30.4.09
Hiponcondria Planetária






Essa semana estava bem no meio de uma aula e tive um acesso de tosse. Uma aluna que estava sentada na primeira fila arregalou os olhos assustada e, por um momento, eu tive a nítida sensação que ela iria se levantar e sair correndo.

Tive que explicar que minha gripe era velha, que os primeiros sintomas apareceram na semana passada e que eu, apesar de ser um entusiasta do multiculturalismo global e do intercâmbio linguístico, não havia tido contato com nenhum cidadão mexicano nos últimos dias, nem havia viajado para nenhum país afetado pela "gripe do porco".

Eu ainda me espanto com os anacronismos da humanidade.

O tempo passa, a ciência avança e os homens ainda padecem dos velhos pânicos medievais.

Duas coisas parecem particularmente interessantes sobre essa nova epidemia.
Uma é o agente, uma variação do Influenza. Um antigo inimigo da humanidade que de tempos em tempos insiste em aparecer e causar esse horror planetário. Já falei inclusive aqui nesse mesmo espaço virtual, algum tempo atrás (na época da gripe do frango) sobre a minha bisavó paterna, dona Joana Fernandes de Macedo, que na década de vinte, acompanhou a chegada da gripe espanhola em Natal e costumava a dizer, que as carroças chegavam cheias de corpos aos cemitérios da cidade e o contágio era tão rápido que não dava nem para esperar abrir covas individuais. Era só aquela ruma de defuntos enterrados em valas comuns. Mas aquela era uma outra época, sem os anti-virais que reduzem a contaminação das células humanas, sem os antibióticos que combatiam as infecções oportunistas. Mesmo assim, apesar desse novo tempo, o pânico é o mesmo.

Outro aspecto, talvez bem diferente da pandemia dos anos vinte, é a velocidade com que o vírus se espalha nesse universo de interconexões instantâneas. O número de contaminados, acabou de falar na TV algum especialista em não sei o quê, cresce em progressão geométrica

Eu vou confessar a você, meu maior medo não é do vírus. Meu maior medo é da incompetência da administração pública de alguns paises em oferecer às pessoas, as ferramentas que já existem para combate-lo. Essa incompetência essencial de certos governos é que pode transformar uma coisa ruim em uma tragédia.

Mas, realmente curiosas são as medidas tomadas por alguns países. Agora mesmo um canal de TV informou que o governo do Egito vai dizimar os porcos no país. Cerca de 200 mil animais serão sacrificados.

Talvez seja essa a oportunidade dos atuais habitantes da terra dos Faraós, se vingar de Seth, o deus invejoso que matou seu irmão, o bom Osíris, disfarçado de porco. Quem sabe exista algo de antropológico em muitas dessas medidas de saúde pública.
Pois é amigo velho, nesse mundo sem fronteiras quem paga o pato da gripe é o porco e enquanto não dá o tempo de eu me levantar e tomar mais uma dose do meu anti-térmico predileto, penso que talvez algo de bom possa emergir dessa hipocondria global.

Talvez as pessoas, tão cercadas pelo seu mundinho coditiano, pelo seu egoísmo liberal, que pensa que os limites da vida são os limites do crédito de seu cartão eletrônico, possam lembrar do fragmento do mestre Heráclito de Éfeso que um dia escreveu: "Os homens despertos tem um mundo comum, enquanto os que dormem voltam-se, cada um, para o seu mundo particular".

por pablocapistrano [11:34]
23.4.09
Poema de Aniversário

Ontem, dia 22 de Abril, foi o aniversário do meu pai e ele se presenteou com um poema.


do tempo


este ente
que não passa
perpassa
minha memória
e assim consumo
a trajetória
desta órbita solar
em vidas passadas
do passo
e marcapasso presente
em plena projeção
do vento da luz
do tempo.

by
franklin capistrano
poeta de natal-brasil
21.04.2009

por pablocapistrano [12:15]
21.4.09
Iom Hashoá




Hoje em Israel é feriado nacional.

Lembram-se as vítimas do Holocausto (a Shoá judaica). Curioso é que justamente esse fim de semana o Mahmud Ahmadinejah (presidente do Irã) atiçou mais uma brasa na fogueira do conflito e repetiu a ladainha ideológica, estupidamente repetida pela esquerda brasileira, de que o Holocausto é uma ficção produzida em um porão de Hollywood.

A negação do holocausto é uma dessas falácias sobre o passado que servem para justificar as opções políticas de governos no presente. Mais idiota é a argumentação de que foram "apenas" 300 mil judeus mortos ao invés de seis milhões. Como se o holocausto se resumisse a uma estatística, a uma contagem no número de cadáveres.

O holocausto foi uma tragédia da razão humana, antes de ser uma tragédia alemã, judaica, cigana, eslava ou de qualquer outra etnia. O que pouca gente lembra é que os campos de extermínio começaram quando o projeto T-4, patrocinado pelo ministério da saúde nazista, e sob a coordenação de médicos oficiais da SS, iniciou a sistematicamente catalogar e recolher nas residências alemães os portadores de necessidades especiais ou de transtornos mentais graves. Eles eram levados em caminhões, nos quais o gás do escapamento era direcionado para dentro da carroceria hermeticamente fechada. Chegavam mortos em fábricas nos arredores das cidades nas quais seus corpos eram queimados.

Essas foram as primeiras vítimas do Holocausto e aqueles que tinham um traço qualquer de sangue judeu (mesmo sendo protestantes, católicos, ateus ou comunistas) foram exterminados no esteio dessas vítimas, junto de homossexuais, artistas e dissidentes do regime nazista.

Aqueles judeus que tentaram se assimilar ao mundo cristão após o código de Napoleão ou aqueles que eram frutos de uniões de homens judeus com mulheres alemães foram mortos como judeus pelos nazistas e sofreram com a Shoá.

É a memória dessas vítimas que o discurso de Armadinejah mancha. Assim como a memória dos descendentes de cristãos novos brasileiros (amusins) forçados pela inquisição e pela diáspora sefaradita é manchada pelo desconhecimento histórico de certos setores ortodoxos da comunidade judaica (que às vezes se comportam para com esses descendentes de amusins como Armadinejah se comporta para os azquenazitas assimilados à cultura cristã européia).

A manipulação ideológica das referências históricas sobre a Shoá esconde, por exemplo, que as idéias que fundamentaram a solução final para o problema judaico na Europa central, estavam disseminadas a muito tempo, travestidas de teses da ciência médica e da biologia moderna espalhadas pelos EUA, pela Inglaterra, pela Suécia e até pela União Soviética. Foi o discurso de "evolução" e de "raça" que gerou a base ideológica que justificou o projeto T-4 e a solução final.

Os Persas, um povo que tem uma herança cultural sofisticada, que legou para humanidade os textos de Ibn Sina (Avicena), Alfarabi e a poesia mística de Jalal al-Din Rumi não merecem Armadinejah (o homem que afirmou categoricamente não existir homosexualismo em Teerã, como se esse fosse um "problema" ocidental).

Eles não merecem esses trinta anos de soterramento da vida cultural persa, patrocinado pela leitura dogmática que um conjunto de Imãs no século X resolveu fazer das Sunas do Profeta Maomé (a Shariá).

Porque é importante lembrar o holocausto? Porque é importante falar da Shoá? Porque a melhor maneira que a humanidade encontrou para repetir seus erros é apagando-os de sua memória.

por pablocapistrano [10:38]
20.4.09
Depois da tempestade

Há um ditado russo que diz: "depois da tempestade, vem a inundação".

Eu já havia notado que o inverno chegou em Natal.
Me acostumei a conhecer o clima da minha cidade pelo modo como o vento entra no meu apartamento.

Quando ele vem lento e largo, do leste, é sinal do verão.
Quando ele vem forte e seco do sudeste, amarronzando o mar e levantando a areia das dunas, é sinal da primavera (que aqui surge com um sudário de areia cobrindo o litoral).
Quando ele vem frio e aquoso, entrando pela janela dos fundos do meu quarto, é sinal do inverno.

e esse ano, meu amigo Bruno, que mora em uma fazenda em Goianinha, me disse que uma zona de pertubarção subtropical, ou alguma coisa do tipo que está fazendo a festa no atlântico sul vai produzir tempestades e inundações pelos sertões do Nordeste e pelo Norte do país, talvez como essa que inundou a amazônia, ou a que destruiu parte da cidade de Patos (na Paraiba) um dos lugares mais quentes pelos quais eu já tive a oportunidade de passar.

Aqui, o inverno chega com essa chuva que deixa a cidade cinza e um cheiro de mofo que se anuncia. Vamos esperar nossas tempestades particulares e torcer para que a inundação que se segue a elas seja mais leve e mais curta.

por pablocapistrano [08:18]
16.4.09
O Quadrinho Definitivo II

Imagine que você faz parte de um romance de H. G. Wells. Um romance sobre, por exemplo, uma máquina do tempo. Imagine também, seguindo essa brincadeira, que essa máquina do tempo te transporte (de um modo que só as máquinas do tempo conseguem fazer), para a cidade de... quem sabe... Braunau am Inn! na Áustria, às margens do rio Inn, já na fronteira com a Baviera alemã.

O ano é 1889, e o fim do mês de Outubro, em pleno Outono europeu, já anuncia a chegada do vento gelado de mais um inverno. Imagine que você, com seu alemão sofrível, parado na frente de uma loja de doces, vê uma senhora saindo com um carrinho de bebê. A senhora parece que lembrou de alguma coisa. Talvez uma bolsa? Algum pacote? Ela fala algo incompreensível em algum dialeto desses de fronteira e retorna para dentro da loja de doces deixando aquele adorável bebê de seis ou sete meses adormecido em seu carrinho de ferro e madeira, com aquele design de fim de século XIX.

Você, que provavelmente gosta de crianças, se aproxima sem querer acordar aquele pequeno anjo do Senhor e, mergulhando seu olhar pelos detalhes internos do carrinho percebe escrito em uma pulseirinha metálica presa no braço direito da adorável criaturinha o nome: "Adolf Hitler".

Um arrepio sobe pela sua coluna e, como em uma explosão instantânea de imagens, você vê no seu hipocampo mental (aquela janela da microsoft que se abre na mente quando a gente tenta visualizar alguma coisa) um desfile com as mais aterradoras, mais terríveis, escatológicas e desumanas imagens do século XX. Subitamente você se questiona com toda sinceridade:

"parto ou não parto a traquéia do bebê?".


Esse dilema ético é muito semelhante à questão que opõe os personagens Ozymandias e Roschach em Watchmen. Se você não sabe, Ozymandias é (na HQ de Moore) um dos sujeitos mais ricos do planeta, e também um dos mais inteligentes. Ele consegue inclusive, com uma mistura de inteligência e grana, enganar o Dr, Manhatan (aquele ser quântico da primeira parte desse artigo).

Rorschach, por sua vez, é um homem pobre e atormentado por uma infância cercada de violência e descaso familiar. Criado em bairros suburbanos miseráveis, filho de uma prostituta que atendia os clientes em casa e objeto freqüente de humilhação e espancamento, Rorschach faz jus ao teste psicológico, criado pelo doutor Hermann Rorschach e usado, inclusive, para identificar a presença de núcleos psicóticos.
Na obra de Moore, Ozymandias e Rorschach são duplos.

São aspectos de um mesmo princípio, pontos opostos de uma mesma idéia. Enquanto Ozymandias surge sempre no alto de grandes arranha-céus iluminados, olhando a selva metropolitana por cima, como se pairasse sobre a miséria do mundo e observasse a tragédia do destino humano a partir de uma visão "global", Rorschach é uma criatura dos becos sombrios. Ele vive ao nível do asfalto, observando no detalhe a sordidez da maldade dos homens. A inteligência de Ozymandias, e sua posição privilegiada na escala social, permite que ele perceba em um horizonte mais amplo o futuro da espécie, e possa pensar em uma ação global para evitar uma catástrofe humana. A condição miserável de Rorschach não permite que ele tenha essa visão de fundo e seu esforço é em fazer justiça no detalhe, matando e prendendo criminosos pelos becos da metrópole.

Esses dois sujeitos orbitam em torno de uma mesma idéia de bem e de justiça. Eles encarnam a tradição de nossa moralidade ocidental, que construiu um conceito de ?bondade? em oposição a um de "maldade" e impôs uma idéia de justiça em contraste com um conceito de iniqüidade. Rorschach e Ozymandias são filhos desse mundo. Eles buscam o bem. Eles procuram a justiça, mas se diferenciam fundamentalmente porque estão em campos opostos do embate intelectual sobre a natureza da "ética".

Boa parte da história da ética moderna gira em torno da disputa entre correntes deontológicas (de Deon ? dever) e teleológicas (de telos ? finalidade). Se você segue uma ética deontologica (como Kant) vai acreditar que uma ação é boa ou má em si mesma. Ou seja, nenhuma injustiça praticada se justifica pela obtenção de resultados positivos. Essa é a ética dos santos ocidentais, daqueles que buscam intransigentemente a verdade e a pureza. Essa é a ética de Rorschach que não admite nada mais a não ser o expurgo do mal (mesmo que de forma confusa, entrecortada, na HQ de Moore, pelo surto psicótico do personagem).

Pessoas como J. S. Mill ou Jeremy Benthan, por sua vez, seguem uma ética teleológica, utilitarista, baseada na idéia de que a ação correta não é correta em si mesma. Ou seja, uma ação que produz uma maior quantidade de mal para um maior número de pessoas não se justifica. Justo é aquilo que traz uma maior quantidade de bem, para um maior número de pessoas.

Essa é a tese de Ozymandias. A moral utilitarista e pragmática, que seduz inclusive o Dr. Manhatan, e que produz a mais abjeta revolta em Rorschach. Uma ética como a de Ozymandias permite, por exemplo, que milhões de pessoas morram para que bilhões sejam salvas porque um mal menor se justifica diante de um bem maior. Watchmen, como toda grande obra de arte, aponta para esses mundos, esses dilemas e essas ansiedades que movem a cultura ocidental por séculos. Ela é uma obra vigorosa porque é Pop sem perder a dimensão do clássico, moderna, sem esquecer a sombra arcaica do velho mundo sobe o qual nossa herança cultural foi fincada e por sobre o qual esse mesmo mundo ameaça desabar.

Sentiu o drama?
E aí, já deu tempo para pensar no seu dilema ético particular?
Já correram nessas linhas as rotas sombrias de seus desejos e o peso torto de suas próprias crenças e valores?
Ótimo.
Então me diga sinceramente, você quebra ou não quebra a traquéia do bebê?

por pablocapistrano [17:12]
6.4.09
O Quadrinho Definitivo I








Uma das passagens mais significativas de Watchmen, de Allan Moore (agora adaptada para o cinema) é a conversa entre o Dr. Manhattan e Laurie, a filha e sucessora da Espectral (uma heroína dos anos quarenta que fazia parte dos antigos minutemen).

Se você não é fã de quadrinhos ou viu o filme e não entendeu muita coisa, Dr. Manhattan é uma espécie de ser quântico. Uma consciência que se manifestou no mundo através daquilo que um dia foi Johnatan Osterman, um físico que trabalhava para o governo dos EUA e que foi literalmente desintegrado após um acidente em uma área de pesquisas nucleares. Há um aspecto curioso nesse personagem que o liga a algumas interpretações místicas e esotéricas de figura de Jesus-Cristo.

Para correntes adocionistas e gnósticas, o homem Jesus não é o mesmo ser do cristo após o batismo, ou ressuscitado. Nessas leituras, Cristo é uma presença que aparece aos apóstolos, um vulto ou um fantasma, uma imagem que acompanha os homens e que se apropria da forma da Jesus para construir algum tipo de comunicação com os humanos.

Jesus precisou morrer na cruz (ou ser batizado, que é um tipo de renascimento ritual), para que Deus pudesse falar diretamente aos homens através de sua forma, assim como John precisou ser desintegrado dentro daquele reator nuclear para que a consciência quântica do universo aparecesse entre os homens na forma do Dr. Manhattan.

Tecnicamente, de todos os personagens de Watchman, só o Dr. Manhattan tem algum tipo de "super-poder". Na verdade ele só tem dois super-poderes: (1) ele aprende o tempo de forma quântica, ou seja, ele enxerga a simultaneidade de todos os eventos de modo que o presente, o passado e o futuro aparecem a ele juntos; (2) ele altera a estrutura atômica da matéria.

Pouca coisa não é?

Na verdade esses dois atributos dão ao Dr. Manhanttan o poder de saber tudo e o poder de fazer qualquer coisa com a matéria. Ou seja, nosso amigo é onisciente e onipotente (e onipresente também, porque ele pode se desdobrar em infinitos lugares ao mesmo tempo). Esses são os clássicos três atributos de Deus na teologia cristã.
Mas, apesar das influências claras às heresias místicas cristãs e gnósticas, há algo que afasta essa consciência quântica de qualquer doutrina cristã.

O personagem de Moore não é como pensavam os cristãos, um Ser sumamente Bom. Apesar de poder fazer qualquer coisa, poder estar em qualquer lugar ao mesmo tempo e saber de tudo que aconteceu, acontece e que vai acontecer, Dr. Manhatam a medida que a narrativa de Watchmen vai se desenrolando, se torna cada vez mais indiferente, cada vez mais distante das misérias e dos sofrimentos atrozes que os homens, com sua estupidez inerente, costumam a infligir a si mesmos.

Quando Laurie, sua namorada humana, tenta convence-lo a impedir uma guerra nuclear entre Soviéticos e Norte-americanos (lembrem que a história do quadrinho se passa em 1985) ele responde: "Não há, a rigor, nenhuma diferença entre matéria viva e matéria morta".

Vida e morte, presente, passado e futuro, dor e prazer, são aspetos de uma mesma totalidade sem costura da matéria que se interliga em um mesmo plano quântico. Somos todos poeira de estrelas (como diz o jargão da física moderna) e nossa existência está condicionada por uma quantidade tão incompreensível e infinita de eventos que não é possível pensar em um tratamento especial para o homem. Dr. Manhattan, viajando por Marte, reflete com Laurie (humana demais para se relacionar com um ser como ele) qual a importância da vida em um universo como o nosso?

Para alguém que percebe a simultaneidade do tempo e que conhece as chaves para a modificação da estrutura de base da matéria, as preocupações dos humanos com vida e morte não fazem absolutamente nenhum sentido. Apenas nós, seres tão limitados, confinados em uma percepção finita da vida trememos diante da morte e sofremos diante da idéia de um fim para a nossa espécie.

Do ponto de vista do Deus de Watchmen e do ponto de vista do universo, nossa ocorrência não tem nem mais nem menos dignidade do que o choque de um cometa em um planeta congelado nos confins de um sistema solar qualquer. O Deus de Watchmen nos observa, mas não interfere no que vê. Ele é real, existente, mas é absolutamente indiferente as nossas orações e as nossas ansiedades. O Ser quântico que está mergulhado na eternidade não tem motivos para sentir mais piedade de uma criança humana do que de um pedaço de rocha oxidada que se esfarela no solo marciano.
O homem criou uma auto-imagem que lhe confere uma importância fundamental na ordem natural. Ele pensou ser a jóia da coroa da criação de Deus, o ser mais perfeito e mais amado porque seria o ser mais semelhante àquela figura eterna, que tudo sabe, tudo pode e que está em todas as coisas.

O homem pensou um Deus que o ama e que o perdoa. Um Deus que o salva e que morre por ele. Moore pensou um Deus distante de nós, que apenas nos observa, com uma mistura de curiosidade e tédio, enquanto mantém sua mesma atenção pluralizada direcionada simultaneamente a todos os eventos no tempo e no espaço.

Esse Deus nos deixa absolutamente livres, submetidos apenas a esse imenso e misterioso horizonte de eventos materiais. Esse caos multifacetado que constrói o cenário para os dramas dos homens, seus sofrimentos e suas alegrias. Watchman é o quadrinho definitivo e a peça central da oitava arte, porque sua base teológica nos ensina uma dolorosa lição: Deus nos deixa livres e nossa liberdade tem um preço pago ao infinito com o peso da nossa própria solidão.

por pablocapistrano [11:31]
4.4.09
Vira Lata Milionário

Semana que passou assisti o filme Slumdog Mlilionaire, de Danny Boyle. O filme apareceu aqui com o nome "Quero Ser um Milionário" e chamou atenção dos brasileiros por dois motivos:

(1) porque era um filme ambientado na Índia e como agora o país se rende ao novo relatório antropológico da Glória Peres, transfigurado em folhetim (a novela Caminho das Índias) isso acabou sendo um atrativo a mais para o público ir ao cinema;

(2) o filme ganhou um caminhão de oscars.

Sempre desconfiei um tanto da idealização que os ocidentais fazem da Índia. Eu que sou filho de, digamos assim, hippies tupiniquins, me acostumei desde cedo a saber coisas sobre a Índia, porque haviam aqueles incensos lá em casa e havia também aquele vinil maravilhoso (Shankar Family and Friends) produzido pelo George Harison com o Ravi Shankar, hoje mais conhecido no ocidente como o pai da Noah Jones. O disco é uma obra prima em bolacha preta que eu me acostumei a ouvir desde os sete anos e que guardo até hoje como uma relíquia daqueles tempos.

Os Beatles ajudaram a Índia a se tornar Pop, e a exaustão espiritual sem fundo na qual o ocidente parece ter caído ajudou gerações e gerações de pessoas desse lado de cá da terra e pensar na Índia como um lugar transcendente e misterioso, onde cada pessoa atua como se fosse um candidato a avatar.

O filme do Danny Boyle ajuda a desconstriuir essa imagem por mostrar uma Índia longe dos estereótipos pós-Beatles. A miséria absoluta de uma favela em Mumbai choca, até mesmo um brasileiro acostumado a morar ao lado da degradação humana. Não sei porquê mas enquanto assistia o filme eu não conseguia parar de compara-lo a outra obra.

Cidade de Deus é um filme que tem uma temática semelhante ao ganhador do oscar desse ano.

Dois jovens favelados que se convivem na infância e que tomam caminhos opostos, um, tentando encontrar formas de sobreviver "honestamente" e outro mergulhando no famoso "mundo do crime". Mas há uma diferença fundamental. O filme de Boyle não tem um sexto, da violência tresloucada da obra de Meireles.

Por que será?

Talvez seja apenas uma opção estética em deslocar do pano de fundo da miséria, o substrato de violência e brutalidade. Ou será que há mesmo na Índia algo de estranho, de exótico, de incompreensível para quem se acostumou a pensar que a violência sempre anda junto com a miséria?

Conversei com Moisés, um amigo de Curitiba que morou na Índia algum tempo e ele me disse que a miséria lá era assim mesmo, como mostrava o filme. Uma vez ele, acostumado a viajar pelo Brasil e ver de perto a pobreza do lado de cá, chorou compulsivamente diante de um grupo de crianças que o observavam comer um sanduíche vegetariano.

A miséria na Índia, ele me disse, é explicita e se manifesta em toda a parte. "E a violência?" perguntei eu querendo fazer o link entre os dois filmes. Nada significativo, talvez um furto aqui outro acolá, mas essa loucura, esse massacre, essa insanidade movida a fumaça de crack e a cheiro de pólvora não existe. "Talvez porque não haja tanto álcool, tanta droga e tantas armas", ele disse.

Talvez, porque ali, se morra com uma dignidade mais profunda. Talvez porque lá, em um universo panteísta, onde tudo é sagrado e a vida e a morte não são aspectos cindidos, mas sim elementos que fazem parte de um mesmo processo ilusório, a miséria, possa reter algum tipo misterioso e imperscrutável sentido de transcendência.

por pablocapistrano [00:16]
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