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07 nov

deus palhaço

  • Pablo Capistrano
  • 07 de novembro de 2019, as 13h13

deus é artesão

trabalha com barro

 

sim

eu sei

ele morreu

nós o matamos

 

mas sua sombra

coloniza

qualquer mundo

que a gente tente construir

 

deus é farmacêutico

cura a doença

no deserto de sentidos

da humanidade

 

mas usa seu veneno

pra incrementar o balé louco

das deformidades

 

 

deus é um palhaço

que ri sem motivo

da armadilha que caiu

ao ter nos criado

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  • Pablo Capistrano
  • 31 de outubro de 2019, as 12h12

Existem duas hipóteses, que não são excludentes, para explicar o caos permanente em que o presidente  brasileiro e sua família mantém o governo e o país.

 

 

Depois de postar um vídeo em que se compara a um leão cercado de hienas e fazer uma live na internet em meio a um surto histérico, o Seu Jair vê o filho Eduardo ameaçar a nação com um “Novo AI 5” caso o povo resolva demonstrar qualquer tipo de descontentamento nas ruas, como ocorre no Chile, Equador, Haiti, Hong Kong e por ai vai…

 

 

A primeira hipótese é que esse comportamento, como indica o jornalista Gilberto Dimenstein e o jornal britânico Financial Times, seria o sinal de que o presidente tem algum tipo não diagnosticado de transtorno mental. Talvez, até quem sabe, uma esquizofrenia paranoide em estado latente.

 

 

A segunda hipótese, é que todo esse furdunço político permanente em que é posto o país pela família presidencial, seja apenas uma estratégia de sobrevivência política.

 

 

No que diz respeito a essa segunda hipótese, não há o que se esconder: a proposta do bolso-olavismo é mesmo a de um golpe que permita que a família do presidente governe o país do único modo que sabe (como toda gangue miliciana faz nos territórios que controla): com base na coerção, violência e terror.

 

 

Afinal, o presidente já demonstrou que não tem a mímina capacidade de governar um país de 200 milhões de pessoas em um ambiente democrático.

 

 

Caso a primeira hipótese (a do simples e puro transtorno mental) prevaleça, estaríamos, então, diante de uma figura clássica do tirano, como descreve Platão na República.

 

 

Isso fica evidente se deixarmos claro que, do ponto de vista da filosofia política ocidental, há uma diferença fundamental entre um ditador e um tirano.

 

 

O tirano, segundo Platão, não é simplesmente alguém que tenha poder de vida e morte sobre os cidadãos da cidade (como no caso de Cincinatus, o primeiro e mitológicoditactus romano). Um tirano é fundamentalmente alguém desequilibrado, que não tem condições de agir racionalmente e cede aos impulsos atávicos e irrascíveis que emanam das partes instintivas de sua própria alma perturbada.

 

Dessa maneira, o tirano age de modo a usar o poder que tem a partir de uma perspectiva de favorecimento pessoal, de si e dos seus, e leva sempre inexoravelmente a cidade que governa a um estado de decadência, desordem e, por fim, a guerra civil.

 

 

O tirano não se controla, não se contem, não se mantem lúcido. Ele age por impulso e só consegue sobreviver politicamente em meio ao caos e a desordem.

 

 

Um ditador é sempre um líder autoritário, mas nem sempre é um tirano. Ele pode ser  também um estadista que mantem uma certa racionalidade política e que tem convicções fortes sobre o que seria bom para todos, sendo capaz de manter alguma harmonia e coesão social, mesmo que pela força.

 

 

O tirano, mesmo que não tenha um poder absoluto, nunca consegue pensar como um estadista, agindo sempre  como um elemento de desordem, promovendo injustiça e caos no mundo da polis em função de seu próprio desequilíbrio psíquico.

 

 

Hitler, o sujeito que mais parece com Bolsonaro na história política moderna, ascendeu ao poder dando a impressão aos alemães que era um estadista, mesmo todos sabendo que era um ditador. No fim, mostrou-se um desequilibrado completo e conseguiu fazer, como bem observou Bertolt Brecht, com que a fina flor da burguesia berlinense, que o apoiou por medo dos comunistas, se prostituísse com os soldados russos e americanos, em troca de uma ou duas latas de salsichas.

 

 

Nesse ponto, Bolsonaro, ao contrário de Hitler, nunca enganou ninguém.

 

Tanto faz se foi por loucura ou estratégia, ele nunca escondeu de nenhum de seus eleitores sua alma de tirano.

 

Só não vê, quem não quer.

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  • Pablo Capistrano
  • 27 de outubro de 2019, as 14h14

Quando a barra pesou mesmo aqui pelo Brasil, depois do AI-5, era o Chile que parecia trazer esperança de que o cerco de chumbo na América Latina poderia ser enfrentado.

 

Por isso, todo filho de militante de esquerda, como eu, lembra na infância dos Vinis da “Nova Canção Chilena” a rodar na vitrola. Victor Jara, Violeta Parra, Inti Ilinami. Aprendi esses nomes ainda menino junto com a memória do que havia acontecido na América Latina, nos anos que antecederam meu nascimento, em 1974.

 

Talvez por essa ligação afetiva e acústica com o castelhano falado na cordilheira que eu tenha me empolgado tanto e passado o fim de semana escutando rádios de Santiago, no aplicativo “Radio Garden” do meu celular, para entender melhor o que está acontecendo na terra do meu xará, Pablo Neruda.

 

Muita gente está tecendo comparações entre o Chile de 2019 e o Brasil de 2013 e dizendo: “Olha, cuidado! Veja o que aconteceu aqui. Depois das Jornadas de Junho veio a antipolítica de Bolsonaro. Essas manifestações são autoritárias. É um erro a esquerda apoiar etc e tal.”

 

Sobre esse “alerta” dos amigos liberais é importante pontuar algumas coisas:

 

 

  1. Realmente há algumas semelhanças entre o Chile de 2019 e o Brasil de 2013. Há registros de casos em que militantes com as bandeiras do partido comunista chileno, por exemplo, foram hostilizados por gente que assume o discurso do “povo sem partido”, que aqui no Brasil descambou para a proposta fascista de um “presidente sem partido”, no melhor estilo totalitário de direita.
  2. Apesar disso há uma distinção que me parece evidente: o discurso moralista difuso da anti corrupção, que colou por aqui e fez as viúvas de 64 saírem do armário para emplacar sua versão distópica do #UstraVive na eleição de 2018; não parece ser o elemento central da grande manifestação de sexta passada, que levou mais de um milhão de chilenos para as praças de Santiago.
  3. Pelo contrário. O que parece ter movido as massas no Chile, foi fundamentalmente uma reação a perspectiva de um fechamento ditatorial do regime, na medida em que o presidente Piñera fez a besteira de convocar o exército para barbarizar o povo na rua, matar manifestantes, estuprar, saquear lojas e justificar a implantação de um toque de recolher e um estado de exceção constitucional que evocava a ação de Pinochet no dia 11 de Setembro de 1973.
  4. A reação do sistema político também é totalmente diferente. Se aqui o sistema se fechou para impedir que as mudanças ocorressem, derrubando uma presidente eleita num golpeachement tabajara e mantendo um outro presidente em um grande acordo nacional, com o supremo e com tudo; no Chile, Piñera pediu perdão ao povo do Chile, demitiu todo o corpo ministerial, mandou recolher o exército de volta para os quartéis, e acena com uma ação legislativa que mudaria o modelo econômico neo liberal que vigora desde o governo Pinochet.
  5. Por fim, o condicionamento feito pela narrativa lavajateira contra a “classe política”, retirando do centro da pauta de 2013 o elemento econômico, talvez não seja tão fácil de emplacar no Chile. Lá o inimigo está bem determinado: é a privatização generalizada dos serviços públicos, especialmente da água e da saúde, e a situação de abandono que muitos idosos se encontram depois que a promessa das maravilhas da previdência privada deram com os burros n´água.

 

 

No fim das contas, não sabemos o que vai acontecer no Chile.

 

Usar o Brasil como um contra exemplo pra esvaziar o apoio ao povo chileno não parece ser estrategicamente aconselhável para uma esquerda nacional que coleciona derrotas nos últimos anos.

 

Além do mais, é sempre bom lembrar que Hegel afirmava que os conteúdos não superados da história tendem a retornar e que Marx completava jocosamente lembrando que eles primeiro ocorrem como tragédia para depois retornar como farsa.

 

Se no caso do atual governo militar brasileiro parece que é esse mesmo o caso, no caso do Chile, ainda é muito cedo pra jogar fora a esperança e já apostar de antemão na desilusão.

 

Deixei-mos a cada dia o seu mal.

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  • Pablo Capistrano
  • 23 de outubro de 2019, as 14h14

No tempo em que eu era aluno da UFRN, o meu orientador, o professor Glenn Walter Erickson, vez ou outra dizia nos nossos encontros sobre filosofia política: “Pablo, todo marxista autêntico deveria apoiar as políticas neo liberais”. Diante do meu espanto, o professor justificava: “quanto mais perto do ultraliberalismo, mais perto da revolução”.

 

Faz todo o sentido.

 

Sem um Estado de bem estar social para servir de air bag contra a brutalidade da exploração do sistema, a vida se torna tão insuportável, que não restaria ao provo proletarizado nada, a não ser a correntes que o prendem, como dizia o velho mouro.

 

Na cartilha de todo marxista raiz, esse seria o momento ideal para que uma revolta social generalizada pudesse ser transformada em ação política revolucionária genuinamente transformadora.

 

Por isso mesmo, não há como fazer uma leitura do que está ocorrendo no Chile, Haiti, Líbano, Equador e China, sem colocar a noção de mal estar social sobre a mesa.

 

Depois de quase 40 anos de hegemonia do modelo Reagan-Tatcher, adotado por governos de “esquerda” e “direita”, a torto e a direito, em doses variadas mundo a fora, é preciso largar as caixinhas clássicas da ciência política liberal para se fazer qualquer análise minimamente eficaz de conjuntura global, nesses tempos perturbados.

 

Se na Santiago “liberal” 50% dos aposentados recebem menos de 700 reais por mês e a maioria dos cidadãos tem de se submeter a jornadas extenuantes de trabalho, com um brutal endividamento para manter os serviços básicos privatizados; no sul da China “comunista”  por sua vez, numa Hong Kong em que vivem 67 bilionários, 20% da população sobrevive abaixo da linha de pobreza, morando em gaiolas suspensas de 5 metros quadrados, destinadas a idosos em estado de miséria ou jovens trabalhadores precarizados que labutam em jornadas extenuantes de 16 horas diárias.

 

Por isso, amigo velho, quando você assistir na TV os analistas de plantão falarem em “protestos por mais democracia” ou mesmo  “ manifestações contra a classe política corrupta”, fiquem espertos, provavelmente você está sendo enganado.

 

Essas leituras não levam em conta o mal estar social de base que o modelo de capitalismo tardio tem gerado nas sociedades contemporâneas e explica muito pouco acerca da descrença atual com as instituições da democracia liberal.

 

Se por acaso se deparar com uma dessas leituras redutoras pelas redes sociais, com memes e figurinhas de watts app, saiba também que quando os masters of universe se reúnem no Bilderberg Club pra decidir os rumos do tecnocapitalismo com dominância financeira, eles não ficam perdendo tempo com generalizações ideológicas simplificadoras, como se estivessem lendo um livro didático de ciência política pro nível médio.  A discussão é bem mais sofisticada e complexa do que parece supor nossa vã ideologia.

 

De qualquer modo, não importa qual seja o remédio prescrito, o diagnóstico do problema me leva a crer que estados de rebelião social e repressão estatal serão cada vez mais comuns, constituindo o novo normal desse capitalismo tardio que parece arfejar, de crise em crise, em  busca de algum tipo de antibiótico que o cure de si mesmo.

 

E o Brasil nisso tudo?

 

Não se avexe não, amigo velho. Aposto que mais cedo ou mais tarde essa onda volta por aqui.

 

A boa e velha elite tupiniquim não se eximirá de manter seu insistente e teimoso cacoete de dar ao povo motivos mais do que suficientes para se rebelar.

2 Comentários
  • Pablo Capistrano
  • 27 de setembro de 2019, as 14h14

Uma das coisas positivas que a gente pode extrair dessa última semana de setembro de 2019, é que parece que há sinais de uma reação contra as monstruosidades que nos acostumamos ouvir pela esfera pública, nos últimos tempos.

 

A demissão de um comentarista Potiguar, que disse em uma rádio que a sueca Gretha Thunberg era uma  “vagabundinha histérica” que fazia greve e que “precisava de sexo”, mostra que ainda há limites morais para o discurso público.

 

Isso é um sinal auspicioso para os que combatem diuturnamente o bolsonarismo.

 

Afinal, uma das intenções desse movimento neo-fascista, que ameaça tomar conta do Brasil, é justamente a de explodir todos os limites da nossa moralidade discursiva, empurrando os limites da fala pública aos extremos.

 

As subjetividades autoritárias, alçadas a categoria de comentaristas políticos, ministros de Estado ou simples porta vozes ideológicos do novo governo, atuam, nesse sentido, meio que como clones digitais do presidente que elegeram.

 

Eles falam coisas monstruosas, agressivas, revoltantes e inadmissíveis. Destilam um tipo escatológico e brutal de retórica primitiva que, em circunstancias normais de temperatura democrática, seriam impensáveis de serem ditas em público sem uma forte reação da comunidade de falantes.

 

Quando fala, o bolsomínio típico, a espelho do seu “mito”, na verdade procura emitir aos demais seres humanos que partilham com ele da mesma esfera pública, uma mensagem de poder.

 

Quando nada acontece com o emissor desse tipo de monstruosidade retórica, quando não há reação moderadora por parte da comunidade de fala, o bolsomínio militante reforça para si e para os outros a mensagem: “Vejam como eu sou foda. Vejam como eu sou poderoso. Falo o que eu quiser. Sou superior a vocês. Posso tudo”.

 

Foi com  base nessa estratégia que o atual ocupante do palácio do Planalto fez toda sua carreira política.

Ser desagradável, monstruoso, irritante e completamente sem noção do que diz no exercício do cargo que ocupa, parece ser um pré-requisito essencial para fazer parte do governo Bolssonaro. Do ministro da economia ao da educação, todo mundo que se aproxima desse governo parece se esforçar para repetir o padrão do “mito” que escolheram como presidente.

 

Sim…. Claro, ofender mulheres é uma outra característica da turba.

 

Da primeira dama da França, passando por Fernanda Montenegro (nossa maior atriz e referência fundamental da cultura nacional) até a jovem sueca ativista do clima, a horda bolssonarista, por convicção, distúrbio ou simples malcaratismo, atua para corroer as bases mínimas de educação e bom senso discursivo, compartilhadas pela nossa moralidade pública.

 

Por isso, a reação que se seguiu aos comentários do advogado potiguar na 96 FM e depois na TV Tropical, foram tão importantes.

 

Reestabelecer a civilidade no discurso público no país, reconstruir as bases de um contrato social que nos permita reconstruir o diálogo e salvar o que resta da nossa parca democracia, implica reagir com veemência a esse tipo pilantragem fascistoide.

 

Essa é uma das inúmeras trincheiras que os que resistem a vaga autoritária precisam cavar para montar a tão falada resistência.

1 Comentário

2007 ® Pablo Capistrano

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