| 29.9.09 |
| LOKI |
![]() Sexta feira dia 18 de Setembro, às dez da noite, em pleno Rosh Hashanah (ano novo judaico) o Canal Brasil exibiu o filme Loki, sobre a vida do músico e compositor, Arnaldo Baptista. Eu conhecia as músicas do Arnaldo pela minha mãe que era fã dos Mutantes. Mas foi apenas no tempo do El Chaco (um bar que havia na praça das flores em Natal entre 1990 e 1991 e que serviu para arrancar o cabaço musical de muita gente) que eu ouvi os discos solos, Loki? (1974) e Singin´Alone (1981), esse último lançado pelo mitológico selo Baratos Afins do Luiz Calanca. Arnaldo tentou suicídio em 1981, depois de ter sido internado no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo. Ele pulou do quarto andar e ficou quatro meses em coma. Teve lesões cerebrais que comprometeram seus movimentos e sua fala. Sua recuperação foi lenta e só em 2004 voltou a gravar um disco Let It Bed. Se a gente pensar na trajetória musical de Arnaldo Baptista temos que pautar um tema inevitável: a alegria. A construção, a perda e a redescoberta da alegria marcam essa trajetória. Sean Lenon, no filme de Paulo Henrique Fontenelle, comparou Arnaldo com Sid Barret (um dos pais fundadores do Pink Floyd). Mas há uma distinção fundamental. Barret que morreu em 2006, nunca conseguiu voltar da sua viagem em direção ao silêncio e ao isolamento. Seu surto não se transfigurou criativamente a ponto dele conseguir encontrar uma nova forma de convivência com o mundo. Sua viagem foi sem volta. Arnaldo conseguiu retornar e nesse retorno parece ter encontrado uma plenitude quase mística que só se conforma para os loucos e para os santos. Não dá para entender essa metamorfose sem seguir as pistas que se encontram em sua música. Mesmo a melancolia do final dos anos setenta, que culminou no seu surto e na sua tentativa de suicídio em 81, não se assemelha com a radical desconstrução da mente de Barret no inicio dos setenta. A melancolia de Arnaldo parece surgir da saudade de uma alegria perdida, a de Barret parece ser produto da ausência absoluta de qualquer alegria possível. Vazio e saudade são marcas existenciais radicalmente distintas. Se o primeiro produz náusea e desespero, o segundo cria uma melancolia que contém, no seu próprio azul profundo, a chave para a sua superação. O sol negro de Barret e a noite violeta de Arnaldo são diversas, talvez, quem sabe, por questões culturais. A mãe do único filho do Arnaldo (não consigo me lembrar do nome dela) disse, no filme, algo mais ou menos assim: "a melancolia do Arnaldo vinha da tristeza de não compreender o porquê de não ser compreendido". As razões da não compreensão da obra de Arnaldo, relegada ao silêncio obsequioso que o senso comum mantém diante dos loucos, são múltiplas. A radicalidade de sua experiência sonora, a erudição profunda de suas composições intercalada com a marca visceral do roquenrol, a dificuldade do gosto médio brasileiro enxergar algo que se posicione além do pop ou do popular, a desconfiança em relação àquilo que não se enquadra em algum rótulo... Quando Kurt Cobain anunciou para o mundo, em sua turnê no Hollywood rock de 1993 que havia descoberto um gênio musical perdido nos trópicos brasileiros, pouca gente por aqui deu atenção. Quando Sean Lenon chamou Arnaldo para o palco em uma de suas apresentações no Brasil é que os posers especialistas em raridades forjadas começaram a anunciar seu gosto pelo Arnaldo e a mídia resolveu buscá-lo em seu esconderijo. O público brasileiro sepultou o Arnaldo depois do fim dos mutantes porque não conseguiu seguir a velocidade de sua arte que leva a mente dos comuns ao seu limite de potência Arnaldo sobreviveu a esse esquecimento porque em sua luta interior, longe do mundo e diante de sua própria música, ele tinha um trunfo que Barret, como um bom inglês, jamais poderia dispor. Talvez haja algum conteúdo cultural na loucura. Algum elemento climático ou genético, que possa explicar o porquê de, em meio a mais densa melancolia, a possibilidade da plenitude se mantém. Pois é, amigo velho, Arnaldo sempre soube, como todo bom brasileiro, que a alegria é a prova dos nove. |
| por pablocapistrano [22:21] |
| 17.9.09 |
| Natal: Madrasta do nordeste |
![]() A triste notícia da morte de Tico da Costa, e logo em seguida a belíssima crônica/desabafo do Carlos Magno Araújo publicada no substantivo plural (www.substantivoplural.com.br) me fizeram lembrar algo que de vez em quando amo esquecer: eu vivo em Natal. Natal é uma cidade legal. Clima ameno, apesar dos condomínios de 30 andares que roubam a cada dia o que sobrou do céu. Belas praias, apesar do clorofórmio fecal nas zonas urbanas. Tranqüilidade, apesar do massacre silencioso de jovens que ocorre diariamente nas nossas periferias. Natal é legal. Aqui, ninguém se dá muito mal, como canta Pedro Mendes. O problema é que, por algum motivo misterioso, que escapa em muito minha pouca compreensão acerca das idiossincrasias das comunidades humanas, Natal ainda se comporta como a grande madrasta da cultura potiguar. Não sei se você sabe, mas Tico da Costa foi mais uma vítima da maldição de Cascudo ("Natal não consagra nem desconsagra ninguém" - dizem que Cascudo afirmou isso). Como bom natalense nunca havia ouvido falar de Tico da Costa até que Diógenes da Cunha Lima me apresentou suas composições a uns quatro ou cinco anos. Tico passou a maior parte de sua carreira pela Itália, tocou em Nova York com Philip Glass (um dos grandes nomes da música contemporânea) e tem suas músicas hoje reagravadas em outras fronteiras por esse mundo de meu Deus. Apesar disso morreu triste pedindo ao Carlos Magno que publicasse uma resenha sobre um disco seu em um jornal da sua própria terra, porque, a despeito de ter tido uma carreira de destaque lá fora não era reconhecido no seu estado de origem. Saber por que coisas desse tipo acontecem não é tarefa fácil. È importante entender que o caso de Tico da Costa não parece com casos de artistas "malditos", de poetas e músicos do underground que passam parte da vida na obscuridade, produzindo uma obra para três ou quatro adeptos, que, após a sua morte chamam atenção para o nome do mestre. Tico é diferente. Ele teve discos lançados, e shows em vários países, sua música, de Areia Branca para o mundo, trouxe algo que chamou atenção da gringolândia, mas que não foi percebida por Natal. O Rio Grande do Norte, durante muito tempo, como o professor Sérgio Trindade me alertou uma vez, foi partido em três direções divergentes. Até os anos setenta, o oeste (com sua eterna capital Mossoró), voltava-se para Fortaleza. Natal por sua vez, era uma espécie de bairro de Recife, ao passo que o Seridó (que era Paraíba até a década de 1820) tinha sua ligação estreitada com o pólo cultural de Campina Grande. Esse quadro parece que só muda nos anos 80, quando a rede globo passa a ter sua transmissão a partir da capital do estado. Mas os anos de esquartejamento cultural já havia feito seu estrago. Sem um pólo para focar a vista, o estado do Rio Grande do Norte parece que cresceu olhando para fora, buscando os estados vizinhos, enquanto Natal, aquela fazenda iluminada, aquela pequena aldeia ao pé das dunas e na beira de um rio de água salobra, permanecia reduzida à sua insignificância urbana e populacional. O curioso é que esse "olhar para fora" que gerou o traço mais característico do natalense (uma espécie muito peculiar de matutismo policultural) não conseguiu fazer com que a cidade enxergasse de forma digna a obra de Tico. Nosso cosmopolitismo brejeiro não nos permitiu identificar aquele potiguar entre as multidões do mundo. Perdemos Tico da Costa sem ter-mos descoberto seu talento nem entendido a importância de sua música. A pergunta agora é: quantos mais? |
| por pablocapistrano [19:23] |
| 8.9.09 |
| O Colapso do Show da Xuxa |
| Quem entrou no mundo do twitter já começou a se divertir. Algumas dicas são importantes para que você sobreviva a mais essa novidade: (1) selecionar cuidadosamente quem você vai seguir para não ter sua tela de computador atulhada de banalidades em 140 caracteres; (2) ter uma preocupação mais do que redobrada com o que você escreve. A primeira dica serve para preservar a sanidade mental, porque você pode perdê-la muito facilmente se mergulhar fundo nessa fauna de mensagens que se propagam em uma velocidade quântica pelos neurônios virtuais da grande mente coletiva. Sim, a Internet parece cada vez mais uma consciência sem inteligência (o que não parece ser muito claro ainda é como essa superconsciência pode funcionar, mas esse é um objeto para os filósofos da mente nas próximas décadas e não dá para discutir isso em um artigo só). O fato é que muita gente, oriunda das velhas mídias, está pagando mico no twitter. O caso Xuxa é um exemplo que já nasceu clássico. Para quem não ouviu falar do acontecido, o que me chegou à tela é que a Rainha dos baixinhos, objeto dos delírios infantis de boa parte das crianças minha geração, saiu do twitter após um episódio envolvendo sua filha (o boato de ontem é que ela já havia voltado). O fato é que uma mal pensada frase da apresentadora virou objeto de piadas espalhadas pela rede, transitando de um espaço a outro da Internet e gerando uma onda de atenção que só Vanusa cantando o Hino nacional e Belchior (esse ai, eu ainda não consegui descobrir porquê) conseguiram se equiparar. Pois é, amigo velho, esse é o tempo do agora. Um tempo de imensidades e de assombrações, que decompõe as velhas formas nas quais os ícones das antigas mídias construíam suas mitologias particulares. Quem estava acostumado a TV, ao rádio, ao cinema, sofre com esse tipo de interatividade, porque a regra da rede é que ninguém está tão longe assim para não ser tratado como igual. Quando Walter Benjamim escreveu o seu ensaio clássico, A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica (gostou do nome?) havia a idéia de que a indústria cultural, com seus discos, seus filmes, seus livros impressos, suas cópias fotográficas iria destruir a aura do objeto artístico. A pintura de Da Vinci, reproduzida em cartões postais, iria perder seu caráter mágico de objeto único. Sim, havia certa ansiedade nostálgica nessa idéia de Benjamim, uma certa saudade de um mundo moribundo. O curioso é que durante o século XX a indústria cultural substituiu o objeto único pela imagem distante e inacessível do astro de rock, do artista de cinema, do escritor famoso, do apresentador de TV que se relaciona com seu público mediado pela frieza de uma tela radioativa. A indústria não cumpriu a profecia escatológica de Benjamim sobre o colapso da reverência religiosa do homem para com seus objetos de beleza. Ela simplesmente colocou o autor da obra no lugar da obra e criou um modelo de culto mais sofisticado. Agora não era a canção de John o objeto único. A música de John estava disponível em qualquer prateleira de loja de discos. No século XX, o próprio John se tornou o ícone aurático que Benjamin acreditou ter morrido. John era o ídolo, o objeto de desejo, a fonte de reverência. Xuxa é um personagem dessa época e sua ligação com o twitter mostra que ela ainda não entendeu que nesse tempo do agora, (em que o futuro parece ser mais uma dessas improbabilidades) o único e derradeiro ícone é a própria rede. Parafraseando nossa eterna rainha: "fui, vocês não merecem falar comigo nem com meu anjo". Pede pra sair 02! |
| por pablocapistrano [20:59] |