07 nov
A crise e o surto
- 07 de novembro de 2011, as 13h13
Semana passada o mundo assistiu meio abestalhadamente mais um capÃtulo da nova crise mundial do capitalismo. O premiê grego anunciou que convocaria um referendo para consultar sua população sobre a aceitação ou não de um pacote fiscal para “salvar a Grécia do calote†e mantê-la na zona do Euro. Antes da semana acabar ele voltou atrás, pressionado pelos governos da França e da Alemanha,  acossado pela fúria desesperada dos mercados.
O que é mais sintomático dessa história é que agora a crise começa a pôr em questão mais um dos pilares de sustentação da ordem liberal: a fé na democracia.
Quando um referendo, instrumento de democracia direta, usado como mecanismo de consulta pública pelos governos que precisam de apoio popular para propor reformas polêmicas, se torna um problema, há um indicio desconcertante de um perigoso descolamento, que separa a estrutura econômica e a ordem polÃtica.
Se compararmos antigas turbulências nos mercados como 1873 ou 1929, o que se torna muito evidente na tormenta global dessa época é que nosso sistema padece hoje de um sintomático transcendentalismo de mercado. Um descolamento do sistema financeiro do mundo real da economia que fez com que alguns teóricos já passem a chamar o atual estado da economia global de “capitalismo com dominância financeiraâ€.
Entre 2003 e 2007, por exemplo, os CDS (Credit Default Swaps), formas de seguro em caso de inadimplência de créditos bancários de alto risco norte americanos passaram de 2,2 trilhões de dólares para 54,6 trilhões. Os ativos financeiros do planeta atingiram, em 2008, 600 trilhões de dólares, dez vezes mais do que a soma de toda riqueza real do planeta (estimada naquele ano em 60 trilhões) conforme dados do Le Monde Diplomatique.
Ao contrario de 1873 e 1929, a crise hoje marca um momento em que todos os recantos do planeta estão vinculados, direta ou indiretamente, aos tais mercados. Hoje, vivemos em um mundo em que o dinheiro passou a ser a mais rentável mercadoria, um mundo no qual se ganha mais dinheiro vendendo dinheiro do que produzindo bens de consumo, um mundo no qual os estados nacionais não tem mais como sustentar suas polÃticas econômicas e que os governos não conseguem ministrar tratamento ambulatorial para o surto desses mercados.
Se a confiança uma suposta crença hegemônica na racionalidade do mercado ruiu em 2008, o que parece que ameaça ruir agora, a julgar pelo modo como as decisões econômicas estão postas na Europa, é a crença na funcionalidade da democracia.
Pois é amigo velho, quando os mercados se tornam maiores do que os Estados e a democracia, que antes justificava o sistema econômico, se torna um problema a sensação é de que aquilo que é crise está, a passos rápidos, se transformando em surto. Um longo surto planetário, capaz de desmascarar as mais cômodas fantasias polÃticas, como aquela que diz que o poder é feito pelo povo, para o povo, a partir do povo.
