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	<title>Pablo Capistrano ////////////// &#187; Esvaziando a estante</title>
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	<description>Só mais um blog do WordPress</description>
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		<title>Compreender Plotino e Proclo.</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Jul 2010 00:33:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Capistrano</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esvaziando a estante]]></category>

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		<description><![CDATA[LIVRO: COMPREENDER PLOTINO E PROCLO AUTOR: CÍCERO CUNHA BEZERRA EDITORA: VOZES ANO: 2006 Se você tinha mais de quinze anos e morava em Natal no final dos anos noventa talvez [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-727" href="http://www.pablocapistrano.com.br/2010/07/16/compreender-plotino-e-proclo/plotinus/"></a></p>
<p><strong>LIVRO: COMPREENDER PLOTINO E PROCLO</strong></p>
<p><strong>AUTOR: CÍCERO CUNHA BEZERRA</strong></p>
<p><strong>EDITORA: VOZES</strong></p>
<p><strong>ANO: 2006</strong></p>
<p>Se você tinha mais de quinze anos e morava em Natal no final dos anos noventa talvez se lembre do Cícero Cunha. Ele tocava violoncelo no grupo Brebote. Para quem não viveu aqueles anos, o Brebote foi um acontecimento musical que mexeu com a cidade entre 1996 e 1998 e o Cícero estava lá, trazendo um pedaço da tradição musical do ocidente para se misturar com o teatro popular, com os ritmos nordestinos e com a performance inspirada de um Isaac Galvão em pleno furor criativo.</p>
<p>E se a viagem era a tradição musical do ocidente nada mais justo do que reencontrar Cícero, anos depois, através de um livro que retoma um capítulo fundamental da história do pensamento ocidental.</p>
<p>Para quem não sabe, além da música, Cícero dedicou-se ao estudo da filosofia antiga. Primeiro aqui na UFRN depois em Salamanca, Barcelona e Milão. Hoje ele é professor de filosofia Antiga e Medieval na Federal de Sergipe.</p>
<p>E foi com justiça que a editora Vozes chamou Cícero para escrever o Capítulo sobre Plotino e Proclo da série <em>Compreender</em>. Talvez você nunca tenha ouvido falar sobre esses caras porque eles passam um pouco longe da fama de Sócrates, Platão ou Aristóteles. Se os filósofos fossem músicos de rock a gente poderia imaginar Sócrates como Bob Dylan e Platão e Aristóteles como os Beatles e os Stones da filosofia (respectivamente), tal é a sua popularidade extra-muros acadêmicos. Se assim fosse Proclo poderia ser o MC5 e o Plotino estria mais para um Iron Butterfly ou um Tim Buckley. Quando se fala em filosofia esses pensadores do platonismo tardio estão para o universo do pensamento como os filmes de Werner Hezog ou Reinner Werner Fassbinder para o mundo do cinema <em>cult</em>.</p>
<p><a rel="attachment wp-att-730" href="http://www.pablocapistrano.com.br/2010/07/16/compreender-plotino-e-proclo/plotinus-2/"><img class="aligncenter size-full wp-image-730" title="Plotinus" src="http://www.pablocapistrano.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Plotinus1.jpg" alt="" width="366" height="501" /></a></p>
<p style="text-align: right;">Cícero explora com muita firmeza a filiação do neo-platonismo desses autores as chamadas doutrinas não escritas de Platão. Não sei se você sabe, mas existe um fla-flu filosófico acerca de Platão. Parte dos estudiosos de filosofia antiga admite que Platão teria ensinado alguma espécie de doutrina não escrita aos alunos de sua Academia e que essa doutrina teria sido preservada por quase mil anos até que autores como Plotino e Proclo teriam resolvido registrá-la de forma escrita. O neoplatonismo seria assim uma filosofia herdeira da tradição de Platão e não uma invenção da antiguidade tardia que teria criado uma doutrina nova sobre o cadáver dos antigos mestres de Atenas.</p>
<p>Se Proclo e Plotino eram mesmo herdeiros dessa doutrina eu não sei, mas parece que a impressão que eles deixaram na sua época foi bem forte. Porfírio costumava a descrever Plotino como um homem de um olhar tão intenso que era capaz de perscrutar a consciência alheia. Muito se falava também do seu poder de concentração e segundo os relatos antigos ele ordenava todo o pensamento antes de escrever, de uma tacada só, suas ideias.</p>
<p>Uma das linhas de interpretação da filosofia neoplatonica é a de que ela reteria o aspecto místico do platonismo, que algumas vezes poderia passar batido para algum leitor apressado dos <em>Diálogos</em>. A ideia de Uno, que vincularia todas as coisas particulares em um “nada que tudo é” estaria presente de modo latente nos diálogos de Platão bem como a imagem do regresso das formas múltiplas dos entes em direção ao Uno. Nesse sentido o conceito de <em>emanação</em> que de uma tacada só salvaguardaria a unidade do cosmos, diluiria as fronteiras entre espírito (visto como uma forma mais sutil de matéria) e corpo e de quebra ajudaria a descrever aquilo que se entende por “vida espiritual” seria a grande contribuição do neoplatonismo para o ocidente. Tudo isso embalado por uma noção de exílio da alma no mundo da multiplicidade das coisas.</p>
<p>Homero foi o cara que melhor cantou aquilo que os gregos chamavam de nostalgia <em>(nostos </em>– lar; <em>algos</em> – dor). Uma dor pelo lar abandonado transpassava o coração de Ulisses perdido pelo mar antigo, longe de sua casa em Ítaca. Do mesmo modo, os pensadores neoplatonicos entendiam a condição do homem como a de um doloroso exílio. Um afastamento do nosso lar original, de nossa unidade perdida pela consciência que ganhamos ao mergulhar no mundo múltiplo das coisas.</p>
<p>Para escapar das misérias dessa dor poderíamos lutar pela recuperação de um bem perdido, em busca de uma presença divina, de uma estranha experiência de unidade que não se consegue transmitir pela linguagem e que não se encontra de modo ativo, mas com a paciência dos que sabem contemplar, como anunciou o próprio Plotino: “Por isso, não é necessário andar em sua busca, mas, aguardar serenamente até que apareça”.</p>
<p>Cícero aponta que muitos autores consideram Proclo como um dos pais da teologia na medida em que ele se espanta com a linguagem cifrada do Timeu (um dos mais estranhos diálogos de Platão) e passa a pensar em Deus não como um ente superpoderoso, uma espécie de senhor do mundo ou Rei do universo. Proclo abriu caminho para uma tradição medieval que identifica Deus com um principio imutável de ordenação do cosmo, que rompia com os velhos modos de se enxergar o divino no mundo antigo.</p>
<p>Há muito de neoplatonismo por ai hoje. Na Kabbalah, nas tradições teosoficas e esotéricas derivadas de gente como Madame Blavatsky, no misticismo cristão, na viagem bicho grilo da nova era, nas seitas espiritualistas que resgatam as velhas narrativas de exílio e as preenchem com uma pitada de ficção cientifica misturando velhos deuses à extraterrestres e cataclismos atlânticos.</p>
<p>  O legal de voltar aos antigos, especialmente pelo texto de pessoas como Cícero Cunha, que consegue fundir o sintético ao profundo, é que começamos a suspeitar que na verdade, na verdade, a gente nunca foi assim, tão modernos quanto pensamos ser.</p>
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		<title>Mito &amp; Corpo: uma conversa com Joseph Campbell</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Jun 2010 13:07:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Capistrano</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esvaziando a estante]]></category>
		<category><![CDATA[Corpo]]></category>
		<category><![CDATA[Joseph Campbell]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia]]></category>

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		<description><![CDATA[Joseph Campbell LIVRO: Mito &#38; Corpo: uma conversa com Joseph Campbell. AUTOR: Stanley Keleman. TRADUÇÃO: Densie Maria Bolanho. EDITORA: Summus Editorial. ANO: 1999. Existem lugares solitários onde podemos esconder nossas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp">
<dl id="attachment_660" class="wp-caption alignleft" style="text-align: left; width: 410px;">
<dt class="wp-caption-dt"><a rel="attachment wp-att-660" href="http://www.pablocapistrano.com.br/2010/06/09/mito-corpo-uma-conversa-com-joseph-campbell/joseph_campbell/"><img class="size-full wp-image-660" title="Joseph_Campbell" src="http://www.pablocapistrano.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Joseph_Campbell.jpg" alt="" width="400" height="356" /></a></dt>
<dd class="wp-caption-dd">Joseph Campbell</dd>
</dl>
<p style="text-align: right;"><strong>LIVRO: </strong>Mito &amp; Corpo: uma conversa com Joseph Campbell.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>AUTOR: </strong>Stanley Keleman.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>TRADUÇÃO: </strong>Densie Maria Bolanho.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>EDITORA: </strong>Summus Editorial.</p>
<p style="text-align: right;"><strong>ANO: </strong>1999.</p>
<p>Existem lugares solitários onde podemos esconder nossas assombrações com aquela sensação de inviolabilidade que apenas os loucos conseguem construir. Esses lugares solitários costumam a nos seduzir com seu conforto e ao mesmo tempo nos prender como quando se cai em uma armadilha.</p>
<p> Eu sei que você já deve ter estado nesses lugares solitários por muitos e muitos anos. Tem gente que nunca saiu de seus labirintos simplesmente porque nem consegue imaginar que existe algo fora desse espaço privado e confortável, onde nossa mente pode se isolar do mundo exterior como se fossemos apartados, cindidos, separados.</p>
<p>A ilusão do quarto privado nos diz que nossa mente está em nosso corpo, como alguém está sozinho em um quarto. Protegidos por grossas paredes e uma porta trancada com cadeado. É como se esse alguém, nesse lugar solitário e confortável, olhasse o mundo à distância pelas janelas desse quarto.</p>
<p>As paredes do quarto são nossos ossos, nossos músculos, nossa pele, nossas fronteiras. As janelas são nossos sentidos e o solitário dentro daquela sala vazia é cada um de nós.</p>
<p>Essa imagem, moderna, derivada de um conjunto bem articulado de teorias e concepções sobre o mundo e a alma humana, que derivam de Descartes, Locke, Leibniz e até Shakespeare, nos presenteou com a segurança de nossa solidão e com uma curiosa alucinação de onipotência mental.</p>
<p>O dualismo corpo-mente nos presenteou com a terra devastada. Com a impressão de que temos um corpo como quem tem uma moeda no bolso. O esquecimento do corpo é um tópico bem estudado na filosofia contemporânea. Nossa impressão de deslocamento, nossas sensação de exílio, a ideia de uma prisão física para uma alma imortal (que remonta as antigas seitas órficas e ao gnosticismo cristão dos primeiros séculos) nos ofertou um mote forte para o abandono do corpo, com a desconcertante impressão de que não estamos comprometidos com esse mundo e que o corpo, como parte da história biológica da terra, é apenas um invólucro provisório de nossa essência, uma capa protetora para um <em>Eu</em> intangível que se esconde por trás de suas paredes.</p>
<p>Joseph Campbell percebeu essa síndrome moderna e chamou o estado de nossa corporeidade contemporânea de <em>terra devastada</em>. Quando Stanley Keleman, coordenador do <em>Centro para estudos energéticos</em> em Berkeley, Califórnia, encontrou-se com Campbell e em sua parceria, entabulou uma longa conversa sobre corporeidade e mito, um caminho de escape da terra devasta começou a ser pensado.</p>
<p>A ideia é que os mitos são criados não em função da mente, mas sim em resposta a determinadas sugestões do corpo é o fio de Ariadne de nosso quarto privado. Como um sonho coletivo, o mito nos apresenta uma chave para compreendermos a relação com nossos corpos e para que possamos abandonar o estado de alienação em que nos encontramos diante do fluxo biológico da terra e reencontrar um lugar menos solitário para se estar nesse mundo.</p>
<p>O mito de Parsifal e do Graal é o mote do livro de Keleman em suas conversas com Campbell (<em>Mito e corpo: uma conversa com Joseph Campbell </em>-<em> </em>Summus Editorial). A conexão de nosso <em>Self </em>com nosso corpo ancestral, um corpo coletivo que remota a tempos onde a memória das vidas individuais e particulares não pode chegar é expressa através da narrativa mítica. O mais interessante das intuições de Campbell a partir da história de Parsifal e da busca pelo Graal é que nossas vidas privadas, a história de nossas individualidades e de nossas experiências pessoais não podem ser contadas sem o apelo a uma narrativa, a uma trama que une diversos personagens que se sucedem e que aparecem marcados em nossos corpos, na infância, na adolescência, na juventude, na vida adulta, na velhice&#8230;  Arthur Schopenhauer explicou isso uma vez dizendo: “o mundo é como um sonho sonhado por um único sonhador, no qual todos os personagens estão sonhando também. Eles estão sonhando suas vidas e tudo se coordena em uma harmonia misteriosa”.</p>
<p>Existem muitos personagens corporais em nossas histórias. Existe o velho sábio, o jovem guerreiro, a grande mãe. Existem nossos próprios personagens pessoais que misteriosamente se conectam aos personagens dos mitos que compõe nossa experiência coletiva. Macunaíma, Beowulf, Parsifal, Gilgamesh&#8230; não importam os nomes, suas narrativas se fundem com as nossas e suas histórias nos apresentam a chave para nos livrarmos do confortável e vazio lugar solitário de nossa própria mente. Para que possamos reaprender a ser nosso corpo e semear novamente nossa terra devastada com algum tipo novo e revigorante de esperança.</p>
</div>
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		<title>A República de Platão: uma biografia.</title>
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		<pubDate>Sun, 30 May 2010 13:50:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Capistrano</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esvaziando a estante]]></category>
		<category><![CDATA[Platão]]></category>
		<category><![CDATA[Repúlica]]></category>

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		<description><![CDATA[LIVRO: A República de Platão (Uma Biografia) AUTOR: Simon Blackburn. TRADUÇÃO: Roberto Franco Valente. EDITORA: Zahar. ANO: 2008. Fazer um curso de filosofia e não ler Platão é como jogar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-641" href="http://www.pablocapistrano.com.br/2010/05/30/a-republica-de-platao-uma-biografia/a-escola-de-atenas-3/"><img class="aligncenter size-full wp-image-641" title="A escola de Atenas" src="http://www.pablocapistrano.com.br/wp-content/uploads/2010/05/A-escola-de-Atenas2.jpg" alt="" width="750" height="562" /></a></p>
<p><strong>LIVRO: A República de Platão (Uma Biografia)</strong></p>
<p><strong>AUTOR: Simon Blackburn.</strong></p>
<p><strong>TRADUÇÃO: Roberto Franco Valente.</strong></p>
<p><strong>EDITORA: Zahar.</strong></p>
<p><strong>ANO: 2008.</strong></p>
<p>Fazer um curso de filosofia e não ler Platão é como jogar futebol e não conhecer Pelé; tocar viola sem se exercitado na frente de uma partitura de Bach; ou concluir um curso de cinema sem nunca ter assistido um filme de Stanley Kubrick.</p>
<p>Platão está para a filosofia como Freud para a psicologia, Euclides da Cunha para a literatura brasileira, Marx para o curso de ciências sociais. Não dá para arrumar um diploma sem passar por ele (para o bem ou para o mal).</p>
<p>Muita gente costuma a dizer, na alcova dos filósofos acadêmicos, que toda a história do pensamento ocidental consiste em notas de rodapé ao texto de Platão ou ao de Aristóteles (que foi seu aluno). Até hoje, quilômetros e quilômetros de linhas foram escritas sobre sua obra, ou construídas baseando-se nos elementos propostos por seus trabalhos.</p>
<p>Se Platão era ou não tão importante para a filosofia na época anterior à queda do império romano é difícil dizer. O fato é que quando Agostinho, bispo de Hipona converteu-se ao cristianismo através do neo-platonismo de Plotino o mundo ocidental nunca mais conseguiu se livrar de Platão.</p>
<p>Após romper com o maniqueísmo gnóstico, o bispo africano adaptou partes do pensamento platônico, ou pelo menos da tradição de interpretação platônica derivado dos chamados neoplatônicos para o cristianismo e criou as bases da platonização da igreja cristã. Nietzsche, uns mil e seiscentos anos depois de Agostinho, costumava a chamar a religião cristã de “platonismo para o povo”.</p>
<p>Se foi Platão ou não quem inventou o cristianismo é um tópico polêmico que talvez não seja nunca superado, mas o que não parece criar dúvidas é que <em>A República</em> é a obra de Platão que mais influência causou na consciência das massas.</p>
<p>Não é apenas pela “alegoria da caverna” passagem obrigatória para ser apresenta nos seminários de fim de bimestre da disciplina de filosofia no ensino médio, junto ao julgamento de Sócrates e a castração de Pedro Abelardo (ops&#8230; esse aí acho que não&#8230;.).</p>
<p><em>A República</em> é um dos livros mais influentes do ocidente. Não apenas por ser a primeira <em>utopia</em> (Gênero literário que procura descrever uma sociedade imaginária), repetida e parodiada por gente como o próprio Agostinho, Thomas Morus, Campanela e Skinner. <em>A República</em> traz alguns dos tópicos mais essenciais da filosofia do ocidente, além de poder ser lido como uma teoria estética, um tratado de metafísica, um ensaio sobre educação ou simplesmente como uma peça literária de um gênero dramático que lembra aqueles diálogos postos em programas humorísticos como “a praça é nossa”, onde duas ou mais pessoas conversam em frente às câmeras.</p>
<p>Por isso, se você estiver a fim de saber alguma coisa sobre esse livro e não quiser se aprofundar nos textos exegéticos de Schleiermacher, na leitura crítica, violenta e parcial de Karl Popper, na interpretação cínica de Leo Strauss, na visão religiosa de Rubenstein, no universo culturalista de Werner Jaeger ou na didática de Giovani Reale, pode procurar o livro de Simon Blackburn.</p>
<p>Esse é um livro sobre um livro. A série “livros que mudaram o mundo” trazem uma proposta muito interessante para o mercado editorial: construir uma biografia para os livros. A ideia da série não é fazer uma interpretação do livro em si. Não  se trata de mergulhar nas partes de um livro para torná-lo mais compreensível para o leitor, como é tradicional no mundo acadêmico. O que importa aqui é o entorno do texto, as circunstâncias da sua gênese, bem como os desdobramentos de sua repercussão.</p>
<p>Sobre a gênese de <em>A</em> <em>República</em> não há muitas informações exatas. Há muita mitologia em torno da vida de Platão e isso, a despeito de não fornecer elementos seguros sobre sua biografia, ajuda a enriquecer simbolicamente seu trabalho. Blackburn tem o mérito de não ser um platônico, ou pelo menos de não se reconhecer como um. Justamente por não se posicionar nem ao lado nem contra Platão sua leitura nos permite viajar pelas alegorias, pelas passagens mais famosas do livro, bem como por suas três grandes tradições interpretativas: a tradição mística (derivada da ideia da existência de uma tradição não escrita oferecida ao mundo moderno através das escolas neoplatonistas); uma tradição cientifica (derivada dos esforços de Friedrich Schleiermacher em agrupar e traduzir os diálogos de Platão direto do grego para o alemão) e uma leitura poética (que remonta a Al Farabi e que tem ecos importantes em Schelling e Nietzsche).</p>
<p>Essa viagem pelo entorno do livro não nos desvia, porém, de uma incursão certeira em algumas de suas passagens mais significativas. A disputa com Trasimaco, a expulsão dos poetas da cidade perfeita, as alegorias (o mito de Er, o anel de Giges e o famoso mito da caverna) estão presentes.     </p>
<p>Não sei se você gosta de filosofia, ou se já ouviu falar de Platão. O fato é que, mesmo que você não o conheça é possível que aqui e acolá seu pensamento seja possuído por algumas categorias desenvolvidas pelo trabalho de Platão.</p>
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		<title>Fausto de Christopher Marlowe</title>
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		<pubDate>Wed, 12 May 2010 17:05:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Capistrano</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esvaziando a estante]]></category>
		<category><![CDATA[Christopher marlowe]]></category>
		<category><![CDATA[Diabo]]></category>
		<category><![CDATA[Fausto]]></category>

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		<description><![CDATA[Livro: FAUSTO Autor: Christopher Marlowe Tradutor: A. de Oliveira Cabral Editora: Hedra. Ano: 2006. Uma vez eu estava dando uma aula sobre Hegel no curso de Direito de uma universidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-610" href="http://www.pablocapistrano.com.br/2010/05/12/fausto-de-christopher-marlowe/delacroix17/"><img class="alignleft size-full wp-image-610" title="delacroix17" src="http://www.pablocapistrano.com.br/wp-content/uploads/2010/05/delacroix17.jpg" alt="Fausto e Mefistofelis - Eugenne Delacroix" width="560" height="456" /></a></p>
<p><strong>Livro: FAUSTO</strong></p>
<p><strong>Autor: Christopher Marlowe</strong></p>
<p><strong>Tradutor: A. de Oliveira Cabral</strong></p>
<p><strong>Editora: Hedra.</strong></p>
<p><strong>Ano: 2006.</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Uma vez eu estava dando uma aula sobre Hegel no curso de Direito de uma universidade particular em Natal quando, de repente, um aluno falou exaltado: “Isso é mentira! Isso é mentira!”.</p>
<p>Recuperado do susto, eu, que tenho quase onze anos de labuta docente, comecei a tentar encontrar um fio argumentativo que me esclarecesse a natureza daquela estranha reação. O aluno era evangélico e parecia estar incomodado com alguma ideia metafísica de Hegel que aparentemente jogava-o contra a barreira (talvez bem frágil) de sua própria fé.</p>
<p>Foi inevitável que a discussão girasse em direção ao texto bíblico. Hermenêutica para cá, hermenêutica para lá, e então o meu aluno veio com uma pérola que me fez desistir da discussão e encerrar a aula mais cedo: “Professor, quem mais conhece a Bíblia é o Satanás!”.</p>
<p>Harold Bloom já havia me alertado em um de seus livros que certas nominações cristãs têm uma fascinação quase erótica pelo diabo. Eles temem o diabo mais do que Deus e o monoteísmo da matriz judaica do cristianismo acaba ofuscada por um tipo desconcertante de maniqueísmo gnóstico.</p>
<p>Um dos caras, também na leitura de Bloom, que melhor sintetizou essa relação ambígua dos cristãos com o Diabo foi o John Milton, um poeta puritano que tentou ser melhor do que Shakespeare e escreveu o poema mais <em>black metal</em> da literatura inglesa: <em>Paradaise Lost</em>.</p>
<p>O diabo de Milton é Lúcifer, o príncipe das trevas, que emerge com suas hostes de demônios dos rios de lava incandescente do inferno para lutar em uma batalha cósmica contra Cristo e seus anjos, em uma guerra interplanetária que deve certamente ter influenciado Geoge Lucas na série <em>Star Wars</em>.</p>
<p>O diabo do Fausto é diferente.</p>
<p>Sempre que alguém pensa na história do erudito Doutor Fausto, que fez um pacto com o demônio em troca de algum tipo de poder, lembra de Goethe. Isso não é surpresa, afinal, o texto do poeta alemão é umas das obras mais espantosas da história da literatura ocidental. Mas Fausto não foi um personagem criado por Goethe.</p>
<p>Harold Bloom fala sobre um tal Simão, mago da Samaria e divulgador da Heresia gnóstica nas comunidades cristãs que teria chegado a Roma e se autodenominado “Fausto” (O Favorecido). A etimologia do nome remonta a ideia de <em>fas</em> que gerou as palavras <em>fasto </em>e <em>nefasto</em> (indicando os dias auspiciosos para se realizar determinadas atividades jurídicas).</p>
<p>Não se sabe bem como, mas esse personagem acabou entrando no mundo da cultura popular germânica na idade média e inspirou uma obra anonima publicada em 1587. Com o título <em>História do Dr. Johann Faustus</em> o texto apareceu nas feiras livres da Europa e era uma compilação de contos populares que giravam em torno de casos envolvendo praticantes de ocultismo. È provável que Christopher Marlowe tenha tido contato com essa publicação ou, no mínimo, com as histórias populares as quais ela faz referência, porque, em 1592 ele teria escrito a peça <em>A Trágica História de Dr. Faustus</em>.</p>
<p>A questão é que de trágico, essa história, publicada em 1606, oito anos após a morte do autor, não tem muita coisa. Escrita parte em verso e parte em prosa ela muitas vezes evoca certas formas de teatro popular em que acontecimentos cômicos se sucedem em pequenos diálogos muitas vezes sem uma continuidade dramática evidente.</p>
<p>Bloom diz que Marlowe seria o maior concorrente de Shakespeare se não tivesse morrido aos 29 anos esfaqueado, após uma briga em uma taverna. Difícil ver isso no seu Fausto, e mais difícil ainda é perceber essa ideia quando a gente, inevitavelmente comprara essa peça com o Fausto de Goethe.</p>
<p>Existem pontos de contato entre as duas peças que talvez surjam da tradição popular. A relação com Helena de Tróia, as viagens pela Europa, os acontecimentos no palácio do Imperador. Fausto viaja e visita vários lugares com seu demônio pessoal, Mefistófeles, uma espécie de bedel que se esforça para agradar e realizar todas as vontades de seu mestre.</p>
<p>No Fausto de Marlowe, Mefistófeles aparece após uma conjuração (tecnicamente a conjuração é o controle do espírito mediante certos procedimentos mágicos). Ele dá poder ao seu mestre e esse poder lhe rende fama por 24 anos. Até que o tempo do pacto se esgote e Lúcifer venha cobrar a alma do Dr. Fausto para levá-la ao inferno.</p>
<p>Mefistófeles aparece como um diabo tipicamente medieval. Um espírito que serve aos desejos do seu mestre, um escravo que é oferecido por Lúficer aos homens em troca de alguns préstimos. Essa imagem está muito longe do temível e sedutor personagem do poema de John Milton, que em sua fúria rebelde desafia Deus em um combate cósmico. O mal no poema do protestante Milton é uma figura épica autônoma, um conceito assombroso de revolta, orgulho e pulsão vital. Em Goethe e Marlowe, o diabo é um instrumento de materialização dos desejos dos homens, uma ferramenta, uma peça, um instrumento de nossos sonhos mesquinhos e de nossas fragilidades humanas.</p>
<p>A grande ausência no Fausto de Marlowe é Deus, que em nenhum momento, nem quando o mago, em desespero, sendo levado para os confins do inferno, suplica a misericórdia divina, dá o ar da sua graça. No mundo e Marlowe, há um vazio teológico que lança o homem em meio aridez de sua própria finitude. No texto de Goethe, Fausto é objeto de uma aposta entre Deus e Mefistófeles. Ali, quem não tem vez é Lúcifer e no fim, o pobre Mefistófeles, após tentar tudo para agradar seu mestre, acaba não levando a alma de Fausto devido a uma intervenção maternal da Virgem Maria, Rainha do mundo de protetora dos homens.</p>
<p>Pois é amigo velho, nesse mundo de fundamentalismos eletrônicos, nesse imenso <em>shopping center</em> da fé, o diabo, quer seja em sua faceta heróica, ou em sua imagem cômica é um personagem que ainda rende muitos dividendos no cálculo dos que lucram com o medo alheio. Hoje eu acho que a literatura, que é a grande mãe do Diabo, não pode sozinha enfrentar sua herança, porque apesar dos indícios em contrário para algumas pessoas, o mal é sempre mais visível.</p>
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		<title>A Inquisição</title>
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		<pubDate>Thu, 29 Apr 2010 23:56:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Capistrano</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esvaziando a estante]]></category>
		<category><![CDATA[Catolicismo]]></category>
		<category><![CDATA[Inquisição]]></category>
		<category><![CDATA[Judaísmo]]></category>

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		<description><![CDATA[Livro: A Inquisição. Autora: Anita Novinsky. Editora: Brasiliense. Ano: 2007.  Poucos fenômenos sociais marcaram tão fortemente a península ibérica e as suas colônias como a inquisição. Não se tem números [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a rel="attachment wp-att-574" href="http://www.pablocapistrano.com.br/2010/04/29/a-inquisicao/goya_inquisition/"><img class="aligncenter size-full wp-image-574" title="goya_inquisition" src="http://www.pablocapistrano.com.br/wp-content/uploads/2010/04/goya_inquisition.jpg" alt="" width="800" height="491" /></a></p>
<p><strong>Livro: A Inquisição.</strong></p>
<p><strong>Autora: Anita Novinsky.</strong></p>
<p><strong>Editora: Brasiliense.</strong></p>
<p><strong>Ano: 2007.</strong><strong> </strong></p>
<p>Poucos fenômenos sociais marcaram tão fortemente a península ibérica e as suas colônias como a inquisição. Não se tem números muito exatos dessa tragédia social, mas sabe-se que apenas entre 1543 e 1684 Portugal havia queimado em autos-de-fé (espécie de espetáculos públicos de imolação e sacrifício) 1379 pessoas (uma média de dez por ano). Mas não era apenas a fogueira&#8230; haviam outros suplícios, torturas e humilhações que reduziam pessoas à miséria, destruíam famílias, enlouqueciam e levavam acusados ao suicídio.</p>
<p>Só no período citado acima foram 19 247 condenações da parte do tribunal do Santo Ofício. Muita gente fugiu para o Brasil nessa época, tentando encontrar aqui um espaço com alguma liberdade. Curiosamente, muitas das vítimas brasileiras da inquisição eram membros do clero. O caso mais famoso foi o do padre Manoel Lopes de Carvalho, nascido na Bahia e queimado em Lisboa no ano de 1726, aos 45 anos.</p>
<p>O caráter herético do clero brasileiro foi objeto de desconfiança da coroa portuguesa (que estava simbioticamente ligada a Igreja) durante todo o período colonial e a tolerância sincrética que o catolicismo brasileiro ajudou a construir (hoje, objeto de críticas por parte do vaticano) foi sempre vista como sinal de fragilidade doutrinária. <strong> </strong></p>
<p>As marcas da inquisição no corpo psicosocial dos povos que viveram sobre a influência dos países ibéricos ainda não foi totalmente dimensionada, mas o atraso cultural e social a que esses lugares foram submetidos não pode ser entendido sem uma análise sincera da presença da inquisição nessas regiões.</p>
<p>No Brasil, muito provavelmente a maior estudiosa do assunto é a professora da USP, Anita Novinsky. Ela teve o mérito de recolher o maior acervo de documentos sobre a atuação da inquisição no Brasil e conseguiu, com seu núcleo de estudos da intolerância, impulsionar a pesquisa sobre o assunto em um país ainda marcado por uma capa de obscuridade e silêncio em relação a esse tema.</p>
<p>A editora brasiliense lançou, na coleção Tudo é História em 1982 (reeditado em 2007), esse livro curto com 103 páginas introdutórias sobre o tema. O texto tem o mérito de abordar de forma sintética a história e os procedimentos da Inquisição, mais particularmente daquela que atuou no mundo ibérico, levando ao suicídio, ao degredo, a loucura, a mendicância e ao cárcere perpétuo gerações e gerações de Cristão-novos, mulheres acusadas de feitiçaria, homossexuais, livres-pensadores ou mesmo qualquer opositor político do regime de plantão.</p>
<p>Pessoas morriam porque não comiam porco, guardavam o sábado, “cometiam atos contra a honestidade da religião” ou apenas “desfaziam amor e casamento” ou “lançavam mau-olhado sobre crianças”.</p>
<p>O terror desses anos sombrios destruiu a intelectualidade ibérica, arrasou a liberdade de pensamento, criou um sentimento de opressão e uma necessidade de camuflagem e dissimulação que se mostra em uma passividade política quase obsessiva, ou um pânico fóbico em expor a própria opinião e “desagradar alguém”.</p>
<p>No Brasil, aonde todo mundo é católico até que se prove o contrário, a inquisição instituiu leis de segregação racial que vedavam a qualquer pessoa que tivesse sangue judeu a participação na vida pública, a ocupação cargos importantes na igreja ou na administração real. Daí essa obsessão da genealogia pátria em encontrar para nossas famílias, ancestrais da nobreza portuguesa, puros de sangue e de crença.</p>
<p>Nesse tempo em que novas inquisições se articulam, no Irã, no Cinturão da Bíblia no meio oeste norte-americano ou mesmo no vaticano, voltar aos estudos da professora Anita Novinsky é um imperativo moral de memória, para que os vivos não voltem a sofrer com o flagelo dos seus mortos.</p>
<p><strong>PS </strong>sim, uma coisa bem interessante também no livro é a desconstrução da imagem do Marques de Pombal como inimigo da inquisição e de seus procedimentos. A professora Anita Novinsky aponta para o fato de que o Marques transformou o tribunal do Santo Ofício em um tribunal régio. Seguindo a velha tradição do nepotismo lusobrasileiro nomeou seu irmão “inquisidor-mor” desse novo tribunal e seus parentes “familiares” do tribunal. Só nos dez primeiros anos de governo do Marques foram queimadas 18 pessoas e foram sentenciadas 1107 pessoas. A maioria desafetos políticos do Marques que a despeito da fama de iluminista, sabia bem usar esses expedientes sombrios para se impor politicamente.</p>
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