- 20 de maio de 2010, as 17h17
Há algumas semanas foi ao ar um programa na globo News, com o Geneton Morais Netto contendo uma longa entrevista com o general Leônidas Pires, que entrou para história recente do Brasil como um dos militares da “área moderada” do regime de 64. Lá para as tantas ao ser perguntado sobre o presidente Lula o velho general se mostrou simpático, dizendo que na época ele era bem visto pelos círculos militares porque, afinal, lutava junto à legalidade.
Imediatamente me lembrei de uma velha tese discutida na cozinha lá da casa de minha avó Aline Capistrano. Lembrei de meu pai e meus tios debatendo calorosamente a hipótese de que Lula teria sido “uma invenção de Golberi”. Essa tese correu entre os membros do partidão na época do nascimento do PT. A ideia era simples: Lula era o homem certo para minar qualquer tipo de avanço dos comunistas no período da abertura. Um líder egresso das massas trabalhadoras, que não havia sido “contaminado” pela doutrina da velha esquerda de Prestes e João Amazonas, ligado a Igreja, carismático e… corintiano (bem, não sei como isso possa ter influenciado mas tem gente que diz que teve algum peso).
Hoje, trinta anos depois dos acontecimentos grevistas do ABC paulista Lula aparece na revista Time como uma das lideranças mais influentes do mundo. Como qualquer figura política complexa é muito perigoso falar sobre Lula. Facilmente uma interpretação qualquer pode se perder em uma leitura rasa e redutora.
Há, no entanto, alguns pontos que parecem cada vez mais evidentes na medida em que seus oito anos de governo se aproximam do fim. O primeiro ponto é que o Lula-presidente transcendeu a disputa partidária brasileira e aparece como uma força política de convergência. O discurso do “camarada” Serra mostra isso. A estratégia serrista de mudar o discurso tucano, aproximando-se da esquerda com uma pregação de “estado robusto” e com críticas à autonomia do Banco Central, surge no sentido de anular a estratégia de polarização que a campanha de Dilma tenta montar a partir de uma comparação entre os oito anos de governo de Lula e os oito anos de FHC.
Serra definitivamente sacrificou FHC no altar da eleição de 2010 e sua estratégia (bem inteligente, diga-se de passagem) acaba por afastar tanto FHC quanto Lula do debate, lançando o segundo a um patamar canônico metaeleitoral e o primeiro no limbo obscuro da história. Serra tenta pôr Lula eqüidistante, usando para isso as mesmas armas que consolidaram a popularidade do petista.
Um outro ponto, que cada vez se torna mais evidente, é que “o cara” foi o mais importante instrumento de consolidação do capitalismo brasileiro desde Vargas. Digo isso porque poucos presidentes serviram tão bem aos interesses de preservação do sistema capitalista quanto Lula. Sua mitologia pessoal é essencial para que a pressão social no Brasil não esprema o país na murada do caos público. É fundamental para o sistema que um cara como Lula ascenda ao poder e promova um amplo mecanismo de inclusão social preservando os bancos e o patrimônio do empresariado paulista. De vez em quando precisamos de heróis da classe oprimida para aliviar a tensão histórica que opõem servos e senhores em uma dialética de equilíbrio e tensão.
Lula serviu bem a estabilidade social brasileira e mostrou ao capital como é possível desenvolver a economia com inclusão e distribuição de renda. Isso é péssimo para quem ainda sonha a com algum tipo de revolução socialista. Justamente por causa disso é fácil saber o porquê da Time ter encontrado em Lula o paradigma da liderança latino americana. Lula é o anti-chaves. Ele se fortalece no consenso e se torna mais poderoso na medida em que transcende o conflito social e se põe em um patamar de transcendência política, representando a plebe para que o patrício não seja enforcado em suas próprias tripas. Chaves para se manter no poder necessita de um estado latente de conflito. As condições históricas da Venezuela levam Chaves a se alimentar a partir de um estado permanente de pré-confronto, de uma eterna antesala da catástrofe.
Lula definitivamente é “o cara” e eu imagino como deve ter sido insuportável para a direita brasileira seus oitos anos de governo. Chego a sentir uma piedade sincera de gente como o Nerval Pereira, chorando na CBN e dizendo: “será que não existe um candidato de direita nesse país!” – É Nerval, a coisa está difícil para os reacionários… parece que no Brasil todo político é ambidestro – Com a palavra “O Camarada Serra”…



