| 27.2.09 |
| O Caso Paula |
| O Caso Paula. Não faz vinte dias e eu havia acabado de chegar, à noite de mais uma maratona de aulas na faculdade em que trabalho. Geralmente meus rituais de fim de expediente se repetem e como a maior parte do meu trabalho é noturno, esses rituais acontecem entre as 23 e as 01 da manhã. Não sei se você já pensou nisso, mas são preciso cerca de uma hora e meia ou mais para que um professor possa estar pronto para dormir, após quatro horas de falatório para turmas de 60 ou 70 alunos. É preciso desacelerar. Um banho quente, uma bebida morna e um telejornal para repassar notícias do dia fazem parte desse conjunto particular de cacoetes (acho que só o telejornal é desaconselhado pelos especialistas nos mistérios do cérebro, porque hoje, eles são feitos para servir ao deus da insônia). Como eu dia dizendo, não faz vinte dias que um desses telejornais despejou no Brasil uma notícia chocante, dessas de deixar ligado a madrugada inteira até o mais hipotônico depressivo. Uma jovem advogada brasileira, grávida de gêmeos, havia sido vítima na Suíça, de um ataque de jovens Skinheads neonazistas, um dos quais com a suástica tatuada na cabeça. A jovem teve seu corpo retalhado, abortou os gêmeos, e, em meio hematomas que lhe cobriam dos pés à cabeça, teve a sigla do Partido do Povo Suíço (SPV) riscada à golpes de navalha nas pernas e no ventre. Essa era a bomba do dia, o furo da semana. A revolta tomou conta da nação, ainda mais quando a polícia suíça passou a insinuar que a brasileira poderia estar mentindo. Veio a mente de todos, o caso do brasileiro Jean Charles, executado sem piedade pela polícia da Inglaterra, após ser confundido com um terrorista. Semanas depois o mesmo telejornal entra com um outro informe confirmando que Paula Oliveira havia enganado todo mundo. Nada daquilo era real, a gravidez, o ataque de Skinheads, a violência xenófoba contra estrangeiros (ao menos naquele caso). O SPV (partido com uma retórica eminentemente neo-fascista e contrária a presença de imigrantes no país) havia retirado seu esfíncter político da reta e a boa imagem da Suíça como um país tolerante havia sido preservada. De repente, de vítima a advogada Paula Oliveira se transformou em agente de uma inquietante farsa e motor de um dos grandes vexames do segundo governo Lula, que se adiantou às informações oferecidas pela embaixada Suíça e se pronunciou como se a notícia daquele telejornal noturno fosse suficiente para pautar sua atuação em política externa. A mudança de tonalidade dos jornais foi rápida e eficaz. Do mesmo modo como haviam plantando em nós a certeza da veracidade do ataque covarde à pobre advogada brasileira, tomando a versão como fato sem ao menos uma informação segura da polícia Suíça e sem ao menos admitir outra possibilidade que não a veiculada pela família, ou pelos espaços da internet (que noticiam instantaneamente qualquer informação que lhes caiam nas teclas). O lado terrível dessa história é que nós não fomos enganados por Paula Oliveira. Ela talvez tenha tentado enganar o namorado ou a família dizendo que estava grávida ou talvez tentando enganar as autoridades suíças simulando um ataque político para conseguir indenização, ou mesmo, quem sabe, só estivesse tentando enganar a si mesma simulando um universo de fantasias psicóticas onde a auto mutilação, é apenas um dos aspectos de algum tipo de mal com raízes mais aprofundadas em sua psique. O fato é que Paula Oliveira não nos enganou. Não foi ela que nos fez pensar que sua história era real. Não foi ela que nos ludibriou com aquelas marcas, com aquela ultrasonografia montada via Google, com aquela narrativa de uma verossímil violência racista em um continente cercado de racismo por todos os lados. Foram os telejornais e sua reação em cadeia em busca do furo absoluto que nos fizeram embarcar no surto da Paula. Todo mundo surtou junto e hoje, só a automutilação da mídia telejornalística ainda carece de uma explicação ou de no mínimo, um pedido de desculpas. |
| por pablocapistrano [22:43] |
| 20.2.09 |
| CARNAVAL |
| JÁ É CARNAVAL! Por isso, lembrem-se: "a linguagem mascara o pensamento. E tanto é assim que da forma exeterior da roupa, não se pode deduzir a forma do pensamento mascarado; porque a forma exterior da roupa é concebida não para deixar reconhecer a forma do corpo, mas para fins inteiramente diferentes" Ludiwg Wittgenstein. Sacou? Evoé! |
| por pablocapistrano [08:12] |
| 18.2.09 |
| O Dia de Darwin |
| No dia 12 último se comemorou o dia de Darwin. Quer dizer, alguns comemoram o dia de Darwin porque, para muitos, a data que lembra os duzentos anos de nascimento do pai da idéia de evolução é motivo de lamentação. Foi no final de 1830 que Darwin começou a formular sua teoria, inspirado pela leitura de um livro de Charles Lyell, Princípios de Geologia, que apontava para a idéia de "uniformitarianismo", que explicava os processos de formação de rochas no mundo natural (sedimentação, erosão, atividade vulcânica) a partir de processos contínuos e graduais. Junto a essa idéia, retirada da geologia, Darwin acrescentou suas observações recolhidas em notas zoológicas tomadas na época da grande viagem do Beagle. Mas, só quando as experiências com as ervilhas de Mendel ganharam destaque é que a teoria de Darwin pôde ser completada e expandida. Hoje, não dá para pensar a evolução sem a genética. Apesar desse tempo todo, as teses de Darwin-Mendel parecem não terem sido deglutidas por muita gente. Isso se dá por dois motivos básicos: (1) a idéia de Darwin é aparentemente simples e de fácil entendimento; (2) a Bíblia é extremamente complexa e de muito difícil entendimento. A conjugação desses dois fatores cria a matéria prima para a nova cruzadas dos cristãos militantes: a luta contra a teoria da evolução. Ao contrario da teoria da relatividade ou da mecânica quântica, praticamente incompreensíveis para a maioria dos seres humanos, as idéias de Darwin foram formuladas de modo bastante claro. Apesar disso, foram objeto de perniciosas distorções, como por exemplo a idéia de que "o homem veio do macaco" (tópico que não aparece em A Origem das Espécies e que não condiz com a teoria da evolução, e que derivam na verdade da especulação de Thomas Henry Huxley). Já a leitura do Breshit (Gênesis) bíblico se presta, por sua base mitológica, as mais variadas interpretações. Filon Judeu, em Alexandria, no primeiro século da era cristã, chamava atenção para o fato de que a Bíblia deveria ser lida em pelo menos três ou quatro sentidos, e que o sentido literal era o mais rasteiro desses. Ora, todo teólogo, inclusive Darwin (que era teólogo, formado em um seminário anglicano) sabe que não se deve ler o texto Bíblico ao pé da letra, em um fundamentalismo estúpido. Acreditar que Adão é um nome próprio (e não um termo que em hebraico significa humanidade) e que Deus o fez a partir do barro (e não a partir de uma matriz biológica material) é tão simplório quanto acreditar que o homem veio do macaco. Darwin e o Bereshit (o Gênesis) muito provavelmente concordam em um ponto: a vida emergiu de uma unidade fundamental, e toda a diversidade biológica, toda pluralidade de formas nasce de uma proto-forma original, assim como o universo teria surgido de uma explosão e do um primordial de Deus surge a multiplicidade de todas as coisas. O ponto de divergência não está ai. O verdadeiro problema é o acaso. O que realmente separa criacionistas de evolucionistas é a idéia de finalidade da evolução. Criacionistas podem concordar com Darwin sobre a evolução continuada das formas biológicas e ir ao culto no Domingo sem sentimento de culpa e sem medo de passar a eternidade bulinados pelo toco peludo do satanás nas chamas do inferno. A questão é que eles não podem concordar que não há um propósito, um sentido, uma finalidade, um planejamento racional na evolução. É esse "sem sentido", essa objetividade crua, imposto pelo acaso natural à nossa imaginação, na teoria de Darwin, que assusta os criacionistas razoavelmente inteligentes (e que por isso compreendem melhor, tanto a Bíblia quanto a teoria de Darwin-mendel). Para eles, o que incomoda em Darwin é a inquietante constatação, de que não há um planejamento racional, nem uma intervenção de qualquer inteligência (que não a do homem) que possa causar rupturas no processo evolutivo. São os vazios silenciosos da natureza, captados pelo ouvido sensível do naturalista Charles Darwin, que até hoje, duzentos anos depois de seu nascimento, tanto nos assusta quanto nos fascina. |
| por pablocapistrano [23:44] |
| 15.2.09 |
| O Caso de Benjamim Button |
![]() Sexta feira dia 13, assisti o Curioso Caso de Benjamim Button. Não li o texto do Fritzgerald por isso não dá para comentar sobre a adaptação. O estranho é que todo mundo fala que essa é a história de um homem que nasce velho e morre jovem. Mas eu não vi isso. Para mim, aquela é uma história de amor. O filme não trata de Benjamim Button e de sua estranha vida, ele trata de duas pessoas que se amam a Dayse e o Benjamim e que se desencontram. Acho que esse filme me lembra Doutor Jivago (os mais velhos saberão do que eu estou falando). A diferença é que o clássico de David Lean o desencontro é geográfico. Fala sobre a perda de um amor em meio a vastidão da Rússia revolucionária (uma história impossivel em tempos de ORKUT). O Caso de Benjamim Button fala sobre um desencontro temporal. Enquanto o personagem de Brad Pitt caminha em um sentido de tempo a bailarina Dayse (não sei o nome da atriz) segue em outro fluxo. O amor é assim, ele sempre topa nos relógios. |
| por pablocapistrano [10:01] |
| 12.2.09 |
| Diário - A Mesma Velha Doença |
| O caso da agressão à advogada brasileira na Suiça por simpatizantes de um partido xenófobo de tendências neo-nazistas mostra que os povos costumam a rodopiar ao redor de suas mesmas velhas doenças racistas, as mesmas velhas neuroses. A menos de cem anos o cenário econômico da Europa era muito parecido com as atuais perspectivas recessivas e escatológicas. Naquela época os estrangeiros e os "racialmente exogenos" foram vítimas desse ódio cego e dessa pulsão de morte. Agora, a coisa parece se repetir com o mesmo previsivel tédio, que só a curta memória humana é capaz de explicar. È por isso que os alemães, sabiamente, proibem que se negue o Holocausto em sua terra. Eles, mas do que ninguém, sabem que não se pode ser tolerante com os intolerantes. |
| por pablocapistrano [23:47] |
| 11.2.09 |
| Diário |
| 11 de Fevereiro de 2009. Notícia não muito boa de hoje é esse equilíbrio nas eleições parlamentares de Israel entre o Kadima e o Likud. Não que ultimamente haja muita diferença ideológica entre um e outro, mas o sintoma mais significativo da falência das possibilidades a curto prazo da paz no oriente médio é a colocação dos Trabalhistas de Iehud Barak. Eles ficaram em quarto lugar, atrás do Israel Beitehnu, de Lipmann. Na configuração política de Israel isso significa que o próximo governo vai ter que se compor com forças políticas bem mais à direita, o que reforça a retórica beligerante e de certa forma sepulta as poucas chances de uma discussão séria sobre a paz entre israelenses e palestinos. Na discussão sobre o conflito em Gaza, o artigo mais lúcido que eu li foi o do Antonio Luiz M. Costa na Carta Capital dessa semana. Ele reforça a obviedade, muitas vezes esquecida nessa época de radicalismos, de que criticar as medidas do governo de Israel não é ser antissemita, assim como condenar o Hamas e o Hezbolah por suas ações terroristas não significa ser sionista. O grande risco em se ter uma posição equilibrada em meio a tanto ódio e posturas ideologizadas é levar porrada dos dois lados. Nesse conflito o mais difícil é separar a crítica política do puro e simples preconceito, quer contra judeus (que costumeiramente aflora como um ranço recalcado de quem se diz defender os palestinos) quer contra os árabes (de quem diz condenar o terrorismo). |
| por pablocapistrano [16:32] |
| 9.2.09 |
| As Víúvas do Holocausto |
![]() Não bastasse o presidente do Iran, Armadinejad, agora aparece mais uma viúva do Holocausto para desconsiderar a memória recente do século XX e afirmar que as câmaras de gás, assim como a viagem do homem à lua, a copa do mundo de 1950 e o clipe Material Girl da Madona foram arquitetados por Holywood e pelos 36 judeus que dominam o mundo. A viúva da vez é o ex-bispo Richard Williamson, foi excomungado da Igreja a vinte anos por fazer parte de um grupo de extrema direita, chamada Sociedade de São Pio X, liderada por Lefevre, que revoltou-se contra o Concilio Vaticano II e abriu uma dissidência ultracoservadora na Igreja. O curioso é que a idéia da negação do holocausto parece andar de braços dados com a tese de que os israelenses agem com os palestinos como os nazistas agiam com os judeus. A relação entre essas duas idéias parece, a primeira vista, contraditória mas na verdade elas acabam por se complementar. Ora, como é que os israelenses poderiam agir com os palestinos, como os nazistas agiam com os judeus, se o holocausto não aconteceu? Na verdade, para que a primeira idéia (a de que israelenses tratam palestinos como os nazistas trataram os judeus) seja verdadeira, é preciso que a segunda idéia (a de que o holocausto nunca existiu) também o seja. Isso é evidente porque, se o holocausto existiu, não é correto afirmar que os israelenses tratam os palestinos como os nazistas tratavam os judeus por um simples motivo: "não haveriam mais palestinos vivos, nem na faixa de gaza, nem na Cisjordânia, nem muito provavelmente em nenhum outro lugar do oriente médio". O objetivo fundamental da política nazista era a da criação de um Lebensraum, um espaço vital, um vazio demográfico para que colônias alemães pudessem ser implantadas e instaladas por toda Europa oriental. Assim, era preciso limpar o território de elementos exógenos, judeus, ciganos e eslavos. O sentido maior do Holocausto não era o de simplesmente "massacrar judeus", mas de construir um espaço para que tudo aquilo que fosse "autenticamente" indo-ariano pudesse crescer. A implantação das Câmaras de Gás (negada por Williamson) foi o ponto culminante de um programa de eutanásia involuntária chamado de T-04 (realizado no começo pelo Ministério da Saúde Nazista), que começou com a pratica sistemática de execuções: primeiro de Doentes mentais e portadores de necessidades especiais, e que rapidamente atingiu para homossexuais, comunistas, artistas e só então avançou sobre os grupos étnicos considerados racialmente indesejáveis. Se esse programa estivesse em curso contra os palestinos, a essa altura do campeonato não haveria ninguém para jogar foguetes no sul de Israel, nem pedras nas patrulhas do exercito israelense. Por isso, negar o holocausto é tão importante para quem quer atacar as políticas (muitas vezes realmente equivocadas) do governo de Israel. Essa negação não se dá sem uma confusão histórica. O dilema sobre a quantidade de judeus mortos em campos de concentração acontece por um motivo simples: o conceito de judeu não é claro. Para um ortodoxo, judeu é aquele que é filho de mãe judia (essa é uma influência do direito romano no talmulde babilônico que cria essa caracterização de nacionalidade pela linha materna). Para um nazista, ser judeu é ter, até a quarta ou quinta geração da família, algum parente judeu. O que os nazistas queriam não era exterminar a religião judaica, ou a cultura iídiche da Europa central. Eles queriam expurgar qualquer traço de sangue judeu, qualquer marca de "raça" (isso nem existe!) semita da nação alemã. Por isso, muitos católicos, testemunhas de jeová, ateus e protestantes que morreram em campos de concentração, estavam lá porque não passavam pelo teste racial de germanidade e tinham ancestrais judeus, apesar de não se considerarem judeus, nem serem consiedarados mais judeus pela própria comunidade judaica. Essa discrepância conceitual sobre o que significa "ser judeu" acaba, hoje, servindo justamente para alimentar as teses das "viúvas do holocausto", homens e mulheres que precisam negar uma série de evidências históricas para sustentar uma visão distorcida e ideologizada de um conflito atual. |
| por pablocapistrano [16:41] |