- 05 de setembro de 2011, as 6h06
31 ago
Somos todos beatniks
- 31 de agosto de 2011, as 6h06
As biografias laudatórias são um saco. Desumanizam suas vÃtimas (os biografados), tornando-os sombras irreais, neutras, caricatas. Por isso, é sempre bom, quando for pensar em cometer uma biografia, amigo velho, dar uma caprichada no excremento moral do biografado. Desconfie dos santos, desconstrua os inocentes, mantenha-se impiedoso com os heróis. Não seja condescendente com quem se camufla atrás das próprias misérias por medo do ridÃculo. Ser humano é ser ridÃculo. Isso é que nos engrandece. Todos nós temos nossas porcarias secretas, nossos desajustes de estimação. Não seriamos normais se não tivéssemos essas sombras.
Talvez seja por essa fidelidade a humanidade de seus biografados que o álbum The Beats de Harvey Pekar e Ed Piskor me chamou tanta atenção.
Eu já havia lido outros livros sobre os beats e suas aventuras. Teve um tempo em que eu mesmo andei flertando existencialmente com alguns tropos retóricos beatniks, naquela Natal de fim de século, cheia de tédio e maresia.
Mas as biografias daqueles anos tornavam os Beats heróis de uma geração perdida. Quase santos, quase profetas loucos de uma revolução cultural que a gente, nessa provÃncia cheia de sótãos e crepúsculos, tentava reproduzir.
No quadrinho de Pekar e Piskor eles não são heróis. Sem romantismo, a história de Kerouack, Gisnberg, Burroughs, Gary Snyder, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti e tantos outros escritores do underground norte americano nos anos quarenta e cinquenta, que a mÃdia conservadora rotulou pejorativamente de beatniks é apresentada com um didatismo cruel, desses que a gente encontra em de livro de ensino médio.
Geralmente quando lida a partir do texto de Kerouack, a geração Beat passa a ser vista como uma epopeia romântica, idealizada, sentimental. Mas, se a gente vira as páginas e passa a olhá-la pelos olhos de William Burroughs, por exemplo, ela acaba se tornando em uma catástrofe cÃnica, marcada pela náusea da desgraça psicótica da heroÃna, do assassinato, das prisões vagabundas, dos manicômios, da morte no deserto.
Posso lhe dizer, amigo velho, que não existem kerouackeismos no quadrinho de Pekar e Piskor. The Beats não se rede totalmente nem a linha da beatificação beatnik, que tanto moveu o juÃzo dos escritores de minha geração, nem a linha do terror narrativo da desconstrução da linguagem que nascia com as viagens de benzendrina, os rigores de uma vida vivida no limite da fome, da morte e da doença.
Talvez, para quem não conheça as narrativas beats, ou só tenha lido On The Road, seja difÃcil notar como a mesma experiência fundamental de uma juventude que atravessou a guerra e mergulhou no mundo depressivo que se seguiu a hecatombe da sociedade burguesa do século XIX, pode ser lida a partir de referentes tão dÃspares como os poemas de Ginsberg, os romances de Kerouack, ou os Cut Ups de Burroughs.
Talvez, se há um grande mérito da biografia didática de Harvey Pekar e Ed Piskor é a de não esconder o excremento. Nem também de santificá-lo. O certo é que a história dos beats é o grande objeto de sua própria literatura que se misturava com a vida marginal de seus protagonistas. Em um mundo surtado como o nosso, onde a ansiedade se tornou a grande remédio contra a melancolia, a leitura dos beats é quase uma obrigação.
Pois é amigo velho, para descobrir o lugar aonde estamos, é preciso saber da coragem dos pioneiros. Ouvir as palavras daqueles que cruzam as pontes enquanto a massa treme de medo na borda da vida, congelada diante da estranha fé que mantem na realidade dos abismos.
21 ago
Lançamento na quinta
- 21 de agosto de 2011, as 8h08
Pra ninguém perder:
lançamento d0 livro mais novo de Clotilde Tavares na quinta
sob as bençãos de São Fialho e do Mestre PatrÃcio Júnior pelos Jovens Escribas
09 ago
A verdade e o terror
- 09 de agosto de 2011, as 11h11
Não gosto de emitir opinião no calor dos fatos. Não tenho habilidade de dar respostas muito rápidas aos desafios do mundo. Talvez seja realmente algum velho ranço de filósofo, que precisa pensar um bocadinho antes de emitir alguma opinião. Por isso me vem sempre essa sensação retardatária de antiguidade quando entro no mundo das redes sociais. Por mais acelerado que eu tente andar, não consigo seguir o ritmo com que as opiniões desfilam diante da tela do meu celular.
É na pressa que o pensamento se dissolve.
E é justamente dessa pressa que eu tento fugir. E foi exatamente para preservar o tempo vagaroso do meu pensamento que eu suspendi meu juÃzo diante das notÃcias desses massacres de verão na Noruega.
Pelas redes sociais, muitos navegantes, sem titubear, enquadraram o norueguês assassino a partir de suas próprias fronteiras. Direitistas lembraram as bombas dos grupos de esquerda nos setenta. Esquerdistas gritaram histericamente: Nazista! Nazista! Crentes falaram da falta de Deus. Ateus culparam um suposto “fundamentalismo cristão†pelo massacre.
É a pressa, amigo velho, a pressa.
Não se deu tempo ao pensamento. Não se permitiu lançar sobre o fenômeno um facho de luz um pouco mais demorado.
De fato, depois que o mundo começou a analisar com calma as mil e quinhentas páginas que Anders Behring Breivik havia postado na internet, outros aspectos do terror do norte começaram a surgir.
Ao se afirmar cristão, o norueguês não estava fazendo uma profissão metafÃsica de fé. Não se tratava de um fundamentalismo teológico, de uma digressão de fanáticos ignorantes que buscam transportar a “iluminada e racional†civilização ocidental em direção algum tipo de medievalismo obscuro, como apregoaram apressadamente ateus militantes.
Seu cristianismo é étnico e não metafÃsico. Não é sobre algum conceito de Deus que ele se volta, mas sobre os traços que determinam uma suposta identidade cultural europeia.
Viu-se também que não estávamos diante de mais um distúrbio nacional socialista clássico, nos moldes do velho hitlerismo. Breivik não se apropria da ideia de raça do mesmo modo que Hitler se apropriou. Sua luta é cultural. Seu naco de nazismo aparece na defesa da pureza da cultura do ocidente europeu, ameaçada pelas ondas de orientalismo, que, se nos anos do holocausto vinham das sinagogas, agora vem das mesquitas.
O grande inimigo do terror nórdico é o multiculturalismo, a miscigenação, que antes de ser racial é cultural, linguÃstica, religiosa. A pressa dos militantes virtuais, não retrata apenas um descuido com os rigores do pensamento. Ela também mostra algo muito significativo sobre o terror.
Amigo velho, nunca se esqueça disso, o terror é um meio. Nele, cabem todos os fins. Não existe ideologia, crença, fé, filosofia que não possa ser motor do terror.
O grande aliado do terror é justamente a verdade, a mais fiel prostituta do poder. A verdade que nos cega, nos seduz, nos enfeitiça com sua substância narcótica. É preciso estar imerso no veneno da verdade para ser um agente do terror.
Contra o terror, amigo velho, só cabe a lentidão do pensamento. A desconstrução das verdades que se postam como inexpugnáveis para vida dos homens.
Enfraquecemos, nesse tempo de pressa.
Nessa época em que o pensamento se dissolve em seus delÃrios de poder, se manifestando como veÃculo das verdades humanas, que, a despeito de particulares, circunstanciais, limitadas, se travestem das mais fatais seduções para nos empurrar em direção ao absoluto.
Um absoluto que a despeito de sua pureza, sempre guarda algum cheiro de sangue, coalhado nas suas raÃzes.
29 jul
E o Rock? Já enterraram?
- 29 de julho de 2011, as 6h06
O Rock morreu, mesmo que ainda estejamos badalando sua data no calendário das redes sociais (que substituem os dias santos no inconsciente virtual das massas), com direito a TTs no twitter, bolo de aniversário e matérias em jornais e blogs rede afora.
É importante saber que o fato de que alguém ainda toque um estilo de música não significa dizer que esse estilo está vivo. Muita gente toca música barroca, ou mesmo obras do cancioneiro medieval e nem por isso afirmamos que esses estilos são a marca do espÃrito musical de nossa época.
Há um sentido arqueológico na execução de peças antigas que serve ou para preservar uma tradição ou para fazer balançar um ou outro velho coração nostálgico como o meu.
Outro dado importante para o deslocamento do rock do centro da música contemporânea é a fragilização do papel das guitarras elétricas no universo Pop. Como o violino para a música de concerto no século XIX, o trompete para o swing e o sax para o modern jazz, a guitarra é o grande instrumento da virtuose no Rock e sua epopeia foi sempre a de encontrar um local confortável de destaque naquele conjunto rÃtmico tradicional com a bateria e o baixo.
A guitarra sempre foi o grande centro melódico do discurso do Rock. Sua presença onipotente era o eixo das experiências sonoras roqueiras, mesmo quando minimizada pela velocidade dos Ramones ou submetida ao baixo na mesa de produção de Unknown Pleasures (primeiro disco do Joy Division). Com sua presença evidente ou com seu recolhimento atrevido, a guitarra, nos discos de Rock, sempre foi a grande estrela, a mais intensa protagonista. Hoje, nesse império do eletrônico, ela se resume a um detalhe, um elemento decorativo na tessitura de uma música que não parece precisar mais dela para ser executada.
Aliás um outro prego no caixão do Rock vem do fato de que todas as suas grandes linhagens estéticas foram postas no balcão da indústria musical até os anos 70. Progressivo, metal, indie, punk, pós-punk, hard rock, psicodélico, tudo que se pensou em termos de uma alternativa sonora para o Rock foi apresentado ao mundo até 1979. Depois disso vieram três longas décadas de releitura e retomadas. Nenhuma grande novidade, nenhum sopro de vigor criativo, só formas que já se cristalizavam cada vez mais e que pareciam reaparecer a cada estação, na explosão de mais uma novidade prontamente datada e classificada na lista de formas arqueológicas da música do século XX.
No final das contas o cara do som, aquele que operava a mesa no estúdio de gravação dos álbuns clássicos do Rock, acabou ganhado espaço, interferindo na produção musical a ponto de roubar a cena e tomar o controle da festa. O DJ, o operador de mesa de som do estúdio, acabou substituindo o virtuoso guitarrista de Rock, botando as multidões para dançar e pular a noite inteira como um dia o Swing de Fletcher Henderson, o piano de Jerry Lee Lewis e a guitarra de Angus Young fizeram.
Aliás, como o Jazz (que começou a morrer quando deixou de ser música para dançar a partir das experimentações do Be Bop) o Rock abriu mão, para a música eletrônica, de um de seus maiores trunfos: o domÃnio sobre o corpo.
Foi na libertação do corpo que o Rock consolidou sua influência sobre o imaginário do ocidente e foi justamente sobre o domÃnio do corpo que a música eletrônica avançou, como se uma grande rebelião de operadores de som derrubasse o império, com David Guetta vestido de Luke Skywalker e Lady Gaga transmutada em princesa Lea.
Mas não fique arretado comigo, amigo velho, porque ainda carrego no meu sangue aquela pegada dos antigos riffs do século passado. Estou cada vez mais pleistocênico, parafraseando, pra todo lado, a frase do velho Friedrich Nietzsche como um grito de batalha de minha geração: o Rock está morto, mas seu eco distorcido ainda será ouvido por muitos anos nos tablets da humanidade!



