A palavra Punk tem origens nobres. Remonta a Shakespeare e era utilizada para nomear prostitutas vagabundas. Pode ter o sinônimo de algo imprestável, feio, sujo, moralmente deformado, ou seja, tudo aquilo que as gerações de jovens do mundo nos anos setenta gostariam de ser chamados.

Em 1978 o mundo não era bonito e as esperanças de uma grande revolução de luz, paz, amor e baseados fumados bucolicamente em comunidades alternativas já havia ruído.
O mundo estava em recessão, estava poluído, cindido ideologicamente entre leste e oeste e, a cada minuto, a possibilidade de uma guerra nuclear generalizada pendia sobre a cabeça daqueles que tinham dezesseis anos.

Nesta época de pouco futuro e muitas frustrações eclodiu na Inglaterra e nos Estados Unidos, quase ao mesmo tempo, um movimento de proporções globais. Começou como música e acabou como cartão postal. Foi rápido, feio, sujo e malvado, mas deixou marcas importantes na estética musical do século XX.

Sex Pistols, The Clash, Ramones, Television, The Dammed, Aborto Elétrico, Cólera, Inocentes, Garotos Podres eram grupos musicais que queriam interromper a linha evolutiva do rock´n´rool e impedir que ele viesse a se tornar música para ouvir. Retrocedendo seus ouvidos e suas guitarras ao som dos anos cinqüenta os punks produziam um som básico, simples e sujo. A antítese das grandes bandas de metal pesado e rock progressivo, os enormes e pesados dinossauros de dez mil acordes que empurravam o rock´n´rool para o caminho do jazz e da música erudita branca.

Os pais desse movimento foram grupos americanos como o Velvet Undeground, MC5 e Stooges, que, ainda nos 60 modelavam o que iria ser o tom, o som, e a postura da geração oca.

Lugares com o CBGB em Nova York se tornaram centros irradiadores da postura punk que liquidificava fúria, desprezo completo pelos valores morais do ocidente industrializado, alfinetes, cabelos espetados e posturas auto destrutivas.

Há de se encontrar os ecos do punk na obra de Willian Burroughs, primeira pessoa da santíssima trindade da beat generation norte americana, que produziu obras como o Almoço Nu (Naked Luch). Mas há também um pouco de marques de Sade, um pouquinho de John Fante, Charles Bukowski, e uma dose cavalar da filosofia de Diógenes, o Cínico.

Como qualquer movimento cultural o punk foi deglutido pelo sistema e se tornou (nessa ordem) cartão postal de Londres, ícone de camisetas, desculpa para utilizar roupas rasgadas, motivo para o aumento nas vendas de gel de cabelo, personagens em novela da globo, presença garantidas nas passeatas das centrais sindicais brasileiras contra a ALCA, O FMI e o escambau e, por fim, objeto de estudo acadêmico (aí termina, porque quando chega nesse nível o sistema já regurgitou a muito tempo).

Mas ao menos uma coisa o movimento punk conseguiu fazer, impedir que o bom e velho rock morresse de tédio ou de vodka e instigou a produção de toda uma geração de grandes artistas em diversas áreas, quadrinhos (Neil Gaiman do Sandman foi baterista de uma banda de punk rock), cinema, literatura e música.

(Para saber mais sobre o punk rock, leia o livro Pequenas Catástrofes de Pablo Capistrano, a disposição nas melhores casas do ramo a partir de Abril. Publicado pela Editora Rocco).

 

 

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