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	<title>Pablo Capistrano //////////////</title>
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		<title>Tempo de eleição</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Feb 2012 17:43:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Capistrano</dc:creator>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>

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		<description><![CDATA[Minha mulher sempre diz que quando chega o tempo de eleição eu fico ansioso. O fato é que, apesar de ter nascido em 1974 (num tempo sombrio de ditadura) uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Minha mulher sempre diz que quando chega o tempo de eleição eu fico ansioso. O fato é que, apesar de ter nascido em 1974 (num tempo sombrio de ditadura) uma parte muito substancial de minha vida se deu diante de um palanque (material ou eletrônico).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A primeira eleição de que me lembro foi a de 1982. Um ano marcante, em que meu pai e meus tios se vestiram de verde para seguir Aluísio Alves (na época catalizador das ansiedades democráticas dos potiguares) em sua peleja heroica contra o então jovem José Agripino (representante do maior partido brasileiro, o partido do governo).</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Depois disso fui arrastado para o mundo das eleições. A de Garibaldi para prefeito de Natal em 1984 e a de Geraldo em 1986 ainda tinham algo de romântico, de mitológico, de arquetípico. Parecia, naquela época, que votar era, zoroastreanamente, tomar partido em um dos lados da luta cósmica do bem contra o mal. Depois veio 1989, e a catarse afetiva que foi a campanha de um Lula utópico até que chegamos em 1990, ano em que meu tio Antônio Capistrano se elegeu Deputado Estadual. Tudo mudou naquela eleição. Aluísio Alves apoiou Lavoisier Maia, e eu comecei a perceber que, no complexo mundo da política, as velhas dicotomias maniqueístas, que separavam luz e trevas, pareciam não encontrar morada.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A política, amigo velho, se desdobra todo dia, nos salões, nos corredores, nas ruas, nas redes sociais. Ela é uma ferramenta constante que martela à fogo baixo as relações pessoais. Ela pode ser grande, como a política das nações, com suas manobras diplomáticas, suas intermináveis conferências, viagens e declarações presidenciais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ela pode ser minúscula, como aquela que move a dinâmica das pequenas repartições públicas, com suas salinhas de três birôs e seus cargos comissionados de 700 reais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É no fluxo dessas relações cotidianas que a política vai construindo suas tramas, articulando suas redes e formando as bases para que, na época da eleição, tudo se exponha no confronto dos candidatos e de seus apoiadores, em busca do voto sonolento daqueles que se põe confortavelmente a margem das construções pré-eleitorais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Eleições são assim. Elas expõem o que há de mais grandioso e o que há de mais medíocre e ridículo no mundo da política.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse ano, minha ansiedade eleitoral começou cedo. Dia primeiro de fevereiro encerrou-se, no IFRN, a menor campanha da história das modernas democracias ocidentais. Tivemos mais ou menos oito dias para vivenciar as delícias e as misérias do tempo eleitoral e votamos para referendar (ou não) nossos diretores gerais e nosso reitor.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Mesmo com esse prazo cômico, que parece ter sido extraído de uma novela de Dias Gomes; mesmo na política minúscula de nossas repartições públicas, mesmo nos corredores de nossas escolas, ao pé do ouvido dos alunos e dos servidores, já deu pra sentir o gostinho desse ano eleitoral.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Sou um bicho político, amigo velho. Gosto desse fuxico. Espero não estar vivo para ver o tempo em que as eleições acabem, porque é sempre bom olhar a política em sua aventura de se expor, mesmo que ela seja assim, como a política desse Rio Grande do Norte de coronéis e jabutis.</p>
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		<title>Democracia: um risco necessário</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 17:23:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Capistrano</dc:creator>
				<category><![CDATA[Blog]]></category>

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		<description><![CDATA[Walt Whitman, o profeta das modernas ordens democráticas, poetizou um dia: “resisto melhor a tudo que não seja minha própria diversidade”. &#160; Hoje, amigo velho, as escolas cantam a canção [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Walt Whitman, o profeta das modernas ordens democráticas, poetizou um dia: “resisto melhor a tudo que não seja minha própria diversidade”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hoje, amigo velho, as escolas cantam a canção da diversidade e da cidadania em seus projetos políticos pedagógicos. Nossas escolas estão antenadas, pelo menos nas escrituras que as regem e nas fundamentações teóricas que as instauram, com um tipo de ordem democrática muito semelhante àquela que Whitman vislumbrou no século XIX em pleno entusiasmo maníaco de seu alumbramento poético.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O grande problema é que uma escola não se faz com leis, regulamentações ou tratados de intensões. São as práticas, amigo velho, que constituem uma escola. É sua disposição geométrica, seu modo de se apropriar do tempo dos outros, suas sirenes, seus “bimestres”, suas reuniões pedagógicas, suas cadernetas preenchidas de notas e seus “conteúdos de aula” (como se uma aula não fosse essencialmente forma). São suas coordenações, seu planejamento orçamentário, seus conselhos de classe, seus cargos comissionados. É tudo isso que constitui aquilo que alguém chamou um dia de “processo de ensino-aprendizagem”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É cruel, amigo velho, que se fale a um professor que ele é obrigado a “ensinar cidadania” a seus alunos, quando a escola em que trabalha não pratica a democracia. Quando as reuniões de gestão são fechadas, quando a comunidade não participa dos conselhos, quando os alunos não tem voz nas reuniões pedagógicas, quando os cargos em comissão não são eleitos e continuam a serem tratados como “cargos de confiança” como se fossem propriedade dos diretores e não da comunidade que os sustenta.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não é possível “ensinar cidadania” onde a democracia não é praticada. Não é possível “trabalhar a diversidade com os alunos” em ambientes nos quais as deliberações de gestão não são transparentes, públicas, coletivas, plurais.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>É uma tortura que se apresente aos professores das humanidades a tarefa de transmutar a alma dos alunos e torná-los cidadãos, se a lógica que fundamenta a escola brasileira ainda for excludente e aristocrática. Não há sortilégio filosófico, nem malabarismo sociológico que permita um milagre alquímico desta magnitude.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Esse é um dos mais constrangedores impasses da escola burguesa que nasce no século XVI e chega a esse século XXI com as mesmas carteiras postas em fila, com o mesmo quadro branco (ou negro), com o mesmo retrato três por quatro na ficha (agora digitalizada) do aluno, com as mesmas marcas de tinta vermelha nos boletins em notas de zero à dez.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A náusea da escola brasileira é de saber-se detentora de uma tarefa para qual não foi pensada. Nosso desconforto, amigo velho, é o de sentir que nenhum aluno vai acreditar no velho professor que recita Whitman na sala de aula, se a escola pública e gratuita em que ele estuda não for gerenciada pela comunidade para a qual foi criada.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como dizia a poesia do velho Tio Walt na tradução de Bruno Gambarotto: “Sou de toda cor e casta, de toda religião ou classe, fazendeiro, artesão, artista, cavalheiro, marinheiro, amante, quacre, prisioneiro, rufião, baderneiro, advogado, médico, padre”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Resisto melhor a tudo que não seja a minha própria diversidade.<strong></strong></p>
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		<title>Adeus à Emanuel Lévinas</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Jan 2012 17:21:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Capistrano</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esvaziando a estante]]></category>

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		<description><![CDATA[“Deve ser muito embaraçoso ser ateu e materialista e ainda sim falar português”. Essa talvez seja a mais evidente conclusão que a gente chega quando lê Adeus a Emmanuel Lévinas. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.pablocapistrano.com.br/2012/01/23/adeus-a-emanuel-levinas/general-image/" rel="attachment wp-att-1675"><img class="aligncenter size-full wp-image-1675" title="General Image" src="http://www.pablocapistrano.com.br/wp-content/uploads/2012/01/Adeus-a-emanuel-Lévinas.jpg" alt="" width="250" height="250" /></a></p>
<p>“Deve ser muito embaraçoso ser ateu e materialista e ainda sim falar português”. Essa talvez seja a mais evidente conclusão que a gente chega quando lê Adeus a Emmanuel Lévinas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O livro é formado pelo discurso pronunciado por Jaques Derrida, no cemitério de Pantin, no dia 27 de Dezembro de 1995, por ocasião da morte de Lévinas; junto com o texto “A Palavra Acolhimento” lido pelo próprio Derrida, um ano depois da morte do amigo em um encontro acadêmico.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Não se trata apenas de um elogio fúnebre de um dos maiores pensadores judeus do século XX para outro igualmente grande pensador judeu. Filósofos também aproveitam a hora da morte para praticar o seu esporte preferido, que é o de levar o pensamento a seus limites, sempre que algo ou alguém oferece uma abertura para que a imaginação e a linguagem possam se libertar de suas cadeias cotidianas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Por isso Derrida pensa a palavra a-Deus, com todo o constrangimento que ela contém.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Como é possível, diante da morte de um amigo, dizer “até logo”, quando se assume a crença metafísica de que só há esse mundo, de que só temos essa vida, de que só há essa experiência radical de existir? E como dizer “a-Deus” se essa despedida definitiva, em nossas línguas neo-latinas, implica o traço de uma entrega, de um abandonar, de um direcionar o morto a um Deus em que não se acredita?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Derrida escreve: “Antes e para além da ‘existência’ de Deus, fora de sua provável improbabilidade, até no ateísmo mais vigilante, senão no mais desesperado, o ‘mais sóbrio’, o dizer a-Deus significaria essa hospitalidade”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Hospitalidade, recolhimento, entrega. Despedir-se é de um modo ou de outro apostar nessa entrega, nessa hospitalidade, nesse acolhimento. Saber-se estranho nesse mundo, estrangeiro nessa terra, exilado nesse tempo. A gente entrega a-Deus os nossos mortos porque não há como fugir do paradoxo de que o definitivo é sempre um campo de morada, um lugar para se estar, um espaço de pertencimento.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pela epifania dos rostos humanos, o sujeito que pensa e fala, que anda pelo mundo como se tivesse uma seiva, como se carregasse uma luz, como se fosse um mistério do mundo em sua irredutível complexidade, é sempre um hóspede. Sempre um passageiro que atravessa a vida com o ritmo das estações, com a marcação dos momentos.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O tempo das nossas palavras é muito estranho, amigo velho, para que a gente possa sonhar em com um sistema que nos liberte de Deus. Ele anda conosco, mesmo por entre as brechas das palavras que nós usamos quando tentamos escapar da Sua presença.</p>
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		<title>Todos os cachorros são azuis</title>
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		<pubDate>Mon, 09 Jan 2012 18:20:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Capistrano</dc:creator>
				<category><![CDATA[Esvaziando a estante]]></category>

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		<description><![CDATA[&#160; LIVRO: TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS AUTOR: Rodrigo de Souza Leão EDITORA: 7 Letras ANO: 2008 &#160; Dizem (acho que foi Nietzsche quem escreveu isso) que a arte existe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.pablocapistrano.com.br/2012/01/09/todos-os-cachorros-sao-azuis/todos_os_cachorros_sao_azuis/" rel="attachment wp-att-1668"><img class="aligncenter size-full wp-image-1668" title="todos_os_cachorros_sao_azuis" src="http://www.pablocapistrano.com.br/wp-content/uploads/2012/01/todos_os_cachorros_sao_azuis.jpg" alt="" width="227" height="340" /></a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>LIVRO: TODOS OS CACHORROS SÃO AZUIS</strong></p>
<p><strong>AUTOR: Rodrigo de Souza Leão</strong></p>
<p><strong>EDITORA: 7 Letras</strong></p>
<p><strong>ANO: 2008</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Dizem (acho que foi Nietzsche quem escreveu isso) que a arte existe para que a verdade não nos destrua. E de todas as verdades, algumas são muito dolorosas para serem suportadas. Há verdade da morte, a verdade da injustiça fundamental da natureza, a verdade do tempo, a verdade da doença.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Quando a doença afeta a mente, essa verdade parece que se torna mais terrível, porque o doente acaba se misturando com a própria doença que o atormenta.  Não sei se você já notou isso, amigo velho, mas há uma dimensão ontológica desconcertante na doença mental. Uma dimensão que afeta as próprias fronteiras do Eu.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A estabilidade do mundo, talvez seja a consequência mais palpável da arquitetura de nossa linguagem, que cria um padrão estável em forma de rede onde o cotidiano das coisas pode ser enquadrado para que nós, humanos ditos normais, possamos construir nossas aventuras.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Talvez por isso, a leitura do livro <em>Todos os Cachorros são Azuis</em>, de Rodrigo de Souza Leão seja tão desconcertante.  Não se trata de um simples relato de um paciente psiquiátrico, diagnosticado com esquizofrenia. A doença não é a única culpada pelo livro de Rodrigo. Ela pode até ser uma desculpa necessária para encaixar seu texto em um diagnóstico que escape ao da crítica literária, mas não é suficiente para dar conta da estranha sensação que nós, leitores acostumados a linearidade da prosa dos “normais”, temos ao sermos tragados por uma narrativa que não obedece a um padrão de causa e efeito. Uma narrativa que não funciona no mesmo e neurótico tempo que formata a nossa experiência de mundo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Outros autores no século XX já experimentaram a fragmentação da linguagem, desde André Betron com sua escrita automática surrealista até os Cut Ups de William Burroughs, ou mesmo o fluxo semiótico de Joyce em Finnegans Wake e Paulo Leminski em <em>O Catatau</em>. Mas, em todos esses autores, a loucura da linguagem funciona a partir de um substrato ontológico que ainda vincula o verbo dos caras ao tempo do mundo. Existe um mundo antes da linguagem desses autores. Ele está lá para ser destruído por alguma técnica poética particular.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Rodrigo, por sua vez, não precisa de técnicas para saltar fora da Matrix. Ele já ultrapassou a fronteira, já está do outro lado da rede e o seu mundo, que nos é apresentado em frases marteladas, curtas, sobrepostas; surpreendentemente não nos sufoca em um buraco sintático qualquer. O texto de Rodrigo nos arrasta em seu fluxo descompassado, como se, de repente fossemos pegos despreparados diante de um paradoxo.  A verdade da doença que esfarela a linguagem e decompõe as fronteiras entre o que é do Outro e o que é do Eu, não consegue destruir a deliciosa sensação de estarmos diante de uma obra de literatura.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O que não tem causa nem efeito, o que anda fora do tempo, o que interrompe a sequencia usual de nossas realidades, não nos aborrece, não nos enfada, não nos massacra com a verdade terrível de seus assombros.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O verbo de Rodrigo, a despeito do seu diagnóstico, da sua classificação psiquiátrica, do seu tormento particular, nos faz lembrar que existe um mistério na linguagem. Um segredo particular que deve ter, em cifras e signos submersos, sido repassado pelas gerações de poetas, em suas conversas com os mortos. Um maravilhoso desconcerto da linguagem, que nos fisga, a despeito da força destrutiva das verdades do mundo. Que piedosamente nos liberta de nossas verdades, para que a literatura faça seu serviço.</p>
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		<title>Religião Urbana I</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Jan 2012 13:29:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pablo Capistrano</dc:creator>
				<category><![CDATA[Hiperacústica]]></category>

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		<description><![CDATA[Não lembro qual foi a primeira vez que eu ouvi uma música da Legião Urbana, mas lembro bem quando foi que a primeira música da Legião bateu em mim. Foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.pablocapistrano.com.br/2012/01/03/religiao-urbana-i-2/legiao-urbana19852-2/" rel="attachment wp-att-1661"><img class="aligncenter size-full wp-image-1661" title="Legião Urbana1985[2]" src="http://www.pablocapistrano.com.br/wp-content/uploads/2012/01/Legião-Urbana198521.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a></p>
<p><span style="font-family: Calibri;">Não lembro qual foi a primeira vez que eu ouvi uma música da Legião Urbana, mas lembro bem quando foi que a primeira música da Legião bateu em mim. Foi numa tarde de meio de semana de 1985, quando eu voltava da escola com meu pai ao volante. Estávamos subindo o viaduto de Ponta Negra para pegar o retorno do Nordestão de Cidade Jardim, bairro onde eu morava na época, quando, subitamente, na rádio, começaram a soar os primeiros acordes de Geração Coca Cola.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Calibri;">Naquela época eu não sabia, mas o disco “Legião Urbana Um”, assim como o Dois que iria chegar nas lojas de Natal um ano depois, era marcado profundamente pela sonoridade do Joy Division (banda que eu só iria conhecer em 1991) e Smiths. Muitas das músicas dos primeiros discos da Legião são praticamente cópias de canções do Joy, Smiths, Cure ou do U2 do tempo de <em>October, Boy </em>e <em>War</em>. Mas havia alguma coisa diferente naquela banda. Algo que a destacava do lugar comum da Música brasileira daqueles anos. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Calibri;">Eu, que tinha sido criado ao som de Hendrix, Joplin e Stones, ícones da geração de Dona Socorro (minha mãe); embalado no berço enquanto Sargent Peppers rolava na vitrola da sala de música, não tinha ainda encontrado, nos compositores da geração 68, alguém que pudesse traduzir minhas sensações estranhas e que, por algum poder xamânico, pudesse arrancar da minha boca as palavras que eu queria gritar, mas não sabia como. Renato tinha essa capacidade, quase mediúnica, quase telepática, de catalisar as ansiedades daqueles tempos e transmitir isso em uma forma poética, ao mesmo tempo punk e lírica, como Ian Curtis, Morrisey ou Michael Stipe lá no hemisfério norte. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Calibri;">Rapidamente eu grudei no disco. A minha predileta sempre foi <em>Baader-Meinhof Blues</em>, outra canção que traz a marca explosiva do Joy Division, com uma letra que fala sobre violência e solidão urbana. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Calibri;">Mas se o disco Um já havia sido uma paulada, o Dois foi de uma intensidade desconcertante.  Não dá pra saber qual daquelas músicas fazia mais sentido pra nós. O Dois chegou nas lojas no ano em que meus pais se separaram e que eu tive, muito em função disso, minha primeira grande experiência de morte. Não consigo apontar com clareza qual das músicas do Dois era a minha predileta. Mas lembro que elas invadiram as festinhas de sábado no bairro do Mirassol (Zona Sul de Natal) com uma força hipnótica. Bem no meio do forró (que na época a turma chamava de brega) alguém chegava e colocava o Lp de capa cor de terra e a meninada sub dezesseis começava a pular na sala, cantando com uma fúria quase sem sentido, cada uma das palavras que saia da boca de Renato.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Calibri;">Mesmo quando em 1987 apareceu <em>Que Pais É Esse</em>, trazendo as sobras do tempo punk do aborto elétrico e das viagens dylanescas de Russo não havia traço de anacronismo no LP. Nossos ouvidos captavam e atualizavam o eco catártico, profético, equalizador de uma raiva que a gente não sabia de onde vinha e não tinha muito bem aonde botar.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Calibri;">Era o sentimento de uma geração enganada por uma revolução que não aconteceu, mortificada pela falta de esperança em um país que não vingou, desiludida com um sistema que havia caducado e perdida na solidão dos lares desfeitos. Havia uma mentira fundamental no ar. A mentira da família feliz, do governo democrático, da ordem e do progresso. Uma mentira que todo mundo com menos de vinte e um anos em 1985 sabia que estava por ali, nos rondando. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-family: Calibri;">Era essa mentira do mundo, que a Legião desvelava, rasgando o tecido da mesmice poética, preparando o terreno para que minha geração pudesse assistir, em um misto de assombro e fascinação as verdades daquilo que nunca se esconde e, por isso mesmo, não poderia permanecer mais tempo oculto.</span></p>
<p><a href="http://www.pablocapistrano.com.br/2012/01/03/religiao-urbana-i-2/legiao-urbana19852/" rel="attachment wp-att-1660"><img class="aligncenter size-full wp-image-1660" title="Legião Urbana1985[2]" src="http://www.pablocapistrano.com.br/wp-content/uploads/2012/01/Legião-Urbana19852.jpg" alt="" width="300" height="300" /></a></p>
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