfabeto hebraico somadas aos dez principais nomes de Deus que aparecem na Bíblia. Esse tipo de jogo lingüístico e numérico serviu de base para um sem número de interpretações místicas como a da Kabalah (sistema místico que remota, segundo a tradição ao primeiro século antes de cristo, mas que eclode na Espanha no século XII). O fato é que no judaísmo a palavra não é só um signo oco, solto em uma esfera de linguagem descolada do mundo. Uma palavra não faz apenas referência a uma outra e uma outra e uma outra. Um nome é muito mais do que um conjunto de letras e sons, ele é a própria coisa nomeada. Por isso, só o sumo sacerdote, no dia do perdão, no centro do Santo dos Santos, o templo de Salomão, em Jerusalém, poderia pronunciar corretamente o tetragrama sagrado que contem o nome de Deus: YHWH. Assim, quando um escriba escreve, linha à linha, palavra à palavra, letra à letra, uma cópia (que só pode ser à mão) do Sepher Torah (O livro da Lei), que os cristãos conhecem como "O Pentateuco"; não pode haver erro. Um equívoco, uma letra fora do lugar, um nome escrito errado e não é apenas uma cópia de um rolo de pergaminho que vai para o lixo. Errar a grafia do Livro da Lei, para um judeu observante, é tão grave quando mexer na própria estrutura do universo. Porque aquelas palavras e aqueles nomes, escritos naquele livro, não são só linguagem. Eles trazem consigo a própria estrutura do universo. Disse minha mãe que meu nome nasceu no começo dos anos setenta, quando, em Maracajaú, na casa de Walter Varela, meus pais ouviam Milton Nascimento bem no meio de um tempo em que o vento daquele mar e o calor daqueles velhos verões em uma praia ainda deserta, faziam com que se sonhasse mais, se desejasse mais e projetasse mais algum futuro. Um tempo no qual a palavra esperança tinha alguma referência e havia muito poucos "pablos" por aqui. Hoje os "pablos" são banais. A estranheza de ouvir meu próprio nome já arrefeceu e agora, nesse novo mundo em que palavras são só palavras, e signos se multiplicam sem nenhuma referência as forças do mundo, me sinto livre. Hoje, eu ando espalhado pela linguagem das pessoas como se minha natureza não fosse mais minha, como se eu, não estivesse assim, tão só, como uma ilha, cheio de mim, cercado de outros por todos os lados. |
| por pablocapistrano [06:47] |