| 28.1.09 |
| O quarto elemento |
![]() Conta Jean Pierre Vernant, que as meninas da Ática, região da velha Grécia não podiam se casar, ou seja coabitar sexualmente com um homem, caso não tivessem entre os cinco e os dez anos imitado a ursa. Esse era o chamado "ritual de Brauron" e fazia referência a uma antiga história sobre uma ursa que teria vindo espontaneamente habitar nas redondezas do templo da deusa Ártemis. Reza a lenda que uma menina imprudente teria passado um bom tempo brincando com essa ursa até que, inevitavelmente, teria sofrido um profundo arranhão no rosto. Cego de fúria, o irmão da menina teria ido até o templo e matado a ursa. Desse dia em diante, como reparação pela ofensa à deusa Ártemis (deusa da natureza selvagem), as filhas dos cidadãos atenienses tinham, como regra fundamental, que imitar a ursa, antes de estarem prontas para conviver sexualmente com um homem. Curioso, não? A imitação do animal selvagem que se domestica e que aceita a convivência com os homens era um dos aspectos do sagrado feminino. A força natural sem controle que se apazigua, que se torna dócil e se submete, para que a união sexual depois da cerimônia de casamento, não se transforme em estupro. A resistência da mulher, sua selvageria, sua insubordinação precisavam ser vencidas e a melhor maneira de realizar isso seria pagando um tributo religioso à deusa virgem da floresta, para a senhora da caça e dos animais que moram nos bosques. Muitas são as formas que o sagrado feminino toma na história da humanidade. Das velhas imagens de mulheres gordas de fartos seios arredondados latejando de fertilidade, encontradas nos sítios pré-históricos até as imagens de Ìsis, com seu filho Hórus, no colo (que serviu de modelo para a representação cristã de Nossa Senhora com o menino Jesus); todas as facetas possíveis da feminilidade eram objeto de culto, da maternidade à administração do lar; da promiscuidade sexual à e castidade; da sabedoria estratégica à insubordinação selvagem e sem lei. No monoteísmo judaico, o sagrado feminino, antes tão presente, foi ocultado. O nome da deusa, que deveria aparecer junto aos nomes de Deus, como nas epopéias sumérias que parecem ter servido de base para a formação de parte do livro de Gênesis, foi apagado e sua referência tornou-se indireta, relacionada a figuras como a Shekinah de deus, a rainha do Shabat, a noiva celestial. Uma presença feminina, insinuada como uma sombra ao lado do grande macho divino, Rei do universo. Quando a Europa se cristianizou, precisou adequar essa base judaica para que seus novos adeptos (celtas, gregos, latinos e germânicos) pudessem encontrar, no meio daquela moral judaica, daquela utopia humanista, algo que tivesse a ver com sua própria cultura. Foi na era dos grandes concílios, a partir do de Nicéia em (325 da era comum) que alguns dos dogmas mais conhecidos do cristianismo começaram a ser formatados. Nesse tempo, perto do fim do velho mundo antigo, no alvorecer da era medieval, o sagrado feminino teve na Europa o seu deslocamento. O Deus cristão se tornou três: Pai, Filho e Espírito Santo, o triângulo retângulo de Pitágoras (aquele do quinto ano do fundamental). A tríade de Platão que renasce na idade média, carregada para dentro da Igreja do Cristo pelos primeiros teólogos. Na doutrina oficial, a trindade é um estranho e insondável mistério, que não se explica e que não se entende, mas que tem sua utilidade. Manter uma base pagã, platônica, sobre uma capa de monoteísmo. Mas a mulher, a deusa, para onde ela foi? O que aconteceu com sua presença sagrada? No final do livro "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley, que conta a história do mitológico rei Arthur a partir do ponto de vista das mulheres, aparece uma pista importante. Morgana (irmã de Arthur) vê uma imagem de Nossa Senhora em um Templo Cristão. O grande mote desse livro gira em torno de como o paganismo celta foi substituído pelo catolicismo e Morgana, que era uma sacerdotisa dessa velha religião (mais conhecida nas bancas de revista e nas lojas de quinquilharias esotéricas com o nome de Wicca) ao olhar a imagem da virgem, se questiona se ali não estaria a presença da Deusa. O cristianismo popular, não importa o que digam os doutrinadores, não importa quanto esperneiem os teólogos, divinizou Maria. Ela não é apenas o receptáculo de Deus (Theótokos), ela é o quarto elemento. A conexão misteriosa que aparece na trindade, a linha que une os aspectos cindidos da divindade cristã. Mãe de Deus filho, filha de Deus pai, noiva de Deus espírito Santo, Maria é, no cristianismo católico, o que sobrou do sagrado feminino após o colapso do antigo mundo pagão na Europa. Ela retém como a Shekinah judaica, a linha que une nossas crenças à força dos antigos ritos de fertilidade, à memória do tempo em que nós não conhecíamos a palavra "pai" e que nosso pertencimento no mundo dependia da nossa ligação, física, material e cultural, com nossas mães. Shekinah, Ìsis, Ishtar, Gaia, Iemanjá, Maria. Não importa o nome: Ela ainda está entre nós. O sagrado feminino se metamorfoseou e ganhou um disfarce tolerado pela Igreja e que fala fundo na alma dos cristãos católicos nos quatro cantos do planeta, mesmo com a recorrente e incômoda dúvida lançada pela pergunta de Morgana (A fada), no final das Brumas de Avalon: "o que sabe uma virgem das coisas do mundo?". |
| por pablocapistrano [16:18] |
| 9.1.09 |
| Postagem de Verão - Ecce Homo |
![]() Não sei se você sabe, mas eu estudei em uma escola católica até concluir o meu ensino fundamental. Na época, em Natal, minha cidade, não havia muitas opções. Lembro que, naquele tempo, tínhamos aula de religião e geralmente essas eram, na verdade, aulas de uma única religião que era a do cristianismo católico. Costumeiramente a gente se deslocava até a sala de projeções onde uma freira exibia rolos e rolos de filmes religiosos em um Super 8 (sim, eu sou de um tempo em que vídeo cassete era um artefato de alta tecnologia). Lembro com mais intensidade, até hoje, dos filmes sobre os episódios do velho testamento, mas também lembro de uma intuição estranha que eu tive quando assistia um episódio sobre a vida de Jesus. Me espantou muito que Deus tenha encarnado, se manifestado em carne e sangue na terra, e que sua divindade não tenha sido reconhecida de imediato, por toda humanidade. O que havia de errado com o homem para não reconhecer Deus quando Ele se manifestasse? Que Deus era esse que não era reconhecido nem pelos seus próprios filhos? Aonde estaria o problema: na criatura, ou no criador? Anos depois, junto a minha incapacidade de decorar o credo católico, acabei tomando aquela intuição como um sinal de minha pouca fé, ou da incoerência de se pensar que Deus possa ter tomado a forma de um homem. Hoje, um pouco menos atado a literalidade do relato bíblico, e mais afeito a leituras pouco ortodoxas da história de Jesus, percebo que a mais significativa mensagem por trás do descompasso da crucifixão é a de que a humanidade não consegue enxergar sua própria sacralidade. Se há uma grande inovação no cristianismo em relação ao judaísmo que o gerou, está justamente no fato de que o cristianismo é uma religião que se pretende universal. O que isso significa? Ao contrário das religiões étnicas ou geográficas, que eram transmitidas hereditariamente a partir do sentimento de pertencimento a um grupo, a uma comunidade ou a um lugar, o cristianismo se direcionava a humanidade a partir de um sentimento de comunhão e de unidade envolvendo qualquer raça, qualquer sexo, qualquer classe. O princípio fundamental de fraternidade cristã contém uma mensagem revolucionária porque quebra com limites impostos pelas sociedades antigas, divididas em castas e separadas radicalmente em uma dialética que opunha senhores e escravos. As catacumbas do cristianismo primitivo eram espaços de comunhão, locais onde os escravos e os senhores perdiam suas antigas referências e sua estratificação social e eram enterrados lado à lado, como humanos simplesmente humanos. Montaigne escreveu nos seus ensaios: "nada do que é humano, me é estranho", esse bem que poderia ser o mote do cristianismo primitivo, ou talvez de algumas de suas versões, que se multiplicavam pelo império romano, fundindo-se e miscigenado-se com outras seitas como o mitraísmo ou os cultos dos mistérios de Eleusis e Dionisus. A estranheza da mensagem cristã, estava nessa radical idéia de que havia uma unidade fundamental que ligava os sujeitos. Essa era a unidade trágica do cristo, que antes de ser um homem ou um deus, era um termo que fazia referência a própria humanidade. Hoje, quando um Papa afirma que a humanidade precisa "ser salva" do comportamento homossexual, como o meio ambiente precisa ser salvo do desmatamento, eu suspiro e penso que continuamos tediosamente a não reconhecer a sacralidade do humano. Continuamos a cuspir no rosto desse cristo desconhecido, negligenciado por aqueles que lhe são iguais. "Nada do que é humano, me é estranho". Essa mensagem desapareceu em algum ponto do caminho da religião cristã. Vez ou outra (por suas próprias autoridades) percebemos a justificativa de tipos tão variados de exclusão que levam os cristãos a comungar do mesmo ódio e da mesma prática classista, sexista, etnocêntrica, como se o cristianismo fosse mais uma dessas crenças de separação e de exclusão. Não importa se você está queimando judeus, ou condenando o "comportamento homossexual". Talvez o pecado (na mente de alguns) fique tão ligado ao pecador que não seja possível acabar com o primeiro sem destruir o segundo e no limite desse sentimento de purificação, perde-se a dimensão fundamental da humanidade, e passa-se para a repetição dos mesmos expedientes de massacre, espoliação, destruição e escravização que se repetem na história dos homens. Diz Werner Jaeger (um dos grandes estudiosos da cultura clássica) que quando os primeiros cristãos apareceram pelas cidades gregas da costa da Turquia, os helenos não entenderam aquela estranha seita como uma "religião". Para eles aquilo era mais uma escola de filosofia. Eles puderam enxergar que havia uma base ética e uma metafísica latente que distinguia o cristianismo dos cultos pagãos. Com o tempo o cristianismo esvaziou esse conteúdo ético e perdeu-se em uma ritualização vazia. Hoje 2000 anos depois, o Jesus dos cristãos às vezes aparece na TV como um clínico geral, um terapeuta de casal ou como um corretor de imóveis. Às vezes ele permanece apenas como um simples quadro na parede, uma sombra em meio a um punhado de palavras incompreendidas ou a justificação para um conjunto de práticas mais ou menos automáticas. A utopia cristã ainda nos é estranha, e a tarefa de reconhecer a sacralidade no humano (vezes esquecida, vezes simplesmente negada) ainda surge como uma obra em construção, que, talvez, nunca se complete. |
| por pablocapistrano [11:39] |