| 29.3.09 |
| Música Potiguar Brasileira |
| Hoje a FM universitária presenteou Natal com um ótimo programa "Música Potiguar Brasileira". O Esso Alencar comentou e apresentou uma coleção de suas melhores composições. Sou fã do Esso desde a época em que ele andava pela periferia dessa cidade empoeirada tocando com a banda Os Quatro aqueles mais soturnos, intensos e sinceros roques dos anos noventa. Acho Esso o nosso Leonard Cohen. Mestre em fazer canções belas e tristes. Canções que não são fáceis e que costumam a destilar no paladar aquele gosto exato que a poesia produz quando a gente se acostuma a deglutir seus fonemas. Uma das minhas músicas prediletas ("Dialética") tem a ver com o tempo em que éramos (eu e Esso) colegas de faculdade no curso de filosofia da UFRN. Essa música me faz lembrar de um tempo em que o tempo parecia mais largo, lento e gentil. Segue a letra, a música vocês podem conseguir pelo: www.sitiodoesso.com Dialética Se você fala a mesma língua minha Amor, amor, amor e amor Aproxime-se! Diga repetidas vezes comigo Amor, amor, amor e amor Incansavelmente deixa que eles passem distraídos Absortos em seus problemas Sem entenderem o dialeto do amor Enquanto nós Dançamos aqui reunidos em volta do vinho A cantar o dialeto do amor. |
| por pablocapistrano [22:22] |
| 26.3.09 |
| Tão longe, tão perto. |
![]() Quando Edward Lane e Gustav Flaubert visitaram o Egito no século XIX, foram tomados de um inquietante desconforto diante da percepção daquele exótico universo mulçumano. Para eles, o Islã estava tomado pela "preponderância do sexo nas relações sociais" e padecia de uma licenciosidade sem freios. Naquele tempo, na metade do século retrasado, a Europa enxergava o mundo mulçumano como um lugar tomado pela violência e pela liberação sexual. Os Europeus, mais recatados e reprimidos do que nos dias de hoje, possuídos por uma jovem e vigorosa moral burguesa que problematizava o sexo e o prazer, encontravam no Islã o seu antípoda. Essa é uma das grandes mitologias que nossos meio-irmãos europeus costumam a contar. A mitologia de um grande armagedon que opõe oriente e ocidente. Muitos são os capítulos dessa narrativa e ela parece uma obsessão ocidental. A guerra entre os Aqueus (do peloponeso) e os troianos (gregos da Turquia, vassalos do império Hitita que dominava o planalto da Anatólia); a luta nas termópilas entre gregos e persas, os embates entre uma Roma helenizada e uma Cartago fenícia, o confronto dos cruzados cristãos pela libertação de Jerusalém do julgo mulçumano, a guerra da reconquista na península ibérica levando cristãos a se embater contra mouros, bérberes e judeus; a heróica resistência dos cavaleiros hussuados no cerco que os turcos impuseram à Viena no século XVI, a luta pela libertação de Atenas em 1820, do domínio desses mesmos turcos; o holocausto semita na Europa oriental; a perseguição à Ossama Bin Laden (uma nova imagem para um velho anticristo muçulmano). Esses são capítulos, partes de uma narrativa contata por Homero, Heródoto, Virgílio, Torquato Tasso e Camões. O oriente médio, com seus desertos e suas montanhas, está muito próximo da Europa (se compararmos com as civilizações da Índia, do Tibete ou do Extremo Oriente). Sua proximidade, no entanto, acabou paradoxalmente exigindo que os europeus se afastassem de tudo aquilo que o oriente médio representa. Para se manterem "europeus" precisaram se distanciar dos outros. E o Islã, com sua expansão ameaçadora, sempre atuou no imaginário dos povos europeus não apenas como um inimigo a ser batido, mas como uma sombra, uma incômoda e gaseificada influência, oposta a tudo aquilo que o ocidente e a Europa um dia poderiam representar. Talvez por isso Dante em sua Divina Comédia, tenha encontrado um lugarzinho todo especial para o profeta Maomé, junto ao próprio Satã, na nona vala do inferno, aonde o fundador do islamismo era submetido por toda a eternidade à um castigo que se repetia ininterruptamente. Condenado, a ser dividido eternamente do queixo ao reto como "se arrancam tábuas de um tonel". Sir William Muir, um indiano colaborador da administração inglesa que publicou em 1851, um livro chamado "A vida de Maomé" onde afirmou que: "A espada de Maomé e o Alcorão são os inimigos mais tenazes da civilização, da liberdade e da verdade que o mundo já conheceu". Na psicologia dos arquétipos de Carl Jung, a sombra é sempre uma imagem invertida de si mesmo. Aquilo que nos envergonha, aquilo que nós conscientemente não queremos nem desejamos eclode e se direciona a algum outro, que, por estar tão próximo, acaba sendo objeto de nossa projeção. Uma mistura inquieta de temor e ódio nos une a nossa sombra. Uma miscelânea de desprezo e fascinação, que ao mesmo tempo nos atrai e por outro lado nos afasta. Uma combinação de desejo e repulsa, como se aquilo que nos configura, também nos assustasse. Talvez por isso as imagens que o mundo ocidental tem do Islã oscilem tanto no tempo. Imagine o lânguido quadro de Renoir, pintado em 1870, antes mesmo do mestre francês visitar a Argélia pela primeira vez, representando um Harém onde as mulheres árabes com olhos de orgasmo, envoltas com suas roupas coloridas, seus ventres nús e seus seios circundados de pedras preciosas, sugavam a atenção embasbacada dos homens europeus, desacostumados do amor, após algumas décadas de puritanismo burguês. No século XIX as mulheres mulçumanas lembravam à Europa que os prazeres do sexo estavam ali, depois do mediterrâneo, nos haréns do norte da África e nos palácios da Arábia. Hoje, essas mesmas mulheres mulçumanas, oscilaram para o lado oposto, sendo representadas no ocidente como seres submetidos a mais absurda repressão sexual. Metidas em burcas ou cobertas com shador escuro dos xiitas, elas só nos revelam seus olhos. Se na época de Renoir elas escandalizavam o ocidente porque se mostravam, hoje elas escandalizam porque se escondem. Pois é, as fronteiras que os homens constroem para separar os pedaços da humanidade não costumam ser firmes. Elas caem facilmente diante de mudanças climáticas, econômicas ou políticas. É preciso pouco para que populações humanas inteiras migrem de um continente para outro e de certa forma a história do homem nessa terra é uma história de migrações. Talvez por isso, esse mesmo oriente, que fascina tanto a Europa, pareça às vezes tão ameaçador. As fronteiras humanas, que separam culturas, crenças e religiões precisam ser internalizadas, cortando o coração das pessoas, para que elas não aprendam a ouvir umas as outras, para que elas não consigam ultrapassar suas próprias pré-concepções de gênero, raça, crença e costume. Hoje, cristãos e mulçumanos ainda continuam, como desde a época das cruzadas, diante uns dos outros, encarando-se em mistos de repulsa e prazer, de atração recalcada e desconfiança explícita. A mitologia de uma linha invisível que separa a Europa e seus filhos rejeitados, do oriente foi construída com cuidado e solidificou-se no imaginário de ambos os lados, fazendo-os esquecer duas coisas fundamentais: que o mundo é redondo e não tem centro (ao menos na superfície) e que só a humanidade, a despeito de ser uma invenção de algum filósofo pirado do século XVIII, pode salvar nossa espécie das fronteiras criadas para justificar esse irresistível medo do outro. |
| por pablocapistrano [17:30] |
| 23.3.09 |
| Frase da humanidade esta semana |
| "Se a única ferramenta que você tem é um martelo, começe a tratar todas as coisas como se fossem pregos" Abraham Maslow. |
| por pablocapistrano [06:39] |
| 19.3.09 |
| Quem vigia os vigilantes? |
![]() Acho que o sinal de que Frank Miller é um grande quadrinista mas que ainda não conseguiu entender o sentido do cinema é o fato de que as adaptações de duas de suas mais badaladas graphic novels ( Sin City e 300 de Esparta), ficaram significativamente aquém das expectativas (ao menos das minhas). Acho que o grande defeito das duas adaptações baseadas nos quadrinhos de Miller está justamente no fato de que elas buscam impor ao cinema uma estética de quadrinhos sem que haja uma tradução, uma transferência de uma linguagem para outra. Quando a gente compara o filme 300 de Esparta (do Zack Snyder) com o Sin City o que a gente vê é que eles são pastiches mais ou menos bizarros dos próprios quadrinhos que os deram origem. Não parece ser menos interessante comprar um volume da HQ em uma livraria especializada e ir para casa ler do que assistir ao filme. Aliás, para que assistir o filme se você pode ler o quadrinho? Agora, o que o Zack Snyder fez com Watchmen foi algo substancialmente diferente. Em alguns momentos, enquanto assistia o filme no cinema, eu grudava o olho na tela e pensava: "ei, eu já vi essa cena!". Lógico que eu já tinha visto. Bastava folhear minha velha edição da década de oitenta que eu encontraria ali, vários dos enquadramentos usados por Snyder no filme. Watchmen no cinema foi de uma fidelidade quase neurótica a seqüência pensada por Moore, desenhada por David Gibbons e colorizada por John Hings (houveram mudanças, claro, para formatar o quadrinho ao tempo do cimena, que, nesse caso, é dinheiro). E isso foi uma virtude. Justamente porque Snyder, ao contrário do que fez em 300 de Esparta (com o Miller provavelmente funçando no cangote dele e enchendo o saco no cargo de produtor executivo do filme), não tentou violentar a linguagem do cinema. Não tentou impor a estética dos quadrinhos com truques de câmera e lentes coloridas que as vezes nos faziam pensar que estávamos diante de uma versão em tela grade de um conjunto de slides retirados direto da HQ. Em Watchmen, Snyder fez cinema e traduziu com absoluta fidelidade o pensamento de Moore sem precisar estropiar a estética do cinema. Por isso, assistir o filme é tão bom quanto ler o quadrinho. Depois eu falo mais sobre porque Watchmen é Watchmen |
| por pablocapistrano [11:04] |
| 13.3.09 |
| Por Uma Vida menos "Porra Nenhuma" |
| Um cara chamado J. Timothy Wootton, especialista em ecologia marinha passou oito anos juntando um conjunto de dados sobre acidez, salinidade e temperatura do mar na ilha de Tatoosh, perto do estado de Washignton, terra do nosso querido finado Kurt Cobain (que Deus o tenha em sua infinita luz). Sabe o que ele descobriu? Que a taxa de acidez dos oceanos cresceu dez vezes mais rápido do que supunham as mais otimistas simulações climáticas. Por que isso aconteceu? Bem, a hipótese é que o bom e velho oceano, está absorvendo uma boa parte da porcaria fóssil que a sociedade industrial joga na atsmofera. Qual o provável efeito dessa merda toda? Uma possível extinção em massa da vida marinha. Eu penso sinceramente que o nosso tempo é singularmente importante. Há uma urgência evidente que nasce a cada novo dado sobre mudanças climáticas e eu as vezes me sinto como Jor-El, pai de Kar-El, mas conhecido no mundo quadrinístico como Super-homem. Jor-El era um desses biólogos e cientistas que conseguiu prever o colapso do planeta Kripton, casa do Super-homem. Mas eu lembro de sua solidão quando ele alertava para os efeitos dessa catástrofe. Tem gente que ainda não sacou e talvez nunca saque qual é a das mudanças climáticas. A nossa vidinha é muito confortável para que a gente possa pensar em algo que vá além de nossos interesses mais imediatos, não é, colega? Minha esperança é que o homem, esse marginal biológico, esforce para construir uma vida menos "porra nenhuma". Essa é minha esperança sincera. PS.: enquanto isso não acontece, vou assistir Watchman no cinema do Praia Shopping. Bom Sábado. Que a paz acompanhe vocês! (equanto é tempo : P). |
| por pablocapistrano [20:09] |
| 9.3.09 |
| Excomunhão preventiva. |
![]() "Perdoai Dom Helder, perdoai, eles não sabem o que falam." O arcebispo de Olinda e Recife, com o perdão da expressão, perdeu uma ótima oportunidade de ficar calado, quando tentou justificar a medida de excomunhão da equipe médica que realizou o aborto em uma menina de oito anos, que havia engravidado após ter sido abusada sexualmente pelo padrasto. A emenda saiu pior do que o soneto. Ao tentar se justificar o arcebispo declarou para a imprensa que o "pecado" cometido pela equipe médica era pior do que o pecado cometido pelo padrasto pedófilo e que não poderia ter excomungado o homem que abusou de uma criança porque "estupro" não seria um pecado elencado na lista de ofensas passiveis de excomunhão pela Igreja Católica. Não sei como andam as aulas de filosofia nos seminários teológicos para a formação de padres, mas acho que talvez, o arcebispo não se lembre das lições sobre o conceito de pecado, dadas de modo tão exato por Agostinho, no século IV da era comum. No livro "O Livre Arbítrio", Agostinho, que também foi bispo da Igreja, argumenta contra o famoso problema do mal que alimentava as idéias dos maniqueístas. Para o pensador, canonizado pela mesma Igreja que hoje condena a equipe de médicos de Recife, o pecado era uma inversão na hierarquia de bens proposto pelo Eterno, criador do universo. O que significa isso? Simples, peca aquele que põe um bem de menor grau, acima de um bem de maior grau, como por exemplo, um latrocida, que põe o desejo por dinheiro e bens econômicos, acima da vida de sua vítima. Assim como peca, o padrasto que põe seu desejo sexual acima da dignidade e do bem estar de uma criança de oito anos. O erro, não é a escolha do mal (que para Agostinho não tem existência autônoma). O erro é o equivoco na escolha do bem. Se o arcebispo tivesse se esforçado um pouco, e lembrado das velhas leituras de filosofia cristã no seminário talvez ele tivesse atentado para o fato de que a equipe médica, como a legislação brasileira preconiza, não cometeu a rigor nenhum pecado, porque não inverteu a hierarquia dos bens pensada por Agostinho. A escolha dos médicos foi entre a vida e a vida. A vida dos fetos e a vida de uma criança de oito anos (sem estrutura biológica e psicológica para suportar uma gravidez desse tipo). Os médicos escolheram. Mas escolheram entre dois bens de igual importância. Ao optar pela vida da criança eles não se omitiram e tomaram a única postura condizente com a dignidade do homem e com a hierarquia dos bens pensado pela ética daqueles que anda insistem em seguir uma religião genuinamente cristã. Desculpe senhor arcebispo, mas o senhor pecou. Talvez não um pecado teológico, mas sim um pecado jurídico. Agiu por impulso e de modo automático, sem usar de uma reflexão racional e tranqüila sobre o caso. O erro da medida de excomunhão dos médicos, bem que exigia uma retratação e um pedido de desculpas. Isso porque, no julgamento das leis da Igreja, o Arcebispo esqueceu da equidade. Esqueceu que as normas jurídicas, legais ou religiosas, quando aplicadas de modo automático, sem uma leitura de sua finalidade e de seu sentido geram o absurdo da injustiça. Mas o erro do orgulho de tentar justificar o próprio erro, com um erro maior ainda é um pecado mais intenso. Agora, enquanto escrevo esse artigo, ouço no telejornal que o vaticano apóia a medida do bispo de Olinda e Recife e penso comigo: o que está acontecendo com a Igreja Católica? A defesa do erro conceitual do Arcebispo me faz pensar que a Igreja católica anda perdida, sepultando seu próprio pensamento e esquecendo os fundamentos teológicos que ela mesma construiu. Se continuar desse modo, acho que vou entrar com um pedido no arcebispado de Olinda e Recife para que se providencie minha excomunhão preventiva, porque, se optar pela vida de uma menina de nove anos é pecado, eu quero morrer pecador. |
| por pablocapistrano [23:45] |