| 29.8.08 |
| Quero votar no Obama |
![]() Quero votar no Obama. Saca só esse vídeo com o discurso do cara em uma igreja de não sei aonde. http://br.youtube.com/watch?v=_IHQr4Cdx88 Mas vamos ao texto. Depois de uma semana (ou mais) de propaganda eleitoral no rádio e na televisão em todo o Brasil já me decidi: quero votar no Obama. Não sei como eu vou conseguir fazer isso, mas o certo é que quanto mais eu escuto os candidatos do meu país, mais a vontade de votar no Obama cresce. Talvez um dia, algum professor doutor do curso de marketing de alguma universidade federal possa explicar esse fenômeno. A questão mais instigante, no entanto, é que ele não parece ser exclusivamente brasileiro. Pelo noticiário da DW-TV alemã, no dia seguinte ao discurso final do Obama na convenção democrata, parece que o estranho fenômeno é global. Quanto mais os cidadãos de outros países escutam suas lideranças e seus pronunciamentos televisivos pátrios, mais a vontade de votar em Obama aumenta. Como explicar isso? Obama é o presidente dos EUA que o mundo inteiro sonhou um dia, simplesmente pelo fato (e isso ficou claro no discurso final da convenção democrata) que ele encara o que de melhor a sociedade norte americana prometeu ao mundo. Os EUA nasceram com uma promessa (Obama teve o cuidado de usar o termo "american promise" no discurso e não o malhado "american dream") de construir uma sociedade multicultural, multiétnica, baseada nos princípios do iluminismo e na idéia de uma federação livre, onde o homem comum poderia viver sua vida como bem entendesse. Quando Thomas Jefferson redigiu a declaração de independência norte americana e instituiu os três direitos fundamentais (vida, liberdade e busca da felicidade) estruturou o discurso que nortearia a promessa americana: a idéia de uma nação para a humanidade e não de um curral provinciano, racista e aristocrático, como muitos países europeus eram na época. Essa promessa, nunca cumprida (diga-se de passagem), alimentou o desejo do mundo por muitos anos e foi o grande baluarte ideológico que o modelo americano usou para confrontar a outra utopia iluminista que lhe era concorrente (a finada URSS). Essa foi a promessa de Thomas Paine, de Benjamim Franklin, de Abraham Lincoln, de Walt Whitman, de Thoreau. Essa foi a promessa que Luther King cobrou ser cumprida no seu discurso de 28 de Agosto de 1963. Essa é a promessa relembrada e cantada por Woody Gruthrie e por Bob Dylan (seu discípulo) e romantizada nos personagens de Jack Kerouack. Há uma força que arrasta os EUA em direção a materialização dessa utopia humanista (que em certo sentido tem a mesma base filosófica da utopia humanista do socialismo original). Mas há uma outra força que rasga a América e que a afasta da promessa à qual ela está atada. Há uma América profunda, fundamentalista, racista, consumista e militarista. Uma América provinciana e megalomaníaca que se sente ameaçada por um mundo que ela não consegue compreender. Essa é a América que W. Bush representou por oito anos. A América de grandes companhias de petróleo lançando toneladas de carbono na atmosfera. A América que entope as veias da humanidade com gordura industrializada de fast foods e de refrigerantes com glicose turbinada, que não se importa em explodir países por razões ilusórias, que cerca suas fronteiras com muros gigantescos, que se isola em um pânico monoglota, que segrega e separa e que destrói o tecido ambiental do planeta sem nenhuma culpa ou vergonha. Sabe, o mundo quer votar em Obama porque o mundo quer a promessa americana. Isso acontece porque essa promessa não é apenas americana, ela é uma promessa da humanidade que ecoa desde os tempos dos profetas bíblicos. Obama, no discurso da convenção, transmitido pela CNN ao vivo para todo mundo, não subestimou seu antecessor, Martin Luther King, que 45 anos antes evocou a promessa americana sempre adiada pelos anos de escravidão e segregação racial. Obama não falou como um profeta bíblico, coisa que ele pode fazer, vale salientar. Falou como candidato, com um discurso de candidato, um tom de candidato, para uma platéia que espera um candidato para votar. Não sei se os norte-americanos vão eleger Obama presidente (quem vai saber o que eles querem), mas caso McCain ganhe a eleição dia 04 de Novembro, não tem problema, a gente oferece um partido para o Obama concorrer aqui no Brasil, em 2010. |
| por pablocapistrano [18:02] |
| 22.8.08 |
| Medalha, medalha, medalha. |
![]() 21 de Agosto de 2008. Vou confessar: não sou um grande fã de esporte. Tirando o futebol, que não é esporte, diga-se de passagem, mas um aspecto da visão de mundo dos meus compatriotas, eu só paro na frente da televisão, em época de olimpíadas, para assistir a ginástica olímpica. Isso acontece há muito tempo, desde 1988, se não me engano. Não sei porque eu gosto de ginástica olímpica, mas deve ter a ver com Nadja Comaneci. Lógico que eu não lembro dela na olimpíada de 1976 em Montreal (tinha dois anos apenas). Mas, desde que eu vi reprises de suas atuações naquele ano, eu entendi que há algo diferente na ginástica olímpica. Algo que parece muito, ao menos na minha memória, com as imagens da seleção brasileira de futebol em 1982. Eu sei, eu sei. Esporte é resultado e você vai me dizer que o que importa em uma competição é a vitória e que, quando o negócio é olimpíada o que conta é o número de medalhas porque resultado é uma coisa que se mede com números. È, você tem razão. Talvez seja por isso que eu não goste de esporte. Vencer nunca foi alguma coisa interessante para mim. Ganhar de alguém sempre me pareceu amargo. Nunca gostei de vencer, porque, minha piedade pelo derrotado me levava a sofrer seu sofrimento e esse gosto estranho de sangue e hormônio que escorre da boca do vencedor, nunca me foi muito apetitoso. Até nas minhas maiores rivalidades futebolísticas, em jogos das minhas duas únicas concessões a irracionalidade esportiva (O Flamengo e o América de Natal), guardo certo sentimento de culpa e me justifico pela freguesia continua dos vascaínos ou pelos tropeços do ABC, dizendo, "eh eh, eles jogaram bem". Para mim, não há muito sentido em continuar nesse mundo, se não houver em qualquer lugar, um espaço para que a beleza entre em nossa vida. Acho que no esporte, essa beleza aparece nas imagens de Nadja Comaneci, e em tantas outras meninas que voaram e seus aparelhos em Seatle, Atlanta, Seul, Barcelona, Sidney, Atenas e Pequim. Talvez por isso, a gente não seja assim tão vitorioso no esporte, não é? Sim, sim, tá bom, tá bom. Você tem razão. Falta incentivo, falta grana para o atleta, falta apoio do governo, falta pista, falta equipamento, falta competição, falta fisiologistas especializados no "endo-doping" do Michael Felps. Certo, certo. Falta tudo isso. Mas eu acho, cá comigo, que um povo que inventou a capoeira e o frescobol de beira de praia não é lá um povo assim tão competitivo. Jogar, em outras línguas, tem uma conotação bem mais ampla do que em português. Em alemão com o verbo spilen, joga quem toca um instrumento assim como joga também, quem interpreta um papel em uma peça de teatro. Joga que pratica um esporte e joga quem brinca de bola na rua, quem monta um quebra cabeça ou quem se diverte com uma corda de pular. Jogar é bem melhor do que competir, porque, enquanto se compete contra o outro, se joga com o outro. Essa é uma lógica que nossos ancestrais indígenas nos ensinaram, quando recebiam, dos indianistas, sua primeira bola de futebol. Narrativas antropológicas contam que quando se dava uma bola para os índios eles não conseguiam de imediato, construir uma noção de que havia dois times. Todos jogavam juntos tentando enfiar a bola no meio das traves e quando ocorria o gol, todo mundo comemorava junto e o jogo só acabava quando empatava. Talvez seja por isso, pela beleza e pelo prazer que o brasileiro acostumou-se a ser quem é. Sei que a gente anda esquecido disso. Cedemos ao lado mais selvagem da imensa fantasia nietzscheana que é o Brasil (a violência e o individualismo) e começamos a perder o fio de nosso ensinamento e de nosso papel na humanidade. O Brasil anda estranhamente alheio a si mesmo, prestando atenção em um evento criado por um povo que amava acima de tudo a competição (os velhos gregos), dominado por anos por um povo que transformou a competição em sua neurose doméstica (os norte americanos) e agora, organizada por um povo que aprendeu a competir para recuperar o sonho nostálgico de uma grandeza perdida (os chineses). Depois de ver as meninas da ginástica brasileira (inclusive com uma garota da minha cidade!) nas olimpíadas, fazendo aquilo (com um deslize aqui e outro acolá) que a Nadja Comaneci costumava a fazer, acho que essa foi, para mim, a melhor olimpíada de todos os tempos para o Brasil, porque, os atletas que me perdoem, mas em um mundo tão seco de prazer e alegria o espanto delicioso que a beleza de um corpo feminino proporciona e a leveza despreocupada uma bela festa entre amigos, com vinho, música e virtude, vale muito mais do que qualquer medalha. |
| por pablocapistrano [11:27] |
| 11.8.08 |
| Cuidado com o Cão |
![]() Eu estava me deliciando com o livro Doutor Fausto, de Thomas Mann, quando me deparei com a seguinte passagem: "quem crê no diabo, já lhe pertence". Passei um bom tempo paralisado por essa frase, lembrando das advertências da minha já falecida avó, quando eu, ainda criança, me punha em alguma situação de risco (como subir no guarda roupa e pular na cama, correr por cima do muro com um cabo de vassoura na mão ou desparafusar algum brinquedo com uma faca de ponta). Ela repetia em tom de alerta: "Pablo! Cuidado! O cão atenta!". Confesso que até hoje, por mais que eu me esforce, tenho uma profunda dificuldade de acreditar no "cão". Não sei se isso é um mérito, ou um defeito, mas não consigo entender como é possível que Deus tenha um rival. Mas isso é uma questão para outras crônicas que minha pouca teologia não permite explorar a fundo. Lembro que uma noite dessas, chuvosa e com esse vento frio, típico dos meses de julho, eu estava ministrando um curso de férias em uma faculdade. O tópico era "Hegel e a história" e a idéia era mostrar aos alunos, o modo como Hegel tentava construir uma ponte entre as concepções teológicas da Alemanha protestante e o historicismo de Vico. Falando em linguagem de gente normal: eu queria mostrar como a idéia Deus pode funcionar bem quando se casa com a idéia de história. No meio da aula, um aluno levantou-se e gritou: "Isso é mentira! Isso é mentira!", só para depois sair da sala. Fiquei sem entender. Preocupado, procurei o sujeito depois, para tentar dizer a ele o que Northrop Frye (em um livro fundamental sobre a Bíblia ? O Código dos Códigos) havia escrito. Frye tinha um aluno Chinês que não sabia como explicar o cristianismo para seus compatriotas (na década de sessenta, a China vivia em plena era de Mao). Frye sugeriu: "comece falando de Marx". Diante do espanto do aluno ele emendou algo mais ou menos assim: "sim porque, Marx é filho de Hegel e Hegel é filho de Lutero, então, se você quer falar sobre cristianismo, comece falando do neto e depois chegue no avô". Mas meu aluno, tomado por um estranho fervor, não entendeu meus argumentos e terminou a conversa com mais uma dessas frases enigmáticas que de vez em quando retém minha atenção: "professor! Quem mais conhece a Bíblia, é o Satanás!". Lembrei na hora dos alertas de minha avó: "Pablo! Cuidado! O cão atenta!" e um arrepio gelado percorreu a minha espinha. De repente, me vi diante de uma impossibilidade. Que argumento poderia oferecer para convencer meu aluno de que Hegel não era "o cão" nem um dos seus enviados? O mal tem sempre assustado e seduzido o homem. Diante de um mundo cortado pelo escândalo natural o mal inquieta e perturba, deixando sobre sua zona de influência muitas mentes humanas. Quando os primeiros sacerdotes católicos da Espanha chegaram ao Caribe e a América do Sul, depois de 1492, facilmente identificaram, nas práticas xamanísticas daqueles povos, a influência do tinhoso. Não poderia ser diferente. Como explicar para um homem do século XVI, marcado por uma visão de mundo circunscrita ao mediterrâneo, cercado por isolamento espaço temporal de mais de mil anos, sem nenhuma consciência antropológica, sem nenhuma capacidade de interpretar e conhecer o outro, o diferente, o estranho; como explicar que aquela possessão, aquela dança, aquele canibalismo, aquele uso ritual de drogas exóticas, poderia ser outra coisa a não ser a influência nefasta do "fedorento"? Não foram apenas padres católicos que viram a mão (ou a pata) do "rabudo" nas práticas xamanísticas. Avvakum, um sacerdote ortodoxo russo do século XVII, descreveu o xamã siberiano, como uma personalidade religiosa que "servia mais ao Diabo do que a Deus". Oviedo, um viajante espanhol que travou contato com cerimônias que utilizavam o Ebene, rapé alucinógeno, ainda hoje largamente consumido pelos pajés ianomanis, disse: "Eles adoram o Diabo, sob diversas formas e imagens... Fazem um demônio, a que chamam cemi, tão feio e terrível como os católicos o representam aos pés de São Miguel ou de São Bartolomeu; mas não está preso por cadeias, mais ao contrário, é adorado". O relato é grande, mas olha só essa parte: "... e deve considerar-se que o demônio entrava nele e falava através dele...". A desqualificação da antiga religião é um dos fenômenos que sempre despertou a minha curiosidade. O que há, nessas sociedades tradicionais que incomoda? Porque encontrar o "bicho de chifre", ou o charlatanismo, ou a doença mental, ou a drogadicção, em sociedades que não tem esses conceitos? Não se trata de uma simples rejeição racial ao que não é branco, porque outras doutrinas religiosas, (mulçumanas, judaicas, budistas, taoístas e confucionistas) reagiram de forma mais ou menos semelhante. Ainda hoje, na África subsahariana, as velhas práticas animistas sofrem a perseguição de adeptos do islamismo, assim como os terreiros baianos, do outro lado do atlântico, são apedrejados por fundamentalistas cristãos. Tudo porque, supostamente, o diabo mora na casa do outro e o que é diferente, estranho, distante de mim, só pode ser mal, sinistro, bizarro. Meu filho, o mundo é muito vasto, e o ser humano, essa coisa estranha, ainda me assusta muito. Eu, particularmente, tenho hoje, depois de adulto, e apesar dos incessantes alertas de vovó (que nunca teve medo do bafometh, diga-se de passagem) um espanto básico diante da capacidade humana de não entender. Mas do que o senso humano de compreender o mundo, o que me espanta é a tendência incontrolável que os humanos têm de não entender o óbvio. Mesmo nesse tempo pós-moderno, quando o mal é mais visível, e a banalidade da dor e da morte nos anestesia na sala de estar (será que em algum outro tempo foi diferente?) continuo a temer muito mais as idéias dos homens, porque, como escreveu Thomas Mann, nesse livro publicado depois da guerra, de Aushwitz e da bomba atômica: "quem crê no diabo, já lhe pertence". |
| por pablocapistrano [11:52] |
| 3.8.08 |
| Da arte de escrever no Rio Grande do Norte |
![]() Dia 25 foi comemorado o dia do escritor. Não me pergunte por que, mas hoje, tudo tem seu dia. Como se o mundo fosse dividido em várias caixinhas de qualquer coisa. Então a Sisciliano lançou um livro chamado "Da Arte de Escrever no Rio Grande do Norte". Com textos de vários escritores (eu inclusive)que buscavam responder a pergunta: porque escrever? ou o que é escrever para você? então o Adriano de Sousa (emersso da Serra da Barriguda, concorrente direta da Serra do Lima, no quesito de pouso de discos voadores nas terras secas do Oeste potiguar), respondeu com um poema que valhe a pena ser lido. Dos Porquês Porque leio. Porque gosto de brincar sozinho. Porque faltei à lição de modéstia. Porque sou fútil. Porque sou alienado. Porque sou inconseqüente. Porque a porta do hospício estava fechada. Porque a porta do zoológico estava aberta. Porque é um método de não emburrecer. Porque ninguém me disse nada. Porque não sou o dono da bola. Porque é um álibi social para dependências químicas. Porque palavras dão em árvores. Porque o cargo estava vago. Porque fiquei para trás. Porque fui alquimista em vidas passadas. Porque sou cego em terra de polifemos. Porque narrar é viver o narrado. Porque viver é narrar o vivido. Porque preciso inventar memórias que não tenho. Porque tenho o pau pequeno. Porque palavras são anabolizantes naturais. Porque ela gosta. Porque é o modo mais curto de aprender gramática. Porque é o modo mais curto de deformá-la. Porque ganhei um manual de auto-ajuda. Porque não quero ser editado. Porque não quero ser lido. Porque não quero ser compreendido. Porque há muitos analfabetos bem-sucedidos. Porque eles precisam de um gosht-writer. Porque existe a palavra justa. Porque é preciso encantar e adormecer as sombras na parede. Porque não há ninguém no desvão ao lado. Porque não sei sentir. Então, escrevo. Adriano de Sousa. Jornalista, escritor e editor. ![]() sentiu o drama? Disse tudo o Adriano. Mas essa coisa de escrever deixa a gente agoniado. Por isso eu viajarei essa semana para Moscow, participar de uma feira do livro, a IV realizada na cidade. A programação vai ser muito boa, tem o Biográfo do Paulo Coelho (que diz ter feito um pacto com o coisa ruim e depois rompido o contrato, por isso não se assuste se você esbarrar com o "bicho de chifres" em alguma vara cível, provavelmente ele estará processando o marrano dominado Paulo Coleho, por danos morais e materiais decorrentes de quebra de contrato.;) mas também tem o Marcal Aquino, o Flávio Resende, e o Gabriel, O Pensador e mais uma turma grande. a programação aparece no site: www.feiradolivrodemossoro.com lembrando Moscow (mais conhecida pelo seu clima ameno por Mossoró - em lingua indigena) lembrei de um outro poema que merece também, ser lido. do Antônio Francisco, para mim um dos maiores poetas brasileiros vivos e em processo de recitação continuada. olha só... Ser escritor é sonhar. Escrever é construir; Um mundo de ficção; Colocar nele um baú; De métrica, rima e ação; E afogar o leitor Nas águas da emoção. É viver plantando sonhos; Onde ninguém mais plantou; Sonhar colhendo a semente; Do sonho que não sonhou; E sugar o mel das pétalas; Da roseira que murchou. É viajar pelas nuvens; Sem tirar os pés do chão; Almoçar pontos e vírgulas; Traço rima e oração; E andar na mesma trilha; Dos passos do coração. É transformar um deserto; Numa bonita savana; Transformar em um milênio; Um simples fim de semana; E andar pelas artérias; Das veias da raça humana. É sentir a dor alheia; Calando a boca da sua; Passar a noite acordado; Pelas calçadas da rua; Bebendo as lágrimas da noite; Fazendo versos para a lua. É plantar grão de esperança; Numa batalha perdida; Replantar pontos e vírgulas; Numa folha ressequida; Deitando nos pés do tempo; Olhando o rosto da vida. Ser escritor é pisar; Onde ninguém bota o pé; É ser Zé ninguém sem ser; Escravo de nenhum Zé; E viver plantando sonhos; Saudade, vontade e fé. Antônio Franscico. Poeta, cordelista, membro da academia brasileira de cordel. Bonito não é. Assim é ser escritor no Rio Grande do Norte. Parece um quadro de Goya. |
| por pablocapistrano [09:49] |
| 24.7.08 |
| Os poemas voltaram, e agora? |
![]() Alguma coisa aconteceu. voltei a fazer poesia. Primeiro Cordel da Zeitlichkeit tempo de ficar quieto e de fazer passar o tempo sem deixar no rastro nenhum pedaço de mim ou de você tempo de saber que a lua está cheia e que toda garrafa que se preze está pela metade tempo de reter o canto na garganta pra não acordar a rua e faze-la sofrer tempo de sentir sem medo e sem pesar o vento carinhoso do mundo nos levar tempo de reter o firmamento sem que a gente saiba que ele está ali com toda delicadeza esperando o tempo certo pra nos destruir. ![]() Ps.: Postei também dois livros em formato PDF no site do amigo Tácito Costa. www.substantivoplural.com.br uma segunda edição com novos poemas do meu livro de estréia Domingos do Mundo (que está fazendo 10 anos, esse ano) e uma coletânea de aforismos esquisitos sobre filosofia e coisa e tal - 103 Totalidades. basta entrar no site e procurar na Estante, na sua esquerda, você vai notar que o Tácito é um cara gente boa e me pôs junto de uma turma de primiera, Carlos de Souza, Lívio Oliveira, Rodrigo Levino, meu primo Napoleão Paiva e mais um time de primeira. |
| por pablocapistrano [10:06] |
| 17.7.08 |
| Sozinha, a verdade vence. |
![]() Prometi que não ia postar nada desse tipo mais nesse mural, mas, as circunstâncias e os acontecimentos dos últimos dias me empurraram para escrever esse texto. fazer o quê? E agora, comadre? No brasão nacional da Índia está escrito em sânscrito "Satyameva jayate". Em português isso quer dizer mais ou menos (sim, porque toda tradução é uma traição) "Sozinha, a verdade vence" ou "só a verdade vence". Me sinto humilhado sempre que comparo o lema do Brasão Nacional indiano com o nosso insípido "Ordem e Progresso". A sensação é de uma falta profunda de poesia nos "pais fundadores" da república brasileira. Nosso lema é uma edição das três leis cunhadas pelo pensador francês Auguste Comte, que deveriam nortear a nova ética de um mundo liberto pela ciência. Ordem, progresso e amor. Sim, havia o "amor" nos três fundamentos morais de Comte. Pena que os fundadores da República esqueceram esse detalhe, porque, afinal de contas, amor é um "negócio de boiola" e o que vale realmente é o cacete (fálico, não?) da ordem e o cartão de crédito do progresso. O resto é frescura. Achei curioso o fato da Polícia Federal ter apelidado a operação que colocou Daniel Dantas na cadeia por 48 horas de Satyagraha (código moral de Gamdhi). Sim, eu sei. Você nunca ouviu falar de Daniel Dantas, também, quem manda ficar assistindo Jornal Nacional e lendo a Veja. Dantas é o espectro que ronda a política brasileira desde a época do governo FHC e que passou pela trupe do Lula e contaminou metade do PT e quase toda a tucanagem nacional. Mas tudo bem, a gente sabe que no mundo da política tem dessas coisas. Quem paga a conta sempre tem certo privilégio na hora do "pega pra capar". Por isso eu arregalei os olhos quando vi, no Jornal Nacional, a notícia de que o Daniel Dantas havia sido preso. Pensei comigo mesmo: "o que aconteceu com o mundo enquanto eu me isolava para ler os seminários que o filósofo alemão Martin Heidegger escreveu sobre Hölderlin?" (as vezes a gente tem que fazer umas loucuras desse tipo). Um terremoto, um tsunami, uma bolha atômica, uma imensa diarréia moral que acordou de repente o mostro sagrado da justiça de seu sono dogmático? Vou confessar, eu que já sabia quem era o Daniel Dantas de muitos outros carnavais, jamais imaginaria que um dia, essa ilustre sombra do capital financeiro brasileiro, o grande mecenas dos projetos políticos tucanos e petistas, pudesse, um dia, aparecer no Jornal Nacional, algemado. Calma, calma, O presidente do STF já falou na TV criticando a operação da PF e o senador Arthur Virgilio, o grande ícone da ordem terceira da santíssima neo direita brasileira, defendeu com todo vigor os direitos fundamentais dos cidadãos que ganham mais de um 500 000 reais por mês. Afinal Ordem e progresso, ordem e progresso... ordem para os 3Ps (Preto, Pobre e Prostituta) e progresso para... para... bem você sabe para quem. Agora, eu fiquei realmente chocado com as declarações de um suposto preposto de Dantas, que estava tentando viabilizar um suposto suborno para um suposto delegado da polícia federal, que foi supostamente ao ar em uma suposta matéria de um suposto jornal nacional. A suposta repórter anunciou que um suposto Dantas estaria supostamente preocupado em bloquear a suposta investigação da suposta polícia na suposta primeira instância da justiça Federal, porque, SUPOSTAMENTE ele teria "facilidades" no STF. E agora comadre? E agora? O que fazer? A justiça é cega, mas às vezes, também é surda e muda. Ponto para a primeira instância da Justiça Federal (parece que o que se comenta nos corredores do poder judiciário sobre as primeiras instâncias, está se confirmando em rede nacional de TV). Ponto para o Ministério Público Federal de São Paulo, que a despeito das negativas do STF em permitir que a CPI do mensalão tivesse acesso ao conteúdo de um HD apreendido no Banco Oportunity bancou a investigação. Ponto para o delegado Protógones (é assim o nome do camarada?) que´já foi devidamente "premiado" com um curso de capacitação em alguma coisa e se afastou (ou foi afastado?) das investigações e talvez consiga, como prêmio pela sua investigação uma transferência para o distrito de "Nossa Senhora do Ai Meu Deus", comarca de "Santo Antônio do Fim do Mundo", e algum extremo do Brasil. Pois é meu filho. Talvez na Índia, ao invés de ordem sem justiça e progresso sem amor; vença mesmo a verdade. Quem sabe um dia, quem sabe um dia... |
| por pablocapistrano [10:37] |
| 11.7.08 |
| O Remédio e o Veneno |
![]() Gente boa, voltei a escrever no Diário de Natal aos Domingos. a tal da pop filosofia. textos sobre filosofia, religiosidade, xamanismo e outras ilegalidades. quem se interessar pode ler alguns textos aqui também no seu, no meu, no nosso mural, semi-semanal ou no portal www.portalespiritualista.org segue ai o texto do Domingo, keep on the beat! O Remédio e o Veneno "O antibiótico salva o homem, mas só o vinho o faz feliz". Essa frase (atribuída a Alexander Fleming, inventor da penicilina) eu ouvi pela primeira vez da boca do meu amigo Edílson Pinto, escritor, cirurgião e professor da disciplina de oncologia na UFRN. Certamente há nela um traço fino de humor inglês, e a despeito de ser verdadeira ou não (a depender do tipo de vinho que você bebe ou do antibiótico que te prescrevem) ela ensina algo interessante acerca da natureza do mundo. Algo que os gregos já sabiam. Em um livro bem conhecido no circuito acadêmico, chamado "A Farmácia de Platão" o pensador franco-judeu Jaques Derrida, faz um mergulho no significado profundo das palavras do antigo idioma grego para mostrar que a diferença entre o remédio e o veneno é a dosagem. "Pharmakon" é um termo grego que servia para designar tanto uma droga que alucina (como o vinho), um remédio que cura (penicilina), um perfume que seduz afrodisiacamente um parceiro (Chanel Número 05), ou um veneno que mata (Cianureto). A sabedoria dos antigos nos faz lembrar que em uma farmácia a mesma coisa que cura, pode matar, e aquilo que encanta, também, de certo modo, enlouquece e escraviza. A natureza dispõe de uma quantidade fantástica de substâncias que alteram a consciência, produzindo as delícias do encantamento e o desespero sem fim da loucura. Essas forças quádruplas (cura, prazer, loucura e morte) andam juntas e nos circundam, contaminando o ambiente e produzindo um casulo químico que interfere em nosso corpo e em nosso entendimento. O mundo moderno não inventou "as drogas". Elas estão dadas no meio natural, apenas esperando que alguém venha, as colha e descubra o modo certo de refiná-las, fermenta-las, cozinha-las em efusão, sintetiza-las, embalar em saquinhos e vender na farmácia, no bar ou na porta do clube descolado. Na aurora do homem a farmácia era logo ali, no meio da floresta, da savana ou da estepe. Terence Mckenna, um dos antropólogos mais freaks que eu já ouvi falar, chegou a defender a curiosa idéia de que a consciência humana havia se desenvolvido a partir do momento em que nossos ancestrais, perseguindo as manadas de búfalos, no esforço de domesticação que deu origem a nossa moderna agropecuária, começou a consumir psilocybe, uma substância que aparece junto com cogumelos nas fezes dos bois brancos. Mckenna chegou a essa conclusão "bicho-grilo" após alguns anos de estudos das práticas xamánicas espalhadas por diversas culturas e grupos étnicos mundo afora. Na Sibéria a ingestão da Amanita muscaria, um cogumelo colorido rico em psilocybina (a mesma substância que isolada e sintetizada em laboratório ajudou o doutor Albert Hoffman a criar o LSD) é parte do contexto ritual da religião xamânica. O transe obtido através da ingestão dessas substâncias, em um contexto ritual e através da direção de um xamã, faz com que uma realidade "verdadeira", oculta à consciência ordinária dos homens se mostre em todo seu vigor. A idéia básica das práticas religiosas que utilizam substâncias como a psilocybe, é de que as plantas são espíritos professores e que a natureza é uma imensa "farmácia", na qual os praticantes do transe xamânico podem adquirir para si, algo do ensinamento contido em cada cacto, cipó, fungo ou folha de árvore dessa terra estranha e cheia de variações bioquímicas exóticas. Entre os Ianomanis na fronteira do Brasil com a Venezuela, por exemplo, é comum o consumo de um rapé de ebene por quase todos os homens que ultrapassam a puberdade. Nesses contextos o xamã preside o ritual no qual os participantes se iniciam e constroem um acesso privilegiado a outros estados de consciência. Nos Andes há o cacto de San Pedro (peyote) também famoso no México, na selva peruana o aiuasca (uma planta cujo nome significa "vinho dos mortos" no dialeto quíchua e que teria poderes de abrir os portais do mundo dos defuntos, estreitando o contanto entre os vivos e os espíritos dos que já se foram), no Gabão a Ibogaina (que segundo alguns além de produzir alucinações, regressões e ataraxia serve para curar viciados em heroína) é largamente utilizada há milênios pelos membros da religião Fang como planta mágica que serviria para estreitar contatos com os espíritos desencarnados. Mas não é preciso ir longe para perceber como o uso da "farmácia de Deus" por parte das culturas tradicionais pode ser amplo. Entre nós, quando os portugueses adentraram os sertões brasileiros, travaram contato com inúmeras "santidades", seitas e conjuntos de rituais que usavam largamente plantas como a nossa Jurema, símbolo maior do xamanismo potiguar, tão esquecida entre os que buscam religiões exóticas, e plantas mágicas em outras selvas. Pois é, veja só que coisa. A mesma porta que pode levar o homem ao contato com o sagrado e o divino nas sociedades tradicionais, hoje, sintetizado, refinado, processado industrialmente, se torna nesse lixo químico que arrasta milhares de pessoas em todo mundo para um estágio de prostração mental e degradação biológica. A diferença entre o remédio e o veneno é muito tênue. Assim como o espaço do divino e do mundano, muitas vezes se cruzam em um mundo cheios de portas e janelas da percepção, que as vezes se expandem e as vezes estreitam levando o homem do céu ao inferno na mesma viagem. Esquecemos certamente os ensinamentos das plantas e, ao transformá-las industrialmente em produtos de mercado, acabamos por desmontar a ordem sagrada que envolvia suas práticas de consumo. Sem os rituais da antiga religião, essas flores, fungos e folhas, acabam por serem transformadas em uma porcaria bioquímica, que leva para nossa mente aquilo que o nosso mundo industrializado mais sabe construir: poluição. |
| por pablocapistrano [11:44] |
| 30.6.08 |
| A mesma velha porcaria |
![]() No começo dos anos noventa o Nirvana veio ao Brasil para participar de um Holywood Rock. Não lembro bem qual o ano, mas acho que foi 1993. A apresentação da banda foi bisonha. Kurt Cobain arrastou-se pelo palco gemendo com a guitarra. Depois cuspiu na câmera da Globo e ficou gritando coisas incompreensíveis. Algum tempo depois Renato Russo, em entrevista a uma revista de circulação nacional (Seria a General? Também não lembro), disse sobre Kurt Cobain e a apresentação do Nirvana, algo do tipo: "Será que ninguém vê que esse rapaz está doente? Que ele precisa de ajuda?". O público é assim. Cruel e egoísta. Não importa o quão desgraçado está o seu ídolo, o que importa é que o show continue, mesmo que seja para ver a agonia do coitado no palco. E isso não é algo novo não. Sêneca, filósofo espanhol de cidadania romana, escreveu sobre a reação do público diante das festas dos gladiadores realizadas no circo romano: "O único espetáculo que esperam de uma criatura humana, é sua agonia". A notícia de que a cantora inglesa de Soul, Amy Winehouse havia "passado mal" e desmaiado em casa, e que seu pai a havia levado à uma clínica onde ficaria internada para ?fazer exames?, mostra duas coisas: (1) os assessores de imprensa dos grandes astros não estão muito imaginativos no que diz respeito a produzir eufemismos para descrever uma overdose; (2) a mesma velha porcaria continua tediosamente se repetindo na vida dos astros da música. Isso não é novidade. Édit Piaf e Judy Garland (a adorável menina que fazia o papel Dorothy na versão de 1939 do mágico de Oz) foram tragadas pela morfina (e sua versão turbinada ? a heroína), assim como quase toda a constelação de gênios do Jazz nos anos cinqüenta. Thelonius Monk, Miles Daves, John Coltrane, Chet Baker e Charlie Parker agonizaram, cada um a seu modo, nos bastidores dos shows, chapados de heroína. O próprio Charlie Parker, quando morreu com 34 anos, após duas tentativas de suicídio e uma longa internação em sanatórios para tratamento de dependentes, teve sua idade registrada em 53 anos pelo médico que fez a autopsia, tamanho era o estrago que a heroína preta chinesa havia feito no seu organismo. A geração grunge nos anos noventa foi assolada também pela peste da agulha. Kobain é o mais famoso, mas muita gente dançou quando o cartel colombiano dos Uchoa (patrões do pai do presidente Uribe, e financiadores dos grupos paramilitares de direita que combatem as FARC) começaram a plantar papoula no final dos anos noventa e baixaram o preço do papelote de heroína nas ruas de Nova York para dez dólares. A irmã gêmea de Kim Deal (do Pixies) e companheira dela na banda Breeders teve problemas com heroína, assim como o baterista do Smashing Pumpkins (Jimmy Chamberlin). O vocalista do Blind Melon (Shanoon Hoon ? morto por overdose de cocaína em 1995) e metade da banda Hole (da viúva do Kobain), para não falar do Anthony Kieds, do RHCP, também protagonizaram liturgias de agonia e miséria com o cachimbo de Crack (o mesmo que está comendo o cérebro da Amy Winehouse). Amy Winehouse poderia marcar a música desse início de século, fazendo com o Soul o que Noah Jones está fazendo como Jazz (dando plenitude a herança de Billie Holiday) e o que Janis Joplin fez (nos sessenta) com Bessie Smith (injetando uma dramaticidade quase operistica ao Blues). Mas após uma pesquisa rápida no Youtube, não é de espantar se logo logo ela abandonar o mundo da música para estagiar no cemitério. A mesma velha porcaria, que atrai o público, sempre sedento por consumir algo a mais do que simplesmente arte. |
| por pablocapistrano [16:24] |
| 22.6.08 |
| Recuperação!!!!!!! |
![]() Apesar do grande esforço docente impetrado por esse humilde professor de província durante o semestre que passou, alguns alunos cometeram a descortesia de ficar em recuperação e adiar de forma injustificada e desumana, as férias do professor Pablo. Para aqueles que incorreram nesse pequeno deslize acadêmico seguem os assuntos da recuperação. Introdução ao Estudo do Direito Pluralismo Jurídico: Teoria da Coação. Sistema Vindicativo (Norbert Rouland). Fontes do Direito: Reale ou Norberto Bobbio. Consenso Original na Teoria da Justiça (John Rawls). Hermenêutica Jurídica Intencionalismo e Heidegger (Jean Gondrin). Dogmatismo Jurídico. Segurança Jurídica. pós-dogmatismo. interpretação Kelseniana. Escola da Exegese. História do Direito Direito romano antigo (formação do direito romano clássico e pós-clássico) Recepção do código de justiniano. Processo de codificação na Europa. Física Quântica. princípio da incerteza. colapso do campo de possibilidades. teoria das cordas. Mecatrônica. como fazer um robo levantar a mão e dar adeus. sistemas integrados com base em interações sistemicas envolvendo massas biológicas e circuitos eletrônicos a base de silicio e cálcio. teoria do ciborgue. Música Barroca III Influência das cantigas de Monteverdi na composição da Paixão Segundo São Mateus. Variações de frequencia e modulação sonoras nas harmonias derivadas do uso de instrumentos do século XVII na execução de peças de Bach. Polifonia italiana e a emergência do melôdico vocal nas liedes de Schumman. Sexologia como evitar o desvio de função eretil em atos sexuais com mais de um parceiro. Teologia da Reforma. Porque os metodistas não usam vinho em suas cerimônias religiosas? Era Kant um "crente"? Boa Sorte. e Boas Férias! Viva São João. Viva São Pedro. Viva Santo Antônio. Shalom Alecheim e saravá, para quem é da nação kêto. |
| por pablocapistrano [21:16] |
| 19.6.08 |
| Esse doutorado é foda. |
| Esse negócio de doutorado é foda, deixa a gente perturbado. 10 Teses sobre Heidegger Tese 1 Heidegger se torna um realista lingüístico em suas conferências sobre linguagem, no final de sua vida. Ele utiliza essa virada para o poético como uma forma de recuperar uma função instauradora da linguagem, perdida com o surgimento da metafísica platônica, consolidada a partir do advento da era da técnica e com a consciência do signo que surge a partir do advento da escritura como suporte do poema. Sua tarefa é a de recolocar Homero como o centro do Cânone ocidental e deslocar Platão desse lugar. Para isso ele usa Hölderlin como o eixo moderno de uma genealogia de poetas que remota a um Homero ancestral. Poeta da apresentação do ser e da nomeação do sagrado. Tese 2 Heidegger procura compor uma nova Geistgesichte para o ocidente. Ele tenta deslocar a Geistgesichte de Hegel. Como ele não consegue derrotar Hegel a partir do jogo da filosofia, ele se desloca para fora da filosofia em direção ao espaço da poesia para desconstruir seu inimigo. Ele busca então uma nova genealogia, alternativa a tríplice linha evolutiva de Hegel (Sófocles ? Platão ? Shakespeare) e propõe um retorno. Uma virada no fluxo. A linha de Hegel não é, para Heidegger, sinal de uma evolução do espírito do ocidente, mas sim, de decadência. A linha de Heidegger seria distinta (Homero ? Heráclito ? Hölderlin) Tese 3 A Hermenêutica de Heidegger procura subverter a ordem fundamental da hermenêutica de Schleiermacher. Ao invés de entender a interpretação como um momento que precede a compreensão, Heidegger vai estabelecer que a interpretação, nada mais é, do que o esclarecimento de uma pré-compreensão. Nesse sentido o movimento da interpretação não se dá no sentido de uma aproximação do interprete em relação àquilo que o autor de um texto ?tem em mente?. Não há como tornar o interprete um saco vazio para que a intenção do autor de um texto possa depositar o sêmen de suas idéias. Não há como se esvaziar de si para recompor as etapas mentais do autor do texto. Para experimentar sua experiência. Toda interpretação é antes de qualquer coisa auto interpretação. Um texto é um espelho, no qual eu me enxergo e me compreendo. A partir do qual minhas próprias pré-concepções são desveladas e esclarecidas. Tese 4 Heidegger é um nazista filho da puta. Tese 5 Heidegger é um Nietzsche frustrado. Tese 6 Lendo os seminários de Heidegger sobre Heráclito, especialmente o que diz respeito a relação entre logos e ethos chego a pensar uma nova tese: Contra Platão, Heidegger propõe uma saída epicurista. Metafísica e Lógica são canais para à ética. O sentido da filosofia é a ética. Tese 7 (Artigo do Professor Glenn W. Erickson ? Livro After Thoughs) O nazismo se manifesta em Heidegger não com a defesa de uma superioridade meramente racial ou biológica do povo alemão. A idéia está na Sprache (Língua); Geist (Cultura, espírito) e Land (Terra). Mas fundamentalmente na língua que tem sua proximidade com uma matriz Indo-Européia (o proto-germânico é uma língua original como o Grego) que aponta para a presença do verbo Ser (Sein) e uma estrutura de Sujeito e Predicado que construía uma projeção metafísica Sujeito-objeto. Nesse sentido os alemães como os gregos teriam um privilegio sobre dizer "o Ser". Temos então uma variação da tríade nazista: Blud, Volks, Land. Ou algo do tipo. Povos da floresta. Povos da floresta. Povos da floresta. O Racismo de Heidegger é cultural e não biológico. (Isso não muda a tese ? 04: "Heidegger era um nazista filho da puta") Tese 8 Heidegger queria que Hitler fosse o Moisés do povo alemão e que o nazismo fosse o mecanismo que oferecesse aos alemães a mesma identidade cultural que Moisés deu ao povo Judeu (outra do professor Glenn W. Erickson). O problema é que (essa agora é minha) Hitler não tinha uma Torah para entregar ao povo alemão, nem a Alemanha tinha um Abraão para justificar qualquer Moisés. O Ser e Tempo de Heidegger não poderia ter a mesma função de uma Torah. Ele poderia mais ser entendido como um livro profético, que chama o povo alemão à cumprir uma lei que não existe. Então: Hitler e Heidegger eram profetas sem lei de um povo sem patriarca. Tese 9 O critério de temporalidade de "Ser e Tempo" é um critério quântico ? a temporalidade não é uma seqüência de "agoras", mas um plano de possibilidades. Isso implica em perceber o tempo de modo autêntico, não como uma seqüência, uma linha ou um fluxo de um ontem, um hoje e um amanhã (essa linha causal aparece na Metafísica de Aristóteles) e sim como um campo aberto de possibilidades nos moldes de um tabuleiro de um jogo de Xadrez. Tese 10 O uso que Heidegger faz de Hölderlin em suas conferencias é dissimulado. Não é Hölderlin o poeta dos poetas como Heidegger quer fazer a gente pensar. Em "A Origem da Obra de Arte" Heidegger reescreve Hesíodo, seu verdadeiro poeta dos poetas. Hesíodo é o nome do rapaz (essa última tese me obriga a reformular as primeiras e começar tudo de novo). |
| por pablocapistrano [10:18] |
| 9.6.08 |
| Dica da Semana |
| Oi pessoal., uma dica da semana para quem estiver tomando chuva em Natal (caralho, que chuva!) é passar pela UFRN e conferir o I Simpósio Idéia & Mímeses, com a abertura do Roberto Machado. vale a pena,/ segue a programação: I Simpósio idéia&mímeses: entre o poético e o filosófico De 11 a 13 de junho Local: Auditório da Biblioteca Central/ Auditório do DFIL (CCHLA/3º andar) Informações: defil@cchla.ufrn.br Dia 11, quarta-feira 8:00 às 12:00 - Minicurso Automímeses e autopoiesis Prof. Dr. José Ramos Coelho (DFIL) Intervalo 14:00 às 18:00 ? Minicurso Mímeses:entre cultura e literatura Prof. Dr. Abrahão Costa Andrade Intervalo 19:00- Conferência de Abertura: Deleuze e a literatura Prof. Dr. Roberto Machado (UFRJ) ? Local: Auditório da Biblioteca Central Dia 12, quinta-feira 9:30 - Mesa-redonda: Arte e filosofia Arte e sofrimento em Goethe e Schopenhauer Ms. Liliane Marinho Heidegger e a linguagem Prof. Dr. Ivanaldo Santos (UERN) Heidegger e a angústia da influência Prof. Ms. Pablo Capistrano (FARN) Intervalo 15:30 ? Conferência: Os elementos estéticos da antifilosofia Prof. Dr. Tassos Lycurgo (DEART) 16:30 às 18:30 - Mesa-redonda: Poesia e filosofia Mediador: Prof. Dr. Anastácio B. Araújo Júnior Nietzsche e Fernando Pessoa Prof. Ms. Edrisi de Araújo Fernandes Poesia e filosofia Prof. Dr. Jesus Vazquez Torres Intervalo 19:00 ? Conferências: Poesia: discurso e linguagem Prof. Dr. Francisco Ivan da Silva(DLET) Criação poética Prof. Dr. Ruben Guedes Nunes (DFIL) Dia 13, sexta-feira Intervalo 14:00 às 18:30 ? Sessão de Comunicações Intervalo 19:00 - Mesa-redonda: Arte e vida Filosofia, poesia e vida em Nietzsche Profa. Dra. Fernanda Machado de Bulhões (DFIL) Manuel Bandeira ? o platônico materialista Prof. Dr. Marcos Falleiros (DLET) A filosofia do samba Prof. Dr. Markus Figueira da Silva |
| por pablocapistrano [16:54] |
| 30.5.08 |
| Pequenos Terremotos |
![]() Escrita em um dia de sexta feira. Meu lema nestes últimos anos é simples: "a última coisa que você deve fazer em uma situação ruim é torná-la pior". Por isso minha televisão está desligada esse fim de semana e, com exceção de um vídeo de 22 minutos que estou baixando pelo youtube neste exato momento, não pretendo assistir nada, a não ser, talvez, algum velho filme de 1923, como a primeira parte de "Os Nibelungos"! dirigido por Fritz Lang. Se esse fim de semana, o mundo for invadido por extra terrestres, se o Bush entrar em uma mesquita para rezar, o Papa Bento XVI defender a eutanásia no seu sermão de Domingo, o ABC ganhar do Corinthians na partida pela série B do campeonato brasileiro, ou alguém falar mal do José Serra no Jornal Nacional, ou seja, se qualquer evento extraordinário, qualquer ruptura na ordem natural das coisas acontecer, eu não saberei. Permanecerei sozinho com Tori Amos, com meu documentário do youtube sobre o fim do mundo e meu filme alemão, porque nesta vida, precisamos de uma ou outra dose de autenticidade para levantar nosso olhar e encontrar uma migalha qualquer de transcendência que nos envolva e nos salve dessa rede de vazio que nos cerca. Um Domingo desses liguei a TV em um canal de notícias e vi a imagem de um prédio. Fiquei espantado porque a câmara estava aberta, estática, diante daquele prédio. Pensei ter ligado por engano no canal da portaria do meu condomínio, mas não, na verdade eu estava diante de uma "notícia". Aquela imagem estática, daquele prédio anônimo que poderia ser qualquer prédio em qualquer cidade brasileira, em tese deveria me passar alguma informação relevante. De vez em quando, muito esporadicamente, alguém aparecia na janela, um ou outro policial encostado no muro movia o braço, e algum jornalista atravessava com sua câmera na telinha, depois nada. O mais vazio e absoluto nada. Só aquela imagem parada, vazia e monocromática, de um imenso prédio branco e silencioso, junto com o eco de fundo de uma voz que repetia ininterruptamente: "estamos ao vivo, direto do edifício London, na Zona Norte de São Paulo. Começou ainda a pouco a reconstituição da morte da menina Isabela. Você está acompanhando ao vivo, direto do edifício London na Zona Norte de São Paulo, a reconstituição do crime que vitimou a menina Isabela. Estamos agora, ao vivo, diante do edifício London, acompanhando a reconstituição, que neste momento está ocorrendo dentro do edifício, da morte da menina Isabela, Agora, na Zona Norte de São Paulo...." Depois de alguns minutos observando aquilo eu desliguei a TV e em minha sincera ignorância perguntei-me como é possível que uma quantidade tão substancial de seres humanos, eu inclusive, pudesse permanecer diante da tela de uma TV, assistindo o mais puro e absoluto nada. Semanas depois ligo novamente a TV em um canal de notícias e vejo o depoimento de dois sujeitos (não consegui ainda decorar os nomes deles) em mais uma CPI no congresso, sobre um "suposto" Dossiê, ou Banco de Dados, ou Banco de Dados Seletivo, ou relatório, ou planilha do Excel ou qualquer outra coisa que você queira chamar. A teletransmissão daquela sessão me pareceu ter relações estreitas com a cobertura da reconstituição do crime que vitimou a menina Isabela. Ambas são produto de uma mesma ansiedade. Vivemos no mundo da notícia. Precisamos de uma notícia qualquer que possa dar a nossa vida cotidiana algum significado, algum sentido que transcenda o banal. Quando a notícia não vem é preciso criá-la. Ao contrário das grandes catástrofes mundiais, dos tsunamis e dos grandes tremores de terra (noticiados pela DW-TV, BBC, RAI ou CNN) no Brasil precisamos de outros cataclismos, pequenos terremotos como os cantados por Tori Amos, na parte ao vivo do disco "To Venus and Back". Esse fim de semana eu prefiro ficar com a Tori Amos, com o Fritz Lang e com o youtube, porque a arte pode ser melhor do que a vida que passa ao vivo no telejornal, e porque, como Tori mesmo canta na faixa dez do CD: "E eu odeio, e odeio, e odeio, e odeio música de elevador". Eu sei, sim eu sei, a nossa vida é bem maior do que isso tudo e um dia, ela ainda vai ser mais sedutora do que o telejornal diário. |
| por pablocapistrano [15:55] |
| 22.5.08 |
| O Ano que engoliu o mundo. |
| 16 de Maio de 2008. Estamos chegando à primeira década do século XXI e eu ainda estou tentando entender o que aconteceu. Talvez seja um defeito do meu tipo cerebral, algum certo hábito pouco saudável de querer saber o que é que eu estou fazendo aqui, nesse mundo. Esse cacoete leva sempre meu olhar para trás, na busca de encontrar algum nexo no que passou. Porque como sempre grita Zack, o vocalista do Rage Against The Machine, no som do meu carro: "quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente agora, controla o passado". A bola da vez das recapitulações, revisões e releituras é, nesse mês de Maio, o ano de 1968. Eu passei longe de ter vivido aquela época. Nasci em 1974, bem no meio do pesadelo. Para o bem ou para o mal escapei do sonho dos sessenta e cresci embalado pelo horror liquidificado que tomou conta do mundo na época punk. Mas, apesar disso, há algo de 68 em mim. Por influência do meu pai e da minha mãe e de todos os malucos que freqüentavam nossa casa na minha infância, 68 andou ao meu lado por boa parte da minha adolescência e juventude e, apesar de eu não ter a mínima idéia do que significava ser um produto daquela geração, eu podia sentir que algo estranho havia ocorrido pelo planeta poucos anos antes do meu nascimento, uma onde que alterou de modo muito significativo o senso de direção dos meus pais e os fez um pouco, digamos, "exóticos". Há luz e sombra no ano de 68. Existem os Beatles, mas também há o Velvet Underground. Tem o Maharish, a meditação transcendental, as flores, a macrobiótica, as sementes de girassol e a busca de uma vida mais saudável. Mas tem também a heroína, o ácido lisérgico, e a bosta da cocaína que deixou muita gente doida no rastro dos anos. Há o verão do amor (que foi um ano antes, mas está no mesmo pacote), há a Primavera de Praga e Woodstock (que foi um ano depois, mas está também no pacote). Assim como há o DOE-CODI, o Vietnã. Tem o Che, mas tem também o Pinochet. Tem o Bob Dylan e o Leonard Cohen, Roberto Carlos e Arnaldo Baptista, Iggy Pop e os Byrds. Há leveza e esperança, mas também solidão e desespero. Essa mistura explosiva das forças que compuseram a experiência do século XX é que tornaram a geração daquele ano tão marcada pela dor e a delícia de suas experiências políticas e existenciais. O êxtase da liberdade dos desejos, e o muro duro de um mundo que se transformava em uma gigantesca engrenagem de moer carne humana levaram a geração de meus pais a vivenciar, em uma única vida, os prazeres da esperança e dos sonhos de transformação e a dureza miserável do horror político de uma ditadura. Se o século XX tem um ano que o sintetize, esse ano é 68 e seus arredores trazem à tona os principais dilemas do século. Hoje, o discurso politicamente correto é derivado diretamente do ideário da nova esquerda heideggeriana, que constituiu-se a partir de Sartre, e que ditou uma fusão conceitual larga, envolvendo Nietzsche, Freud e Marx em um imenso balaio de gato teórico, com pitadas psicodélicas de arte de vanguarda e do fusion de Miles Davis. Emancipação feminina, luta pela diversidade sexual, defesa do meio ambiente, libertação dos desejos, direitos humanos, esses são ideários libertários que emergem do ano de 68, mas que já estavam latentes desde o final da primeira guerra e moveram os loucos anos vinte com sua vanguarda modernista (esses foram realmente os anos revolucionários do século, mas o retrocesso que se seguiu com a explosão do totalitarismo nos anos 30 gerou uma rebordosa que levou muita gente boa para o caixão antes do tempo). Essa força revolucionaria que ameaçou varias vezes eclodir e engolir o mundo, parecia que finalmente iria triunfar em 68. De certa forma, ela triunfou, e definiu os rumos do discurso oficial dos anos que se seguiram, mas, como depois de todo carnaval, vem uma grande e desconcertante ressaca, o tempo cuidou de mostrar que há uma linha muito tênue separando o sonho do pesadelo. |
| por pablocapistrano [11:23] |
| 9.5.08 |
| Doutor Fausto 2008 |
![]() Olhando as gravuras que o pintor francês Eugène Delacroix fez para ilustrar a peça ?Fausto? de Goethe, eu penso comigo mesmo: "bem que as pessoas que trabalham com a política partidária no Brasil podiam prestar mais atenção na literatura". Na verdade, o Fausto de Goethe é baseado em um personagem real que virou lenda e alimentou a literatura popular de fins do renascimento. O mundo do doutor Johannes Georg Faust, nascido por volta de 1497 na cidade de Knittinglen, era uma zona de fronteira entre as antigas artes esotéricas medievais e o universo da ciência moderna. Nas universidades, se estudava lado a lado, em um contínuo desconcertante, astronomia e astrologia, química e alquimia, biologia e magia natural. Talvez por isso, naquela época, pairava sobre os médicos e os sábios uma estranha áurea sobrenatural. O fato é que depois da morte do Fausto histórico, toda uma mitologia sobre sua figura caiu no gosto popular e serviu para fomentar diversas croniquetas fabulosas sobre um suposto pacto que o dito médico teria feito com o diabo. Durante todo o século XVI e XVII correram lendas sobre Fausto. Dizia o povo que ele teria virado teólogo na universidade de Heidelberg, que teria abusado de crianças em uma cidade chamada Kreuznach, que teria sido banido de Ingolstadt como charlatão após ter lido o horóscopo para um Bispo. Mil e uma histórias que misturam faustos reais e mitológicos em uma grande salada de prosa germânica e que acabaram por influenciar um livreiro de Fraknfurt, chamado Johann Spiess, que compôs em 1587 a primeira obra literária de uma série de autores que inclui nomes como Christofer Marlowe (1563 ? 1593), um jovem escritor inglês que, segundo Harold Bloom, teria sido tão bom quanto Shakespeare, se não tivesse morrido com trinta anos, assassinado em meio a uma briga de bar (viu? Cachaça é uma merda, mesmo...). Desses, Lessing e Goethe, são os escritores mais famosos a tratar do pacto do Doutor Fausto com Mefistófeles, um diabo curiosíssimo, bem diferente do Satã heróico composto pelo poeta inglês John Milton no seu "O Paraíso Perdido". O esperto Mefistófeles oferece ao seu contratante mais vida, mais poder e rejuvenescimento; em troca da sua alma. Em 1947, seguindo a tradição dos faustos alemães, Thomas Mann publica Doutor Fausto, uma novela de 709 páginas (na edição brasileira) que eu ando lendo por esses dias. Ela me parece definitiva no campo da tradição faustica alemã. Mann, que é filho de uma brasileira, conta a história de Adrian Leverkühn, um músico talentoso, da mesma geração de Adolf Hitler, Heidegger e Wittgenstein, que após um diálogo com o diabo em um sonho, troca sua alma pelo poder de realizar uma grande obra artística. Na verdade essa parece ser uma imagem literária para o grande pacto que a nação alemã fez com Hitler e que a levou, fausticamente, à grande devastação da segunda guerra e a quase total destruição da alma e da cultura de seu povo. Quer seja o poder, a juventude devolvida, o prazer ou o orgulho de produzir uma obra artística definitiva a figura do diabo, com sua mitologia ligada profundamente ao inconsciente coletivo da humanidade, sempre aparece propondo um pacto, um acordo, uma composição, um contrato, que parece ser vantajoso em um primeiro momento, mas que sempre tem no seu contraponto a dureza do preço a ser pago em contrapartida pela prestação do serviço. Coletivamente Mefistófeles é identificado com a força descomunal do capital que arrasa a terra e trucida o mundo natural para oferecer poder ao homem, mas pode aparecer na mente de qualquer um (inclusive daqueles que, por falta de tempo, interesse ou capacidade nunca leram um livro) como um propositor de pactos sedutores de poder. Entendeu porque seria interessante que políticos conhecessem de literatura? Talvez eles prestassem mais atenção a seus acordos. Mas, nem sempre a leitura de um livro de 709 páginas é suficiente porque, como diz Thomas Mann pela boca do narrador do seu romance "quem crê no diabo, já lhe pertence". Isso também vale para o universo da política, principalmente em época de eleição. |
| por pablocapistrano [18:04] |
| 2.5.08 |
| A Ferida da Raça |
![]() Assistindo na DW-TV as repercussões Européias da vitória da tia Hillary sobre o Barak Obama nas prévias da Pensilvanya, sou subitamente possuído por uma dúvida: "por que todo mundo diz que o Barak Obama é negro?". Vou à Internet e vejo uma foto do cara nos braços da mãe quando tinha dois anos. A mocinha branca do Kansas que casou com um queniano e depois foi morar na Indonésia, não parece, de modo algum, com os estereótipos culturais de uma moradora do Harlem. Tecnicamente, se tivesse nascido no Brasil, Obama seria um "moreno claro". Mais um dos mestiços que enchem nossas ruas e fazem o estranho mosaico de rostos das metrópoles brasileiras. Para entender, porque, o candidato aspirante à vaga democrata na próxima eleição para presidente dos EUA precisa virar "negro" eu tive que voltar para 1915. Em oito de Fevereiro daquele ano longínquo, aparecia nas manchetes dos jornais dos EUA a mais nova superprodução de Hollywood. Com direção de D. W. Griffith "O Nascimento de uma Nação" era um épico histórico no melhor estilo do cinemão norte americano que venceu após a guerra a escola alemã de Murnau, e Fritz Lang e dominou o mercado da cinematografia internacional do pós-guerra. O filme se divide em duas partes. Em uma primeira, conta-se a história da guerra da secessão na perspectiva das relações entre duas famílias, os Cameron (do Sul) e os Stonemann (do Norte). Na segunda parte do filme... bem a segunda parte do filme é tenebrosa... o diretor retrata o ambiente do sul dos EUA da época posterior a guerra (após o assassinato de Abrahan Lincoln) do modo mais afro-fóbico possível. Os escravos libertos são retratados como selvagens idiotas e sem modos, primitivos e intelectualmente inferiores, que, submetem a antiga elite branca a uma insuportável opressão. O pior é a figura de Silas Linch (personagem do filme). Um mestiço, mulato, retratado como alguém ardiloso e maquiavélico, que busca o poder a todo custo e almeja, casar com a filha branca e lourinha do seu protetor, o senador nortista Stoneman. No filme os mulatos são retratados de forma mais grotesca. Eles são lascivos, sem caráter, devassos, e, o pior: são inteligentes (ao contrario dos negros, todos broncos e abobalhados). Grifith deixa à mostra a idéia de que os mulatos combinam a flacidez moral dos negros, a lascívia sexual dos africanos, com a inteligência e a meticulosidade dos brancos (Essa é a idéia do filme). Por isso mesmo, os mestiços são muito mais perigosos. O filme acaba com os Cameron (a família do sul), destruídos pela opressão dos novos senhores negros, encontrando uma única e inexorável saída política: fundar a Ku Kux Klan! Sim, a Ku Kux Klan (a entidade nazista, e racista que enforcava negros, judeus e homossexuais, e queimava cruzes imensas no sul dos EUA). No filme ela é vista como a última esperança branca para manter a honra e a dignidade da nação. Sentiu o drama? Mas não é só no cinema. Lendo alguns contos do H. P. Lovecraft um dos mestres da ficção e do suspense, vejo coisas como: "mas o espírito diabólico da escuridão e da esqualidez segue incubando em meio aos mestiços nas casas velhas de tijolos..."; "um bote foi colocado na água e uma horda de facínoras morenos e insolentes subiu a bordo do Curander..."; "e Marlone não pôde deixar de lembrar que o Curdistão é a terra dos yezidis, os últimos sobreviventes persas dos adoradores do diabo". Em Lovecraft, como em Grifith o mal é sempre fruto da exótica mistura das raças. O mal tem a cara morena de religiões distantes e de cruzamentos inter-raciais. Esse parece ser o maior de todos os tabus dos norte americanos. Cruzar a barreira racial, partir a fronteira catalogada e definida daquelas convenções ideológicas que separam seres-humanos. Por isso, Barak Obama, teve que rejeitar a herança da mãe e assumir a raça do pai. Percebeu, como há um cheirinho de 1915 nessa campanha eleitoral norte americana? |
| por pablocapistrano [17:53] |
| 18.4.08 |
| Nosso Circo |
![]() As imagens de Gustav Klimt sempre me fizeram ter sonhos agradaveis, mesmo que, algumas vezes, eles parecessem terriveis a princípio. Como caí na tentação de voltar a assistir telejornais, ando precisando de uma dose extra de Klimt para dormir. mas vamos ao tema da semana.... Ocorre um crime brutal em um bairro de São Paulo. Imediatamente a polícia isola o local e começa o recolhimento das pistas. No rastro da polícia aparece a impressa e a notícia surge meio que capenga, isolada, perdia no vai e vem de um telejornal. Logo, logo, uma autoridade constituída, responsável pelo inquérito, começa a vazar aqui e acolá para um repórter amigo, uma ou outra informação sobre as investigações. Subitamente o espaço no noticiário aumenta e iniciam-se as especulações sobre o crime. À medida que as primeiras hipóteses vão surgindo, novas teses são levantadas, contradições, dados novos, outras hipóteses, mais discussão. Rapidamente na fila de banco, na padaria, no cinema, no elevador, as pessoas começam a especular sobre o assunto. Nesse momento o telejornal começa a ceder mais e mais do seu tempo para os arredores do crime, as autoridades do inquérito agora dão entrevista coletiva. Especialistas são chamados, e, nos programas de fofoca da tarde, os cronistas do vazio se ocupam e em repetir neuroticamente a mesma coisa por duas ou três horas seguidas, sob o pano de fundo de uma seqüência tocante de fotos da vítima com seus familiares. Repentinamente a opinião pública entra em comoção. Pessoas com problemas emocionais e psiquiátricos se dirigem ao local do crime para chorar. Gente solitária reza em memória da vítima, criam-se vigílias, redes de discussão, associações e, de súbito, enquanto centenas de jornalistas se acotovelam para conseguir mais uma imagem dos suspeitos saindo da delegacia, entrando em casa, ou voltando para a mesma delegacia de onde saíram, um tema emerge. Surge um problema, uma questão, um assunto de importância fundamental para a sociedade brasileira. Os partidos se movimentam, professores universitários são chamados para dar opinião nos programas de TV, nas escolas, as aulas são marcadas por debates calorosos sobre o tema, com grupos de cinco ou seis alunos tomando posições. Por fim, propõe-se um projeto de lei para alterar alguma coisa, e uma delegação de ilustres deputados é nomeada para falar com o presidente. Um mês depois, tudo volta a mais tediosa e absoluta normalidade. Os acusados continuam sua via crucis processual, a vítima continua morta, enterrada em alguma caixa de concreto; a família da vítima continua em sua solidão a sofrer, em meio ao vazio sem fim daquela ausência; a imprensa vai procurar outro assunto; os delegados, advogados e promotores, perdem seus cinco minutos de fama e voltam à rotina obscura de suas profissões, as associações se desfazem, os professores são confinados novamente no seu porão acadêmico, os partidos políticos voltam a se preocupar com o mais importante (a próxima eleição) e o projeto de lei, criado para resolver qualquer coisa, encalha em alguma comissão do congresso. Foi assim com Tim Lopes, foi assim com João Hélio, foi assim com Liana Friedenbach, está sendo assim com Isabela Nardoni, e será assim com a próxima vítima. Esse é o circo de nossas ansiedades. O show de nossa vida, tão carente de sentido e emoção. Saber o porquê de tantas pessoas, são possuídas de súbito, em um estado histérico, por um único, irredutível, e instantâneo tema, é um belo enigma humano. Como diz a história: certo dia dois homens caminhavam apressadamente, por longas horas, até que um perguntou ao outro. _ Fulano, afinal de contas, para onde estamos indo? _ o outro sorriu e respondeu _ Não tenho a mínima idéia, mas sei que a gente está quase chegando. |
| por pablocapistrano [23:19] |
| 10.4.08 |
| Persepólis |
![]() 28 de Março de 2008. A primeira guerra que eu acompanhei ao vivo foi a do Iraque contra o Irã na década de oitenta. Lembro vagamente (eu tinha sete anos naquela época) de um tanque de guerra na TV, subindo um morro de areia com alguns soldados vestindo uniforme marrom. Não pense que eu sou alguma espécie de doente mental (como uma criança de sete anos pode prestar atenção em um noticiário de guerra?), mas é que naquela época não havia Discovery Kids nem Cartoon Network, então era inevitável, para um garoto viciado em TV como eu, assistir, além da "Sessão da Tarde" e do "Vale a Pena Ver de Novo" (em1980 só havia a Globo e a TVU na minha cidade) o Jornal Hoje. Minha compulsão por mapas também acabou me levando a imaginar, em um velho Atlas branco que minha mãe havia ganhado junto com a Enciclopédia Barsa, as montanhas do Irã e os confrontos envolvendo os exércitos do regime do Khomeini e do (então "guerreiro da liberdade" e defensor dos direitos humanos da era Reagan) Sadam Hussein, pelos desertos orientais. Mas tudo aquilo era apenas uma estranha abstração, como se eu estivesse observando um filme fantástico que falasse sobre um confronto intangível em um mundo alienígena. Era difícil de imaginar que por trás daquela guerra, daquela estranha e ainda incompreensível revolução, daquele exótico nome ("Irã") e daquela bandeira esquisita (Verde, vermelha e branca ? cores odiosas para um rubro negro como eu, diga-se de passagem), haviam seres humanos. 28 anos depois, chega na minhas mãos a HQ Persepólis da Marjanne Satrapi que é bisneta do antigo imperador da Pérsia, deposto com apoio dos governos ocidentais pelo pai do antigo Xá Reza Parlevi (que por sua vez foi deposto pela revolução de 1979). Marjanne era uma das garotas que viviam do outro lado da tela da TV, naquele mundo distante e abstrato para onde aquela guerra me levava depois que eu chegava da escola. Sou particularmente fascinado por essa simultaneidade. Quando li a série Persepólis (Nela Marjanne conta sua própria história sobre o pano de fundo da revolução e da guerra que assolou o Irã na década de oitenta) parei varias vezes para pensar: "o que eu estaria fazendo no dia em que o tio daquela garota iraniana, Anuch, foi preso e executado pelo regime fundamentalista? Ou quando os aviões iraquianos começaram a fazer manobras nos céus de Teerã para iniciar a seqüência de bombardeios? Ou quando ela teve que se exilar na Áustria com quatorze anos por causa da pressão do regime e ferocidade da guerra?". Persepólis tem esse grande mérito, é uma obra que consegue pôr o pessoal ao lado do coletivo e estabelecer um tecido de individualidade em um movimento social e político que geralmente é retratado bem de longe. Através da frieza jornalística das câmeras de TV. Ao contar a própria história Marjanne nos apresenta, em formato de quadrinhos, um painel muito interessante para se compreender o que ocorreu no Irã. Ela humaniza os rostos sem forma dos mortos na guerra, torna vivo o pensamento e os sentimentos das mulheres com a cabeça coberta sobre o Chador e nos convida a entender o que acontece no oriente mulçumano a partir de uma visão que abandona todos os estereótipos ideológicos que a CNN e os fundamentalismos cristãos de Bush Júnior, tentam empurrar consciência à dentro do ocidente. Eu costumo a pensar que o mundo é grande e que a minha vida é só um minúsculo fragmento de quartzo perdido no meio de uma duna imensa. Tem vezes que isso me assusta, outras vezes me conforta. Mas é a arte, como a dos quadrinhos de Marjanne, que de vez em quando me liberta para a estranha impressão de que os sentimentos que nos vinculam podem ser mais fortes do que a distância cultural que nos separa. |
| por pablocapistrano [11:34] |
| 3.4.08 |
| Sacanagem. |
![]() Nem Depois de Morto deixam o pobre descansar!!! Túmulo de Nietzsche ameaçado por projeto de mineração na ex-Alemanha Oriental ROECKEN, Alemanha, 2 Abr 2008 (AFP) - O túmulo do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) é há 108 anos o orgulho dos habitantes de Roecken, mas agora se encontra ameaçado por um projeto de mineração que pode tirar do mapa esta localidade nos confins da Saxônia, na antiga República Democrática da Alemanha (RDA, Alemanha Oriental). O autor de "Assim falou Zaratustra" descansa perto de seus entes queridos sob uma lápide de granito e mármore rosa, aos pés de uma igreja da Idade Média. Só que a região agora é objeto de um grande projeto de minas a céu aberto destinado a alimentar as centrais na Alemanha, um país que deu as costas à energia nuclear. Os resultados do estudo que se realiza atualmente sobre o subsolo determinarão a viabilidade das intenções da mineradora Mibrag e, portanto, o futuro dos habitantes da localidade. Entretanto, Roecken se apóia em seu filho predileto. "Nietzsche é nosso único trunfo", afirma Dorothee Berthold, diretora da associação criada para tentar vencer a Mibrag, uma empresa controlada por investidores americanos. A mineradora pede calma, alegando que ainda não existe nada decidido e que "o horizonte eventual" de seu projeto é 2025. "Ainda podem acontecer muitas coisas até lá", garante. O túmulo do filósofo, no entanto, atrai a cada ano apenas 1.500 visitantes, que aproveitam a viagem para visitar um pequeno museu ao lado da igreja e observar a casa na qual viveu até os cinco anos. O antigo regime comunista da RDA tentou relegar ao esquecimento Nietzsche, de cujas idéias os nazistas se apropriaram ao considerar que seus conceitos de "superhomem" e "vontade de poder" justificavam a ideologia sobre a superioridade da raça ariana. Apesar do projeto de mineração ter despertado a oposição da maioria dos habitantes, algumas pessoas também consideram este uma oportunidade de gerar empregos, como afirmam os partidos locais, com exceção dos Verdes. |
| por pablocapistrano [10:14] |
| 26.3.08 |
| Final de semana em Amsterdã |
![]() Domingo passado a TV noticiou que a Holanda havia aprovado uma lei, que entrará em vigor a partir do mês de Julho, permitindo que as pessoas possam fazer sexo ao ar livre. Importante frisar que a lei permite que "as pessoas" façam sexo ao ar livre, porque as outras criaturas sexuadas da natureza já o fazem sem problema a milhares de anos. O requisito da lei é que o sexo seja à noite, sem barulho que possa incomodar os visinhos e que os restos de camisinhas, cuecas e calcinhas sujas não sejam deixados na grama para poluir o ambiente. Curiosamente a divulgação da lei por essas praias tropicais ampliou a imagem que o brasileiro tem da Holanda como um ambiente de perdição e sacanagem. O fato é que essa é uma lei curiosa. Imagine você, meu amigo, minha amiga, resolvendo fazer sexo à noite, no mês de Janeiro, em um parque holandês. Em uma temperatura de quinze à baixo de zero, você terá que usar (se for homem) alguns apetrechos especiais. Uma pinça, para encontrar o próprio pênis encolhido e congelado em meio a seus pelos pubianos, uma bomba de sucção para tentar estimular a irrigação sanguínea, elemento fundamental para qualquer boa ereção, e mais algum tipo de cobertor térmico para parar a tremedeira. Fazer sexo em um parque europeu no inverno, outono ou primavera deve ser mesmo uma experiência radical. Um tipo de imolação física só comparável aos sacrifícios corporais auto impostos pelos monges medievais na sua busca frenética pela ascese mística. Essa, com certeza, será uma típica lei de estação. Na semana que faz sol na Holanda, lá por volta do mês de Julho, a turma correrá para os parques no meio da noite, lá pelas dez, quando o sol começa a se pôr no verão do velho continente e poderão experimentar aquilo que os brasileiros já fazem a muito tempo: sexo ao ar livre. Bem, antes dos motéis virarem moda por essas bandas, carros, moitas, pés de oiticica, lagoas paradisíacas em meio a dunas perdidas em praias desertas e até mesmo uma ou outra praia urbana embalada pela maré alta, sempre foram espaços chamativos para o sexo. O fato é que existem muitas distinções culturais entre brasileiros e europeus. Penso inclusive algum dia, organizar uma expedição antropológica à Amsterdã para observar o comportamento dos nativos europeus in loco e tentar compreender mais sobre sua peculiar cultura e sua estranha civilização, com hábitos tão exóticos, e uma forma de pensamento particular. Sim, a vida nos trópicos é muito diferente. Aqui temos todos os requisitos para fazer aquilo que os Holandeses sempre sonharam: amar durante o ano todo ao ar livre. Mas somos extremamente conservadores quando a questão é sexo (especialmente no nordeste eu acho...). Com essa influência cristã nova de judeus-árabes e de mouros mestiços portugueses não estamos acostumados a essas novidades germânicas. Maconha, aborto, eutanásia, sexo no parque, tudo isso nos choca, nos faz imaginar que tipo de sociedade maluca poderia ter gerado tantas aberrações. Melhor é viver no Brasil, lugar aonde os problemas são apenas a corrupção sem bandeiras partidarias, a violência urbana desenfreada, a concentração de renda imoral, o caos no sistema de saúde, a falência do transporte público e os engarrafamentos recordes nas grandes cidades. Afinal de contas quem precisa de uma lei que libere o sexo ao ar livre no Brasil? Já estamos todos... coitados. Ou você nunca percebeu o sentido etmologico dessa palavra? |
| por pablocapistrano [17:40] |
| 13.3.08 |
| O Paradox EUA |
![]() Agora danei-me a escrever sobre política. 06 de Março de 2008. No dia 08 de Junho de 1976, o então secretário de estado norte americano, Henry Kissinger, chegou na cidade de Santiago, Capital do Chile. Lá ele se encontrou com o general Augusto Pinochet e garantiu que os EUA não iriam interferir nos assuntos domésticos do país andino. A declaração de Kissinger repercutiu de forma ambígua, ele disse: "Nos Estados Unidos, como você sabe, temos simpatia pelo que o senhor está fazendo aqui. Desejamos o melhor para o seu governo". O que Pinochet estava fazendo no Chile, que tanto agradava ao governo norte americano? O Chile de Pinochet foi palco de uma experiência de desregulamentação da economia que havia sido preparada pelos chamados "Chicago Boys", estudantes da pós-graduação em economia da Universidade de Chicago, que resolveram testar os pressupostos teóricos do senhor Milton Friedman. Posteriormente essa doutrina econômica foi em parte implantada na Inglaterra de Margaret Tatcher e na Argentina de Carlos Menen, ajudando a manter a estabilidade financeira e enchendo os bolsos de alguns banqueiros e arrasando algumas nações latino americanas (como a própria Argentina e o Brasil em 1998). Mas não era só isso o que Pinochet estava fazendo no Chile. O seu regime se baseava na defesa de alguns pilares básicos: (1) Defender o capitalismo; (2) proteger a herança da civilização ibero-católica; (3) fornecer apoio para que na América Latina, o exemplo cubano não pusesse em risco o domino geopolítico norte americano, fornecendo de modo danoso, novas pontas de lança para a URSS em uma eventual guerra; (4) manter a ordem interna através de uma doutrina de segurança nacional. Para implantar esses pilares Pinochet exterminou fisicamente quase toda a antiga classe política chilena (não importando se ela fosse de direita ou de esquerda). Em Outubro de 1973 ele incumbiu o coronel Arellando Stark de preparar aquilo que se chamou de Caravana da Morte; uma procissão sinistra que atravessou o país fuzilando sumariamente lideres políticos de diversos partidos. Pinochet criou a DINA, uma policia secreta que transformaram escolas, quartéis, hospitais em centros de detenção e tortura. Havia aproximadamente 1132 lugares desse tipo. No Estádio Nacional, local da final da copa do mundo de 1962 um contingente de 7000 presos foram submetidos aos mais diversos tipos de torturas, humilhações e fuzilamentos sumários, cerca de 3399 mulheres (segundo o Informe da Comissão Nacional sobre a Prisão Política e Tortura do Chile) foram vitimas de abuso sexual. Durante o governo de Pinochet aproximadamente 35 868 foram objeto das ações da DINA. Dessas 94% afirmaram terem sido torturadas, 2095 pessoas foram reconhecidamente mortas pelo governo e 1102 ainda estão desaparecidas. Por isso as palavras de Henry Kissinger são embaraçosas para aqueles que defendem a velha idéia de que os EUA são o grande paladino da defesa da democracia no ocidente. Muitas vezes se compara os EUA com a velha Roma, mas essa não é uma boa comparação. Os EUA não são um império no modelo do antigo regime romano. O modelo norte americano se assemelha bem mais ao da cidade de Atenas, na antiga Grécia. Os atenienses, como os norte-americanos, conseguiram, dentro dos contextos de cada época, produzir um regime democrático no interior do seu território. A Polis de Péricles e os EUA de Kennedy produziram cada um de seu modo, experiências políticas importantes no que diz respeito ao desenvolvimento de um modelo calcado em certas liberdades básicas e em uma pluralização do poder que poderia servir de exemplo a qualquer país descente. Mas os EUA, assim com Antenas, falham quando o objetivo é expandir esse modelo. Os Atenienses produziram uma democracia interna e um regime imperial e tirânico para as cidades que estavam ao seu redor. Os EUA, sob o pretexto de defender a democracia, apoiaram no final do século XX, um cinturão de regimes totalitários e de ditaduras sanguinárias em toda a América Latina. Esse é o grande paradoxo político dos EUA, para manter as liberdades democráticas que eles conseguiram estabelecer para seu público interno, financiam e suportam ditaduras, regimes de exceção e estados fundamentalistas mundo afora. Esse paradoxo, a direita brasileira, possuída pelo encosto do finado Carlos Lacerda (que deus o tenha em sua infinita luz) faz questão de esquecer. |
| por pablocapistrano [10:40] |