• Marx, o Mouro incontornável

        Outro dia recebi em um desses grupos de Wats App um “textão” sobre Marx. Como a grande maioria das pérolas que circulam na rede, o texto trazia um […]

    Leia mais
  • Erre de novo, erre melhor

      Em 1784, Jacques-Louis David apresentou ao público francês seu quadro: O Julgamento dos Horácios. A pitura retrata um episódio da peça Horácio, de Corneille, e mostra três heróis romanos […]

    Leia mais
  • Onde se enterram os heróis

        Entre os anos de 1796 e 1797, quando reinos de toda a Europa se reuniram em um consorcio conservador para matar a revolução que eclodiu na França em […]

    Leia mais
  • A velha violência da ordem

        Atrás de uma imensa janela de vidro pessoas bem vestidas aproveitam um coquetel. Enquanto garçons servem vinho, champanhe e camarão gratinado no salão refrigerado, os participantes da festa […]

    Leia mais
  • A Importância de Ser Comum

        Em 1656, quinze anos depois dos acontecimentos que levaram os ingleses a cortar a cabeça do rei Carlos I, Diego Velásquez pintou seu único autorretrato.   Filho de […]

    Leia mais

Revista Ceia Cultural – Edição VI

 

 

Entrevista – Pablo Capistrano

 

- Como a filosofia se manifesta em nosso cotidiano?

A Filosofia tem uma dimensão prática, que implica na adoção de uma atitude, de uma postura diante da vida e do mundo. Pensar sobre as questões que afligem o homem pode levar o sujeito a desenvolver esse tipo de atitude. Na maioria das vezes as pessoas vivem no automático. Elas apenas sobrevivem. Seguem sem pensar sobre o que estão fazendo, o que estão sentido ou o que querem realmente. Não sabem quem são nem o que devem fazer. Viver assim é terrível, porque a gente não é livre, quando vive assim. Não toma para si as rédeas da própria existência, das próprias escolhas. A filosofia ensina a gente a sair dessa postura passiva.

- Você se preocupa em aproximar das suas obras o leitor leigo no campo filosófico?

Essa é uma das minhas maiores preocupações. Por isso meu trabalho para adequar minha linguagem a um universo mais amplo. Quando escrevo no Jornal ou no meu site (www.pablocapistrano.com.br) eu tento criar essa aproximação. Chegar mais perto do leitor em uma linguagem mais simples, agora, eu não perco de vista que o trabalho de professor universitário também requer uma outra linguagem quando a gente está, por exemplo, escrevendo uma tese de doutorado (como eu estou agora).

- Suas influências vão desde a música a astronomia, chegando até as histórias em quadrinhos de super-heróis. Como você transpõe essas influências em seu trabalho?

Naturalmente. Eu não vejo separações entre cultura popular, cultura pop e cultura erudita. Para mim não existem fronteiras no campo da cultura, nem da arte. Crise nas infinitas terras, Watchmam, Nirvana, Senhor dos Anéis e Platão podem estar no mesmo patamar. A diferença entre o hoje e o ontem é só a data.

- Qual a principal motivação para você iniciar um livro?

Meus livros começam quando meu pensamento transborda. Tem horas que eu acho que vou ficar doido se continuar a pensar sem parar, do modo como eu penso então vem a necessidade de escrever para que aquilo que eu trago na minha mente não me destrua.

- Existe alguma predileção entre as suas obras?

Adoro sempre a obra que eu estou fazendo no momento. Essa sempre a minha predileta. Parece namorada. A gente tem sempre que gostar da que tem; nunca ficar sofrendo pela que passou ou sonhando com uma outra que ainda não chegou, senão você não aproveita o bom do amor (risos).

- O que é necessário para a filosofia ter maior visibilidade em nosso país?

Acho que ela já está popularizando-se. Mas a filosofia hoje é um produto do universo da leitura, é preciso ensinar os brasileiros a arte da leitura. Se o brasileiro aprender a ler o mundo vai ser sacudido por uma das mais espantosas revoluções da história.

- Qual o maior benefício ao jovem que desde cedo entra em contato com os estudos filosóficos?

Costumo a dizer que a filosofia é muito boa para concertar quem está desarrumado e desarrumar que está muito certinho (risos). Na verdade para mim a filosofia foi muito útil porque ela treinou meu pensamento, direcionou minha criatividade e fez com que minha linguagem ganhasse mais clareza. Isso é muito útil. Hoje eu pago as minhas contas com a minha linguagem e isso eu devo a filosofia.

- Na sua ótica, quais filósofos cujas concepções têm mais relevância para explicar a problemática atual?

Bem, depende um pouco do tipo de problemática, mas eu acho que alguns pensadores conseguiram entender muito bem o mundo em que nós vivemos e um deles, com certeza foi Karl Marx (que acertou em cheio no diagnóstico). Mas também há o Heidegger e o Nietzsche que parecem que pressentiram o nosso tempo como poucos pensadores já o fizeram.

Revista Brouhaha

 

 

Entrevista – Pablo Capistrano

1)    Alguns filósofos, como por exemplo Martin Heidegger, estudam poetas e a poesia como dado fecundo para a reflexão filosófica. É à poesia, como o faz Heidegger, que se atribui, por excelência, um alcance gnosiológico. Você recentemente fez uma palestra no Café Filosófico sobre “Filosofia e poesia na visão do realismo lingüístico de Martin Heidegger”. Qual o ponto de contato entre poesia e filosofia?

Bem essa é uma pergunta ampla, às vezes a filosofia busca se firmar como um discurso “alternativo” ao verbo do poeta (entendido na antiguidade como um rapsodo, misto de cantor, sacerdote e professor), mas ela apresenta momentos de grande aproximação como nos textos de Parmenides, Platão (com os usos das alegorias) ou mesmo Nietzsche. Para Heidegger, por exemplo, especialmente nas suas conferências dos anos cinqüenta, a poesia aparece como uma solução para a crise que a filosofia entrou a partir da revolução cientifica do século XVI e XVII. Heidegger propunha uma virada da filosofia na direção da poesia, para que a poesia pudesse enxertar novamente o vigor perdido no discurso filosófico.

2)    Você fez parte do grupo cultural “Sótão 277”, que teve reconhecida atuação na cena artística local, na primeira metade da década de 90. Me parece que ele revelou novos talentos, da mesma forma que o movimento da geração mimeógrafo ou geração alternativa natalense já havia projetado outros nomes no final dos anos 70 e início dos anos 80. Você concorda com essa comparação? Qual era a proposta do Sótão 277 e os nomes que o compunham?

Acho que o Sótão teve diferenças fundamentais em relação à chamada geração mimeógrafo. Nós não sofríamos de uma ansiedade em relação a alta cultura, a cultura erudita, apesar da tentativa de chacoalhar e chocar a província, juntávamos sem muita culpa referenciais da cultura Pop (quadrinhos, rock, cinema) com Sheley, Goethe e Kafka. Mas o Sótão não foi um “movimento”, foi apenas um grupo de jovens que tentavam encontrar caminhos próprios para escoar a própria produção. Nisso acho que há semelhanças. Tanto essa geração quando a dos anos setenta foram embaladas pelo espírito Punk (“Do It Yourself” e coisas do gênero). Mas nós entramos no mundo das publicações alternativas  pelos fanzines de rock e de quadrinhos e só depois é que fomos saber o que acontecia na literatura brasileira nos anos 70.

3)    Qual a influência do trabalho artístico do seu pai, poeta Franklin Capistrano, no seu trabalho como escritor?

A influência do meu pai foi total no que diz respeito ao meu gosto pela literatura. Cresci vendo meu pai publicar textos, produzir jornais, peças de teatro e discutindo literatura com Falves Silva, Anchieta Fernandes e Carlos Furtado. Então não há como ficar imune a isso. Mas do ponto de vista do estilo acho que acabei seguindo caminhos diferentes, para não me sufocar com a angústia da influência, que o Harold Bloom psicanalizou tão bem.

4)    Você concorda com a tese de que existem dois grandes tipos de poesia: um mais hermético e outro mais acessível ao grande público?

Não sei se há uma distinção desse tipo.  Acho que muito daquilo que hoje se considera hermético em poesia pode ter sido popular no período em que foi publicado. Shakespeare pode ser considerado hoje erudito, mas na sua época, é bom lembrar, ele usava termos populares no meio de suas obras. Acho que essa é mais uma condição do leitor e da linguagem do que um dado intrínseco do autor.

5)    Como você analisa a questão da oralidade e da visualidade na poesia contemporânea?

Acho que essa é a grande questão da poesia desde de sempre. A origem fundamental de toda poesia é oral, uma ligação montada entre o verbo e o som, entre a melodia e o sentido. Ela nasce como canção e à medida que a escrita vai sendo introduzida nas mais diversas culturas ela vai se “visualizando”. No caso das vanguardas brasileiras dos 50 e 60 o aspecto visual parece que tomou um ponto de destaque. Era o tipo de poema que afundava no aspecto gráfico, porque a palavra escrita deixa a mostra à base signica que compõem a linguagem. È uma tentativa de desencantá-la, de desmistifica-la, fazendo com que sua “verdade natureza” se revele (uma pretensão bem metafísica, diga-se de passagem).  Por outro lado os beatniks, na mesma época, procuravam aproximar a poesia do som do jazz, tentando recuperar seu encantamento perdido e fazer sua revolução na idéia de recital e performance. Devolver ao poema o vigor da voz. Dois aspectos de um conflito de 6000 anos.

LINKS PARA OUTRAS ENTREVISTAS

http://www.disruptores.com.br/?tag=pablo-capistrano

http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=977857&tit=O-desejo-de-ser-livre-no-pais-do-abismo-social

http://internetcidade.wordpress.com/?s=pablo+capistrano

2007 ® Pablo Capistrano

dz3