Todo escritor que se preze não escreve apenas porque gosta, escreve, acima de tudo porque precisa, porque há uma força propulsora maior que ainércia da não-palavra. Pablo Capistrano não foge à regra e vai mais além, escrever em suas palavras, é seu "projeto de vida".

Autor do livro de poesia Domingos do Mundo (Editora Boágua -1998); Descoordenadas Cartesianas - em três ensaios de quase Filosofia (Sebo Vermelho - 2001)e Pequenas Catástrofes (Coleção Letras Potiguares - Editora A.S Editores - 2002), ele agora alça um vôo mais alto e reedita o terceiro pela Editora Rocco, na Coleção Safra 21, cujo lançamento nacional previsto para abril desse ano, no Rio de Janeiro.

Com formação em Filosofia e Mestrado em Metafísica, o professor natalense de 30 anos, pai de Uriel e Helena, não se contentou apenas com a produção de ensaios e teses acadêmicas - textos inerentes à sua profissão -e desde sempre parece sucumbir ao apelo das letras, da ficção e, sobretudo, ao "fascínio pelo fantástico". Elementos que ele traz consigo desde a infância quando desenhava histórias em quadrinhos. Na adolescência, o contador de histórias descobriu que desenhar não era seu talento mais promissor e foi aí que partiu para aquilo que hoje é tão inerente ao seu dia-a-dia como escovar os dentes.

Atualmente, Pablo Capistrano já está trabalhando em seu quarto livro,uma novela, cujo estilo ele diz que é diferente, pois entre outras coisas será narrado em terceira pessoa e as referências filosóficas e literárias estão mais "diluídas" na história que conta também com mais personagens.

Pequenas Catástrofes, seu terceiro livro, ao qual essa entrevista abaixo é dedicada, conta a história de Demian, um alemão fotojornalista especializado em guerras, cujos avós paternos viveram intensamente o período da Grande Guerra na Europa. Ainda pequeno, Demian vem morar no Brasil e depois volta à Europa. Anos depois ao retornar ao Brasil, se reencontra com um amigo, com quem vive, digamos, uma misteriosa "aventura".

Bom, talvez aventura não seja a palavra mais adequada para representar o que é vivido pelos personagens no livro pois, Pequenas Catástrofes não é um livro que possa ser definido por uma única palavra ou por uma única ação.

O "PC" - como o próprio autor costuma chamar -, é um daqueles livros que o leitor, de vez em quando, faz aquelas paradas, fica olhando para o nada e,provavelmente, pensa sobre si mesmo.Se quiser saber mais sobre o PC (Pequenas Catástrofes) e sobreo PC (Pablo Capistrano) - mera coincidência, ele jura - veja entrevista com o autor, na qual ele fala das referências, influências do fantástico e do que ele pretende com o livro e com os leitores.

Você escreve desde quando? E quando percebeu que precisava escrever?
Bem, eu antes fazia histórias em quadrinhos. Aos seis, sete anos eu fazia histórias em quadrinhos. Eu desenhava horrivelmente, uma coisa assustadoramente ruim, mas fazia histórias desenhando personagens, alguns bem interessantes porque eram personagens de criança. Eu lia muito HQ e acho que naquela época eu já estava escrevendo, pensando em histórias. Depois, com 14 anos, eu desisti da parte plástica porque eu vi que não tinha muito talento para isso e comecei a me concentrar mais na história. Faz 16 anos que eu escrevo. E não é assim, eu vou escrever quando estou mal ou para desabafar. Não. Eu quero isso pra mim, é meu projeto de vida. Essa idéia é que é diferente.

No PC você cita diversos escritores, bandas, filósofos. Eles são referências para teu próprio texto e chegam a te influenciar na hora de escrever?
Na verdade o PC retrata muito um momento meu. Quando eu o escrevi, iniciei pensando em fazer um ensaio. Estava numa fase ainda acadêmica, saindo do curso (de Filosofia) e aí o que acontece, eu pensei em de repente em produzir um ensaio com idéias e autores que me interessavam, mas eu fui me desgastando muito com esse tipo de escrita. Enchi o saco desse tipo de coisa. Comecei a ler e não gostar do que estava escrevendo. Então eu resolvi escrever uma história e enxertar determinados tópicos, digamos assim, de coisas que me fascinavam na época, de coisas que eu lia no período, eu lia diversos textos. Wittgenstein, muito sobre nazismo, música e esses textos foram entrando naturalmente no livro. Não foi uma coisa forçada. Eles iam aparecendo e eu ía montando a história em cima dessas referências. Algumas delas eram extremamente circunstanciais. Não são assim profundas na minha formação. Outras são mais sólidas com por exemplo, Nietzsche - que de certa maneira é uma referência um pouco mais sólida, apesar de eu não ser um grande leitor dele, não é minha praia. Mas é um autor que sempre me interessa. O Wittgenstein é uma influência muito forte, e eu tenho um pouco mais de apropriação dessa influência porque é o cara que eu estudo na minha pesquisa acadêmica, eu fiz uma monografia sobre ele, uma tese de Mestrado sobre ele e até hoje estudo, gosto muito do pensamento dele, e é um pensamento que me influencia. Mas algumas outras não. Tem muita influência de magia, de misticismo, que foram leituras que eu fiz quando tinha 14, 15, 16 anos e durante muito tempo eu fiquei influenciado. Levi, Papus, esses místicos, a Cabala.

Tem algumas descrições no PC que tratam disso, né? A experiência coma substância Tetrapharmakon, por exemplo, elas são fictícias ou tem a ver com experiências que você viveu?
Bem, as experiências com substâncias entorpecentes que eu tive, aquelas fortuitas e recreativas que a maioria dos adolescentes brasileiros vivem (risos). Mas tive experiências mais sérias com os alcalóides, inclusive com o (Santo) Daime. Mas foi algo assim mais experimental, tomei uma vez ou outra. Algumas coisas do que vivi, estão no livro. Naquele ritual também tem referências das religiões afro-brasileiras que durante um certo tempo eu andei envolvido, com algumas práticas dessas religiões. E tem uns gestos dos rituais que estão lá. Mas eu vejo isso muito mais com um interesse intelectual que tenho. Essa coisa da possessão, do sujeito ser possuído por um espírito ancestral. Você ceder o seu corpo para que uma outra entidade tome conta dele. Essa coisa do êxtase religioso,místico que está presente em muitas religiões eu tenho curiosidade intelectual. Como observador, estudioso e um sujeito que de vez em quando se mete para fazer uma prática ou outra mas não sou nenhum adepto ou um cara que vive em função disso. Eu tive curiosidade de fazer experiências nessa área religiosa. Principalmente na juventude. Agora, 30 anos, casado, pai de filhos isso vai deixando você meio entediado. Sair fazendo essas coisas no meio do mato. Você fica sem ter mais idade pra isso. Mas quando eu era mais jovem eu fiz. No livro, a descrição que tem quando o narrador toma o tetrapharmakon e vem aquela coisa que começa nos pés, tudo aquilo ali foi com base em experiência de coisas que eu presenciei.

Você se apropria daquela realidade, como observador, e passa pro livro em forma de ficção?
Exatamente. A matriz da experiência é real. Mas a forma como ela aparece é fictícia. Eu pego alguns elementos da realidade e vou transfigurando-os e enxertando conceitos, formas de apresentação mais teóricas e aí vai ficando uma coisa meio louca, mística, envolvendo um bocado de coisa no meio. Mas não há necessidade de ser real. Eu não sou nenhum cientista social. Eu sou escritor. Eu não quero fazer antropologia.

Você falava agora a pouco de Wittgenstein. Num momento do livro,você conta uma história sobre o encontro dele com a deusa Atena. Até que ponto você perde o limiar da realidade, do que você conhece do filósofo, e começa a criar? Isso tem certas referências de escritores como o Jorge Luis Borges que conta histórias e você não sabe se ele está falando sobre algo da realidade e ficção. No PC como você trabalha isso?
Essa mistura é muito presente no PC. A mistura entre realidade e ficção, entre verdade e imaginação, coerência e delírio. Está o tempo todo presente no texto. Com o Wittgenstein o que é que eu fiz? Quem conhece o Wittgenstein, leu algo sobre a vida dele, quando ler o meu livro vai perceber que alguns elementos que eu escrevi sobre a vida dele são reais. Ou pelo menos são documentados pelos biógrafos mais respeitados que escreveram sobre a vida dele. Tem cartas e tal que mostram que as coisas que aconteceram ali são verdadeiras. Mas o que vai acontecendo, à medida que eu vou descrevendo isso ou vou mudando de lado. Vou lentamente saindo da realidade e entrando no delírio. Mas eu tento passar de lado de uma maneira sutil para que o leitor não perceba o momento que eu mudei.

(..) eu ía deixando as pistas. Algumas conscientes, outras inconscientes.
Que depois que eu li é que fui ver. Ou outra pessoa leu e
disse aqui tem isso, e coisa e tal. Então tem esse joguinho.
Eu acho que é uma arte que requer paciência e precisão.


Mas existe uma pretensão sua que o leitor perceba esse desvio. Ou pouco importa. Você quer que o leitor acredite no que você está dizendo?
O que eu queria era que o leitor gostasse do livro (risos). Mas assim, legal é que o leitor se surpreenda e seja pego nessa encruzilhada e pense: "porra isso é real ou não real? Isso aconteceu ou não aconteceu?". Eu queria que houvesse essa confusão. Porque eu acho que na verdade o livro fala sobre essa confusão. Eu queria que ele fosse pego nessa confusão. Se eu desse uma quebra muito forte, muito rígida, entre o que é ficção, delírio e aquilo que tem uma base factível ia ser mais fácil perceber essa armadilha. Mas eu tento fazer uma mistura de maneira que esse momento não seja percebido. Que as coisas se misturem. Para que o leitor não tenha um instrumento para poder demarcar a fronteira, sabe? E aí ele se perde. Mas a história do Wittgenstein tem uma piada de filósofo aí, aquelas piadas sem graça que só quem ri é quem entende de Filosofia. Porque Wittgenstein é considerado por muitas pessoas como sendo o "assassino" da Filosofia. Uma espécie de sujeito que vem e diz "não vamos mais fazer metafísica". Ele até falava do "Pântano da Metafísica", o lamaçal, sujo imundo onde as pessoas se atolavam até a cintura e não conseguiam sair dele. Só que nos meus estudos de Wittgenstein, principalmente o primeiro Wittgenstein, eu percebo que a metafísica está presente naquele texto de maneira muito forte. Ele nega o tempo inteiro aquilo que o constitui. Então aquela coisa da deusa Atena, procurando um filósofo para conversar e sentindo o cheiro da metafísica é uma piada em cima do cara. Quem entende de filosofia não sei se vai achar graça, mas pode pensar, "pô, que sacanagem, o cara está tirando uma onda com a cara do sujeito".

O livro tem essa mistura do início ao fim. Mas você acha que para o leitor há dicas? Você dá pistas ao leitor sobre essa mistura? Algumas. Porque eu escrevi o livro, depois voltei para dar pistas.Porque no livro você vai escrevendo e depois chega num ponto e pensa,preciso reformular alguma coisa aqui na página 12 senão algo não vai se encaixar. Aí você volta na página 12 e encaixa e constrói um caminho, é como se fosse um trabalho de ajuste. Eu não encontro nenhuma metáfora, mas é como se você estivesse fazendo um ajuste numa peça que você de vez em quando tem de modificar um parafuso ou uma chave para que o todo fique coerente. Então, nessa hora que eu voltava para poder encaixar, eu ía deixando as pistas.Algumas conscientes, outras inconscientes. Que depois que eu li é que fui ver. Ou outra pessoa leu e disse aqui tem isso, e coisa e tal. Então temesse joguinho. Eu acho que é uma arte que requer paciência e precisão.

Em trecho do livro você diz: "Andei recitando poemas em teatros e bares vagabundos. Observei o underground da cidade diluir-se no meio do crescimento urbano e os últimos fantasmas dos anos 70 e da utopia hippie morrerem de tédio, descrença e vodka". Você concorda que, de certo modo,todo romance é auto-biográfico? Tem um pouco do cotidiano e da vida do escritor? Ou há uma separação?
Eu acho que não é necessário. Não é uma condição para que existam elementos biográficos ou também que não existam. Você pode construir um romance com base apenas naquilo que você não viveu, mas que você sonha em viver. Ou você pode escrever com base naquilo que viveu ou fazer uma mistura de ambos. Eu não sei se há uma obrigatoriedade. Eu não sei se isso classifica um romance, ser biográfico ou não. Eu acho que a classificação do romance está muito mais na forma como você se apropria do tempo. Aí eu acho que é uma condição necessária para se ter um romance. O trabalho com o tempo. Você precisa fazer uma leitura do tempo. Construir um enfoque acerca do funcionamento do tempo para você.

"Você precisa saber como fazer para que seu leitor se
situe numa linha de tempo que você está trabalhando.
Existem autores que subvertem essa questão.
Eles tentam fugir e destruir isso. Tem de fazer um
discurso sobre o tempo, mesmo que seja negando ele".

Isso seria tanto tecnicamente, ao escrever o livro, quanto até mesmo pegar determinados momentos da sua história, dos seus 30 anos, e trazer isso para o romance?
Na técnica de construir a narrativa, é preciso uma noção do "time" do tipo de texto que você está fazendo. Você precisa saber como fazer para que seu leitor se situe numa linha de tempo que você está trabalhando. Existem autores que subvertem essa questão. Eles tentam fugir e destruir isso. Tem de fazer um discurso sobre o tempo, mesmo que seja negando ele. Como, por exemplo, em Ulysses, de (James) Joyce, que tem um dia na vida do personagem, mas que a maneira como o narrador se apropria desse dia, faz com que o leitor se perca no tempo. É um pouco difícil ler o texto, porque a leitura que o Joyce faz do tempo não é, digamos assim, uma leitura Aristotélica. Não há um tempo linear. Mas ainda assim é um discurso sobre o tempo. Porque o tempo não é só linear. Em Finnegans Wake, também dele, o tempo é circular. A visão que ele tenta oferecer ali é de um tempo circular e trabalhar um texto literário em cima desse tempo. Eu tenho a impressão de que essa é a condição do romance.Talvez da prosa. Assim como a poesia para mim a condição necessária é a respiração. Aprender a respirar. Na verdade eu acho que a poesia traz um modelo de respiração para o leitor. E as poesias variam com esse modelo de respiração.

Enquanto escritor, até que ponto você se apropria do momento do leitor. Como você imagina o leitor lendo teus livros?
Eu acho que esse é o grande estímulo e a grande angústia do escritor é imaginar esse momento. Porque uma coisa é você fazer um show ao vivo ou então recitar poesias num bar, num teatro, você de repente percebe na hora o modo como o apreciador do seu trabalho está reagindo a você. Então imediatamente vai identificar se fez um show do caralho ou se fez um negócio ruim. Agora, o escritor não tem isso. Então eu imagino o que será que essa pessoa vai pensar quando ler, o que será que vai sentir quando ela ler. Você tem essa curiosidade porque todo artista de certa maneira é um pouco egocêntrico. Ele quer tocar, comunicar, mexer com alguém. Então você não concorda com a idéia de alguns escritores que dizem "Eu não escrevo para ninguém, eu escrevo pra mim". Eu acho que isso aí é coisa dos ressentidos (risos). Eu não sei cara,eu acho que isso aí é uma boa mentira contada para poder justificar os medos de ser rejeitado e aí diz, eu não escrevo para ninguém. Se não gostar que se lasque. Talvez seja uma defesa. Você escreve para alguém; se não escreve para alguém então não publica pô, guarda numa gaveta. Agora se escreve e publica um livro é porque quer que alguém leia. Agora também tem aquela postura do escritor que diz, eu estou escrevendo para duas pessoas entenderem: o professor fulano de tal Doutor em Teoria Literária, da USP, e o professor fulano PhD em Teoria da Literatura da Universidade de Cambridge, eles vão ler e vão me entender. Então isso também é terrível porque você vai fazer um tipo de texto que só vai ser lido por duas ou três pessoas. Certa vez eu estava assistindo uma palestra de Filosofia e o aí o cara me dizia você precisa ver essa palestra porque o sujeito que vai falar agora é uma das 10 pessoas vivas hoje que entendem o pensamento de Frege (um filósofo alemão do século XIX que fez uma reformulação na lógica aristotélica e deu ênfase à chamada lógica matemática). Aí eu pensei, porra, coitado do Frege, que situação, o sujeito passa os melhores momentos da sua existência produzindo um texto,pensando em alguma coisa, e hoje em dia - 100 anos depois - só tem dez caboclos no mundo que entendem o que ele disse. Quer dizer, é uma solidão horrível né? Então esse tipo de solidão eu não penso não. Eu escrevo equanto mais pessoas entenderem e acharem interessante, para mim melhor.

"Então eu gosto de repente de encontrar no meio de um
discurso aparentemente banal sobre a vida de um sujeito cotidiano,
encontrar brechas,um canal, uma perfuração de um canal para o
fantástico escorrer. Porque eu acho que o mundo é fantástico".

A minha pergunta é sobre suas influências. Eu percebo que muitas pessoas comentam que tem a ver com o (Jorge Luis) Borgese outros autores que remetem ao fantástico. Então eu quero saber se o que você gosta vai se reter mesmo nessa proposta do fantástico, ou você quer abrir? Porque parece que o próximo livro que ta vindo aí também tem essa temática fantástica. (Valdenor Jr., arte-finalista, produtor das capas deseus primeiros livros e amigo do escritor é o autor dessa pergunta)
A pergunta é legal e eu acho que isso aí tem tudo a ver com a minha formação.Dos textos que eu li e da bagagem que eu absorvi da minha infância e adolescência, porque eu lia muito quadrinhos, via muito cinema,principalmente filmes hollywoodianos, Spielberg, essas coisas todas. Gostava muito de ler coisas sobre ficção científica, sobre ciência, misticismo,ocultismo, então eu passei a infância e adolescência envolvido nesse mundo.Até hoje eu tenho uma fascinação pelo estranho, pelo inusitado e de certa maneira poraquilo que é bizarro e um pouco distante do cotidiano, do banal, do meramente individual, dos abismos psicológicos dos sentimentos, das idiossincrasias das pessoas. Então eu gosto de repente de encontrar no meio de um discurso aparentemente banal sobre a vida de um sujeito cotidiano,encontrar brechas, um canal, uma perfuração de um canal para o fantástico escorrer. Porque eu acho que o mundo é fantástico. Agora a gente aprende a banalizar o fantástico no momento em que a gente vai introduzindo o discurso do adulto na gente. Eu vejo a Helena, minha filha de nove meses, para ela tudo é fascinante, é maravilhoso, é incrível, a luz, a mesa, o celular são fantásticos. A criança tem essa capacidade de se espantar com o mundo. Por isso ela não morre de tédio. Quer dizer, ela pode até morrer de sofrimento.Mas me parece que o tédio é uma angústia muito mais adulta no momento em que você vai banalizando, cotidianizando o mundo. Então o fantástico para mim é uma coisa muito interessante. Na minha narrativa eu procuro um pouco isso. Falar de uma coisa aparentemente cotidiana e as pessoas pensam isso: aconteceu com ele, sucedeu e ele estava lá e tal. E de repente surge uma coisa meio estranha e todo mundo pensa, não que piração é essa? Não, isso não é possível. Essa tensão entre o cotidiano e o maravilhoso eu gosto muito de trabalhar nos meus textos. Tem o fantástico nos meus textos. Acho que vai ter sempre porque eu gosto desse inusitado. Gosto de contar histórias.Passei boa parte da vida lendo sobre isso e falando sobre isso. Então para mim o fantástico é bastante presente.

Até que ponto essa feitura através do fantástico você analisa como que dê resultados ao leitor? Você analisa, por exemplo,qual o tipo de leitor você busca atingir. O PC vai fazer parte de uma coleção (Safra 21, Editora Rocco) que é direcionada a leitores jovens, entre 20 e 25 anos de idade?
Bem, eu acho o seguinte, o leitor jovem, assim como a criança, talvez ele seja mais aberto a esse tipo de experiência. De trabalhar com o fantástico, o inusitado, o misterioso. Eu acho que a gente pode penetrar nessa faixa. Mas eu não penso em restringir não. Eu acho que talvez o meu leitor ideal seja uma pessoa que tenha a sensibilidade qualquer para se Assustar com as coisas. Que não seja um leitor excessivamente cético ou apegado a conceitos lógicos. Que esteja predisposto e aberto a se maravilhar com as coisas.

Seria o encontro da sua fascinação com a do leitor? Você acredita que o Pequenas Catástrofes tem esse resgate da fascinação?
Eu espero que sim. Pretendo ter sim. Acho que a surpresa do livro, trabalhar com o Projeto Zaratustra, experiência com drogas, psicotrópicos que possam trazer ancestrais mortos, essas coisas que a alta-cultura pode considerar banal ou coisas de filme de ficção científica tipo B, ou filmes de terror suspense tipo "A Morte do Demônio", essas coisas meio gore de repente se você trabalhar com um pouco de cuidado, você pode fazer uma coisa que ao mesmo tempo tenha esse apelo, mas que não seja algo banal. Eu queria fazer mais ou menos isso.Agora você falava sobre o tipo de leitor e me veio à mente que de certa maneira eu gostaria primeiro que as pessoas que lessem o meu livro, fossem parecidas comigo (risos). Eu quis escrever um livro que eu gostasse de ler. Porque é um livro que me produz um tipo de sentimento que quando eu o fecho eu penso, porra, que vida cocô eu tenho, sabe cara. E você ficar com um sentimento de uma certa inquietação. Eu tive isso quando li o próprio "Demian" do Herman Hesse, quando li "On The Road", do Jack Kerouac, quando li "As Brumas de Avalon", de Marion Zimmer Bradley,quer dizer é quando você termina de ler e pensa, preciso fazer alguma coisapara que minha vida valha à pena, porque a minha vida é uma merda (risos), tenho de me mexer.

Você tem esse desejo de tirar o leitor do lugar?
Tenho o desejo. Mas não sei se eu consigo. Mas a vontade é essa. Que o cara leia e não seja simplesmente um livro como outro qualquer. Mas eu acho que talvez todo autor tenha essa pretensão. Não sei.

Você acha que as referências presentes no texto são, digamos, "caminhos" que o leitor poderá enveredar e a partir desses caminhos ele vai encontrar algum tipo de iluminação"? O livro é instrutivo nesse aspecto?
Acho que instrutivo talvez. Um pouco pedagógico, eu até digo isso no começo do livro. Iluminação já é uma palavra muito forte. Não no sentido de revelação, eu não tenho essas pretensões. Mas tem a idéia de, de repente, ocara pare pelo menos cinco minutos e fique pensando na sua vida, fique pensando no que leu, produza algum tipo de revelação intelectual e emocional e diga: "e agora?", "e agora?". Porque eu gosto de ler livros assim, esse tipo de livro me agrada.

"De certa maneira acho que Demian traz em si essa consciência dessa
transitoriedade. Isso fez com que ele se tornasse um sujeito bastante
amoral no ponto de vista comum dos nossos valores".

Fale um pouco sobre Max Demian. Sobre a vida dele. Quem é ele pra você?
Bem, ele nasceu na Alemanha, mas veio para o Brasil muito jovem, ele já falava alguma coisa de alemão, mas foi praticamente alfabetizado em português. Por isso muita gente diz que ele fala tão bem português. Mas na verdade é que ele foi alfabetizado em português. Depois ele estudou alemão e era filho de uma família de alemães que vieram para cá. O pai é geólogo, a mãe concertista, tocava piano. E a família dele é bem interessante, porque ele perdeu um avô na guerra. Um avô dele foi morto em Stalingrado, ele dirigia uma divisão Panzer na década de 40. E talvez essa coisa do nazismo seja recorrente porque o avô dele morreu carbonizado dentro de um tanque. E avó dele era enfermeira. Isso no caso dos avós paternos. Os maternos eu não tenho muita informação não. A sua avó paterna sofreu muito o impacto da guerra. Ela foi uma das mulheres que entrou em Dresden, depois do bombardeio e aquilo marcou muito ela. E parece que o Demian, de certa maneira,traz marcada na sua formação o resquício daquela hecatombe que foi produzida na Europa de 1914 a1945. Então, nesse período que eles que chamam da "Grande Guerra", porquenão foram duas, foi uma só, você tem um mundo que foi destroçado.Completamente destruído. E o Demian é filho da geração que nasceu no meio dessa destruição. Ele é uma criatura - filho de pessoas que nasceram durante essa guerra. De certa maneira acho que Demian traz em si essa consciência dessa transitoriedade. Isso fez com que ele se tornasse um sujeito bastante amoral no ponto de vista comum dos nossos valores. Ele é um cara que não temos padrões morais clássicos de bem e mal, porque essas referências foram dinamitadas na história da vida dele. Então ele se envolveu com fotografia,foto-jornalismo, viajou para a Europa. Começou a trabalhar para uma agência européia e fazer cobertura de guerra. Ele fotografou os massacres na Bósnia, de muçulmanos pelos sérvios-croatas, na década de 90. Foi à Ruanda, fotografou os cadáveres naquele massacre de 94. Viajou para o Afeganistão na época que o Taleban tomou o poder e enforcou o ditador comunista. Foi para a Indonésia na época em que o Suharto foi derrubado e que houve uma série de massacres. Então ele carrega em si essa coisa da dissolução. Dessa falta de referências. De certa maneira ele é um sujeito bastante curioso e interessante, do ponto de vista intelectual talvez,mas não é o tipo de sujeito que eu gostaria de ter como genro (risos). Não éuma pessoa muito agradável de se conviver com ela.

Quando você fala sobre o fato de Demian ter nascido sob essas referências de destruição, através da família, os pais, os avós. Você não estaria, de certo modo, defendendo essa amoralidade inerente a ele?
Eu não defendo o Demian. Mas eu o entendo. Eu entendo qual a raiz da coisa.Você pode perguntar, "então ele deve ser assim?". Eu não sei se ele deve serassim ou as pessoas devem ser como ele é. Mas eu entendo as circunstâncias que produziram o Demian.

Nessa ótica, você acha que o Demian é um sujeito mais livre?
Essa é uma grande pergunta nietzscheana. Eu acho que Dostoievski tentou responder em "Crime e Castigo" (risos). Ele tenta mostrar que o personagem Raskólhnikov não é um sujeito livre. Porque um homem livre não é aquele que não tem limites morais. O sujeito livre é justamente aquele homem que consegue controlar os próprios instintos ou que consegue encontrar um eixo de moralidade. Isso é uma tese. Platônica, Aristotélica, ela está lá na Grécia Antiga. Uma Tese que passou para o cristianismo e chegou no século XIX com Dostoievski. Mas você tem uma tese pagã de que o homem livre não é um homem preso a critérios de bem e mal. Mas que é um homem que ultrapassa esses critérios e consegue impor a sua vontade de viver ao mundo. Então um homem que é apegado a critérios de bem e mal seria um homem que teria muito mais dificuldades de sobreviver num mundo que não tem essas referências. Num mundo onde não existam critérios de bem e mal, você ter critério de bem e mal é praticamente suicídio. Você vai acabar sendo destroçado. Então para que você possa sobreviver num mundo assim, você não pode tê-los. Então, se pensarmos Demian nessa forma, ele é livre.

Demian não teria um pouco de (O Marquês) de Sade? Dentro da concepção de bem e mal e destroçar esses valores?
Tem um pouco de Sade, de Zaratustra. Eu acho que ele por ter consciência da transitoriedade, de que as coisas passam. Ele sabe que esses valores são puramente circunstanciais e que esses valores podem ser transformados. E aí a idéia do homem como um eixo, uma fronteira com uma linha que está em mudança, em constante transformação. E o Projeto Zaratustra (contido no livro) se encaixa nisso. Porque a idéia é de que o homem não está acabado, não está pronto. Não há aquela idéia criacionista de que o homem já foi feito à imagem e semelhança de Deus e acabou o processo. O homem mesmo pode se destruir para produzir um novo homem.

O diário de Max Demian foi encontrado? O que você sabe sobre isso?(Valdenor Jr. novamente)
É o seguinte, ele veio ao Brasil, inicialmente,com um intuito de estabelecer um núcleo do Projeto Zaratustra por aqui.Andou por algumas cidades para fazer relatórios e mandar para o núcleo do Projeto. E existem alguns resquícios escritos dessa experiência dele, desse período que ele passou por aqui. E esses escritos alguns foram compilados e a gente tem trechos disso aí. Inclusive está sendo até colocado num site (risos). Agora, isso ajuda justamente a compreender melhor o personagem. Traz algumas revelações sobre que tipo de sujeito ele é. Se vai torna-lo simpático ou não eu não sei.

Demian é um sujeito único ou podem existir outros Demians por aí?
Milhares (risos). Demians existem em muitos lugares. Hoje, talvez, oDemian seja um sujeito muito mais presente do que anteriormente. Não sei aqui no Brasil, no Nordeste, Natal, em Pirangi (no momento da entrevista, o escritor estava veraneando no litoral sul do Estado) olhando essa vegetação maravilhosa, você vai encontrar muitos Demians. Mas se você for para grandes cidades, lugares onde os critérios tradicionais de bem e mal já estão sendo dissolvidos com muito mais força, acho que pode encontrar personagens parecidos com ele. Eu acho que Demian é um personagem desse século que terminou agora. Porque eu acho que o século XXI tende a ser de fundamentalismo religioso. E a argamassa do fundamentalismo religioso é sempre de bem e mal.

E o Projeto Zaratustra?
Bom, sobre o Projeto existem duas linhas de pensamento sobre ele. Uma que ele é novo e começa nos anos 60 e outra de que ele é uma ramificação de determinadas ordens místicas mais antigas, que trabalham, digamos assim, na surdina durante muito tempo produzindo essa tentativa de manipulação ou de modificação da raça. O que está por trás Projeto Zaratustra é uma idéia que já encontra-se num livro de Hesíodo chamado "Os Trabalhos e os Dias" que é um poema que narra o mito das cinco raças. A raça dos deuses, raça de prata, de ouro, e tal, a raça dos heróis e a raça dos homens. Então ele fala que uma raça sucedeu-se à outra. As pessoas do Projeto Zaratustra acreditam que essa variação de raças é real e que estamos vivendo num período de transição da 5ª raça para a 6ª raça. E essa 6ª raça deveria ser formada ou surgiria de algum lugar, ou de vários lugares e ela vai justamente destruir aquilo que é humano. Vai ser um raça além do homem, uma raça diferente da humana, propriamente dita. Que tipo de criaturas seriam essas, não se tem idéia. Nem o Projeto está interessado em saber. Eles estão interessados em fazer com que o carro da história ande. O Projeto é um instrumento para implantação dessa 6ª raça. Existem diversas ordens ocultas que trabalham com essa idéia. Virou até uma espécie de clichê. O pessoal dizia que ía ser no Planalto Central brasileiro, a 6ª raça matriz da sétima sub-raça, sei lá. Mas esses caras (os caras do Projeto) acreditam nisso né. E eles têm uma coisa curiosa porque diferente dessas outras ordens que ficam trabalhando com símbolos,rituais, eles utilizaram tecnologia de ponta para poder fazer esse carro andar. E isso eu acho que é interessante no Projeto. E usaram também substâncias químicas - alcalóides - para sintetizar uma droga que pudesse estimular esse processo. Isso é novo. Quer dizer, não a utilização de drogas. Mas a coisa de você fazer isso com tecnologia genética e tal. Eu não sei dizer até que ponto eles estão corretos, mas o fato é que é um dado interessante desse milênio e dizem que eles estão ganhando adeptos.Não sei se é verdade. Mas eu conheço um bocado de gente que toparia na hora entrar na seita (risos).

Entrevista: Sheyla Azevedo.
Colaboradores: Alexandre Honório e Valdenor Jr.
Fotos: Kênia Castro

 

 

 

 

 

 

 

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