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  • Pablo Capistrano
  • 20 de maio de 2010, as 17h17

Há algumas semanas foi ao ar um programa na globo News, com o Geneton Morais Netto contendo uma longa entrevista com o general Leônidas Pires, que entrou para história recente do Brasil como um dos militares da “área moderada” do regime de 64. Lá para as tantas ao ser perguntado sobre o presidente Lula o velho general se mostrou simpático, dizendo que na época ele era bem visto pelos círculos militares porque, afinal, lutava junto à legalidade.

Imediatamente me lembrei de uma velha tese discutida na cozinha lá da casa de minha avó Aline Capistrano. Lembrei de meu pai e meus tios debatendo calorosamente a hipótese de que Lula teria sido “uma invenção de Golberi”. Essa tese correu entre os membros do partidão na época do nascimento do PT.  A ideia era simples: Lula era o homem certo para minar qualquer tipo de avanço dos comunistas no período da abertura. Um líder egresso das massas trabalhadoras, que não havia sido “contaminado” pela doutrina da velha esquerda de Prestes e João Amazonas, ligado a Igreja, carismático e… corintiano (bem, não sei como isso possa ter influenciado mas tem gente que diz que teve algum peso).

Hoje, trinta anos depois dos acontecimentos grevistas do ABC paulista Lula aparece na revista Time como uma das lideranças mais influentes do mundo. Como qualquer figura política complexa é muito perigoso falar sobre Lula. Facilmente uma interpretação qualquer pode se perder em uma leitura rasa e redutora.

Há, no entanto, alguns pontos que parecem cada vez mais evidentes na medida em que seus oito anos de governo se aproximam do fim. O primeiro ponto é que o Lula-presidente transcendeu a disputa partidária brasileira e aparece como uma força política de convergência. O discurso do “camarada” Serra mostra isso. A estratégia serrista de mudar o discurso tucano, aproximando-se da esquerda com uma pregação de “estado robusto” e com críticas à autonomia do Banco Central, surge no sentido de anular a estratégia de polarização que a campanha de Dilma tenta montar a partir de uma comparação entre os oito anos de governo de Lula e os oito anos de FHC.

Serra definitivamente sacrificou FHC no altar da eleição de 2010 e sua estratégia (bem inteligente, diga-se de passagem) acaba por afastar tanto FHC quanto Lula do debate, lançando o segundo a um patamar canônico metaeleitoral e o primeiro no limbo obscuro da história. Serra tenta pôr Lula eqüidistante, usando para isso as mesmas armas que consolidaram a popularidade do petista.

Um outro ponto, que cada vez se torna mais evidente, é que “o cara” foi o mais importante instrumento de consolidação do capitalismo brasileiro desde Vargas. Digo isso porque poucos presidentes serviram tão bem aos interesses de preservação do sistema capitalista quanto Lula. Sua mitologia pessoal é essencial para que a pressão social no Brasil não esprema o país na murada do caos público. É fundamental para o sistema que um cara como Lula ascenda ao poder e promova um amplo mecanismo de inclusão social preservando os bancos e o patrimônio do empresariado paulista. De vez em quando precisamos de heróis da classe oprimida para aliviar a tensão histórica que opõem servos e senhores em uma dialética de equilíbrio e tensão.

Lula serviu bem a estabilidade social brasileira e mostrou ao capital como é possível desenvolver a economia com inclusão e distribuição de renda. Isso é péssimo para quem ainda sonha a com algum tipo de revolução socialista. Justamente por causa disso é fácil saber o porquê da Time ter encontrado em Lula o paradigma da liderança latino americana. Lula é o anti-chaves. Ele se fortalece no consenso e se torna mais poderoso na medida em que transcende o conflito social e se põe em um patamar de transcendência política, representando a plebe para que o patrício não seja enforcado em suas próprias tripas. Chaves para se manter no poder necessita de um estado latente de conflito. As condições históricas da Venezuela levam Chaves a se alimentar a partir de um estado permanente de pré-confronto, de uma eterna antesala da catástrofe.

Lula definitivamente é “o cara” e eu imagino como deve ter sido insuportável para a direita brasileira seus oitos anos de governo. Chego a sentir uma piedade sincera de gente como o Nerval Pereira, chorando na CBN e dizendo: “será que não existe um candidato de direita nesse país!” – É Nerval, a coisa está difícil para os reacionários… parece que no Brasil todo político é ambidestro – Com a palavra “O Camarada Serra”…

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  • Pablo Capistrano
  • 12 de maio de 2010, as 10h10

1982 foi um ano muito significativo para mim. Eu tinha apenas oito anos e entendi a função pedagógica da derrota. Naquele ano, Aluísio Alves (então candidato a governador do RN pelo PMDB) perdeu a eleição para o então prefeito de Natal, José Agripino Maia. Meu pai, ainda clandestinamente ligado ao partido comunista me levou para um comício de Aluisio em frente à antiga fábrica da SORIEDEM (onde hoje, fica o Shopping Via Direta, próximo a entrada do campus da UFRN em Natal). Participei de duas ou três grandes carreatas, como aquelas que viam de Macaíba à noite e terminavam pelas ruas da Cidade Alta já com o sol levantando.

Aquele era um tempo de ditadura militar e a campanha de Aluísio, na minha mente de criança, parecia uma luta épica das forças da luz contra o peçonhento espírito das trevas. Essa visão romântica era incentivada por minha avó, Dona Adélia, uma bacurau legitima, egressa da campanha de 1960, quando o ex-ministro entrou em Patu vestido de Cigano, montado em um burro e escoltado, como Jesus em Jerusalém, por uma multidão com galhos verdes na mão. A derrota de Aluísio foi amarga. Mas não me abalou tanto quanto a derrota do Brasil para Itália em Sarriá.

A copa de 1982 foi a primeira que eu lembro ter assistido. Durante muito tempo a derrota do Brasil e a derrota de Aluísio Alves nas eleições cauterizaram uma certa crença infantil que eu tinha na absoluta proteção divina dos justos.

Alguns anos mais tarde, quando o mesmo Aluísio apoiou Lavoisier Maia (primo de Agripino e seu antigo adversário) comecei a entender que na política, bem e mal; justo e injusto; são meras abstrações inócuas. Mas ainda permanecia o futebol. Ainda mantinha-se em mim aquele apelo romântico contra a injustiça divina. Como é possível que um Deus justo tivesse permitido que um time maravilhoso como o de Sócrates, Zico, Falcão e Cerezo, perdesse para uma Itália retrancada como a de Paolo Rossi?

Talvez por isso eu tenha demorado tanto para tomar coragem e voltar a assistir o jogo de Sarriá – considerado por alguns como o maior clássico de todas as copas. Vinte e oito anos depois eu faço minha revisão de consciência e enfrento aqueles velhos fantasmas.

É importante admitir que aquele time da Itália era melhor do que o do Brasil. Enzo Bearzot declarou que o time de Telê tinha o melhor meio de campo da história das copas, mas deixava a desejar com uma defesa fraca e com um ataque que não convencia. Conjunturalmente a Itália era um time mais equilibrado, que soube como surpreender o Brasil, avançando sobre a defesa da seleção e aproveitando as falhas individuais com uma objetividade desconcertante. O mito da retranca contra o ataque cai com o dado que a seleção de Bearzot foi a mais ofensiva que a Itália teve em vinte anos. Também muito se fala que a derrota do Brasil selou o fim do futebol arte. Eu mesmo, durante muito tempo, ajudei a divulgar essa mitologia, mas agora assistindo novamente partes do jogo da semi-final entre Alemanha e França, percebo que a derrota da equipe francesa foi muito mais sintomática dessa mudança de foco.

Aluísio em um comicio no tempo da minha avó.

Os franceses tinham uma equipe tão festejada como o Brasil. Com Platini, Griesse e Tigana no meio campo, o mundo sonhava uma final entre Brasil e França, para que o deleite do jogo leve, bonito, desprentesiosamente estético pudesse fazer com que a final daquela copa fosse uma experiência de júbilo e alegria. Mas os franceses pararam na avalanche de força mecânica da seleção alemã. Depois de Harald Schumacher (goleiro da Alemanha) nocauteou Patrick Batiston na área o jogo mudou dramaticamente e virou uma batalha de ódio, que se arrastou até os pênaltis.

Com oito anos eu não tinha a real dimensão dos segredos da política e dos labirintos do futebol. Hoje, com a distância do tempo, com a maturidade de uma época da vida em que as velhas ilusões e os velhos fantasmas desbotam na cortina da memória posso rever os jogos da copa de 1982 e olhar para os próximos mundiais com a visão serena dos justos, sem esperança e sem medo.

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  • Pablo Capistrano
  • 07 de maio de 2010, as 19h19

Tem certos acontecimentos que só se manifestam na intimidade da língua. Certos significados, certos jogos, certas relações que só nascem e frutificam quando os homens, esses seres de fala, se encontram naquele espaço confortável de um idioma comum.

Por isso a última grande fronteira da humanidade não é natural, geográfica ou temporal. O último grande espaço a ser cruzado, o derradeiro limite de integração a ser definitivamente contornado é o limite da língua.

Esse limite nos faz viver em um tempo de confronto. Em um sentido, somos empurrados para o aberto das linguagens, para o amplo horizonte onde outros povos, outras vidas, outras almas e outras vozes nos acossam com as reminiscências antigas, de um tempo de unidade. Noutro sentido, somos levados a afundar em direção ao interior de nossos próprios idiomas. Somos empurrados a um mergulho profundo em uma selva aquosa de raízes que nos fixam a um lugar, a um povo, a uma época, a um pedaço decomposto da família humana.  

Em relação a língua eu sou do time dos promíscuos. Se para mim, o português é uma necessidade, outros idiomas acenam sempre com o sedutor convite da possibilidade. Labuto a alguns anos com o inglês, o alemão, o francês e de vez em quando me atrevo a flertar com o hebraico e o grego. Não porque queira acumular algum tipo de ganho social com isso, mas porque me sinto mais livre, mais humano, mais solto quando entendo um idioma no qual não fui gestado.

Desde um dia em 1995, quando estava em Saqsaywaman na cidade de Cuzco e perdi a oportunidade de estreitar meu contato com uma norte americana linda, nascida no Havaí, e que parecia tentar comigo algo mais profundo que apenas a troca natural de fluidos corporais; desde aquele dia que eu me rebelei furiosamente contra qualquer tipo de monoglotia militante.

Quinze anos depois eu tenho que admitir que por mais que eu entenda, fale, leia e escreva em um punhado de idiomas estou ainda condenado ao português. Só não sei se é a substância branca, a cinza, ou a verde com bolinhas violetas que faz com que meu cérebro se prenda a essa língua mestiça que constituiu meu pensamento e que delimitou também os horizontes do meu mundo.

O fato de ter sido criado em uma comunidade linguística unificada determina muito quem eu sou. O esforço em se libertar do peso dessa determinação é um tipo particular de desespero, semelhante ao heroísmo inconseqüente de Aquiles ou a obsessão suicida de Ahab perseguindo Moby Dick.

Meu português anda tão misturado comigo que eu já não sei se eu sou eu mesmo ou uma simples ficção de meu idioma. Vezes eu me irrito com ele… me enervo com essa complexidade de regras ortográficas sem sentido que se constituem em um verdadeiro inferno linguístico para um disléxico como eu. Vezes eu me encanto, quando consigo, em meio a um exercício de êxtase, sair de meu próprio idioma e ouvir a fala de meus conterrâneos sem entender o significado das suas palavras.

Esse é um joguinho esquizóide sem futuro que de vez em quando eu gosto de jogar, e que me serve quando estou profundamente emputecido com algum congestionamento verbal que o português impõe ao meu texto. Gosto de sair de meu idioma, só para poder voltar a ele depois, como um filho que retorna de uma noite de cachaça com os amigos para o conforto da casa da mãe, curar a ressaca de seus excessos.

Nos últimos anos de minha vida estranha, ando me fiando na certeza de que não tenho uma alma só. De que minhas partes estão divididas, espalhadas por lugares que eu não sei o nome, por tempos que eu não sei o quando. Talvez esse seja meu karma, minha herança, meu destino, minhas circunstâncias. Talvez, essa sensação de exílio, essa impressão de mestiçagem seja muito mais um presente da minha língua, do que um dado qualquer, quantificavel em alguns dos infinitos labirintos de meus genes. Quem sabe nessa língua, não esteja contida uma ponte que me leve de volta, um dia, à casa de minha própria humanidade.

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  • Pablo Capistrano
  • 25 de abril de 2010, as 10h10

Da Guia, a senhora que cozinha lá em casa, está com medo do Tsunami. Ela, que trabalha no meu apartamento, no décimo andar de um prédio em Ponta Negra (zona sul de Natal), olhando para o mar, tem medo que, de um momento para outro, o mar, adormecido, acorde e afogue a terra com seu hálito salgado.

O sentimento de Da Guia não é novo para a humanidade.

Desde os tempos sombrios da espécie, quando começamos a espalhar nossa semente pelo mundo que desconfiamos da estabilidade natural. Nossas práticas religiosas, na grande maioria das vezes poderosos mecanismos de cura e sustentação psicológica diante do medo da morte e do caos, nascem dessa desconfiança nas boas intenções da nossa mãe em nos manter confortavelmente sob sua proteção.

 Eu particularmente discordo quando se afirma que essa sensação de fim do mundo é criada pela mídia. A repercussão das notícias sobre catástrofes naturais que põe em risco a estabilidade do mundo humano, como os furacões, tremores de terra, enchentes avassaladoras, explosões vulcânicas, está enterrada até o talo na memória coletiva da humanidade.

Quando eu era criança, lembro que um dos mais inquietantes pesadelos que eu tinha era com a subida do mar (e isso foi antes dessa coisa toda de aquecimento global). A invasão da maré que inundava a cidade em que eu vivia produzia uma das mais assustadoras imagens pictográficas que eu guardo na lembrança.

O cinema catástrofe e agora o noticiário catástrofe não criam essas sensações. Eles apenas as manipulam e as direcionam em suas ilhas de edição.

Do mesmo modo, a consciência de que a loucura natural possa ser produto da ação do homem não é uma novidade. Esse distúrbio egocêntrico é inerente à nossa espécie. Nos achamos o máximo. Somos desestabilizadores, essenciais, ameaçadores, vitais, criativos, mais inteligentes entre os seres, terríveis marginais biológicos.

O delírio humanista que põe o homem, para o bem o para o mal, como elemento central o da trama natural nesse planeta, nos acompanha desde a época em que os antigos romanos explicavam a destruição de Pompéia e Herculano como uma consequência natural da impiedade dos homens que desagradavam seus deuses com sua arrogância.

Em muitos aspectos nós realmente nunca fomos modernos.

Quando a Europa congela por causa da explosão de um vulcão as explicações antropicas (aquelas que dizem que o homem é responsável absoluto pela loucura do clima) são suspensas como em uma daquelas incômodas crises de soluço. A sensação é a de que, por mais que a influência da era industrial nos destinos biológicos do planeta seja significativa, ela não chega aos pés do poder geotérmico que dorme no subsolo profundo da terra.

Se há uma diferença entre o homem e os outros animais é que o homem não está apenas no mundo. O homem tem um mundo. Nosso mundo humano. Nossa casa antropica. Nosso apartamento de décimo andar, nossa mansão no condomínio fechado, nosso barraco na borda do abismo. Por mais que nosso mundo humano avance sobre o mundo natural ainda somos pequenos diante do que nos circunda.

O homem é um animal que não deu certo. Um pedaço biológico do mundo que se afastou dessa grande casa por um distúrbio anatômico que nos presenteou com esse cérebro grande e confuso. Fizemos coisas maravilhosas com esse cérebro, esse coração, esses olhos e essas mãos, mas de vez em quando precisamos nos conformar com a fragilidade de nosso mundo. Quando cidades afundam em um mar de lama, e os céus das grandes potências industriais são tingidos de cinza-vulcão é sinal que está mais do que na hora da humanidade rever seus conceitos. Especialmente sobre o seu próprio mundo e sua tão auto badalada importância cósmica.

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  • Pablo Capistrano
  • 20 de abril de 2010, as 5h05

CHAI FILOSÓFICO
ENCONTRO ENTRE AS FILOSOFIAS OCIDENTAL E ORIENTAL

DIA 23/04/2010 (sexta-feira)
19:00h
ABERTO AO PÚBLICO
TEMA: Imanência e Transcendência

(Um pouco de Heráclito, Parmenides e Patanjali)
COM PABLO CAPISTRANO E MIRIAN AGUIAR
LOCAL:
RUA ADOLFO RAMIRES, 2077 CONJ. DOS PROFESSORES
8899-0619 –www.casadeyoga. org

Sim, leve um quilo de alimento não perecivel.

que a paz te acompanhe!

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2007 ® Pablo Capistrano

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