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  • Pablo Capistrano
  • 26 de setembro de 2011, as 6h06

 

Os trágicos, amigo velho, nos ensinaram que a vida é um drama que se desenrola em condições muito desfavoráveis. Nascemos sem saber o porquê de termos vindo ao mundo. Estamos soltos neste planeta hostil, a mercê do destino e do acaso, com o chão sobe nossos pés o céu amplo e vazio sobre nossas cabeças. Não sabemos quando vamos sair deste mundo, mas temos a certeza que nosso tempo é limitado e que precisamos fazer logo aquilo para o qual fomos destinados, se é que há algum sentido predeterminado para a nossa existência.

 

 

O sentimento trágico do mundo é o sentimento de um fluxo, de um contínuo, em que passado, presente e futuro se sobrepõe e se sucedem, em uma linearidade marcada pela temporalidade.

 

 

 

Se a vida é um drama, ela é um drama do tempo. Se ela é trágica, é a tragédia desse intervalo, dessa falta de significado que ocupa o espaço entre o nascimento e a morte.

 

 

Para alguns, o tempo da humanidade é o tempo da tragédia. Para os europeus, os gregos, os alemães, a tragédia é a mãe da humanidade. Mas, nesses tempos de violência sombria, de surto coletivo, de ansiedade que antecipa as grandes conflagrações, não é auspicioso imolar a humanidade no altar da tragédia.

 

O poético é o maior antidoto para o trágico.

 

 

Se o bode expiatório do drama é o homem lançado no tempo, imerso no fluxo da vida que o leva sem pausa ou negociação do passado desconhecido para o futuro incerto, no poético a linguagem emerge no absoluto agora, no presente total, na eternidade de todos os instantes.

 

 

Quando a gente mete o lírico no meio da tragédia, o peso da condição humana ganha o arejamento do instante. A linguagem se liberta de sua obsessão narrativa e a gente não precisa mais se comprometer com o antes e com o depois. Não temos mais futuro, não temos mais passado. Estamos imersos, boiando no mar da eternidade, no fluxo sem curso definido, sem linha determinada que nos leva a um lugar ou outro.

 

 

Toda linguagem que nos põe na direção de alguma coisa é trágica. Toda a vida que se estrutura para um futuro projetado é parte de uma longa e dramática construção de um narrador trágico, que quer nos prender a velha e densa linha da vida e da morte. Do berço ao túmulo, em um curso rígido, que nos empurra em uma única e exclusiva direção, como se fossemos personagens de um romance cósmico escrito por um demiurgo do mal.

 

A poesia nos liberta porque ela nos leva a perceber o momento, o instante, o agora em um arrebatamento de eternidade que contamina o espaço e que transborda pelas bordas do tempo. É o místico, o sagrado, o absoluto, o particular, o que transgride as fronteiras, o que distorce a consciência, o que entrega o pensamento, em toda a solidão de seus afetos ocultos, na bandeja infinita das possibilidades humanas.

 

Dê um tempo na sua tragédia particular, amigo velho. Tome uma dose de poesia e segure o infinito na palma da tua mão e que a eternidade aparece pra você na densidade solar de um inexpugnável segundo.

7 Comentários
  • Pablo Capistrano
  • 18 de setembro de 2011, as 7h07

Esse começo de mês a humanidade foi varrida pela onda midiática que nos fez lembrar dos dez anos do 11 de Setembro norte americano. Combatido pela contra informação de esquerda pela lembrança de outro 11 de Setembro (de 1973) que marcou o fim do governo popular chileno de Salvador Allende. Eu, amigo velho, me lembrei de uma curiosa tese, extraída através de algum malabarismo hermenêutico da metafísica do velho Hegel, sobre o fim da história.

Foi um tal de Fukuyama, que apareceu repentinamente no cenário intelectual de fim de milênio pregando um suposto “fim da história” logo após a queda do muro  de Berlim (o 11 de Setembro do socialismo real).

O fato é que a história não parece ter um fim (termino) ou mesmo um sentido (fim). Se a gente pensa que as coisas estão completas, firmes, inteiras, se a gente acha que tudo vai ser do jeito que foi antes, se achamos que nada vai mudar e que tudo já foi feito, eis que aparece a inquietante novidade da história surpreendendo aqueles que não são muito ligados nas sutilezas irregulares de seu fluxo.

O 11 de Setembro dos norte americanos aconteceu desse jeito. Quando todos acreditavam que o mundo ia se afogar no tédio do pensamento único, da absoluta falta de alternativa que se seguiu ao colapso dos regimes comunistas, acontece algo inesperado e a segunda grande experiência geopolítica da modernidade, travestida no liberalismo anglo-americano teve seu grande escorregão.

O 11 de Setembro de 2011 não derrubou apenas as torres do Word Trade Center. Aqueles aviões levaram junto com as almas dos mortos, incinerados pela força catastrófica do colapso das torres gêmeas, a máscara do discurso que alimenta a ideologia liberal.

Embalados pela fobia histérica que se seguiu aos atentados terroristas, os ocidentais jogaram na latrina os cuidados em disfarçar o desrespeito aos tão propalados direitos humanos e as liberdades democráticas. Dez anos depois do 11 de Setembro o a história mostrou mais uma de suas irônicas guinadas.

Hoje, são os povos do oriente médio, pelas primaveras árabes que se alastram, do norte da Àfrica à península arábica, que soterram as teses acadêmicas formatadas a serviço das mitologias políticas de plantão. A noção de que os “orientais” seriam intrinsecamente intolerantes e totalitários e que não poderiam construir, de dentro pra fora, os mecanismos que fundamentariam uma ordem democrática burguesa começou a ruir com as manifestações de rua na Tunísia, no Cairo, na Líbia, na Síria.

O velho modelo franco-americano da revolução popular não é uma exclusividade cultural do ocidente. Ele também pode nascer em meio às flores do deserto, no norte de uma África berbere, morena, mulçumana.

Os mesmos personagens, que há dez anos, foram tratados como os representantes de uma religião medieval e de uma cultura obscura e violenta que ameaçava fazer o mundo retroceder para o século X, são aqueles que hoje ensinam a uma terra vazia de utopias o modo de se viver e se morrer pela liberdade. Dez 11 de Setembros depois a história nos ensina que o tempo não para, e que outros 11 de Setembro virão. Novas mudanças de curso. Novas supressas, com ou sem catástrofes, com ou sem atendados terroristas, com ou sem guerras de petróleo, com ou sem intolerância cultural e religiosa, com ou sem colapso financeiro, desemprego, crise social, violência.

A história não morre. Ela continua caminhando, no seu andar de bêbado, na sua sina sinuosa de nos surpreender, na sua arte de construir, a cada ano, um novo setembro.

 

7 Comentários
  • Pablo Capistrano
  • 15 de setembro de 2011, as 6h06

Trecho do conto Sutra do Girassol. Ele começa com uma ressaca e termina com uma metamorfose apocalíptica. 2012 a todo vapor!

 

3 Comentários
  • Pablo Capistrano
  • 13 de setembro de 2011, as 9h09

Esse ai é do segundo conto: Saudades do Amor (uma história sobre garotos)

pra quem lembra de 1992.

 

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  • Pablo Capistrano
  • 11 de setembro de 2011, as 13h13

O Daniel Galera me concedeu a graça de escrever o texto da orelha do meu livro  novo.

Agradeço de coração pela força do amigo do outro Rio Grande.

 

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