| 26.6.09 |
| MIchael Jackson is dead |
![]() Michael Jackson morreu. (1958-2009) Keep on the beat. |
| por pablocapistrano [19:13] |
| 21.6.09 |
| Antes do Jazz |
![]() Essa é a imagem antiga de Congo Square, um lugar em Nova Orleans. Nossa mente dá significado àquilo que experimentamos. Essa é uma verdade que a gente aprende com o tempo. Minhas experiências com música começaram muito cedo porque um dos locais mais fascinantes da casa de meus pais em Mirassol era a sala de som. Um velho "três em um" Gradiente e um punhado de vinis causaram minhas primeiras e mais fundamentais impressões auditivas, abrindo uma maravilhosa janela no meu cérebro que até hoje não se fechou. As quatro forças estavam lá: Rock, MPB, Música Erudita e Jazz. Tudo em discos grandes e pretos, com faixas visíveis dos dois lados, embalados em um plástico fino e transparente. Dessas quatro forças, minha consciência de criança sorvia bem Beethoven, os Beatles, Creedence Clearwater Revivel e o Clube da Esquina (meus prediletos junto com um velho disco de capa verde de música do tempo das cruzadas). O Jazz era meu limite. Eu não conseguia entender aquilo. Atravessei meus anos, perdi minha velha sala de som, rodei muito em lojas de CDs, sebos cheios de vinis e pubs esfumaçados fedendo a cigarro e cerveja, sem entender o significado do Jazz. Mergulhei nos anos selvagens embalado por estranhas experiências psicodélicas e um vendaval pouco saudável de abismos internos e delírios químicos. Até que um belo dia, quase na metade do caminho dessa vida, em um tempo em que as esquinas sem lei da juventude pareciam ter ficado mais estreitas e sem graça, meio sem saber como, ouvi Take Five do Dave Brubeck e subitamente o Jazz fez sentido. Minha mente estava pronta para dar significado àquilo que eu já conhecia, mas que ainda não havia ainda aprendido a sentir. Art Barkley disse uma vez que "O Jazz lava a poeira do cotidiano". No começo do século XIX essa poeira vinha de um lugar chamado Congo Square, uma área de Nova Orleans que em 1817 fervilhava com as festas dos escravos no Domingo à tarde. Mas Congo Square não era um lugar de "africanos da gema". A maioria dos freqüentadores do lugar não vinha direto da África, mas sim das Antilhas, do Caribe. Eram membros de uma segunda ou terceira geração de dispersos da diáspora negra que chegaram para plantar cana de açúcar nas ilhas controladas pelos holandeses ou que saiam das fazendas do interior dos EUA para trabalhar no porto. Os antilhianos traziam as batidas tribais que mais tarde foram gerar os ritmos caribenhos, tão populares pela América Latina. Os escravos do interior traziam para Congo Square suas plantation songs que eram derivações dos cantos da Igreja Batista, com chamados e respostas que lembravam de certa forma, as cantigas de santo dos terreiros de candomblé. Quando essas duas vertentes se aproximaram faltava muito pouco para a massa que deu origem ao Jazz começasse a ser gestada. Havia o ritmo, havia a melodia, mas faltava a alma. Faltava o Blues. Se os cantos da igreja batista faziam o escravo gritar coisas como: Oh God, let me go, o Blues, em sua versão mundana e desacralizada punha na boca do escravo coisas como: hey mister, let me be. O Blues libertava o escravo das formulas exóticas que a música de Congo Square havia criado. Lá, naquela poeira das festas de Domingo à tarde, os negros escravos eram vistos como "espécimes curiosos de uma selvageria exótica". Isso gerava muita imitação caricata, como a que os menestréis (Brancos pintados de preto) faziam em cima das marchas militares, sincopando, sofisticando o ritmo e imitando os trejeitos das danças africanas para animar os salões de Nova Orleans. Menestréis como Daddy Rice, famoso dos anos de 1840 e 1848 e que criou uma canção chamada Jim Crow, usada depois para nomear a política segregacionista e racista do sul dos EUA, transformavam os negros de Congo Square em um tipo grotesco de alegoria. No mundo do Blues a mensagem era incisiva e a alma do escravo não permitia esse tipo de fuleiragem. Os menestréis não conseguiam tocar o coração do blues porque ali havia o núcleo duro da experiência da escravidão. Havia o sentimento intenso do exílio e a marca da saudade de um tempo em que os homens eram livres. Com esse tipo de força não se brinca. Com esse tipo de sentimento, não se consegue fazer piada facilmente. Por isso é justo dizer, que antes do Jazz, havia o blues, e o blues se fez nota e som para injetar, naquela mistura festiva, naquele carnaval burlesco e louco de quadris agitados e de ritmos frenéticos, aquela pitada inquietante de sentimento, dor e êxtase que transformaram a arte criada em Nova Orleans na grande música do século XX. |
| por pablocapistrano [21:50] |
| 11.6.09 |
| Sinal dos Tempos |
![]() "em minha idade cada ato é uma preliminar da morte" Iggy Pop. Parece mesmo ser um sinal dos tempos a informação de que Iggy Pop lançou um disco Préliminaires onde canta Jacques Prévert. Para quem não conhece o Prévert teve um de seus poemas Lês Feuilles Mortes gravado pelo Ives Montand e foi homenageado pelo Serge Gainsbourg com a Chanson de Prévert. Meu pai mesmo, tinha no carro uma fita K7 (já ouviu falar nisso?) com o melhor da chanson francesa, dos anos sessenta e setenta e eu me acostumei a atravessar, entre 1981 e 1982, os longos espaços vazios que nos levavam pela ponte de Igapó até uma então longínqua e selvagem Redinha Nova ouvindo as melodias da voz de Aznavour, Gainsbourg e Montand. Você pode estar se perguntando: "qual é o problema desse tal de Iggy Pop cantar esse outro doido francês?". Se você se perguntou isso então provavelmente você não sabe quem é Iggy Pop. Durante muito tempo eu achei que Jimi Hendrix e Jim Morrison eram os grandes paradigmas de uma "vida roquenrol". Eles pareciam bons candidatos ao cargo de mestres existenciais do estilo musical que guiou a cultura contemporânea nas últimas décadas do século passado. Botaram tudo para dentro e depois morreram afogados em seus próprios fluídos corporais. Foi então que eu descobri Ian Curtis, meu mestre espiritual dos 16 até aos 22 anos. Curtis parecia uma daquelas imagens enevoadas de velhos contos góticos do começo do século XIX, ou mesmo um personagem de um filme de Murnau ou do Robert Wiene. Ele me fazia ter vontade de reler Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe toda vez que eu ouvia meu vinil do "Closer", o mais intenso bilhete de suicida já transformado em música no universo da arte contemporânea. Durante algum tempo eu achava mesmo que o Ian Curtis era o paradigma da vida roquenrol. Nada de morrer de overdose como um imbecil. O astro de rock mesmo tinha que meter uma corda no pescoço e se enforcar. Mas então veio o Kurt Cobain e destruiu todo o glamour que envolve os suicidas quando estourou os miolos naquela garagem em 1994. A partir daquele momento, a despeito do meu profundo respeito estético pelo Joy Division, comecei a achar que Ian Curtis, como o Morrison e o Hendrix tinha também seu lado idiota. Quando parecia que minha vida roquenrol estava mesmo com os dias contados (isso é o que acontece com você quando começa a perceber que seus ídolos da adolescência são meio estúpidos, mas não se preocupe é normal) eu descobri o Iggy Pop. James Osterberg, o Iguana. Vocalista dos Stogges, a banda proto-punk dos anos sessenta que influenciou, junto com o Velvet Underground, todas as grandes novidades da indústria musical do fim do século e ajudou a enterrar os corpos dos últimos hippes. Ele era um novo candidato à paradigma da existência roquenrol. Absolutamente selvagem e louco. Comeu cocô no palco (ops, será que esse não foi o Frank Zappa?), caiu por cima dos cacos de vidro, se cortava no meio do show, tomava choque, andava por cima da platéia. Uma vez se entupiu de speed e passou três dias andando com uma coleira e uma corda no pescoço, sendo controlado por um amigo pelas ruas de nova York. Passou um ano nu, tomou ácido uma vez e passou oito horas com os dois dedos do pé em cima de duas teclas de um sintetizador vendo uma imagem psicodélica de um Buda Tibetano no teto da sua casa. Prendeu Nico (a diva do Velvet Underground) por um mês em um porão de uma casa para seviciá-la em troca de heroína. Iggy Pop viajou fundo e entrou em buracos que nem eu, nem você, podemos imaginar e, depois de tudo isso, fez a coisa mais inusitada e louca que um astro de rock poderia fazer... permaneceu vivo. Sim. Iggy Pop não morreu sufocado no próprio vômito depois de se entupir de barbituricos com whiski, nem estourou as veias de heroína até secar, nem se enforcou na cozinha da casa dos pais, nem meteu uma bala na cabeça. Iggy Pop permaneceu vivo e chegou aos sessenta e dois anos para dizer: "cansei dessa merda, vou cantar Jaques Prévert". Nada mais punk. Ou a vida roquenrol já deu o que tinha de dar, ou eu, como o Iggy Pop, estou ficando velho. Pois é, camarada, sinal dos tempos... sinal dos tempos. |
| por pablocapistrano [11:43] |