| 28.7.09 |
| Velho alto oeste |
![]() Pessoal, voltei no Domingo do velho alto oeste. A viagem foi boa, visitamos a minha família materna os paivas do Sertão (lá no Timbaúba de Petronilo Augusto, no pé da serra de Patu) e os paivas da serra, (lá em Serra Nova, em Martins). A chuva foi boa. Ainda está caindo água por lá, mesmo em pleno mês de Julho. Mas só o que se falava era dos assaltos nas estradas. O que me deixa espantado é perceber que nos lugares mais afastados dos grandes centros o medo da violência impera do mesmo modo. Então cai de cabeça na minha tese de doutorado. Devo concluir essa peste até o fim da semana, mas para quem não quer esperar mais um artigo (só na semana que vem...) deixo aqui uma bela foto do Alexandro Gurgel da Serra de Patu, e um link para uma crônica do João Paulo Cuenca sobre nossa pequena catástrofe urbana. Que a paz acompanhe vocês!! http://oglobo.globo.com/blogs/cuenca/ |
| por pablocapistrano [11:19] |
| 19.7.09 |
| Os Discos de Dylan |
![]() Esse ano eu só soube que era dia mundial do rock porque dei uma olhada na coluna Bazar do Alex de Souza (http://www.nominuto.com/blog/bazar) e me deparei com o texto sobre o disco London Calling do The Clash. Não que o rock tenha deixado de chacoalhar minhas células, mas é que nesses tempos chuvosos e cheios desse estranho sentimento de dissolução que toma conta da terra, meu desejo parece ser o de retroceder até um tempo mais arcaico, mais fundamental. Então, nos últimos meses, os dois primeiros discos de Dylan e mais uma longa lista de canções de Woody Guthrie andaram freqüentando mais tempo meu aparelho de som. Talvez nem todo mundo tenha prestado atenção (ainda mais nessa época de mp3 na qual o conceito de álbum parece estar esfarelando rapidamente, junto com a ordem natural das coisas e a nossa paciência em relação às bobeiras humanas), mas o primeiro disco do Bob Dylan, produzido pelo John Hammond quase não tem músicas próprias. Alguns acham que isso acontece porque o compositor com cara de menino na capa do disco, estava guardando suas pérolas para os discos posteriores. Mas talvez seja mais do que isso. Um documentário dirigido por Steve Gammond que anda a disposição do público de Natal em bancas de revista com o título Down the Tracks - a música que influenciou Bob Dylan, mostra que existe muita coisa oculta nas referências de Dylan. Do ponto de vista cinematográfico o documentário não é muito bom, mas vale como documento histórico para quem gosta de mergulhar na arqueologia dos nossos ícones. Gammond tenta pensar Dylan a partir de sua origem e descobre um sujeito fundamental na história da música moderna. O nome do caboclo é Harry Everett Smith e nasceu em algum lugar lá pras bandas do Oregon na década de 20. Harry era estudante de antropologia quando se interessou em pesquisar um ramo acadêmico chamado "Etnomusicologia". Em 1952 ele lançou uma coleção de seis discos em 78 rotações, com gravações garimpadas e datadas de um período entre 1927 e 1932. O Anthology of American Folk Music é uma dessas raridades que se um dia você encontrar em um sebo e não tiver dinheiro para comprar, pense seriamente em vender sua mãe aos árabes para levantar a quantia (desculpe, mas essa é uma expressão que eu retirei de um filme de Woody Allen, sem querer ofender os colegas árabes). Sim, a propósito, o Dylan é judeu e seu nome hebraico é (Shabtai Zisel bem Avraham). Para muita gente que estuda a obra do sujeito um dos elementos mais marcantes de sua poesia é, ao lado de todas as referências literárias clara a Dylan Thomas, Rimbaud e Blake, uma desconcertante mistura de evocação profética com uma notação melódica que junta Blues, Jazz, Country (especialmente do Cowboy dark Hank Williams) e Cajun Music (um tipo de música da Louisiana, que tem ligações com as influências da cultura creole). O forte da coletânea do Smith é a capacidade de resumir e demonstrar as ligações que a música folk norte americana mantém com velhas canções da Escócia e Inglaterra, especialmente com uma coleção de 305 canções editadas no século XIX por Francis James Child e que aportaram nos Estados Unidos e foram preservadas em comunidades rurais à oeste dos montes apalaches. Dylan era aficionado por essa coletânea e boa parte de sua carreira consistiu em prestar tributo a ela. No seu primeiro disco (Bob Dylan - 1962), e em discos posteriores como Nashiville Skyline (1969), World Gone Wrong (1993), Modern Times (2006), Dylan parece sempre voltar à coletânea de Smith para buscar forças criativas ou mesmo para, sem medo de comparações, deixar as pistas de suas influências, como se as marcas da vida de um homem não devessem ser medidas apenas por seus atos, mas pela linhagem à qual ele pertence. |
| por pablocapistrano [11:51] |
| 17.7.09 |
| Datas da Semana |
| Algo está acontecendo comigo. Passei o dia mundial do Rock e nem me toquei da comemoração. Durante a tarde, nessas férias chuvosas entrecortadas por uma tese de doutorado, assisi um belo documentário do Steve Gammond sobre os discos que Dylan ouvia antes de se tornar Dylan, depois vou escrever sobre isso... Hoje, passei o dia ouvindo uma coletânea de Sarah Vaughan e Billie Holiday. Que morreu a exatos cinquenta anos atrás. Esse link pode te levar para um vídeo da Lady Day com Lester Young. A voz e sax na mais perfeita tradução. http://www.youtube.com/watch?v=ZtgUbJN8oPE&feature=related |
| por pablocapistrano [17:52] |
| 8.7.09 |
| Jornalismo e crise |
| Ontem, como quase sempre, o programa observatório da Impressa foi muito bom. A discussão girava em torno do colapso ou não o jornalismo tradicional. Sim, porque depois da morte de Michael Jackson e dos conflitos no Irã, cada ser humano com um celular é hoje uma ilha de edição da realidade, uma poderosa máquina de fazer notícias. Será isso uma revolução? Veja bem, veja bem, hoje a informação não é novidade e antes de mais nada o furo morreu. Aquela ideia criticada por Nelson Rodrigues, que gemia ao perceber as redações de jornais cheias dos chamados "Idiotas da Objetividade" (aqueles que pensavam que o papel de um jornal era simplesmente mostrar o fato, com uma objetividade utópica, destroçada por qualquer manual de fenomenologia), parece estar com os dias contados. Agora, a turma grita que o jornalismo tradicional não pode mais buscar a "informação" pura e simples. O fato já está dado e é instantâneo. Agora, ela vai ter que buscar a qualidade da informação. Eu particularmente já percebi isso em sala de aula. Estou cercado pelo professor Google. Sim, em toda sala de aula que eu entro agora, tem um aluno ou uma aluna com um lap top ligado ao Google e qualquer coisa que eu diga... potof, imediatamente já está ativado o professor Google com seus links imediatos. Amigo velho, hoje a alma do negócio não é a informação, hoje, mais do que nunca, o segredo é a interpretação. Sacou? |
| por pablocapistrano [18:17] |
| 3.7.09 |
| Na Cova com o Michael |
![]() A última aula do semestre é sempre um momento ambíguo. Ao mesmo tempo em que aparece aquela contagiante emoção de quem está na iminência das férias, preserva-se também certa quantidade de saudade que vem do simples fato do tempo passar. Pois foi na última aula desse semestre que eu tive a notícia da morte do Michael Jackson. Uma aluna interrompeu a aula e me passou um bilhete comunicando: "professor, por favor, avise a turma que Michael Jackson morreu". Bem, não há muita novidade nisso. Morrer não é lá algo inusitado. Mas foi inevitável a tentação de imitar o "moonwalk" (famoso passo do Michael) nos instantes finais daquela aula para descontrair. Se o Michael tivesse simplesmente morrido, eu juro com toda a força de minha autocrítica que não escreveria uma linha sobre o assunto. O problema é que ele não apenas morreu como acabou protagonizando um dos mais curiosos fenômenos de histeria coletiva dessa primeira década do milênio. Veja só, amigo velho, duas semanas atrás quem se lembrava do Michael Jackson? Os vinte e cinco anos do disco Thriller passaram com algumas matérias nos telejornais, um ou outro programa especial de memórias na Globo News, um artigo aqui outro ali em revistas especializadas e um punhado de críticos tentando explicar os meandros do disco e suas mitologias. Agora, depois da morte de Michael, não se fala de outra coisa. O mundo congelou e nem os conflitos no Irã, nem o avanço da gripe do porco, nem a queda de mais um Airbus conseguiram congestionar o mundo virtual com a força da notícia da morte de Michael. Subitamente, como se tomada por um avassalador sentimento de culpa, a humanidade ajoelhou-se aos pés de Michael Jackson. Todos agora são fãs, todos agora escutaram seus discos, todos imitaram sua dança quebrada no furacão do break dos anos oitenta, todos sem exceção, entendem a sua genialidade profunda, sua inovação criativa, sua importância fundamental e insubstituível para o mundo da música e da dança. Morrer é assim pessoal. A morte nos absolve de todas as culpas e dilui todo julgamento público, por isso Michael agora conseguiu aquilo que todo morto ilustre consegue: a imunidade e a unanimidade avassaladora das salas de necrotério. Seis meses antes de se entupir de demerol e ter uma parada cardíaca, Michael estava falido, isolado, esquecido, com sua dignidade marcada pelas denúncias de pedofilia, com seu corpo destroçado por uma seqüência pouco saudável de intervenções médicas. Ele parecia um ex-ídolo Pop cuja obra já começava a ser objeto de pesquisas arqueológicas. O Fato é que entre os anos de 1991 (quando lançou o álbum Dangerous) e 2001 (ano de Invencible seu último disco com canções inéditas), Michael padeceu de um desconcertante ostracismo criativo. Um vazio estético nunca superado. O auge da sua produção musical está, com certeza ligado, em um primeiro momento ao trabalho com os Jacksons Five e com a Motown, e em um segundo momento à parceria com Quincy Jones que o ajudou a produzir seus três melhores discos: Off The Wall (1979), Thriller (1982) e Bad (1987). Após isso Michael nunca conseguiu, como bem observou o Arthur Dapieve em entrevista recente, superar a si mesmo e sua carreira mergulhou em um buraco artístico só comparável a seu abismo existencial auto destrutivo e psicótico. Quando morreu, Michael era enxergado com certa desconfiança, como uma espécie de freak da música, um pirado que bem poderia fazer parte do rol de personagens do Asilo Arkham da DC Comics, junto com o Coringa, o Duas Caras, o Pinguin e, é claro, o Batman (curiosamente, também acusado de abusar sexualmente de menores no famoso "caso Robin"). Bastou a morte... sim, bastou a fria e isonômica morte, que igualha reis e escravos com a mesma lâmina cortante do tempo e da decadência do corpo, para que o velho freak de Neverland, na velocidade do Twitter, virasse uma espécie de santo pós-moderno, como Bob Marley, John Lennon e Che Guevara. Hoje é dia de dançar sobre a cova de Michael Jackson e começar o longo processo de exumação de seu cadáver artístico, e canonização de sua figura andrógena. Um processo amplo e contínuo que ainda vai durar algumas décadas. Um tempo de recomposição de imagens partidas que vai gerar muito lucro, antes que, como tudo nesse mundo, seu legado seja lançado na poeira do tempo para se dissolver definitivamente, como a própria terra que nos gerou, nesse silêncio sem fim do universo. Tal qual a luz de uma estrela que morre. |
| por pablocapistrano [19:16] |