Entender o nazismo não é tarefa fácil. Muitas são as teorias que procuram explicar o fenômeno. Desde aquelas que buscam identificar o movimento nacional socialista com o capital internacional que queria empurrar a Alemanha para uma guerra contra a URSS (tese encontrada em alguns livros de história geral do ensino fundamental brasileiro na década de oitenta), até as idéias menos ortodoxas de Jacques Bergier e Louis Pawels no clássico, O Despertar dos Mágicos, que relacionava o nazismo à tradição de antigas ordens esotéricas e ocultistas que se embatem no decorrer da história da humanidade.

A idéia de uma Loja Negra e uma Loja Branca que disputariam o controle da humanidade.

Essas idéias são derivadas do estranho uso de símbolos arquetipicos (A suástica é um deles) pela cúpula do Reich e pela estranha obsessão de Hitler com as derrotas sofridas pelos cavaleiros prussianos da ordem dos templários, mil anos antes da batalha de Stalingrado.

O fato é que o nazismo é quase que absolutamente entendido como uma reação aos valores liberais derivados do pensamento iluminista do século XVIII. Uma reação contra a modernidade burguesa, e contra as duas mais importantes experiências políticas do século XX, o liberalismo anglo-americano e o marxismo soviético. Todas as duas derivadas de modo direto do pensamento revolucionário do século XVIII.

Dê uma olhadinha entre as inusitadas relações envolvendo estética, ética e política, que estão por trás da ideologia nacional socialista e você vai se surpreender.

A idéia de eugenia (melhoramento da raça) também está presente na composição do ideário político nazista. Alguns autores chegam a relacionar essas concepções ao pensamento de Platão, na República.

Um dos maiores defensores dessas idéias chamava-se Karl Popper. Um professor de filosofia Austríaco, que escreveu um livro intitulado A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, que vinculava as ideologias totalitárias da primeira metade do século XX com o pensamento político de Platão.

Curiosamente, Popper era um sujeito extremamente autoritário em suas conferências. Conhecido pela absoluta ferocidade intelectual com a qual destroçava qualquer oponente que ousasse levantar dúvidas sobre suas teorias filosóficas.

Olhando os símbolos e a estética do nacional-socialismo percebe-se de imediato que Hitler evocava o mundo clássico com uma nostalgia desconcertante. Atenas e Roma eram seus paradigmas e a cultura ocidental, essa fantasmagoria ideológica dos europeus, supostamente ameaçada pelo bolchevismo judeu, necessitaria ser preservada.

O avô de Max Demian (mais um dos personagens do livro Pequenas Catástrofes) morreu em 1943, no mês de Janeiro, em meio a um dos mais sangrentos e rigorosos invernos da Europa oriental. Era oficial do Reich de mil anos e foi carbonizado dentro de seu Panzer na batalha por Stalingrado.

Os ancestrais europeus de Demian mataram milhões de judeus, ciganos, bolcheviques, eslavos, homossexuais, loucos, artistas. Esses mesmos ancestrais também foram mortos aos milhares por seus irmãos europeus (ingleses e russos)
Nossos ancestrais portugueses e espanhóis dizimaram com guerras, doenças, fome e escravidão aproximadamente dez milhões de nativos indígenas em toda a América.

A diferença é que eles se sentem culpados e nós não.

(Para saber mais sobre as relações entre nazismo e estética, leia o livro Pequenas Catástrofes de Pablo Capistrano, a disposição nas melhores casas do ramo a partir de Abril. Publicado pela Editora Rocco).

 

 

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