| Todo
escritor que se preze não escreve apenas porque
gosta, escreve, acima de tudo porque precisa, porque há uma
força propulsora
maior que ainércia da não-palavra. Pablo Capistrano não
foge à regra e vai mais além, escrever em suas palavras, é seu "projeto
de vida".
Autor do livro de poesia Domingos do Mundo (Editora
Boágua -1998); Descoordenadas Cartesianas - em
três ensaios de quase Filosofia (Sebo Vermelho - 2001)e
Pequenas Catástrofes (Coleção Letras
Potiguares - Editora A.S Editores - 2002), ele agora
alça um vôo mais alto e reedita o terceiro
pela Editora Rocco, na Coleção Safra 21,
cujo lançamento nacional previsto para abril desse
ano, no Rio de Janeiro.
Com formação em
Filosofia e Mestrado em Metafísica, o professor
natalense de 30 anos, pai de Uriel e Helena, não
se contentou apenas com a produção de ensaios
e teses acadêmicas - textos
inerentes à sua profissão -e desde sempre
parece sucumbir ao apelo das letras, da ficção
e, sobretudo, ao "fascínio pelo fantástico".
Elementos que ele traz consigo desde a infância
quando desenhava histórias em quadrinhos. Na adolescência,
o contador de histórias descobriu que desenhar
não era seu talento mais promissor e foi aí que
partiu para aquilo que hoje é tão inerente
ao seu dia-a-dia como escovar os dentes.
Atualmente, Pablo Capistrano já está trabalhando
em seu quarto livro,uma novela, cujo estilo ele diz que é diferente,
pois entre outras coisas será narrado em terceira
pessoa e as referências filosóficas e literárias
estão mais "diluídas" na história
que conta também com mais personagens.
Pequenas Catástrofes, seu terceiro livro, ao
qual essa entrevista abaixo é dedicada, conta
a história de Demian, um alemão fotojornalista
especializado em guerras, cujos avós paternos
viveram intensamente o período da Grande Guerra
na Europa. Ainda pequeno, Demian vem morar no Brasil
e depois volta à Europa. Anos depois ao retornar
ao Brasil, se reencontra com um amigo, com quem vive,
digamos, uma misteriosa "aventura".
Bom, talvez aventura não seja a palavra mais
adequada para representar o que é vivido pelos
personagens no livro pois, Pequenas Catástrofes
não é um livro que possa ser definido por
uma única palavra ou por uma única ação.
O "PC" - como o próprio autor costuma chamar
-, é um daqueles livros que o leitor, de vez em
quando, faz aquelas paradas, fica olhando para o nada
e,provavelmente, pensa sobre si mesmo.Se quiser saber
mais sobre o PC (Pequenas Catástrofes) e sobreo
PC (Pablo Capistrano) - mera coincidência, ele
jura - veja entrevista com o autor, na qual ele fala
das referências, influências do fantástico
e do que ele pretende com o livro e com os leitores.
Você escreve
desde quando? E quando percebeu que precisava escrever?
Bem,
eu antes fazia histórias em quadrinhos.
Aos seis, sete anos eu fazia histórias em quadrinhos.
Eu desenhava horrivelmente, uma coisa assustadoramente
ruim, mas fazia histórias desenhando personagens,
alguns bem interessantes porque eram personagens de criança.
Eu lia muito HQ e acho que naquela época eu já estava
escrevendo, pensando em histórias. Depois, com
14 anos, eu desisti da parte plástica porque eu
vi que não tinha muito talento para isso e comecei
a me concentrar mais na história. Faz 16 anos
que eu escrevo. E não é assim, eu vou escrever
quando estou mal ou para desabafar. Não. Eu quero
isso pra mim, é meu projeto de vida. Essa idéia é que é diferente.
No PC você cita diversos escritores, bandas,
filósofos. Eles são referências
para teu próprio texto e chegam a te influenciar
na hora de escrever?
Na verdade o PC retrata muito
um momento meu. Quando eu o escrevi, iniciei pensando
em fazer um ensaio. Estava numa fase ainda acadêmica,
saindo do curso (de Filosofia) e aí o que acontece,
eu pensei em de repente em produzir um ensaio com idéias
e autores que me interessavam, mas eu fui me desgastando
muito com esse tipo de escrita. Enchi o saco desse tipo
de coisa. Comecei a ler e não gostar do que estava
escrevendo. Então eu resolvi escrever uma história
e enxertar determinados tópicos, digamos assim,
de coisas que me fascinavam na época, de coisas
que eu lia no período, eu lia diversos textos.
Wittgenstein, muito sobre nazismo, música e esses
textos foram entrando naturalmente no livro. Não
foi uma coisa forçada. Eles iam aparecendo e eu ía
montando a história em cima dessas referências.
Algumas delas eram extremamente circunstanciais. Não
são assim profundas na minha formação.
Outras são mais sólidas com por exemplo,
Nietzsche - que de certa maneira é uma referência
um pouco mais sólida, apesar de eu não
ser um grande leitor dele, não é minha
praia. Mas é um autor que sempre me interessa.
O Wittgenstein é uma influência muito forte,
e eu tenho um pouco mais de apropriação
dessa influência porque é o cara que eu
estudo na minha pesquisa acadêmica, eu fiz uma
monografia sobre ele, uma tese de Mestrado sobre ele
e até hoje estudo, gosto muito do pensamento dele,
e é um pensamento que me influencia. Mas algumas
outras não. Tem muita influência de magia,
de misticismo, que foram leituras que eu fiz quando tinha
14, 15, 16 anos e durante muito tempo eu fiquei influenciado.
Levi, Papus, esses místicos, a Cabala.
Tem algumas descrições no PC que tratam
disso, né? A experiência coma substância
Tetrapharmakon, por exemplo, elas são fictícias
ou tem a ver com experiências que você viveu?
Bem,
as experiências com substâncias entorpecentes
que eu tive, aquelas fortuitas e recreativas que a maioria
dos adolescentes brasileiros vivem (risos). Mas tive
experiências mais sérias com os alcalóides,
inclusive com o (Santo) Daime. Mas foi algo assim mais
experimental, tomei uma vez ou outra. Algumas coisas
do que vivi, estão no livro. Naquele ritual também
tem referências das religiões afro-brasileiras
que durante um certo tempo eu andei envolvido, com algumas
práticas dessas religiões. E tem uns gestos
dos rituais que estão lá. Mas eu vejo isso
muito mais com um interesse intelectual que tenho. Essa
coisa da possessão, do sujeito ser possuído
por um espírito ancestral. Você ceder o
seu corpo para que uma outra entidade tome conta dele.
Essa coisa do êxtase religioso,místico que
está presente em muitas religiões eu tenho
curiosidade intelectual. Como observador, estudioso e
um sujeito que de vez em quando se mete para fazer uma
prática ou outra mas não sou nenhum adepto
ou um cara que vive em função disso. Eu
tive curiosidade de fazer experiências nessa área
religiosa. Principalmente na juventude. Agora, 30 anos,
casado, pai de filhos isso vai deixando você meio
entediado. Sair fazendo essas coisas no meio do mato.
Você fica sem ter mais idade pra isso. Mas quando
eu era mais jovem eu fiz. No livro, a descrição
que tem quando o narrador toma o tetrapharmakon e vem
aquela coisa que começa nos pés, tudo aquilo
ali foi com base em experiência de coisas que eu
presenciei.
Você se apropria daquela realidade, como observador,
e passa pro livro em forma de ficção?
Exatamente.
A matriz da experiência é real.
Mas a forma como ela aparece é fictícia.
Eu pego alguns elementos da realidade e vou transfigurando-os
e enxertando conceitos, formas de apresentação
mais teóricas e aí vai ficando uma coisa
meio louca, mística, envolvendo um bocado de coisa
no meio. Mas não há necessidade de ser
real. Eu não sou nenhum cientista social. Eu sou
escritor. Eu não quero fazer antropologia.
Você falava agora a pouco de Wittgenstein.
Num momento do livro,você conta uma história
sobre o encontro dele com a deusa Atena. Até que
ponto você perde o limiar da realidade, do que
você conhece do filósofo, e começa
a criar? Isso tem certas referências de escritores
como o Jorge Luis Borges que conta histórias
e você não sabe se ele está falando
sobre algo da realidade e ficção. No
PC como você trabalha isso?
Essa mistura é muito
presente no PC. A mistura entre realidade e ficção,
entre verdade e imaginação, coerência
e delírio.
Está o tempo todo presente no texto. Com o Wittgenstein
o que é que eu fiz? Quem conhece o Wittgenstein,
leu algo sobre a vida dele, quando ler o meu livro vai
perceber que alguns elementos que eu escrevi sobre a
vida dele são reais. Ou pelo menos são
documentados pelos biógrafos mais respeitados
que escreveram sobre a vida dele. Tem cartas e tal que
mostram que as coisas que aconteceram ali são
verdadeiras. Mas o que vai acontecendo, à medida
que eu vou descrevendo isso ou vou mudando de lado. Vou
lentamente saindo da realidade e entrando no delírio.
Mas eu tento passar de lado de uma maneira sutil para
que o leitor não perceba o momento que eu mudei.
(..)
eu ía deixando as pistas. Algumas conscientes,
outras inconscientes.
Que
depois que eu li é que
fui ver. Ou outra pessoa leu e
disse aqui tem isso, e
coisa e tal. Então tem esse joguinho.
Eu acho
que é uma arte que requer paciência e precisão.
Mas existe uma pretensão sua que o leitor
perceba esse desvio. Ou pouco importa. Você quer
que o leitor acredite no que você está dizendo?
O
que eu queria era que o leitor gostasse do livro (risos).
Mas assim, legal é que o leitor se surpreenda
e seja pego nessa encruzilhada e pense: "porra isso é real
ou não real? Isso aconteceu ou não aconteceu?".
Eu queria que houvesse essa confusão. Porque eu
acho que na verdade o livro fala sobre essa confusão.
Eu queria que ele fosse pego nessa confusão. Se
eu desse uma quebra muito forte, muito rígida,
entre o que é ficção, delírio
e aquilo que tem uma base factível ia ser mais
fácil perceber essa armadilha. Mas eu tento fazer
uma mistura de maneira que esse momento não seja
percebido. Que as coisas se misturem. Para que o leitor
não tenha um instrumento para poder demarcar a
fronteira, sabe? E aí ele se perde. Mas a história
do Wittgenstein tem uma piada de filósofo aí,
aquelas piadas sem graça que só quem ri é quem
entende de Filosofia. Porque Wittgenstein é considerado
por muitas pessoas como sendo o "assassino" da Filosofia.
Uma espécie de sujeito que vem e diz "não
vamos mais fazer metafísica". Ele até falava
do "Pântano da Metafísica", o lamaçal,
sujo imundo onde as pessoas se atolavam até a
cintura e não conseguiam sair dele. Só que
nos meus estudos de Wittgenstein, principalmente o primeiro
Wittgenstein, eu percebo que a metafísica está presente
naquele texto de maneira muito forte. Ele nega o tempo
inteiro aquilo que o constitui. Então aquela coisa
da deusa Atena, procurando um filósofo para conversar
e sentindo o cheiro da metafísica é uma
piada em cima do cara. Quem entende de filosofia não
sei se vai achar graça, mas pode pensar, "pô,
que sacanagem, o cara está tirando uma onda com
a cara do sujeito".
O livro tem essa mistura do início ao fim.
Mas você acha que para o leitor há dicas?
Você dá pistas ao leitor sobre essa mistura? Algumas.
Porque eu escrevi o livro, depois voltei para dar pistas.Porque
no livro você vai escrevendo
e depois chega num ponto e pensa,preciso reformular alguma
coisa aqui na página 12 senão algo não
vai se encaixar. Aí você volta na página
12 e encaixa e constrói um caminho, é como
se fosse um trabalho de ajuste. Eu não encontro
nenhuma metáfora, mas é como se você estivesse
fazendo um ajuste numa peça que você de
vez em quando tem de modificar um parafuso ou uma chave
para que o todo fique coerente. Então, nessa hora
que eu voltava para poder encaixar, eu ía deixando
as pistas.Algumas conscientes, outras inconscientes.
Que depois que eu li é que fui ver. Ou outra pessoa
leu e disse aqui tem isso, e coisa e tal. Então
temesse joguinho. Eu acho que é uma arte que requer
paciência e precisão.
Em trecho do livro você diz: "Andei recitando
poemas em teatros e bares vagabundos. Observei o underground
da cidade diluir-se no meio do crescimento urbano e
os últimos fantasmas dos anos 70 e da utopia
hippie morrerem de tédio, descrença e
vodka". Você concorda que, de certo modo,todo
romance é auto-biográfico? Tem um pouco
do cotidiano e da vida do escritor? Ou há uma
separação?
Eu acho que não é necessário.
Não é uma
condição para que existam elementos biográficos
ou também que não existam. Você pode
construir um romance com base apenas naquilo que você não
viveu, mas que você sonha em viver. Ou você pode
escrever com base naquilo que viveu ou fazer uma mistura
de ambos. Eu não sei se há uma obrigatoriedade.
Eu não sei se isso classifica um romance, ser
biográfico ou não. Eu acho que a classificação
do romance está muito mais na forma como você se
apropria do tempo. Aí eu acho que é uma
condição necessária para se ter
um romance. O trabalho com o tempo. Você precisa
fazer uma leitura do tempo. Construir um enfoque acerca
do funcionamento do tempo para você.
"Você precisa
saber como fazer para que seu leitor se
situe
numa
linha de tempo que você está trabalhando.
Existem
autores que subvertem essa questão.
Eles tentam
fugir e destruir isso.
Tem de fazer um
discurso sobre
o tempo, mesmo que seja negando ele".
Isso seria tanto tecnicamente, ao escrever o livro,
quanto até mesmo pegar determinados momentos
da sua história, dos seus 30 anos, e trazer
isso para o romance?
Na técnica de construir
a narrativa, é preciso
uma noção do "time" do tipo de texto que
você está fazendo. Você precisa saber
como fazer para que seu leitor se situe numa linha de
tempo que você está trabalhando. Existem
autores que subvertem essa questão. Eles tentam
fugir e destruir isso. Tem de fazer um discurso sobre
o tempo, mesmo que seja negando ele. Como, por exemplo,
em Ulysses, de (James) Joyce, que tem um dia na vida
do personagem, mas que a maneira como o narrador se apropria
desse dia, faz com que o leitor se perca no tempo. É um
pouco difícil ler o texto, porque a leitura que
o Joyce faz do tempo não é, digamos assim,
uma leitura Aristotélica. Não há um
tempo linear. Mas ainda assim é um discurso sobre
o tempo. Porque o tempo não é só linear.
Em Finnegans Wake, também dele, o tempo é circular.
A visão que ele tenta oferecer ali é de
um tempo circular e trabalhar um texto literário
em cima desse tempo. Eu tenho a impressão de que
essa é a condição do romance.Talvez
da prosa. Assim como a poesia para mim a condição
necessária é a respiração.
Aprender a respirar. Na verdade eu acho que a poesia
traz um modelo de respiração para o leitor.
E as poesias variam com esse modelo de respiração.
Enquanto escritor, até que ponto você se
apropria do momento do leitor. Como você imagina
o leitor lendo teus livros?
Eu acho que esse é o
grande estímulo e
a grande angústia do escritor é imaginar
esse momento. Porque uma coisa é você fazer
um show ao vivo ou então recitar poesias num bar,
num teatro, você de repente percebe na hora o modo
como o apreciador do seu trabalho está reagindo
a você. Então imediatamente vai identificar
se fez um show do caralho ou se fez um negócio
ruim. Agora, o escritor não tem isso. Então
eu imagino o que será que essa pessoa vai pensar
quando ler, o que será que vai sentir quando ela
ler. Você tem essa curiosidade porque todo artista
de certa maneira é um pouco egocêntrico.
Ele quer tocar, comunicar, mexer com alguém. Então
você não concorda com a idéia de
alguns escritores que dizem "Eu não escrevo para
ninguém, eu escrevo pra mim". Eu acho que isso
aí é coisa dos ressentidos (risos). Eu
não sei cara,eu acho que isso aí é uma
boa mentira contada para poder justificar os medos de
ser rejeitado e aí diz, eu não escrevo
para ninguém. Se não gostar que se lasque.
Talvez seja uma defesa. Você escreve para alguém;
se não escreve para alguém então
não publica pô, guarda numa gaveta. Agora
se escreve e publica um livro é porque quer que
alguém leia. Agora também tem aquela postura
do escritor que diz, eu estou escrevendo para duas pessoas
entenderem: o professor fulano de tal Doutor em Teoria
Literária, da USP, e o professor fulano PhD em
Teoria da Literatura da Universidade de Cambridge, eles
vão ler e vão me entender. Então
isso também é terrível porque você vai
fazer um tipo de texto que só vai ser lido por
duas ou três pessoas. Certa vez eu estava assistindo
uma palestra de Filosofia e o aí o cara me dizia
você precisa ver essa palestra porque o sujeito
que vai falar agora é uma das 10 pessoas vivas
hoje que entendem o pensamento de Frege (um filósofo
alemão do século XIX que fez uma reformulação
na lógica aristotélica e deu ênfase à chamada
lógica matemática). Aí eu pensei,
porra, coitado do Frege, que situação,
o sujeito passa os melhores momentos da sua existência
produzindo um texto,pensando em alguma coisa, e hoje
em dia - 100 anos depois - só tem dez caboclos
no mundo que entendem o que ele disse. Quer dizer, é uma
solidão horrível né? Então
esse tipo de solidão eu não penso não.
Eu escrevo equanto mais pessoas entenderem e acharem
interessante, para mim melhor.
"Então eu
gosto de repente de encontrar no meio de um
discurso
aparentemente banal sobre a vida de um sujeito cotidiano,
encontrar brechas,um canal, uma perfuração
de um canal
para o
fantástico escorrer. Porque
eu acho que o mundo é fantástico".
A minha pergunta é sobre suas influências.
Eu percebo que muitas pessoas comentam que tem a ver
com o (Jorge Luis) Borgese outros autores que remetem
ao fantástico. Então eu quero saber se
o que você gosta vai se reter mesmo nessa proposta
do fantástico, ou você quer abrir? Porque
parece que o próximo livro que ta vindo aí também
tem essa temática fantástica. (Valdenor
Jr., arte-finalista, produtor das capas deseus primeiros
livros e amigo do escritor é o autor dessa pergunta)
A
pergunta é legal e eu acho que isso aí tem
tudo a ver com a minha formação.Dos textos
que eu li e da bagagem que eu absorvi da minha infância
e adolescência, porque eu lia muito quadrinhos,
via muito cinema,principalmente filmes hollywoodianos,
Spielberg, essas coisas todas. Gostava muito de ler coisas
sobre ficção científica, sobre ciência,
misticismo,ocultismo, então eu passei a infância
e adolescência envolvido nesse mundo.Até hoje
eu tenho uma fascinação pelo estranho,
pelo inusitado e de certa maneira poraquilo que é bizarro
e um pouco distante do cotidiano, do banal, do meramente
individual, dos abismos psicológicos dos sentimentos,
das idiossincrasias das pessoas. Então eu gosto
de repente de encontrar no meio de um discurso aparentemente
banal sobre a vida de um sujeito cotidiano,encontrar
brechas, um canal, uma perfuração de um
canal para o fantástico escorrer. Porque eu acho
que o mundo é fantástico. Agora a gente
aprende a banalizar o fantástico no momento em
que a gente vai introduzindo o discurso do adulto na
gente. Eu vejo a Helena, minha filha de nove meses, para
ela tudo é fascinante, é maravilhoso, é incrível,
a luz, a mesa, o celular são fantásticos.
A criança tem essa capacidade de se espantar com
o mundo. Por isso ela não morre de tédio.
Quer dizer, ela pode até morrer de sofrimento.Mas
me parece que o tédio é uma angústia
muito mais adulta no momento em que você vai banalizando,
cotidianizando o mundo. Então o fantástico
para mim é uma coisa muito interessante. Na minha
narrativa eu procuro um pouco isso. Falar de uma coisa
aparentemente cotidiana e as pessoas pensam isso: aconteceu
com ele, sucedeu e ele estava lá e tal. E de repente
surge uma coisa meio estranha e todo mundo pensa, não
que piração é essa? Não,
isso não é possível. Essa tensão
entre o cotidiano e o maravilhoso eu gosto muito de trabalhar
nos meus textos. Tem o fantástico nos meus textos.
Acho que vai ter sempre porque eu gosto desse inusitado.
Gosto de contar histórias.Passei boa parte da
vida lendo sobre isso e falando sobre isso. Então
para mim o fantástico é bastante presente.
Até que ponto essa feitura através
do fantástico você analisa como que dê resultados
ao leitor? Você analisa, por exemplo,qual o tipo
de leitor você busca atingir. O PC vai fazer
parte de uma coleção (Safra 21, Editora
Rocco) que é direcionada a leitores jovens,
entre 20 e 25 anos de idade?
Bem, eu acho o seguinte,
o leitor jovem, assim como a criança, talvez ele
seja mais aberto a esse tipo de experiência. De
trabalhar com o fantástico,
o inusitado, o misterioso. Eu acho que a gente pode penetrar
nessa faixa. Mas eu não penso em restringir não.
Eu acho que talvez o meu leitor ideal seja uma pessoa
que tenha a sensibilidade qualquer para se Assustar com
as coisas. Que não seja um leitor excessivamente
cético ou apegado a conceitos lógicos.
Que esteja predisposto e aberto a se maravilhar com as
coisas.
Seria o encontro da sua fascinação
com a do leitor? Você acredita que o Pequenas
Catástrofes tem esse resgate da fascinação?
Eu
espero que sim. Pretendo ter sim. Acho que a surpresa
do livro, trabalhar com o Projeto Zaratustra, experiência
com drogas, psicotrópicos que possam trazer ancestrais
mortos, essas coisas que a alta-cultura pode considerar
banal ou coisas de filme de ficção científica
tipo B, ou filmes de terror suspense tipo "A Morte do
Demônio", essas coisas meio gore de repente se
você trabalhar com um pouco de cuidado, você pode
fazer uma coisa que ao mesmo tempo tenha esse apelo,
mas que não seja algo banal. Eu queria fazer mais
ou menos isso.Agora você falava sobre o tipo de
leitor e me veio à mente que de certa maneira
eu gostaria primeiro que as pessoas que lessem o meu
livro, fossem parecidas comigo (risos). Eu quis escrever
um livro que eu gostasse de ler. Porque é um livro
que me produz um tipo de sentimento que quando eu o fecho
eu penso, porra, que vida cocô eu tenho, sabe cara.
E você ficar com um sentimento de uma certa inquietação.
Eu tive isso quando li o próprio "Demian" do Herman
Hesse, quando li "On The Road", do Jack Kerouac, quando
li "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley,quer
dizer é quando você termina de ler e pensa,
preciso fazer alguma coisapara que minha vida valha à pena,
porque a minha vida é uma merda (risos), tenho
de me mexer.
Você tem esse desejo de tirar o leitor do lugar?
Tenho
o desejo. Mas não sei se eu consigo. Mas
a vontade é essa. Que o cara leia e não
seja simplesmente um livro como outro qualquer. Mas eu
acho que talvez todo autor tenha essa pretensão.
Não sei.
Você acha que as referências presentes
no texto são, digamos, "caminhos" que o leitor
poderá enveredar e a partir desses caminhos
ele vai encontrar algum tipo de iluminação"?
O livro é instrutivo nesse aspecto?
Acho que
instrutivo talvez. Um pouco pedagógico,
eu até digo isso no começo do livro. Iluminação
já é uma palavra muito forte. Não
no sentido de revelação, eu não
tenho essas pretensões. Mas tem a idéia
de, de repente, ocara pare pelo menos cinco minutos e
fique pensando na sua vida, fique pensando no que leu,
produza algum tipo de revelação intelectual
e emocional e diga: "e agora?", "e agora?". Porque eu
gosto de ler livros assim, esse tipo de livro me agrada.
"De certa
maneira acho que Demian traz em si essa consciência
dessa
transitoriedade. Isso fez com que ele se tornasse
um sujeito bastante
amoral no ponto de vista comum
dos nossos valores".
Fale um pouco sobre Max Demian. Sobre a vida dele.
Quem é ele pra você?
Bem, ele nasceu
na Alemanha, mas veio para o Brasil muito jovem, ele
já falava alguma coisa de alemão,
mas foi praticamente alfabetizado em português.
Por isso muita gente diz que ele fala tão bem
português. Mas na verdade é que ele foi
alfabetizado em português. Depois ele estudou alemão
e era filho de uma família de alemães que
vieram para cá. O pai é geólogo,
a mãe concertista, tocava piano. E a família
dele é bem interessante, porque ele perdeu um
avô na guerra. Um avô dele foi morto em Stalingrado,
ele dirigia uma divisão Panzer na década
de 40. E talvez essa coisa do nazismo seja recorrente
porque o avô dele morreu carbonizado dentro de
um tanque. E avó dele era enfermeira. Isso no
caso dos avós paternos. Os maternos eu não
tenho muita informação não. A sua
avó paterna sofreu muito o impacto da guerra.
Ela foi uma das mulheres que entrou em Dresden, depois
do bombardeio e aquilo marcou muito ela. E parece que
o Demian, de certa maneira,traz marcada na sua formação
o resquício daquela hecatombe que foi produzida
na Europa de 1914 a1945. Então, nesse período
que eles que chamam da "Grande Guerra", porquenão
foram duas, foi uma só, você tem um mundo
que foi destroçado.Completamente destruído.
E o Demian é filho da geração que
nasceu no meio dessa destruição. Ele é uma
criatura - filho de pessoas que nasceram durante essa
guerra. De certa maneira acho que Demian traz em si essa
consciência dessa transitoriedade. Isso fez com
que ele se tornasse um sujeito bastante amoral no ponto
de vista comum dos nossos valores. Ele é um cara
que não temos padrões morais clássicos
de bem e mal, porque essas referências foram dinamitadas
na história da vida dele. Então ele se
envolveu com fotografia,foto-jornalismo, viajou para
a Europa. Começou a trabalhar para uma agência
européia e fazer cobertura de guerra. Ele fotografou
os massacres na Bósnia, de muçulmanos pelos
sérvios-croatas, na década de 90. Foi à Ruanda,
fotografou os cadáveres naquele massacre de 94.
Viajou para o Afeganistão na época que
o Taleban tomou o poder e enforcou o ditador comunista.
Foi para a Indonésia na época em que o
Suharto foi derrubado e que houve uma série de
massacres. Então ele carrega em si essa coisa
da dissolução. Dessa falta de referências.
De certa maneira ele é um sujeito bastante curioso
e interessante, do ponto de vista intelectual talvez,mas
não é o tipo de sujeito que eu gostaria
de ter como genro (risos). Não éuma pessoa
muito agradável de se conviver com ela.
Quando você fala sobre o fato de Demian ter
nascido sob essas referências de destruição,
através da família, os pais, os avós.
Você não estaria, de certo modo, defendendo
essa amoralidade inerente a ele?
Eu não defendo
o Demian. Mas eu o entendo. Eu entendo qual a raiz da
coisa.Você pode perguntar, "então
ele deve ser assim?". Eu não sei se ele deve serassim
ou as pessoas devem ser como ele é. Mas eu entendo
as circunstâncias que produziram o Demian.
Nessa ótica, você acha que o Demian é um
sujeito mais livre?
Essa é uma grande pergunta
nietzscheana. Eu acho que Dostoievski tentou responder
em "Crime e Castigo" (risos).
Ele tenta mostrar que o personagem Raskólhnikov
não é um sujeito livre. Porque um homem
livre não é aquele que não tem limites
morais. O sujeito livre é justamente aquele homem
que consegue controlar os próprios instintos ou
que consegue encontrar um eixo de moralidade. Isso é uma
tese. Platônica, Aristotélica, ela está lá na
Grécia Antiga. Uma Tese que passou para o cristianismo
e chegou no século XIX com Dostoievski. Mas você tem
uma tese pagã de que o homem livre não é um
homem preso a critérios de bem e mal. Mas que é um
homem que ultrapassa esses critérios e consegue
impor a sua vontade de viver ao mundo. Então um
homem que é apegado a critérios de bem
e mal seria um homem que teria muito mais dificuldades
de sobreviver num mundo que não tem essas referências.
Num mundo onde não existam critérios de
bem e mal, você ter critério de bem e mal é praticamente
suicídio. Você vai acabar sendo destroçado.
Então para que você possa sobreviver num
mundo assim, você não pode tê-los.
Então, se pensarmos Demian nessa forma, ele é livre.
Demian não teria um pouco de (O Marquês)
de Sade? Dentro da concepção de bem e
mal e destroçar esses valores?
Tem um pouco
de Sade, de Zaratustra. Eu acho que ele por ter consciência
da transitoriedade, de que as coisas passam. Ele sabe
que esses valores são
puramente circunstanciais e que esses valores podem ser
transformados. E aí a idéia do homem como
um eixo, uma fronteira com uma linha que está em
mudança, em constante transformação.
E o Projeto Zaratustra (contido no livro) se encaixa
nisso. Porque a idéia é de que o homem
não está acabado, não está pronto.
Não há aquela idéia criacionista
de que o homem já foi feito à imagem e
semelhança de Deus e acabou o processo. O homem
mesmo pode se destruir para produzir um novo homem.
O diário de Max Demian foi encontrado? O que
você sabe sobre isso?(Valdenor Jr. novamente)
É o
seguinte, ele veio ao Brasil, inicialmente,com um intuito
de estabelecer um núcleo do Projeto
Zaratustra por aqui.Andou por algumas cidades para fazer
relatórios e mandar para o núcleo do Projeto.
E existem alguns resquícios escritos dessa experiência
dele, desse período que ele passou por aqui. E
esses escritos alguns foram compilados e a gente tem
trechos disso aí. Inclusive está sendo
até colocado num site (risos). Agora, isso ajuda
justamente a compreender melhor o personagem. Traz algumas
revelações sobre que tipo de sujeito ele é.
Se vai torna-lo simpático ou não eu não
sei.
Demian é um sujeito único ou podem
existir outros Demians por aí?
Milhares (risos).
Demians existem em muitos lugares. Hoje, talvez, oDemian
seja um sujeito muito mais presente do que anteriormente.
Não sei aqui no Brasil,
no Nordeste, Natal, em Pirangi (no momento da entrevista,
o escritor estava veraneando no litoral sul do Estado)
olhando essa vegetação maravilhosa, você vai
encontrar muitos Demians. Mas se você for para
grandes cidades, lugares onde os critérios tradicionais
de bem e mal já estão sendo dissolvidos
com muito mais força, acho que pode encontrar
personagens parecidos com ele. Eu acho que Demian é um
personagem desse século que terminou agora. Porque
eu acho que o século XXI tende a ser de fundamentalismo
religioso. E a argamassa do fundamentalismo religioso é sempre
de bem e mal.
E o Projeto Zaratustra?
Bom, sobre o Projeto
existem duas linhas de pensamento sobre ele. Uma que
ele é novo e começa
nos anos 60 e outra de que ele é uma ramificação
de determinadas ordens místicas mais antigas,
que trabalham, digamos assim, na surdina durante muito
tempo produzindo essa tentativa de manipulação
ou de modificação da raça. O que
está por trás Projeto Zaratustra é uma
idéia que já encontra-se num livro de Hesíodo
chamado "Os Trabalhos e os Dias" que é um poema
que narra o mito das cinco raças. A raça
dos deuses, raça de prata, de ouro, e tal, a raça
dos heróis e a raça dos homens. Então
ele fala que uma raça sucedeu-se à outra.
As pessoas do Projeto Zaratustra acreditam que essa variação
de raças é real e que estamos vivendo num
período de transição da 5ª raça
para a 6ª raça. E essa 6ª raça
deveria ser formada ou surgiria de algum lugar, ou de
vários lugares e ela vai justamente destruir aquilo
que é humano. Vai ser um raça além
do homem, uma raça diferente da humana, propriamente
dita. Que tipo de criaturas seriam essas, não
se tem idéia. Nem o Projeto está interessado
em saber. Eles estão interessados em fazer com
que o carro da história ande. O Projeto é um
instrumento para implantação dessa 6ª raça.
Existem diversas ordens ocultas que trabalham com essa
idéia. Virou até uma espécie de
clichê. O pessoal dizia que ía ser no Planalto
Central brasileiro, a 6ª raça matriz da sétima
sub-raça, sei lá. Mas esses caras (os caras
do Projeto) acreditam nisso né. E eles têm
uma coisa curiosa porque diferente dessas outras ordens
que ficam trabalhando com símbolos,rituais, eles
utilizaram tecnologia de ponta para poder fazer esse
carro andar. E isso eu acho que é interessante
no Projeto. E usaram também substâncias
químicas - alcalóides - para sintetizar
uma droga que pudesse estimular esse processo. Isso é novo.
Quer dizer, não a utilização de
drogas. Mas a coisa de você fazer isso com tecnologia
genética e tal. Eu não sei dizer até que
ponto eles estão corretos, mas o fato é que é um
dado interessante desse milênio e dizem que eles
estão ganhando adeptos.Não sei se é verdade.
Mas eu conheço um bocado de gente que toparia
na hora entrar na seita (risos).
Entrevista: Sheyla Azevedo.
Colaboradores: Alexandre
Honório e Valdenor Jr.
Fotos: Kênia Castro
|