29.9.09
LOKI



Sexta feira dia 18 de Setembro, às dez da noite, em pleno Rosh Hashanah (ano novo judaico) o Canal Brasil exibiu o filme Loki, sobre a vida do músico e compositor, Arnaldo Baptista.

Eu conhecia as músicas do Arnaldo pela minha mãe que era fã dos Mutantes. Mas foi apenas no tempo do El Chaco (um bar que havia na praça das flores em Natal entre 1990 e 1991 e que serviu para arrancar o cabaço musical de muita gente) que eu ouvi os discos solos, Loki? (1974) e Singin´Alone (1981), esse último lançado pelo mitológico selo Baratos Afins do Luiz Calanca.

Arnaldo tentou suicídio em 1981, depois de ter sido internado no Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo. Ele pulou do quarto andar e ficou quatro meses em coma. Teve lesões cerebrais que comprometeram seus movimentos e sua fala. Sua recuperação foi lenta e só em 2004 voltou a gravar um disco Let It Bed. Se a gente pensar na trajetória musical de Arnaldo Baptista temos que pautar um tema inevitável: a alegria.

A construção, a perda e a redescoberta da alegria marcam essa trajetória. Sean Lenon, no filme de Paulo Henrique Fontenelle, comparou Arnaldo com Sid Barret (um dos pais fundadores do Pink Floyd). Mas há uma distinção fundamental. Barret que morreu em 2006, nunca conseguiu voltar da sua viagem em direção ao silêncio e ao isolamento. Seu surto não se transfigurou criativamente a ponto dele conseguir encontrar uma nova forma de convivência com o mundo. Sua viagem foi sem volta.
Arnaldo conseguiu retornar e nesse retorno parece ter encontrado uma plenitude quase mística que só se conforma para os loucos e para os santos. Não dá para entender essa metamorfose sem seguir as pistas que se encontram em sua música.

Mesmo a melancolia do final dos anos setenta, que culminou no seu surto e na sua tentativa de suicídio em 81, não se assemelha com a radical desconstrução da mente de Barret no inicio dos setenta.

A melancolia de Arnaldo parece surgir da saudade de uma alegria perdida, a de Barret parece ser produto da ausência absoluta de qualquer alegria possível. Vazio e saudade são marcas existenciais radicalmente distintas. Se o primeiro produz náusea e desespero, o segundo cria uma melancolia que contém, no seu próprio azul profundo, a chave para a sua superação. O sol negro de Barret e a noite violeta de Arnaldo são diversas, talvez, quem sabe, por questões culturais.

A mãe do único filho do Arnaldo (não consigo me lembrar do nome dela) disse, no filme, algo mais ou menos assim: "a melancolia do Arnaldo vinha da tristeza de não compreender o porquê de não ser compreendido".


As razões da não compreensão da obra de Arnaldo, relegada ao silêncio obsequioso que o senso comum mantém diante dos loucos, são múltiplas. A radicalidade de sua experiência sonora, a erudição profunda de suas composições intercalada com a marca visceral do roquenrol, a dificuldade do gosto médio brasileiro enxergar algo que se posicione além do pop ou do popular, a desconfiança em relação àquilo que não se enquadra em algum rótulo...

Quando Kurt Cobain anunciou para o mundo, em sua turnê no Hollywood rock de 1993 que havia descoberto um gênio musical perdido nos trópicos brasileiros, pouca gente por aqui deu atenção. Quando Sean Lenon chamou Arnaldo para o palco em uma de suas apresentações no Brasil é que os posers especialistas em raridades forjadas começaram a anunciar seu gosto pelo Arnaldo e a mídia resolveu buscá-lo em seu esconderijo.

O público brasileiro sepultou o Arnaldo depois do fim dos mutantes porque não conseguiu seguir a velocidade de sua arte que leva a mente dos comuns ao seu limite de potência Arnaldo sobreviveu a esse esquecimento porque em sua luta interior, longe do mundo e diante de sua própria música, ele tinha um trunfo que Barret, como um bom inglês, jamais poderia dispor. Talvez haja algum conteúdo cultural na loucura. Algum elemento climático ou genético, que possa explicar o porquê de, em meio a mais densa melancolia, a possibilidade da plenitude se mantém. Pois é, amigo velho, Arnaldo sempre soube, como todo bom brasileiro, que a alegria é a prova dos nove.

por pablocapistrano [22:21]
17.9.09
Natal: Madrasta do nordeste



A triste notícia da morte de Tico da Costa, e logo em seguida a belíssima crônica/desabafo do Carlos Magno Araújo publicada no substantivo plural (www.substantivoplural.com.br) me fizeram lembrar algo que de vez em quando amo esquecer: eu vivo em Natal.

Natal é uma cidade legal.

Clima ameno, apesar dos condomínios de 30 andares que roubam a cada dia o que sobrou do céu. Belas praias, apesar do clorofórmio fecal nas zonas urbanas. Tranqüilidade, apesar do massacre silencioso de jovens que ocorre diariamente nas nossas periferias.

Natal é legal. Aqui, ninguém se dá muito mal, como canta Pedro Mendes. O problema é que, por algum motivo misterioso, que escapa em muito minha pouca compreensão acerca das idiossincrasias das comunidades humanas, Natal ainda se comporta como a grande madrasta da cultura potiguar.

Não sei se você sabe, mas Tico da Costa foi mais uma vítima da maldição de Cascudo ("Natal não consagra nem desconsagra ninguém" - dizem que Cascudo afirmou isso). Como bom natalense nunca havia ouvido falar de Tico da Costa até que Diógenes da Cunha Lima me apresentou suas composições a uns quatro ou cinco anos.
Tico passou a maior parte de sua carreira pela Itália, tocou em Nova York com Philip Glass (um dos grandes nomes da música contemporânea) e tem suas músicas hoje reagravadas em outras fronteiras por esse mundo de meu Deus.

Apesar disso morreu triste pedindo ao Carlos Magno que publicasse uma resenha sobre um disco seu em um jornal da sua própria terra, porque, a despeito de ter tido uma carreira de destaque lá fora não era reconhecido no seu estado de origem.
Saber por que coisas desse tipo acontecem não é tarefa fácil.

È importante entender que o caso de Tico da Costa não parece com casos de artistas "malditos", de poetas e músicos do underground que passam parte da vida na obscuridade, produzindo uma obra para três ou quatro adeptos, que, após a sua morte chamam atenção para o nome do mestre. Tico é diferente. Ele teve discos lançados, e shows em vários países, sua música, de Areia Branca para o mundo, trouxe algo que chamou atenção da gringolândia, mas que não foi percebida por Natal.

O Rio Grande do Norte, durante muito tempo, como o professor Sérgio Trindade me alertou uma vez, foi partido em três direções divergentes. Até os anos setenta, o oeste (com sua eterna capital Mossoró), voltava-se para Fortaleza. Natal por sua vez, era uma espécie de bairro de Recife, ao passo que o Seridó (que era Paraíba até a década de 1820) tinha sua ligação estreitada com o pólo cultural de Campina Grande. Esse quadro parece que só muda nos anos 80, quando a rede globo passa a ter sua transmissão a partir da capital do estado. Mas os anos de esquartejamento cultural já havia feito seu estrago.

Sem um pólo para focar a vista, o estado do Rio Grande do Norte parece que cresceu olhando para fora, buscando os estados vizinhos, enquanto Natal, aquela fazenda iluminada, aquela pequena aldeia ao pé das dunas e na beira de um rio de água salobra, permanecia reduzida à sua insignificância urbana e populacional.

O curioso é que esse "olhar para fora" que gerou o traço mais característico do natalense (uma espécie muito peculiar de matutismo policultural) não conseguiu fazer com que a cidade enxergasse de forma digna a obra de Tico. Nosso cosmopolitismo brejeiro não nos permitiu identificar aquele potiguar entre as multidões do mundo. Perdemos Tico da Costa sem ter-mos descoberto seu talento nem entendido a importância de sua música.

A pergunta agora é: quantos mais?

por pablocapistrano [19:23]
8.9.09
O Colapso do Show da Xuxa

Quem entrou no mundo do twitter já começou a se divertir. Algumas dicas são importantes para que você sobreviva a mais essa novidade: (1) selecionar cuidadosamente quem você vai seguir para não ter sua tela de computador atulhada de banalidades em 140 caracteres; (2) ter uma preocupação mais do que redobrada com o que você escreve.

A primeira dica serve para preservar a sanidade mental, porque você pode perdê-la muito facilmente se mergulhar fundo nessa fauna de mensagens que se propagam em uma velocidade quântica pelos neurônios virtuais da grande mente coletiva. Sim, a Internet parece cada vez mais uma consciência sem inteligência (o que não parece ser muito claro ainda é como essa superconsciência pode funcionar, mas esse é um objeto para os filósofos da mente nas próximas décadas e não dá para discutir isso em um artigo só).

O fato é que muita gente, oriunda das velhas mídias, está pagando mico no twitter. O caso Xuxa é um exemplo que já nasceu clássico. Para quem não ouviu falar do acontecido, o que me chegou à tela é que a Rainha dos baixinhos, objeto dos delírios infantis de boa parte das crianças minha geração, saiu do twitter após um episódio envolvendo sua filha (o boato de ontem é que ela já havia voltado). O fato é que uma mal pensada frase da apresentadora virou objeto de piadas espalhadas pela rede, transitando de um espaço a outro da Internet e gerando uma onda de atenção que só Vanusa cantando o Hino nacional e Belchior (esse ai, eu ainda não consegui descobrir porquê) conseguiram se equiparar.

Pois é, amigo velho, esse é o tempo do agora. Um tempo de imensidades e de assombrações, que decompõe as velhas formas nas quais os ícones das antigas mídias construíam suas mitologias particulares. Quem estava acostumado a TV, ao rádio, ao cinema, sofre com esse tipo de interatividade, porque a regra da rede é que ninguém está tão longe assim para não ser tratado como igual. Quando Walter Benjamim escreveu o seu ensaio clássico, A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica (gostou do nome?) havia a idéia de que a indústria cultural, com seus discos, seus filmes, seus livros impressos, suas cópias fotográficas iria destruir a aura do objeto artístico. A pintura de Da Vinci, reproduzida em cartões postais, iria perder seu caráter mágico de objeto único.

Sim, havia certa ansiedade nostálgica nessa idéia de Benjamim, uma certa saudade de um mundo moribundo. O curioso é que durante o século XX a indústria cultural substituiu o objeto único pela imagem distante e inacessível do astro de rock, do artista de cinema, do escritor famoso, do apresentador de TV que se relaciona com seu público mediado pela frieza de uma tela radioativa. A indústria não cumpriu a profecia escatológica de Benjamim sobre o colapso da reverência religiosa do homem para com seus objetos de beleza. Ela simplesmente colocou o autor da obra no lugar da obra e criou um modelo de culto mais sofisticado. Agora não era a canção de John o objeto único. A música de John estava disponível em qualquer prateleira de loja de discos.

No século XX, o próprio John se tornou o ícone aurático que Benjamin acreditou ter morrido. John era o ídolo, o objeto de desejo, a fonte de reverência. Xuxa é um personagem dessa época e sua ligação com o twitter mostra que ela ainda não entendeu que nesse tempo do agora, (em que o futuro parece ser mais uma dessas improbabilidades) o único e derradeiro ícone é a própria rede. Parafraseando nossa eterna rainha: "fui, vocês não merecem falar comigo nem com meu anjo". Pede pra sair 02!

por pablocapistrano [20:59]
28.8.09
Muito além do roquenrol




Quando os cartazes anunciando que iria haver em uma área rural da cidade de Bethel, próximo a Nova York um "festival aquariano" que prometia três dias de paz e amor, ninguém, nem mesmo os organizadores da parada hippe, imaginaram o que iriam vivenciar. Woodstock foi algo que se posicionou para muito além do rock. Eu não estive lá. Nem era nascido quando a festa começou e isso particularmente é uma das injustiças genealógicas que eu anotei no meu caderninho de reclamações quando for me encontrar com o gerente desse universo.

Apesar disso woodstock, para um filho de hippes como eu, é um termo que se aprende a pronunciar ainda na primeira infância junto com Beatles, rolling stones, incenso e calça boca de sino. O fato é que aquele festival não mudou o mundo, isso porque o mundo já muda constantemente e eventos desse tipo são a expressão e não a causa dessas mudanças que trituram as velhas formas de viver, revitalizam antigos padrões e criam novos modelos de comportamento.

Em termos de rock muito pouca coisa foi acrescentada ao mundo depois de woodstock. Aliás, o rock, para mim, é uma expressão musical típica dos anos sessenta. Se você parar para pensar todas as grandes linhagens musicais de rock nascem naqueles anos. O psicodélico (com Frank Zappa, Beatles e Pink Floyd), o metal (Black Sabath), hard rock (Led Zeppelin), progressivo (Yes) e até o punk (Velvet Underground, Stogges, MC5) foram definidos durante aquele tempo louco.

Os caminhos do rock já estavam postos quando woodstock despontou e o rock é essencialmente uma música que se repete. Ao contrario do Jazz, que se desenvolveu em um conceito, digamos, hegeliano de história (perdoem o filosofema) no qual um mestre buscava superar o outro fazendo a música mudar radicalmente até se esgotar, todas as grandes tendências do rock foram postas de uma vez só. Espalhadas na superfície do planeta, como se o balde do aguadeiro (ícone do signo de aquário) tivesse derramado todo seu conteúdo estético simultaneamente nos ouvidos da humanidade.

Lógico!

Eu não estou dizendo que nada de "bom" surgiu após woodstock. Dizer isso não seria apenas bobagem, mas uma injustiça com uma quantidade não menos significativa de bandas que apareceram depois. O que é interessante sobre o tempo de woodstock, é que não surgiu nada de novo em termos de rock, ou seja, as tendências já estavam postas, as linhas já haviam sido definidas e precisaram apenas ser levemente ajustadas e misturadas posteriormente.

Talvez por isso exista algo de definitivo naquele festival. Algo de inaugural e, ao mesmo tempo, algo que encerra um tempo de começo. Na vida é assim, um ponto de culminância sempre vem acompanhado por uma descida brusca. Talvez, nesse tempo de internet o festival seja entendido como uma intensa expressão de uma revolução que despontava naquele horizonte.

Quem entende de astrologia costuma a identificar o signo de aquário com uma espécie de força coletiva que atua em rede, unindo partes diferentes em uma teia sem um centro definido de poder. A Internet, nesse sentido, é uma ferramenta profundamente aquariana, e o festival de woodstock que é quase contemporâneo das primeiras transmissões de pacotes de informação entre computadores por rede telefônica. Curiosamente o festival talvez tenha sido a primeira manifestação de uma comunicação em rede (apesar de não ter sido programado na internet) da história.

A força espontânea e anárquica, quase caótica e ao mesmo tempo harmonizada de uma massa que se reúne de modo aleatório e imprevisível é bem o sinal de nossos tempos de tsumani digital. Nunca mais haverá um outro woodstock, mas os desdobramentos daquele tempo, entre o sonho e o pesadelo, ainda estão reverberando por aí, em cada blog, twitter ou qualquer outra novidade que o mundo dos filhos de woodstock possam inventar.

por pablocapistrano [17:40]
24.8.09
Socorro verdão!

Depois da goleada sofrida pelo mecão na partida contra o Ceará e da situação pré-falimentar do ABC, só o Alecrim nos salvará!

a reflexão sobre a situação sombria do futebol nordestino nessa era pré-copa ecoou no editorial do Jornal do Comércio de Recife no dia 20 de Agosto. O Fábio Lucas manda para mim o Editorial e eu publico por aqui.


Cenário Somnbrio
publicado em 20 de Agosto de 2009

A situação vexatória por que passam, neste instante, os quatro principais clubes de futebol de Pernambuco, suscitam pausa para reflexão diante de um cenário sombrio: a perspectiva de falência generalizada do futebol nordestino nos anos que antecedem a Copa de 2014.
A tradição clubística e a opinião dos torcedores, heranças da época romântica do futebol, podem tender a minimizar o quadro atual. No entanto, os resultados não mentem: as dificuldades que nossos times têm encontrado dentro das quatro linhas refletem, na maior parte dos casos, equívocos advindos da má gestão que se observa do lado de fora.

A triste verdade nos gramados enche a torcida de descrença. A repetição enfada. No eterno retorno à zona de rebaixamento, tem uma hora que a paixão se transforma em raiva, ou afasta os apaixonados mais sensíveis, de nervos à flor da pele. São sempre as mesmas desculpas, explicações, ponderações, convocações, os mesmos pedidos de paciência. São sempre também os mesmos erros. A cada ano percorrem-se roteiros previsíveis de desempenho de equipes sem conjunto, sem tática, sem técnica, sem craques, sem defesa, meio campo e ataque.

Mas os locutores e comentaristas não se cansam de dizer a obviedade - que o futebol é uma caixinha de surpresas? De fato, o futebol é um jogo, e como jogo, está entregue parcialmente ao acaso. Mas o futebol é um esporte. Como outros, um esporte que evoluiu, cresceu e se profissionalizou tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Basta olhar os exorbitantes salários pagos na série A em nosso país, ou pelos times medianos na Europa.

O futebol não é um jogo de azar e sorte. Para muitos - para quase todos, exceto as torcidas - trata-se de um negócio, um investimento de risco, com altas cifras envolvidas, do televisionamento à propaganda, incluindo a premiação em dinheiro aos campeões. Com a Copa de 2014 no horizonte, a expectativa é que o futebol brasileiro enterre o amadorismo e a cartolagem que dominaram os gramados no século passado, entrando de vez no século 21.

Nesse cenário, os times nordestinos deverão passar por sérios obstáculos para ganhar projeção nacional. Em 2009, temos três nordestinos na série A, e seis na série B. Se já é pouco, esse número pode chegar a zero nos próximos anos, o que poderá ser visto com tristeza, porém não será, infelizmente, nenhuma surpresa.

Experiências pontuais como as do Vitória de hoje, e do Sport, do ano passado, precisam urgentemente ser fortalecidas e multiplicadas, sob pena de assistirmos a queda rápida de escudos tradicionais da região, a exemplo do Santa Cruz, que lutou para subir para a série C e não conseguiu. O Central de Caruaru corre o risco de não ir adiante na quarta divisão nacional. Em Pernambuco, na Bahia, na Paraíba, no Rio Grande do Norte, em Alagoas e no Ceará, a crise não é recente. Mas pode ser pior. Não por acaso, o futuro presidente da Federação Cearense de Futebol (FCF), Mauro Carmélio, foi eleito pregando um choque de gestão no Estado, tendo por modelo a Federação Goiana. Aliás, é graças a uma boa gestão que o Goiás tem figurado entre os principais times do País.

Merece destaque a experiência posta em prática no Clube Náutico Capibaribe, quando a necessidade impera: o sistema presidencialista de gerir o clube é substituído por um colegiado de amplo espectro, em cuja formação se deposita a esperança por dias melhores. Funcionou uma vez, e parece estar funcionando novamente, no esboço de uma reação comandada, em campo, pelo técnico Geninho.

A Copa de 2014 se aproxima, fazendo com que o marketing ganhe corpo nessa nova fase. Mas só pode se vender bem o clube que faz o dever de casa: administração transparente, competência gerencial, participação ativa dos sócios, formação de jogadores, contratações bem-sucedidas, infraestrutura de treinamento, manutenção ou ampliação patrimonial. Se o clube for gerido a partir de uma caixa-preta, da caixinha que é cada partida não virão glórias imprevistas. Pois na era do esporte competitivo e do atleta de alta performance, não há mágica nem milagre.

por pablocapistrano [08:40]
18.8.09
A Valsa da Memória




No dia 14 de Setembro de 1982 Bashir Gemayel, recém eleito presidente do Líbano foi assassinado depois de uma explosão de um carro bomba no distrito cristão de Beirute.

Na mesma época, Ari Folman, cineasta israelense, então com 19 anos estava em algum lugar nos arredores dos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila.
Algum lugar que sua memória, anos depois, não lhe permitia acessar.

A história dos massacres nos campos de refugiados palestinos, realizados pelas milícias cristãs, da Falange, um partido político fundado por Pierre Gemayel (pai do jovem presidente de 35 anos assassinado naquele 14 de Setembro), se mistura, no filme Valsa com Bashir (também disponível em forma de Graphic Novel) com a história particular de Folman, que busca recompor suas lembranças daquela guerra.
Seguindo a mesma tradição de Maus (HQ de Art Spigelmann), ou de Persepólis de Mariane Sartrapi, o trabalho de animação de Folman, com direção de arte de David Polonsky, toca em um ponto profundamente judaico: a tentativa de recuperar e manter a memória.

Desde a época da grande diáspora, resultante da segunda rebelião judaica contra o império romano (conhecida como revolta de Bar Kokhba) em 132 dC, que os judeus do mundo todo exercitam sua memória coletiva como forma de sobrevivência de sua identidade partilhada.

Lembrar, nessas condições, é um sinal de sobrevivência, e após a dispersão do povo judaico, a unidade da nação de Israel se manteve através dos anos pelo exercício constante e disciplinado da memória. Um entrelaçamento que unia as lembranças pessoais de cada um à uma teia comum, que se fundia com os acontecimentos históricos do próprio povo judeu.

O exílio geográfico causado pela destruição do segundo templo, produziu um longo exercício de fortalecimento da consciência histórica, que teve reverberações na poesia e na literatura judaicas, bem como na obra de grandes pensadores judeus como Marx ou Freud.

O trabalho de Folman aponta para uma tentativa de manter esse vínculo e fortalecer essa viga de sustentação de identidade em tempos de guerra e de horror. Ao contar o esforço em recuperar as lembranças dos dias em que, sob a conivência criminosa do exército de Israel, as milícias cristãs libanesas invadiram os campos de refugiados palestinos em Sabra e Chatila e massacraram um número não consensual de homens, mulheres, velhos e crianças, Folman aponta para uma tendência que cada dia mais se fortalece entre setores da intelectualidade israelense, que é o de reconstruir a história de seu próprio povo e de seu próprio país a partir de uma visão menos tendenciosa dos acontecimentos mais sangrentos dos conflitos na terra santa.

O trauma de Folman em relação à guerra do Líbano é equivalente ao trauma da própria nação Israelense que teria "apagado" da sua memória coletiva a ligação com os massacres de 1982. Fulminado por uma culpa, semelhante a que alguns alemães tem em relação ao regime nazista, Folman não consegue lembrar onde estava quando os palestinos foram massacrados pelos cristãos maronitas. Para muito além de leituras simplistas e ideologizadas, a narrativa em forma de quadrinhos (a que eu li, porque o filme eu ainda não tive oportunidade de ver) não busca demonizar nem canonizar ninguém, porque em uma guerra, as noções mais fundamentais de moralidade, de bem e de mal, são descartadas sem nenhum tipo particular de cerimônia.

Se em outro quadrinho referencial dessa nova geração de prosadores gráficos, (Palestina, de Joe Sacco) os conflitos no oriente médio são lidos a partir de um enfoque dos palestinos, Valsa com Bashir aponta para uma corajosa revisão da própria história recente de Israel, a partir de uma obsessão judaica: a busca incessante pela memória.

Se em outros tempos, essa busca era a forma do povo judeu enfrentar seu exílio, hoje, na leitura de Folman, é o único modo honesto de lidar com suas próprias responsabilidades e entender seus próprios fantasmas.

por pablocapistrano [17:21]
11.8.09
As duas forças




Rumi - "o pior dos santos é o que visita os príncipes, e o melhor dos príncipes é aquele que visita os sábios".




Diz uma piada que um dia Deus e o diabo estavam andando por um caminho. De repente, Deus pára, se abaixa e pega no chão um pedaço de papel com algo escrito. O diabo pergunta; "O que é isso?". Deus, subitamente responde: "A verdade". O diabo sorri, retira o papel da mão de Deus e diz: "ótimo! Pode deixar que eu organizo ela para você".

Gershon Scholem, um dos mais importantes estudiosos de misticismo judaico, apontava que a religião se configurava como um local de confronto entre duas forças antagônicas. De um lado a pulsão espontânea e subversiva da experiência mística, de um outro a força reguladora da doutrina.

Quando se fala de islamismo, apenas um desses dois aspectos aparece na mídia. Desde que a revolução iraniana em 1979, ressuscitou a Xariá (a famosa "lei islâmica"), o aspecto doutrinário, normativo e mais radicalmente conservador da religião de Maomé, passou a dominar nosso pequeno universo telejornalistico.

Mas pouca gente sabe o que é a Xariá ou que, por exemplo, ela não é aplicada em todos os paises mulçumanos e que boa parte dos conflitos que tomam conta do oriente médio tem a ver com o embate entre essa antiga linha doutrinária e as legislações de países como a Turquia, que tem influência de códigos ocidentais. A Xariá se baseia em um conjunto de textos que foram escritos após a morte do profeta Maomé e o significado do seu termo em árabe é: "caminho que conduz à água".

Para quem vive no deserto, essa expressão denota algo muito importante. A idéia é a de que o consenso sobressai sobre a interpretação e isso se justifica por uma frase atribuída a Maomé que teria dito: "minha comunidade nunca consentirá em erro". Esse tipo de noção enrijeceu a interpretação do Corão (o livro sagrado dos mulçumanos) e forneceu a base de muitos dos dogmas que hoje são aplicados em forma de lei em alguns paises orientais. A Xariá nasceu da mistura de alguns versos do Corão que tinham conteúdo jurídico com partes do velho direito consuetudinário das tribos árabes do deserto e com a idéia de que não se poderia questionar uma interpretação consensual. Quem discordasse do consenso dos sábios, incorreria em heresia.

Essa é a força mais conhecida, entre nós, ocidentais e simpatizantes, da religião islâmica. Uma segunda força, menos popular, mais igualmente importante na composição do imaginário religioso dos povos do oriente médio é o sufismo.

Esse movimento, fortemente místico e subversivo, nasce quando árabes mulçumanos tem contato com tradições místicas cristãs e passam a entender que o Corão pode ser reduzido a uma única e inexpugnável idéia: a que todo mulçumano deveria viver a vida como se sempre estivesse na presença de Deus. Aquele amor místico que aparece nas escrituras cristãs através da palavra ágape e que Renato Russo transformou em canção no disco As Quatro Estações, produziu uma longa linhagem de mulçumanos que punham as prescrições da lei islâmica em segundo plano e fundamentavam sua religiosidade na experiência particular, pessoal, íntima e direta de Deus, sem subterfúgios ou intermediários nem referência a autoridade institucional ou jurídica. Rabia, uma mulher santa do sufismo, apontava como Paulo apontou nas escrituras cristãs, "o amor de Deus me absorveu até o ponto em que em meu coração não resta amor nem ódio a nenhuma outra causa".

Esse estado de suspensão da dor e da alegria, da vontade e do desejo, esse vazio fundamental a qual todas as tradições místicas fazem referência, parece estar ligado a uma alteração da consciência cotidiana. A experiência de desarticulação dos nossos sentidos, de suspensão da configuração mental do nosso "software", que põe o programa do mundo para rodar em nosso cérebro e que cria a nossa matrix (você já viu o filme, não é?) não se submete aos aspectos mais rígidos e normativos da autoridade construída pela Xariá. Por isso o movimento sufi gerou conflitos institucionais profundos com os senhores da doutrina e da moral islâmica.

O mais significativo desses mestres sufis foi o poeta Persa Mawlana Jahal al-Din Rumi (morto em 1273) que escreveu um longo poema místico intitulado Masnavi (tratado pelos sufis como uma espécie de Corão em língua persa). O panteísmo desconcertante (?todas as coisas são Deus?), a busca de exercícios de controle da respiração, a repetição de frases, a busca de um domínio mental durante os exaustivos rituais coletivos de canto, dança e música, apontam para semelhanças muito íntimas entre as práticas sufis e as técnicas místicas hindus.

Rumi era poeta como Maomé foi um dia. Como poeta ele sabia das brechas do discurso, entendia que boa parte daquilo que os homens chamam de "verdade" nada mais é do que uma construção artificial, que muitas vezes serve apenas para sustentar estruturas de poder. Música, dança e poesia são mecanismos muito mais poderosos, na leitura sufi, para encontrar Deus do que as prescrições legais da doutrina. Talvez por isso, aliado a um profundo sentimento de inclusão que toca o humano e abrange todas as raízes e todas as linhagens de pensamento, os poemas de Rumi estejam hoje espalhados por sinagogas, mesquitas, igrejas e museus em cidades como Nova York.

O poeta sabe dos acenos da linguagem. Ele conhece o lugar aonde Deus dorme. Ele sabe chegar nesse lugar, que fica bem no centro luminoso do coração dos homens.


Versão de um Poema Sufi, traduzido para o inglês por Annemarie Schimmel.


Eu morri como um mineral e tornei-me uma planta.
Morri como uma planta e me tornei um animal.
Morri como um animal e me tornei um homem.

Porque eu devo ter medo quando a morte me tocar?
Quando fui menos por morrer?
Se mais uma vez eu devo morrer como um homem,
me elevarei
com a benção dos anjos.
Mas até por esse estado angelical
tenho que atravessar.

Tudo perece, menos Deus.

Quando eu tiver sacrificado minha alma de anjo
me tornarei aquilo que nenhuma mente jamais concebeu
Oh deixe-me não existir!
Pelo nada
proclamado em música
voltaremos à Ele



"quando estivermos mortos não busque nossa tumba na terra, porque ela vai estar fincada no coração dos homens".

por pablocapistrano [10:48]
2.8.09
Festival Literário de Natal

Pessoal, a Sicilliano do Natal Shopping promove essa semana de 04 à 08 de agosto, o III festival literário de Natal.
Fui convidado para abrir o evento no dia 04 (Terça) às 20:00 falando sobre O Mito do Canalha: comoportamento e sexualidade.

quem estiver por Natal e se interessar em prestigiar o evento segue a programação:

04/08 (Terça-feira)

18h - Lançamento Revista O Poder
19h - O Magnífico
Daladier da Cunha Lima, Heriberto Bezerra e Ivonildo Rêgo
Mediador: Diógenes da Cunha Lima
Lançamento: O Magnífico - Uma biografia de Onofre Lopes
Diógenes da Cunha Lima

20h - O Mito do Canalha: Comportamento e Sexualidade
Fabrício Carpinejar e Pablo Capistrano
Lançamento: Terceira Sede
Fabrício Carpinejar


05/08 (Quarta-feira)

17h - Lançamento Vale Grande
José Jorge de Mendonça
18h - Lançamento
No Terreno da Fantasia: uma história do PCB nos anos de 1980
Bruno Rebouças e Roberta Maia
19h - Espetáculo Teatral ?Negrinha?
Sara Antunes
Monólogo
20h - Planejamento Turístico
Paulo Gaudenzi, Murilo Felinto e Dr. Jussier Santos
Mediador: Jurema Márcia Dantas
Lançamento: Planejamento & Experiências: turismo na Bahia
Paulo Gaudenzi

06/08 (Quinta-feira)
17h - Lançamento
Quem é Daniel Radcliffe
Clara Radcliffe
18h - Cangaço: No rastro da História
Ilsa Fernandes e Rostand Medeiros
Mediador: José Correia Torres Neto
19h - Sarau Potiguar:
Auta de Souza: a Noiva do Verso
Diva Cunha e Noilde Ramalho
Mediadora: Ana Laudelina
20h - A morte de Euclides da Cunha
Palestrante: Luíza Nagib Eluf
Lançamento: Matar ou Morrer - O caso Euclides da Cunha
Luíza Nagib Eluf

07/08 (Sexta-feira)
17h - Lançamento
Ensaio Poético
Ângela Rodrigues
18h - Sarau Potiguar:
Zé Saldanha: o cavaleiro medieval errante
Zé Saldanha e José Acaci
Mediador: Gutenberg Costa
19h - Gêmeas: não se separa o que a vida juntou
Palestrante: Mônica de Castro
20h - Bate-Bola
Marinho Chagas, Marcos Eduardo Neves e André Plihal
Mediador: Augusto César Gomes

08/08 (sábado)
17h - Lançamento
O menino sorriso e a bicicleta liberdade
Flor Atirupa
*dramatização com teatro de bonecos
18h - Grandes Pequeninos
Pocket Show com Jair Oliveira e Thania Khalil
19h - Jornalismo Literário e Biografias
Carlos Marcelo e Arnaldo Bloch
Mediador: Vicente Serejo
Lançamento: Renato Russo - O filho da Revolução
Carlos Marcelo
Lançamento: Os Irmãos Karamabloch
Arnaldo Bloch

por pablocapistrano [07:16]
28.7.09
Velho alto oeste




Pessoal, voltei no Domingo do velho alto oeste.
A viagem foi boa, visitamos a minha família materna os paivas do Sertão (lá no Timbaúba de Petronilo Augusto, no pé da serra de Patu) e os paivas da serra, (lá em Serra Nova, em Martins).
A chuva foi boa.
Ainda está caindo água por lá, mesmo em pleno mês de Julho.
Mas só o que se falava era dos assaltos nas estradas.
O que me deixa espantado é perceber que nos lugares mais afastados dos grandes centros o medo da violência impera do mesmo modo.

Então cai de cabeça na minha tese de doutorado. Devo concluir essa peste até o fim da semana, mas para quem não quer esperar mais um artigo (só na semana que vem...) deixo aqui uma bela foto do Alexandro Gurgel da Serra de Patu, e um link para uma crônica do João Paulo Cuenca sobre nossa pequena catástrofe urbana.

Que a paz acompanhe vocês!!

http://oglobo.globo.com/blogs/cuenca/

por pablocapistrano [11:19]
19.7.09
Os Discos de Dylan





Esse ano eu só soube que era dia mundial do rock porque dei uma olhada na coluna Bazar do Alex de Souza (http://www.nominuto.com/blog/bazar) e me deparei com o texto sobre o disco London Calling do The Clash.

Não que o rock tenha deixado de chacoalhar minhas células, mas é que nesses tempos chuvosos e cheios desse estranho sentimento de dissolução que toma conta da terra, meu desejo parece ser o de retroceder até um tempo mais arcaico, mais fundamental. Então, nos últimos meses, os dois primeiros discos de Dylan e mais uma longa lista de canções de Woody Guthrie andaram freqüentando mais tempo meu aparelho de som.
Talvez nem todo mundo tenha prestado atenção (ainda mais nessa época de mp3 na qual o conceito de álbum parece estar esfarelando rapidamente, junto com a ordem natural das coisas e a nossa paciência em relação às bobeiras humanas), mas o primeiro disco do Bob Dylan, produzido pelo John Hammond quase não tem músicas próprias.

Alguns acham que isso acontece porque o compositor com cara de menino na capa do disco, estava guardando suas pérolas para os discos posteriores. Mas talvez seja mais do que isso. Um documentário dirigido por Steve Gammond que anda a disposição do público de Natal em bancas de revista com o título Down the Tracks - a música que influenciou Bob Dylan, mostra que existe muita coisa oculta nas referências de Dylan.

Do ponto de vista cinematográfico o documentário não é muito bom, mas vale como documento histórico para quem gosta de mergulhar na arqueologia dos nossos ícones. Gammond tenta pensar Dylan a partir de sua origem e descobre um sujeito fundamental na história da música moderna. O nome do caboclo é Harry Everett Smith e nasceu em algum lugar lá pras bandas do Oregon na década de 20. Harry era estudante de antropologia quando se interessou em pesquisar um ramo acadêmico chamado "Etnomusicologia".

Em 1952 ele lançou uma coleção de seis discos em 78 rotações, com gravações garimpadas e datadas de um período entre 1927 e 1932. O Anthology of American Folk Music é uma dessas raridades que se um dia você encontrar em um sebo e não tiver dinheiro para comprar, pense seriamente em vender sua mãe aos árabes para levantar a quantia (desculpe, mas essa é uma expressão que eu retirei de um filme de Woody Allen, sem querer ofender os colegas árabes).

Sim, a propósito, o Dylan é judeu e seu nome hebraico é (Shabtai Zisel bem Avraham). Para muita gente que estuda a obra do sujeito um dos elementos mais marcantes de sua poesia é, ao lado de todas as referências literárias clara a Dylan Thomas, Rimbaud e Blake, uma desconcertante mistura de evocação profética com uma notação melódica que junta Blues, Jazz, Country (especialmente do Cowboy dark Hank Williams) e Cajun Music (um tipo de música da Louisiana, que tem ligações com as influências da cultura creole).

O forte da coletânea do Smith é a capacidade de resumir e demonstrar as ligações que a música folk norte americana mantém com velhas canções da Escócia e Inglaterra, especialmente com uma coleção de 305 canções editadas no século XIX por Francis James Child e que aportaram nos Estados Unidos e foram preservadas em comunidades rurais à oeste dos montes apalaches.

Dylan era aficionado por essa coletânea e boa parte de sua carreira consistiu em prestar tributo a ela. No seu primeiro disco (Bob Dylan - 1962), e em discos posteriores como Nashiville Skyline (1969), World Gone Wrong (1993), Modern Times (2006), Dylan parece sempre voltar à coletânea de Smith para buscar forças criativas ou mesmo para, sem medo de comparações, deixar as pistas de suas influências, como se as marcas da vida de um homem não devessem ser medidas apenas por seus atos, mas pela linhagem à qual ele pertence.

por pablocapistrano [11:51]
17.7.09
Datas da Semana

Algo está acontecendo comigo.
Passei o dia mundial do Rock e nem me toquei da comemoração.
Durante a tarde, nessas férias chuvosas entrecortadas por uma tese de doutorado, assisi um belo documentário do Steve Gammond sobre os discos que Dylan ouvia antes de se tornar Dylan, depois vou escrever sobre isso...

Hoje, passei o dia ouvindo uma coletânea de Sarah Vaughan e Billie Holiday.
Que morreu a exatos cinquenta anos atrás.
Esse link pode te levar para um vídeo da Lady Day com Lester Young.
A voz e sax na mais perfeita tradução.

http://www.youtube.com/watch?v=ZtgUbJN8oPE&feature=related

por pablocapistrano [17:52]
8.7.09
Jornalismo e crise

Ontem, como quase sempre, o programa observatório da Impressa foi muito bom.
A discussão girava em torno do colapso ou não o jornalismo tradicional.
Sim, porque depois da morte de Michael Jackson e dos conflitos no Irã, cada ser humano com um celular é hoje uma ilha de edição da realidade, uma poderosa máquina de fazer notícias.

Será isso uma revolução?

Veja bem, veja bem, hoje a informação não é novidade e antes de mais nada o furo morreu.
Aquela ideia criticada por Nelson Rodrigues, que gemia ao perceber as redações de jornais cheias dos chamados "Idiotas da Objetividade" (aqueles que pensavam que o papel de um jornal era simplesmente mostrar o fato, com uma objetividade utópica, destroçada por qualquer manual de fenomenologia), parece estar com os dias contados.

Agora, a turma grita que o jornalismo tradicional não pode mais buscar a "informação" pura e simples. O fato já está dado e é instantâneo. Agora, ela vai ter que buscar a qualidade da informação.

Eu particularmente já percebi isso em sala de aula.
Estou cercado pelo professor Google.
Sim, em toda sala de aula que eu entro agora, tem um aluno ou uma aluna com um lap top ligado ao Google e qualquer coisa que eu diga... potof, imediatamente já está ativado o professor Google com seus links imediatos.

Amigo velho, hoje a alma do negócio não é a informação, hoje, mais do que nunca, o segredo é a interpretação.
Sacou?

por pablocapistrano [18:17]
3.7.09
Na Cova com o Michael




A última aula do semestre é sempre um momento ambíguo. Ao mesmo tempo em que aparece aquela contagiante emoção de quem está na iminência das férias, preserva-se também certa quantidade de saudade que vem do simples fato do tempo passar.
Pois foi na última aula desse semestre que eu tive a notícia da morte do Michael Jackson. Uma aluna interrompeu a aula e me passou um bilhete comunicando: "professor, por favor, avise a turma que Michael Jackson morreu".

Bem, não há muita novidade nisso. Morrer não é lá algo inusitado. Mas foi inevitável a tentação de imitar o "moonwalk" (famoso passo do Michael) nos instantes finais daquela aula para descontrair.

Se o Michael tivesse simplesmente morrido, eu juro com toda a força de minha autocrítica que não escreveria uma linha sobre o assunto. O problema é que ele não apenas morreu como acabou protagonizando um dos mais curiosos fenômenos de histeria coletiva dessa primeira década do milênio.

Veja só, amigo velho, duas semanas atrás quem se lembrava do Michael Jackson? Os vinte e cinco anos do disco Thriller passaram com algumas matérias nos telejornais, um ou outro programa especial de memórias na Globo News, um artigo aqui outro ali em revistas especializadas e um punhado de críticos tentando explicar os meandros do disco e suas mitologias. Agora, depois da morte de Michael, não se fala de outra coisa. O mundo congelou e nem os conflitos no Irã, nem o avanço da gripe do porco, nem a queda de mais um Airbus conseguiram congestionar o mundo virtual com a força da notícia da morte de Michael.

Subitamente, como se tomada por um avassalador sentimento de culpa, a humanidade ajoelhou-se aos pés de Michael Jackson. Todos agora são fãs, todos agora escutaram seus discos, todos imitaram sua dança quebrada no furacão do break dos anos oitenta, todos sem exceção, entendem a sua genialidade profunda, sua inovação criativa, sua importância fundamental e insubstituível para o mundo da música e da dança.
Morrer é assim pessoal. A morte nos absolve de todas as culpas e dilui todo julgamento público, por isso Michael agora conseguiu aquilo que todo morto ilustre consegue: a imunidade e a unanimidade avassaladora das salas de necrotério.
Seis meses antes de se entupir de demerol e ter uma parada cardíaca, Michael estava falido, isolado, esquecido, com sua dignidade marcada pelas denúncias de pedofilia, com seu corpo destroçado por uma seqüência pouco saudável de intervenções médicas. Ele parecia um ex-ídolo Pop cuja obra já começava a ser objeto de pesquisas arqueológicas.

O Fato é que entre os anos de 1991 (quando lançou o álbum Dangerous) e 2001 (ano de Invencible seu último disco com canções inéditas), Michael padeceu de um desconcertante ostracismo criativo. Um vazio estético nunca superado. O auge da sua produção musical está, com certeza ligado, em um primeiro momento ao trabalho com os Jacksons Five e com a Motown, e em um segundo momento à parceria com Quincy Jones que o ajudou a produzir seus três melhores discos: Off The Wall (1979), Thriller (1982) e Bad (1987).

Após isso Michael nunca conseguiu, como bem observou o Arthur Dapieve em entrevista recente, superar a si mesmo e sua carreira mergulhou em um buraco artístico só comparável a seu abismo existencial auto destrutivo e psicótico. Quando morreu, Michael era enxergado com certa desconfiança, como uma espécie de freak da música, um pirado que bem poderia fazer parte do rol de personagens do Asilo Arkham da DC Comics, junto com o Coringa, o Duas Caras, o Pinguin e, é claro, o Batman (curiosamente, também acusado de abusar sexualmente de menores no famoso "caso Robin").

Bastou a morte... sim, bastou a fria e isonômica morte, que igualha reis e escravos com a mesma lâmina cortante do tempo e da decadência do corpo, para que o velho freak de Neverland, na velocidade do Twitter, virasse uma espécie de santo pós-moderno, como Bob Marley, John Lennon e Che Guevara. Hoje é dia de dançar sobre a cova de Michael Jackson e começar o longo processo de exumação de seu cadáver artístico, e canonização de sua figura andrógena. Um processo amplo e contínuo que ainda vai durar algumas décadas. Um tempo de recomposição de imagens partidas que vai gerar muito lucro, antes que, como tudo nesse mundo, seu legado seja lançado na poeira do tempo para se dissolver definitivamente, como a própria terra que nos gerou, nesse silêncio sem fim do universo.

Tal qual a luz de uma estrela que morre.

por pablocapistrano [19:16]
26.6.09
MIchael Jackson is dead



Michael Jackson morreu.
(1958-2009)

Keep on the beat.

por pablocapistrano [19:13]
21.6.09
Antes do Jazz




Essa é a imagem antiga de Congo Square, um lugar em Nova Orleans.






Nossa mente dá significado àquilo que experimentamos. Essa é uma verdade que a gente aprende com o tempo. Minhas experiências com música começaram muito cedo porque um dos locais mais fascinantes da casa de meus pais em Mirassol era a sala de som. Um velho "três em um" Gradiente e um punhado de vinis causaram minhas primeiras e mais fundamentais impressões auditivas, abrindo uma maravilhosa janela no meu cérebro que até hoje não se fechou.

As quatro forças estavam lá: Rock, MPB, Música Erudita e Jazz. Tudo em discos grandes e pretos, com faixas visíveis dos dois lados, embalados em um plástico fino e transparente. Dessas quatro forças, minha consciência de criança sorvia bem Beethoven, os Beatles, Creedence Clearwater Revivel e o Clube da Esquina (meus prediletos junto com um velho disco de capa verde de música do tempo das cruzadas).

O Jazz era meu limite.

Eu não conseguia entender aquilo. Atravessei meus anos, perdi minha velha sala de som, rodei muito em lojas de CDs, sebos cheios de vinis e pubs esfumaçados fedendo a cigarro e cerveja, sem entender o significado do Jazz. Mergulhei nos anos selvagens embalado por estranhas experiências psicodélicas e um vendaval pouco saudável de abismos internos e delírios químicos. Até que um belo dia, quase na metade do caminho dessa vida, em um tempo em que as esquinas sem lei da juventude pareciam ter ficado mais estreitas e sem graça, meio sem saber como, ouvi Take Five do Dave Brubeck e subitamente o Jazz fez sentido. Minha mente estava pronta para dar significado àquilo que eu já conhecia, mas que ainda não havia ainda aprendido a sentir.

Art Barkley disse uma vez que "O Jazz lava a poeira do cotidiano".

No começo do século XIX essa poeira vinha de um lugar chamado Congo Square, uma área de Nova Orleans que em 1817 fervilhava com as festas dos escravos no Domingo à tarde. Mas Congo Square não era um lugar de "africanos da gema". A maioria dos freqüentadores do lugar não vinha direto da África, mas sim das Antilhas, do Caribe. Eram membros de uma segunda ou terceira geração de dispersos da diáspora negra que chegaram para plantar cana de açúcar nas ilhas controladas pelos holandeses ou que saiam das fazendas do interior dos EUA para trabalhar no porto.

Os antilhianos traziam as batidas tribais que mais tarde foram gerar os ritmos caribenhos, tão populares pela América Latina. Os escravos do interior traziam para Congo Square suas plantation songs que eram derivações dos cantos da Igreja Batista, com chamados e respostas que lembravam de certa forma, as cantigas de santo dos terreiros de candomblé. Quando essas duas vertentes se aproximaram faltava muito pouco para a massa que deu origem ao Jazz começasse a ser gestada. Havia o ritmo, havia a melodia, mas faltava a alma.

Faltava o Blues.

Se os cantos da igreja batista faziam o escravo gritar coisas como: Oh God, let me go, o Blues, em sua versão mundana e desacralizada punha na boca do escravo coisas como: hey mister, let me be. O Blues libertava o escravo das formulas exóticas que a música de Congo Square havia criado. Lá, naquela poeira das festas de Domingo à tarde, os negros escravos eram vistos como "espécimes curiosos de uma selvageria exótica". Isso gerava muita imitação caricata, como a que os menestréis (Brancos pintados de preto) faziam em cima das marchas militares, sincopando, sofisticando o ritmo e imitando os trejeitos das danças africanas para animar os salões de Nova Orleans. Menestréis como Daddy Rice, famoso dos anos de 1840 e 1848 e que criou uma canção chamada Jim Crow, usada depois para nomear a política segregacionista e racista do sul dos EUA, transformavam os negros de Congo Square em um tipo grotesco de alegoria.

No mundo do Blues a mensagem era incisiva e a alma do escravo não permitia esse tipo de fuleiragem. Os menestréis não conseguiam tocar o coração do blues porque ali havia o núcleo duro da experiência da escravidão. Havia o sentimento intenso do exílio e a marca da saudade de um tempo em que os homens eram livres.
Com esse tipo de força não se brinca.
Com esse tipo de sentimento, não se consegue fazer piada facilmente.
Por isso é justo dizer, que antes do Jazz, havia o blues, e o blues se fez nota e som para injetar, naquela mistura festiva, naquele carnaval burlesco e louco de quadris agitados e de ritmos frenéticos, aquela pitada inquietante de sentimento, dor e êxtase que transformaram a arte criada em Nova Orleans na grande música do século XX.

por pablocapistrano [21:50]
11.6.09
Sinal dos Tempos




"em minha idade cada ato é uma preliminar da morte"

Iggy Pop.


Parece mesmo ser um sinal dos tempos a informação de que Iggy Pop lançou um disco Préliminaires onde canta Jacques Prévert. Para quem não conhece o Prévert teve um de seus poemas Lês Feuilles Mortes gravado pelo Ives Montand e foi homenageado pelo Serge Gainsbourg com a Chanson de Prévert.

Meu pai mesmo, tinha no carro uma fita K7 (já ouviu falar nisso?) com o melhor da chanson francesa, dos anos sessenta e setenta e eu me acostumei a atravessar, entre 1981 e 1982, os longos espaços vazios que nos levavam pela ponte de Igapó até uma então longínqua e selvagem Redinha Nova ouvindo as melodias da voz de Aznavour, Gainsbourg e Montand.

Você pode estar se perguntando: "qual é o problema desse tal de Iggy Pop cantar esse outro doido francês?".
Se você se perguntou isso então provavelmente você não sabe quem é Iggy Pop.

Durante muito tempo eu achei que Jimi Hendrix e Jim Morrison eram os grandes paradigmas de uma "vida roquenrol". Eles pareciam bons candidatos ao cargo de mestres existenciais do estilo musical que guiou a cultura contemporânea nas últimas décadas do século passado. Botaram tudo para dentro e depois morreram afogados em seus próprios fluídos corporais.

Foi então que eu descobri Ian Curtis, meu mestre espiritual dos 16 até aos 22 anos. Curtis parecia uma daquelas imagens enevoadas de velhos contos góticos do começo do século XIX, ou mesmo um personagem de um filme de Murnau ou do Robert Wiene. Ele me fazia ter vontade de reler Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe toda vez que eu ouvia meu vinil do "Closer", o mais intenso bilhete de suicida já transformado em música no universo da arte contemporânea.
Durante algum tempo eu achava mesmo que o Ian Curtis era o paradigma da vida roquenrol.
Nada de morrer de overdose como um imbecil. O astro de rock mesmo tinha que meter uma corda no pescoço e se enforcar.

Mas então veio o Kurt Cobain e destruiu todo o glamour que envolve os suicidas quando estourou os miolos naquela garagem em 1994. A partir daquele momento, a despeito do meu profundo respeito estético pelo Joy Division, comecei a achar que Ian Curtis, como o Morrison e o Hendrix tinha também seu lado idiota.

Quando parecia que minha vida roquenrol estava mesmo com os dias contados (isso é o que acontece com você quando começa a perceber que seus ídolos da adolescência são meio estúpidos, mas não se preocupe é normal) eu descobri o Iggy Pop.

James Osterberg, o Iguana.
Vocalista dos Stogges, a banda proto-punk dos anos sessenta que influenciou, junto com o Velvet Underground, todas as grandes novidades da indústria musical do fim do século e ajudou a enterrar os corpos dos últimos hippes. Ele era um novo candidato à paradigma da existência roquenrol.

Absolutamente selvagem e louco. Comeu cocô no palco (ops, será que esse não foi o Frank Zappa?), caiu por cima dos cacos de vidro, se cortava no meio do show, tomava choque, andava por cima da platéia. Uma vez se entupiu de speed e passou três dias andando com uma coleira e uma corda no pescoço, sendo controlado por um amigo pelas ruas de nova York. Passou um ano nu, tomou ácido uma vez e passou oito horas com os dois dedos do pé em cima de duas teclas de um sintetizador vendo uma imagem psicodélica de um Buda Tibetano no teto da sua casa. Prendeu Nico (a diva do Velvet Underground) por um mês em um porão de uma casa para seviciá-la em troca de heroína.
Iggy Pop viajou fundo e entrou em buracos que nem eu, nem você, podemos imaginar e, depois de tudo isso, fez a coisa mais inusitada e louca que um astro de rock poderia fazer...

permaneceu vivo.

Sim.
Iggy Pop não morreu sufocado no próprio vômito depois de se entupir de barbituricos com whiski, nem estourou as veias de heroína até secar, nem se enforcou na cozinha da casa dos pais, nem meteu uma bala na cabeça. Iggy Pop permaneceu vivo e chegou aos sessenta e dois anos para dizer: "cansei dessa merda, vou cantar Jaques Prévert".

Nada mais punk.

Ou a vida roquenrol já deu o que tinha de dar, ou eu, como o Iggy Pop, estou ficando velho.
Pois é, camarada, sinal dos tempos... sinal dos tempos.

por pablocapistrano [11:43]
17.5.09
Deus é alegria





Natal, 17 de Maio de 2008.


Esse Sábado foi muito legal no curso de formação de Yoga que a Mirian Aguiar da casa de Yoga Sãdhana Pãdha (http://www.casadeyoga.org/casa.php) está realizando lá na UFRN.

Não sei se foi apenas por causa do quarto chakra (o do coração) ou por alguma confluência astral que costuma abrir portais sobre a cabeça dos loucos e dos santos nesses tempos conturbados, mas o fato é que a presença do monge Swami Chandra Muka ? Você o conhece mesmo sem saber, porque ele apareceu com sua turma cantando no clipe do Nando Reis (http://www.youtube.com/watch?v=2bTrQI1tlWk) - nos falando sobre o caminho da devoção (Bakti Yoga), o que deu um brilho todo especial à nossa tarde sagrada de Sábado.

Uma das mais preciosas lições que o monge deixou naquela tarde é que "Deus é alegria". Essa é uma lição fundamental que muita gente costuma esquecer facilmente e se engana quem pensa que é uma exclusividade da devoção oriental. Na tradição judaica há um ditado que diz: "onde não se tem alegria não se cumpre o mandamento".

Uma dos grandes sintomas do desequilíbrio dessa nossa contemporânea idade (a era de Kali na tradição hindu) foi a dessacralização da festa. Aliás, a dessacralização é um mote forte dos nossos tempos. Você vai entender o que eu digo se um dia resolver dar um pulinho no carnaval do Recife Antigo. Vá atrás de um grupo de frevo e você vai curtir a música, se animar, cair na folia. Vai se deliciar com o prazer estético dos metais e vai tremer quando o maestro resolver tocar um "frevo de abafo" para engolir uma outra orquestra rival, que vem dobrando alguma esquina.

Com o Maracatu, no entanto, a coisa vai um pouco mais além. Um grupo de Maracatu não é apenas um conjunto de percursionistas que se reúne para fazer um "som". Certos maracatus (não sou recifófilo a ponto de saber todas as classificações maracatônicas) são afoxés. Um aspecto das velhas religiões africanas e das antigas linhagens de devoção espiritual que se manifestam como rituais de dança e música às potências sagradas da natureza bem no meio da rua. Essas linhas aparecem ligadas aos velhos mistérios de Dionísio e de Eleusis, tem reverberação nas práticas de dança Sufi do velho mestre persa Rumi e na embriaguês santificada da festa do Purim em lembrança da rainha Ester na tradição judaica.

Por isso, a festa do frevo encanta, mas a festa do maracatu entusiasma. E estar entusiasmado é estar tocado pela força do sagrado, é, como disse Chandra Muka, ser reconhecido por Deus.

Ao desacralizar a festa, a modernidade esvaziou o significado ritual da alegria e ofereceu a uma humanidade anestesiada um mero mecanismo de entorpecimento. A festa ganhou autonomia, deixou de ser um veiculo e passou a ser o seu próprio fim. Sem o sagrado a festa moderna se tornou um instrumento de si mesma e sua função passou a ser a de pura catarse. O prazer da festa acabou engolindo o seu significado e nos esquecemos o motivo de nossa alegria. Abandonar essa alegria talvez seja mais um dos sintomas daquilo que Heidegger chamava de "abandono do Ser".

No tempo original, a festa sagrada é um veículo, um instrumento de transcendência. Sua alquimia se manifesta em um processo lento e contínuo de transformação que amplia a consciência e transforma a vida de quem festeja, emprestando significado a experiência particular de estar vivo. Todas as festas de Deus (não importa o nome ou os nomes que você costuma a chamá-lo são lembranças do tempo da origem e são um poderoso chamamento para a reconstrução das escadas que nos levam de volta para casa).

Por isso, quando o Jô Soares perguntou ao Chandra Muka o que era preciso para ser um "Hare Krishna" ele de sopetão respondeu: "tem que gostar de festa".

Como fica claro nos últimos versos do belo poema de Arnaldo Antunes musicado pelo Nando Reis:

"Quando se acabou com tudo
Espada e escudo
Forma e conteúdo
Já então agora dá
para dar amor

Amor dará e receberá
Do ar pulmão
Da lágrima sal

Amor dará e receberá
Da luz visão
Do tempo espiral

Amor dará e receberá
Do braço mão
Da boca vogal

Amor dará e receberá
Da morte
O seu dia natal.

Adeus dor
Adeus dor
Adeus dor..."


"Alegria é a prova dos nove"
Oswald de Andrade.

por pablocapistrano [22:43]
8.5.09
Esse é o famoso porco da gripe.




Maio, o mês do Porco Punk.


Agora está realmente confirmado, a gripe suína chegou ao Brasil.
E junto com essa inquietante informação foi divulgada a foto do responsável por essa terrível epidemia que ameaça atrasar a final da Libertadores da América.

por pablocapistrano [08:19]
30.4.09
Hiponcondria Planetária






Essa semana estava bem no meio de uma aula e tive um acesso de tosse. Uma aluna que estava sentada na primeira fila arregalou os olhos assustada e, por um momento, eu tive a nítida sensação que ela iria se levantar e sair correndo.

Tive que explicar que minha gripe era velha, que os primeiros sintomas apareceram na semana passada e que eu, apesar de ser um entusiasta do multiculturalismo global e do intercâmbio linguístico, não havia tido contato com nenhum cidadão mexicano nos últimos dias, nem havia viajado para nenhum país afetado pela "gripe do porco".

Eu ainda me espanto com os anacronismos da humanidade.

O tempo passa, a ciência avança e os homens ainda padecem dos velhos pânicos medievais.

Duas coisas parecem particularmente interessantes sobre essa nova epidemia.
Uma é o agente, uma variação do Influenza. Um antigo inimigo da humanidade que de tempos em tempos insiste em aparecer e causar esse horror planetário. Já falei inclusive aqui nesse mesmo espaço virtual, algum tempo atrás (na época da gripe do frango) sobre a minha bisavó paterna, dona Joana Fernandes de Macedo, que na década de vinte, acompanhou a chegada da gripe espanhola em Natal e costumava a dizer, que as carroças chegavam cheias de corpos aos cemitérios da cidade e o contágio era tão rápido que não dava nem para esperar abrir covas individuais. Era só aquela ruma de defuntos enterrados em valas comuns. Mas aquela era uma outra época, sem os anti-virais que reduzem a contaminação das células humanas, sem os antibióticos que combatiam as infecções oportunistas. Mesmo assim, apesar desse novo tempo, o pânico é o mesmo.

Outro aspecto, talvez bem diferente da pandemia dos anos vinte, é a velocidade com que o vírus se espalha nesse universo de interconexões instantâneas. O número de contaminados, acabou de falar na TV algum especialista em não sei o quê, cresce em progressão geométrica

Eu vou confessar a você, meu maior medo não é do vírus. Meu maior medo é da incompetência da administração pública de alguns paises em oferecer às pessoas, as ferramentas que já existem para combate-lo. Essa incompetência essencial de certos governos é que pode transformar uma coisa ruim em uma tragédia.

Mas, realmente curiosas são as medidas tomadas por alguns países. Agora mesmo um canal de TV informou que o governo do Egito vai dizimar os porcos no país. Cerca de 200 mil animais serão sacrificados.

Talvez seja essa a oportunidade dos atuais habitantes da terra dos Faraós, se vingar de Seth, o deus invejoso que matou seu irmão, o bom Osíris, disfarçado de porco. Quem sabe exista algo de antropológico em muitas dessas medidas de saúde pública.
Pois é amigo velho, nesse mundo sem fronteiras quem paga o pato da gripe é o porco e enquanto não dá o tempo de eu me levantar e tomar mais uma dose do meu anti-térmico predileto, penso que talvez algo de bom possa emergir dessa hipocondria global.

Talvez as pessoas, tão cercadas pelo seu mundinho coditiano, pelo seu egoísmo liberal, que pensa que os limites da vida são os limites do crédito de seu cartão eletrônico, possam lembrar do fragmento do mestre Heráclito de Éfeso que um dia escreveu: "Os homens despertos tem um mundo comum, enquanto os que dormem voltam-se, cada um, para o seu mundo particular".

por pablocapistrano [11:34]
23.4.09
Poema de Aniversário

Ontem, dia 22 de Abril, foi o aniversário do meu pai e ele se presenteou com um poema.


do tempo


este ente
que não passa
perpassa
minha memória
e assim consumo
a trajetória
desta órbita solar
em vidas passadas
do passo
e marcapasso presente
em plena projeção
do vento da luz
do tempo.

by
franklin capistrano
poeta de natal-brasil
21.04.2009

por pablocapistrano [12:15]
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